Operação Zumbi

3 03 - Caifórnia Girl


Os três grupos de busca da daquela noite foram feitos pelos principiantes, ou seja não tínhamos moral alguma e a cada saída tínhamos como obrigação mostrar o quanto éramos capazes para o trabalho. Para os veteranos Beta, as saídas de busca se tornaram fáceis demais e então eram promovidos a outros trabalhos para no futuro se tornarem soldados. O grupo que treinava no Campo A era um deles, com grandes chances de serem promovidos mais rápido do que os outros, sendo formados por apenas homens já adultos e que não ligavam se nós íamos bem ou não.

— E ai Califórnia. – Nathan gritou ao se aproximar. Rolei os olhos ignorando-o totalmente. – Oi Mississipi. – disse ele a Tori, que sorriu forçadamente. Não tínhamos muitas mulheres Betas e por isso os rapazes criaram uma brincadeira de nos dar apelidos com nomes dos antigos estados, infelizmente éramos obrigadas a viver com isto. – Ouvi o castigo do Grupo Y. Horrível.

— Você já passou por isso, não foi? – Parker perguntou dando-lhe leves tapinhas nas costas. Para Parker, a amizade com Nathan, o líder daquele grupo foi completamente natural, afinal, os dois tinham algo em comum. Eram dois idiotas.

— Errr... Meu grupo já chegou a isto. Pobres coitados.

— Talvez eles aprendam agora. – Luke resmungou virando pelos calcanhares em direção ao dormitório.

— Ei Luke, não deseje isso a ninguém. – Nathan gritou me fazendo erguer uma sobrancelha.

Aquele cara, aquele Nathan era o tipo encrenqueiro dos primeiros dormitórios onde se vivia os veteranos Beta. Não era por acaso que seu grupo havia chegado ao número um e não era a toa que ele era o líder. Talvez até, o melhor de todos os líderes, mas eu não iria admitir isso em voz alta. Observei Luke sumir de vista com sua arma nas costas e então, sem me despedir sai a espreita para segui-lo.

Passamos pelas primeiras casas, os dormitórios dos soldados, elas ficam estrategicamente envolta das casas dos Beta, dos civis e claro, de onde nosso Presidente e Governador moravam, bem ao centro da base e longe o suficiente de qualquer ameaça externa. Para nós, os Betas, nossos dormitórios ficavam logo atrás os dos soldados, como uma segunda camada de proteção para as pessoas e para os dois Alfas. Talvez fosse por isso, por essa proteção dupla que os civis viviam felizes, em ordem e quase que em paz como se nada tivesse mudado. Para eles haviam praças de recreação, havia um pequeno shopping com quase nada, mas havia, tinham escolas para as crianças e futuros Betas e até trabalhos voluntários para os idosos e inválidos. Para os Betas, os trabalhos se dividiam em montagem de armas, produção de balas, busca de suprimentos e tínhamos algumas aulas com as crianças para ensinar como usar uma arma. Para os soldados a coisa aumentava em inúmeras proporções, grupos eram divididos entre garantir a segurança dos Alfa, garantir a organização da Cidade entre os civis, garantis a segurança de todos com as vigílias, treinar os soldados Beta, verificá-los depois de cada saída, verificar os produtos que traziam, separá-los por setores, cuidar da ala médica e por ai vai.

Vi quando Luke entrou em casa me fazendo apressar os passos, pular um degrau que levava a pequena varanda e entrar parando frente a porta do seu quarto. Apesar de nós não termos intimidade o bastante para conversar sobre nossas vidas, nossas famílias e principalmente sobre nossos sentimentos, éramos um grupo unidos e Luke era um bom colega de quarto, ao contrário de Adelle que não abria a boca quando estávamos ali. Bati uma vez na porta e esperei. Bati uma segunda vez e esperando novamente. Ergui a mão para bater uma terceira vez quando a porta abriu de repente e Luke apareceu com uma carranca, enrolado por uma toalha da cintura para baixo. Me forcei a ignorar seu peito nu, a toalha me focando apenas em seus olhos castanhos.

— Você está bem? – perguntei no momento em que ele perguntou confuso: – Cora?

— Estava no banho, era disso que eu precisava. E você? – Luke respondeu com um sorriso fraco no rosto.

— Estou indo também.

— E você veio me chamar para ir junto? – perguntou erguendo uma sobrancelha, tentando disfarçar o sorriso zombeteiro.

— Não! Vim saber se estava bem.

— Não perdi a piada, então estou bem. – sorrimos um para o outro e como resposta Luke se virou, fechando a porta.

Segui para meu quarto fechando a porta ao passar, ao contrário do que lembrava da minha antiga casa, aquele quarto era quase igual ao meu antigo, o papel de parede era o mesmo, os desenhos no teto eram o mesmo, a foto dos meus pais na cômoda ao lado da cama estava na mesma posição. Exceto é claro, pela coleção de armas que guardava em um lado do guarda-roupa. Coloquei minha CFR Whisper sobre a cama, tirei as botas, as meias e o canivete que guardava ali. Esvaziei os bolsos da calça cheios de cartuchos, tirei a pistola que guardava no suporte amarrado em minha perna e finalmente fui ao banheiro voltando logo em seguida lembrando das facas que guardava no suporte em baixo da blusa. Alguém já lhe disse que é melhor prever do que remediar? Bem, todos os soldados que me treinaram falavam isso, foi impossível esquecer ou não seguir esta regra básica de sobrevivência.

Parei frente ao pequeno espelho sobre a pequena pia observando meu reflexo. Desamarrei o cabelo preso com um elástico no topo da cabeça observando-o cair nos meus ombros compridos demais. Estava suada com o rosto sujo de poeira, mas fora isso, tudo parecia normal. Me aproximei do reflexo observando meus olhos tentando lembrar se eram parecidos com papai ou mamãe e quando não consegui, me distanciei sendo rápida para tirar as roupas e entrar debaixo do chuveiro sentindo algumas gotas salgadas que desciam misturadas na água.

— Está pronto 104?

— Não. Preciso de um minuto, doutor Robson.

O médico que segurava a seringa esperou pacientemente enquanto o paciente relaxava os ombros e a respiração. Não havia razão para ter medo já que este seria mais um de inúmeras experiências que tiveram sorte e não morreram. Mas o paciente 104 tinha medo por dois. Não só por ele, mas por outra pessoa.

Ele respirou fundo e então fechou os olhos erguendo o braço na qual o médico havia esterilizado. O doutor checou a seringa, se aproximou do braço e sem se importar com a dor que aquilo causaria, enterrou a ponta de dez centímetros da seringa no antebraço do paciente fazendo-o gritar.

Acordei com um grito sentando rapidamente na cama erguendo minha 38 para o escuro que envolvia o quarto. Meu rosto pingava a suor, meus lençóis estavam caídos ao lado da cama e alguém batia apressadamente no vidro da janela. Respirei fundo tentando identificar quem ou o que era aquele borrão, levantei da cama e apontei a arma para a janela fazendo Parker erguer as mãos no alto.

— Ei. Ei. Sou eu.

— O que está fazendo aqui? – perguntei abrindo uma das portas da janela.

— Vai amanhecer a qualquer momento.

Com um sorriso ele deixou que eu mesma terminasse o entendimento. Olhei para o céu negro acima de nós, para o dormitório dos soldados que ficava pouco a frente de minha janela e assenti erguendo o indicador enquanto ia até o guarda-roupa trocar o pijama por roupas decentes.