23/12/2017

A primeira anormalidade de que me dei conta foi o cilindro de gás encostado junto à parede. Apesar de curioso, não questionei, ciente de que as respostas viriam mais cedo ou mais tarde.

A segunda foi o estranho, mas compreensível, espírito natalino que havia contagiado a todos. Os sorrisos pareciam mais sinceros e as conversas descontraídas. Eu, inclusive, gostava muito dessa época do ano, apesar de que por motivos diferentes; era um dos poucos momentos em que eu me encontrava com minha irmã, que vinha passar dois ou três dias conosco assim que as coisas no Onsen acalmavam um pouco. Apesar das provocações constantes, era sempre bom tê-la por perto.

Quanto aos meus amigos, Leo e Guang, devo admitir que foi bom finalmente dar fim ao desconforto que eu vinha sentido em relação a eles. Foi a segunda melhor coisa que me aconteceu hoje.

A melhor foi ter começado a namorar o Victor.

Durante toda a atividade, fiquei a pensar em como eu poderia dar cabo àquele mal entendido. Sempre que eu começava a me amaldiçoar por meus comportamentos covardes e inseguros, as palavras de Chris ressoavam em meus ouvidos. Dentre as coisas que eu desejava deixar para trás naquele ano, o hábito de dar mais atenção aos meus erros do passado que às oportunidades trazidas pelo futuro certamente se destacava.

Anotei sobre esse meu péssimo hábito no pequeno pedaço de papel que Minako havia distribuído mais cedo e aguardei os demais. Então, nós nos reunimos junto ao portão, acompanhados do cilindro de gás. Minako encheu os balões de hélio e deixamos que nossos arrependimentos voassem em direção ao céu. Com sorte, não voltariam para nos assombrar tão cedo.

Enquanto os balões sumiam por entre as nuvens, senti em meu peito a tensão tornar-se mais amena. Com confiança emanando de cada um dos poros de meu corpo, e uma determinação que eu não mostrava há meses, segurei Victor pelo braço. Imediatamente, seus olhos abandonaram a imensidão celeste que se estendia infinitamente sobre nossas cabeças e viraram em minha direção.

Com o início do intervalo todos se espalharam, a maior parte voltando para dentro do salão. Guang olhou em nossa direção, mas Leo o guiou para dentro com um sorriso gentil nos lábios, aparentemente percebendo que algo grande estava prestes a acontecer.

Victor parecia confuso. Ele tentou sorrir, mas seu nervosismo o impediu. Meu silêncio devia estar o torturando, mas, agora que eu estava diante dele, eu havia voltado a ser o garoto assustado de sempre.

“Então?...” Ele perguntou, fugindo seus olhos dos meus. “Sobre o que quer falar?”

Meus lábios estavam secos e meu subconsciente implorava para que eu fugisse do assunto, como sempre, mas engoli meus receios e foquei em seus olhos. Eu sabia que estava corado, e que meus lábios tremiam. Todavia, eu não conseguia me importar.

“Uma pergunta por uma pergunta”, Victor ficou confuso por um milésimo de segundo, mas então seu pensamento alcançou o meu e, compreendendo a situação, ele perguntou sobre o que eu desejava conversar. “Sobre nós”, eu respondi. Segurei sua mão e forcei-me a manter a troca de olhares que se tornava a cada segundo mais desconfortável. “Se não for tarde demais, você gostaria de sair comigo?”

Como esperado, alcancei meu limite e desviei os olhos. Mas logo em seguida uma mão aconchegou-se em meu queixo e ergueu meu rosto. Victor sorria gentilmente, da maneira que eu tanto amava.

O que aconteceu a seguir foi tão natural que eu só compreendi o que havia acontecido quando ele se afastou de mim, deixando-me com uma sensação morna e saudosista nos lábios. “Isso serve como resposta?” Victor riu brevemente, as suas orelhas vermelhas.

Quanto ao resto do dia, não acho que tenha algo significativo a dizer. Afinal, nada se comparou, ou sequer chegou perto, aos beijos gentis e suaves que troquei com Victor junto ao portão do GAPAD.

Depois de um pouco de papo furado com Minako, onde compartilhamos nossos planos para o feriado, fui para casa sabendo que teria muito para contar às duas testemunhas que, obviamente, espiaram tudo de dentro do salão.

Notas finais
Olá, mundo! Bem vindos ao penúltimo capítulo!! Sabe o que isso significa? Exatamente! Vocês vão finalmente se livrar de mim semana que vem! Eu sei, eu sei, vocês mal perdem por esperar... Mas, enfim. Eles estão juntos! *joga purpurina* Não sei se foi da forma que vocês esperavam, mas foi o caminho que optei seguir. :) Claaaro, por mim eu tinha feito um capítulo enorme e enrolado mais nas perguntas por perguntas, ao invés de ir direto ao ponto, mas isso fugiria do meu propósito de ser breve nos capítulos. Ah, é já aviso que semana que vem vai ser meio que um daqueles capítulos com cheiro de epílogo, com nada extra nem nada. (Só estou avisando porque não quero ninguém criando expectativas.) Ah, e outra coisa. Não, não vai ter lemon. E não, não vou fazer extras depois que a história acabar. Bem, that's all. Espero de coração que tenham gostado. Até semana que vem!