Operation Swan
5 Step One: Think!
Notas iniciais
London,
January 20, 2017.
Ronald Weasley estava de pernas cruzadas, sentado a uma grande mesa de reunião. A sua frente, um investidor teoricamente muito importante falava, empolgado, explicando os gráficos projetados na tela de vidro grudada na parede.
— Com esse processo nós vamos poder alavancar os preços das ações das duas empresas, sem, necessariamente, ter que nos arriscar no mercado...— o homem falou, apontando a luz vermelha para o quadro.
Ron não escutou. Sua cabeça estava a muitos quilômetros dali, passeando no terreno esburacado que a sua vida havia se tornado no último ano. Principalmente no quesito relação interpessoal com a sua ex-mulher.
— Mr. Weasley...?
Por que Hermione tinha aquela mania insuportável de dificultar as coisas? Será que ela não via o quão difícil era para ele ter que levar aquela situação à diante?
— Mr. Weasley...?
O ruivo mudou de posição, automático. Seu olhar se fixou na marca forte da aliança, ainda presente no seu anelar esquerdo. Tinha poucos dias que ele a havia tirado. Ele perdeu alguns segundos ali, levantando mais alguns questionamentos e preposições, até que alguém cutucou o seu braço delicadamente.
— Mr. Weasley? – sua secretária o chamou, receosa.
— Hmm... – ela não recebeu mais do que um resmungo.
— O representante está falando com o senhor...
Automaticamente, a mente de Ron retornou a sala de reunião.
— Desculpe, Mr. Diggle, eu me distraí – ele disse, virando sua cadeira na direção do investidor – O senhor poderia repetir, por favor?
— Claro, Mr. Weasley – o representante fez uma careta antipática – Eu estava perguntando ao senhor se o Mr. Potter está de acordo com os termos do contrato.
Ron reprimiu um suspiro, entediado. Aquelas reuniões eram sempre tão chatas.
— Não, na verdade ele não está.
— Como não?!
– Desculpe, Mr. Diggle, mas alguns termos do nosso acordo não foram obedecidos.
— Fomos fiéis ao proposto – o investidor parecia ofendido – Nossa empresa está dando uma oportunidade única a vocês, de expandirem o seu mercado sem perdas.
— Não... A sua empresa está cobrando muito caro por um serviço que pode ser encontrado facilmente no mercado – Ron negou, sem esforço – Então a minha pergunta é: qual o real motivo da sua vinda, Mr. Diggle?
O representante empertigou-se.
— Não estou entendendo.
Ron se debruçou na mesa, displicente.
— O que eu quero dizer é que nós não o procuramos. Vocês que vieram até nós. E isso, claro, tem um motivo – o ruivo sorriu, teatralmente – Eu quero saber qual é.
— A PowerSet é uma empresa bem avaliada no mercado – o investido respondeu – Acredito que uma sociedade pode gerar muitos lucros para ambos os lados.
O ruivo rolou os olhos azuis.
— Conversa fiada, Mr. Diggle! – dessa vez Ron que fez uma careta – Mas eu vou responder a pergunta. O senhor está aqui por um único e exclusivo motivo: Divulgação.
— E o que te leva a acreditar nisso, Mr. Weasley? Estamos no mercado há muito mais tempo que vocês.
O representante apoiou as duas mãos no encosto da poltrona a sua frente e encarou Ronald, decidido. O ruivo sorriu, agora realmente entretido. Ele adorava essa parte.
— Talvez o fato da Freedom Games ter perdido cerca de 72, 43% dos royalties das licenças nos últimos cinco anos?
Ele deu um tempo para o homem responder, porém, Mr. Diggle permaneceu calado.
— Vocês estão quase falidos, Mr. Diggle, mas eu proponho um acordo... – Ron se esticou, animado – A PowerSet te oferece 25% dos lucros da linha a ser lançada em conjunto, e, se responsabiliza inteiramente pelos custos do marketing em todas as plataformas – Ron apontou para o homem que o observava – Olha que isso é um investimento e tanto. A divulgação seria mundial. Mr. Potter faz questão disto.
— E em troca...? – o representante indagou, voltando a se manifestar.
— Bom... – o ruivo sorriu de canto – Em troca vocês nos vendem o direito autoral do Fryon Race.
— Isso é um ultraje! O Fryon Race é a marca da nossa empresa! – o investidor não pareceu gostar muito da proposta – Não viemos aqui tratar sobre esse assunto!
— Nada é pra sempre, Mr. Diggle.
— A Freedom Games construiu seu império em cima do sucesso desse jogo. Não podemos abrir mão dele assim, tão facilmente.
— Sendo bastante otimista, eu não dou nem um ano para a FG decretar estado de falência, caso vocês mantenham a mesma linha de produção. E até onde eu fui informado, vocês não tem dinheiro para aumentar esses números, nem para investir em nova tecnologia.
Ron soltou o ar dos pulmões antes de continuar.
— E sejamos francos, Dédalo, você não viria pessoalmente se a situação da sua empresa não estivesse verdadeiramente ruim. Eu admiro o seu trabalho. O Harry também. Estamos oferecendo uma solução satisfatória para ambos os lados.
Um silêncio apreensivo se estendeu na sala de reunião por alguns minutos. Ron se manteve impassível, esperando de braços cruzados. Mr. Diggle passou a mão pela testa suada, quando percebeu que não existia outra saída além daquela que Ronald o propusera.
— Podemos confiar na PowerSet, Mr. Weasley?
— Eu te dou a minha palavra de que faremos o possível para honrar esse contrato.
Dédalo assentiu com a cabeça, pensativo.
— Então assim seja. O Fryon Race é de vocês.
Ron abriu um largo sorriso, vitorioso. O ruivo se levantou da poltrona rapidamente e andou até o representante.
— Perfeito! – ele estendeu a mão na direção do representante, que a apertou – A minha secretária, Ms. Brown, irá entrar em contato com os advogados da FG, para resolvermos os proclames legais da venda.
— Será um prazer fechar negócio com vocês.
— Acredite, Mr. Diggle, o prazer é todo nosso.
Com um último aperto, eles soltaram as mãos. Ron fez sinal para os outros acionistas, se despedindo, e saiu da sala de reunião. Ele flexionou o pescoço, amaciando as articulações, e estalou as costas. Embora não parecesse, essas situações sempre o deixavam cansado.
O ruivo atravessou o corredor de vidro e seguiu em direção à recepção. Ele apertou o botão do elevador. Antes que a cabine chegasse ao seu andar, Ron foi alcançado pela sua secretária. Os dois esperaram, em silêncio, o elevador abrir as portas. Uma vez lá dentro, Ron resolveu se manifestar.
— Me deixe te ajudar com isso aqui...
Ele pegou as pastas da mão da mulher.
— Obrigada, Mr. Weasley – ela agradeceu.
— Por favor, Lilá, eu já te disse que você pode me chamar de Ron – o ruivo disse, a encarando.
Lilá sorriu de canto, envergonhada.
— O senhor foi brilhante hoje, Mr. Weasley – a mulher o elogiou – Quer dizer, Ron...
Os dois riram da situação.
— Obrigado... – ele agradeceu, educado – Fica mais fácil com o passar dos anos.
— Há quanto tempo o senhor é sócio da PowerSet? – ela questionou, curiosa.
— Nossa, faz muito tempo... – Ron olhou para cima, pensativo – Devem ter uns dezenove anos, mais ou menos.
Lilá arregalou um pouco os olhos castanhos, surpresa. A porta do elevador se abriu, nove andares depois. Os dois saíram para o estacionamento.
— Eu e o Harry a fundamos juntos, no último ano da faculdade – o ruivo continuou, enquanto andavam – Claro que antes a plataforma se chamava de outra forma, mas aí quando nós viajamos pra os Estados Unidos, a minha mulh... – ele pigarreou, sem jeito – ex-mulher, sugeriu que mudássemos o nome. Segundo ela combinava mais com a proposta da empresa.
Ron sorriu de canto, contemplativo.
— Foi nela que o senhor estava pensando?
A pergunta o pegou de surpresa.
— Como...?
— Mais cedo, no início da reunião – a loira explicou – O senhor estava meio aéreo. Parecia estar em outro mundo.
— Ah... – Ron suspirou – É complicado...
Ela assentiu com a cabeça quando eles chegaram ao seu veículo. A secretária abriu a porta do carro. O ruivo pôs as pastas no banco do carona.
— Desculpe, Ron – Lilá se retratou – Eu não quis ser indelicada. Eu sei que vocês ainda estão em processo de divórcio...
— Tudo bem... – ele a tranquilizou – Não tem problema.
Ronald bateu a porta do automóvel e deu a volta, retornando ao lado da mulher. A secretária se aproximou devagar, ficando de frente para ele. Ron não pode deixar de reparar o quanto Lilá era bonita. Isso lhe causou sensações estranhas.
— Eu passei por essa fase recentemente. Não é nada fácil – a secretária o fitou, amável – Mas se por acaso o senhor precisar de alguém pra conversar ou passar o tempo, pode contar comigo. Nunca é bom encarar uma questão como essa sozinho.
Ron meneou a cabeça em concordância. A secretária sorriu para ele e entrou no carro. Ela girou a chave na ignição, dando vida ao motor.
— Até amanhã, Ms. Brown – o ruivo se despediu, brincalhão, levantando uma das mãos.
— Até amanha, Mr. Weasley – Lilá respondeu, no mesmo tom divertido, antes de arrastar o veículo.
Ron permaneceu parado por mais alguns segundos, vendo-a se afastar. Na sua cabeça, alguns pensamentos rolavam soltos.
—--- Ω ----
— Como foi a reunião?
A voz de Harry ecoou pela saída de áudio do Sportage.
— Melhor impossível – Ron respondeu, olhando pelo retrovisor antes de fazer uma ultrapassagem na pista úmida.
— Quanto isso vai nos custar? – o tom do seu cunhado não parecia ser de alguém preocupado com a resposta.
— O preço do sucesso.
O moreno riu do outro lado da linha.
— Como tá sendo com o James? – Ron indagou, quanto fazia uma curva – Ele tá se acostumando bem?
— Melhor do que eu no início – Harry respondeu – A Ginny que fica um pouco preocupada. Ela acha que ele é muito novo pra tanta exposição.
— O garoto é bom, responsável e talentoso. E tá dando conta. Isso que importa.
— Você tinha que ter visto como ele ficou super animado no editorial.
— Eu imagino... – Ron comentou, contente – Eu li a matéria da revista. “Tal pai, tal filho” – ele repetiu a manchete – Ainda acho que o meu afilhado é mais habilidoso que você.
— Claro que é... – Harry concordou – Ele é perfeito – completou – Eu e a sua irmã que fizemos.
O ruivo fez uma careta.
— Porra, Harry! Que nojo!
O moreno soltou uma gargalhada, fazendo o amigo rir também. Quando Ron parou o carro no semáforo bipes ecoaram na saída de áudio. No monitor, a foto de uma ruiva sorridente apareceu.
— Cara, eu tenho que desligar agora – Ron avisou – A Rosie tá me ligando.
— Tá tranquilo. Eu te ligo depois – Harry falou – Até breve.
— Até.
Ron apertou o botão no display, desligando a ligação. Com o mesmo movimento rápido, ele voltou a apertar na tela do aparelho.
— Papai...? – dessa vez, foi a voz da menina que ecoou.
— Oi, meu bem... – o ruivo respondeu, amável.
— Você já tá vindo me buscar?
Ron apertou os olhos e passou a mão pela testa. Ele sempre esquecia o horário de ir buscar a filha. Sempre. Vendo a demora de resposta, Rose sorriu do outro lado da linha.
— Ok, já entendi – ela disse, jocosa.
— Eu acabei de sair de uma reunião, mais tarde do que eu calculei – o ruivo tentou se justificar.
— Não tem problema. Eu tô com a Lily. Eu liguei para te avisar que vamos ao cinema... – a menina o tranquilizou – E pra te pedir um favor.
— Que favor?
— Tem como você passar na mamãe?
Ron se movimentou no banco do carro, incomodado.
— Rose, Rose... – ele vacilou, receoso – Não sei se isso é uma boa ideia...
— Ela não tá em casa. Eu já me certifiquei – a ruiva insistiu – É que eu preciso muito de um livro que tá no meu quarto, em cima da escrivaninha. É um romance. A capa é verde. Vou precisar para a aula de literatura da semana que vem.
— Você não pode ir buscar depois?
— Por favor, papai... – a menina fez manha – Você sabe que eu odeio acumular assunto pra estudar. Passa lá rapidinho. Não custa nada.
Ron deu batidinhas no volante com a ponta do indicador, pensativo. Acabou se deixando vencer pelas vontades da filha. Isso sempre acontecia.
— Ok, eu pego.
A menina bateu palminhas, animada. O homem sorriu.
— Então nos vemos a noite. Beijos, papai.
— Beijos, meu amor.
—--- Ω ----
Ron girou a chave que não usava há meses na fechadura, receoso. A peça de metal tilintou, destravando a tranca. Ele empurrou o grande entalhe branco, de madeira, adentrando o apartamento. Ainda sem muitos movimentos, esperou. Talvez Rose estivesse enganada e ele não queria correr esse risco.
Passaram-se alguns segundos e nada, além do velho gato cor de caramelo, apareceu. Bichento se roçou entre as pernas do seu antigo dono, pedindo carinho. Ron sorriu e se abaixou momentaneamente, passando a mão ao longo do pelo macio do bichano.
— Ei gato... – ele disse, enquanto fazia carinho no animal – Sua dona está em casa?
Bichento miou, lento. Ron encarou o miado como um não. O homem sorriu de canto e voltou a se levantar.
O ruivo avançou pela sala, chegando ao corredor largo. Ron andou alguns metros e entrou em um dos cômodos a sua esquerda. Ele sorriu, no mesmo momento que passou pela porta. O quarto de Rose estava arrumado como sempre. O homem passou o olho rapidamente no lugar, procurando o que a filha pediu. Bem como ela indicara, o tal livro verde estava sobre a mesa de estudos, cuidadosamente apoiado junto a um porta-canetas.
Assim que ficou de frente para o livro, as lembranças de Ron se afloraram. Ele conhecia aquele romance. Muito bem por sinal. O ruivo havia dado a ex-esposa como presente de aniversário. Sem controlar os seus atos, Ron abriu o livro e leu a sua dedicatória, de muitos anos atrás, escrita na contracapa.
Para aquela que desde sempre amo,
E que para sempre amarei,
Até os meus últimos dias.
Ron.
O homem sorriu de canto, se lembrando do dia que presenteara Hermione, naquela época ainda sua namorada, com aquele exemplar. Havia dado um trabalho absurdo encontra-lo na língua original, mas valeu a pena cada tempo e centavo proibido gasto na procura. O brilho nos olhos de Hermione lhe trouxe uma felicidade incomparável naquele dia. O brilho de alguém feliz e satisfeito com o que estava vendo. O brilho que ele parara de observar a algum tempo.
Automaticamente, o corpo do ruivo retesou-se. Suas boas recordações foram substituídas pelos desgostos dos últimos anos. Aquela Hermione não existia mais, muito menos o mesmo Ronald. Como isso tinha acontecido desta forma?
O homem fechou a capa do livro com violência. Ele apertou os olhos com força e passou a mão pela testa, até a extensão dos cabelos vermelhos, soltando longo e cansado suspiro.
— Hoje não... – Ron sussurrou para si mesmo – Hoje definitivamente não...
Ele pegou o livro com uma mão e colocou debaixo do braço. Com a outra, pegou o celular no bolso do paletó. Decido a terminar o dia da melhor maneira possível, o ruivo vasculhou a lista de contatos, encontrando facilmente o número que desejava. Em um movimento ligeiro a chamada já havia sido feita. Ron colocou o aparelho no ouvido e esperou. Dois toques e alguém atendeu, com a voz suave.
— Alô?
— Lilá? – Ron indagou, só para confirmar – Sou eu, Ronald.
— Ah, oi Ron – a secretária se mostrou subitamente animada – Não reconheci o número...
— É do meu celular particular – ele disse, se explicando – Eu te liguei porque eu queria te perguntar uma coisa...
— Fique a vontade – Lilá o encorajou.
Ron umidificou os lábios antes de continuar.
— O seu convite de hoje mais cedo ainda tá de pé?
Lilá não demorou nem três segundos para responder.
— Claro que sim! Você quer conversar? – ela perguntou, interessada.
— Me distrair um pouco, pra ser sincero.
— Ótimo!
O tom que ela usara soou dúbio aos ouvidos de Ron e ele gostara disso. O homem continuou, confiante.
— Passo pra te buscar as sete, pode ser?
— Estarei pronta esse horário.
Eles se despediram e o ruivo desligou a ligação com um sorriso no rosto. O amanhã de mais cedo se tornara um hoje.
Não havia nenhum mal nisso, ele pensou.
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