Open wounds, closed heart
5 Dia 5
03/06/2017
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Hoje cheguei novamente cedo ao GAPAD, mas dessa vez foi proposital. Depois da experiência do último mês, se tem uma coisa que eu percebi é que tem duas pessoas que sempre chegam com antecedência: Minako, por motivos óbvios (afinal ela tem que abrir o salão e receber os participantes), e Victor, que é o motivo de eu ter criado uma desculpa barata para justificar meu súbito desejo de sair de casa quase 20 minutos antes do horário habitual. Para minha sorte, eles realmente já estavam lá. Para meu azar, não tive coragem de me aproximar, e culpo minha sociofobia por isso.
Depois de passar aproximadamente quinze minutos fazendo absolutamente nada, escondido no banheiro (eu sentia que se eu fosse para o quintal eles me achariam e eu teria que interagir, que é algo que eu não estava mais com nenhuma vontade de fazer), deu o horário da reunião e me vi obrigado a sair de meu esconderijo. E como desgraça pouca é bobagem, é claro que hoje era dia de convivência; logo hoje, que eu desejava nada além de um buraco fundo e escuro para pular dentro e apagar a minha existência. Mas já que ninguém podia ficar isolado e interagir era obrigatório, aproximei-me dos dois garotos com quem eu normalmente interagia e que imediatamente notaram que eu não estava nada bem. Nós nos refugiamos num canto, mas não passamos despercebidos aos olhos do psiquiatra, que se aproximou rapidamente e me convenceu a seguí-la até o quintal.
Enquanto todos conversavam durante a convivência obrigatória, fiquei junto de Minako no quintal. Era ela, eu e um silêncio desconfortável que demorou a ser extinguido. Ela perguntou como estavam as coisas em minha casa e no trabalho. Perguntou se eu tomava algum remédio. Perguntou de minha crises e de suas frequências. Perguntou quando foi a última vez que passei em consulta… Essas coisas. Por fim, perguntou se eu queria ir embora por hoje e disse que se eu não estava bem que talvez fosse melhor eu simplesmente ir para casa. Mas, antes de me dar a chance de responder, ela me mandou pensar um pouco a respeito enquanto ela ia anunciar o intervalo e procurá-la depois de alguns minutos lá dentro, no saguão.
Depois de um tempo, notando a movimentação e incomodado pelo quintal não ser mais só meu, fui atrás da psiquiatra. Encontrei-a falando com Victor, o que me deixou um tanto sem vontade de me aproximar. Mas então ele notou minha presença e acenou, e me vi obrigado a empurrar os sentimentos desconfortáveis para um canto e ir em sua direção. Para minha surpresa, descobri que eles falavam de mim, e que eu havia ganhado uma carona até em casa. Ou, nas palavras de Minako: “Já que o Victor vai fugir daqui a pouco, ele que pelo menos faça algo de útil e te deixe em casa”.
No carro, Victor tentou puxar assunto comigo algumas vezes, mas minha falta de vontade foi suficiente para que ele me deixasse sossegado. Depois de o guiar pelas ruas do bairro, o rádio ligado tocando no fundo, inutilmente tentando trazer ânimo para o ambiente que se tornava cada vez mais cinzento, ele me deixou em minha porta. Depois de me desejar melhoras, ele disse que esperava me ver sábado que vem e conversar mais comigo daqui para frente. Sai do carro depois de um sorriso sem graça, sem dizer nada além de um desanimado adeus, entretanto, a lembrança de seu sorriso latejava em minha mente e um mau pressentimento começava a crescer em meu peito, onde meu coração batia mais rápido do que eu gostaria.
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