Open wounds, closed heart
24 Dia 24
07/10/2017
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Quando cheguei, encontrei Guang sentado solitário na mesa no quintal. Mesmo já sabendo que Leo não vinha hoje, pois o próprio havia nos informado desse fato há alguns dias em uma mensagem, a cena de Guang sentado solitário não era menos estranha. Era como se faltasse algo. Entretanto, Leo tinha uma apresentação importante em algumas semanas e ensaiar era sua prioridade no momento, por isso, não havia nada a ser feito. Pelo menos assim me vi com uma oportunidade de me livrar de um peso que eu carregava em minha consciência há mais tempo do que eu gostaria, e o fato de Victor aparentemente também não ter vindo também me livrava de qualquer distração.
Aproximei-me dele e disse um tímido oi. Guang abaixou o celular que usava para se distrair enquanto a sessão não começava e eu me sentei de frente a ele. Falamos por alguns instantes sobre as coisas habituais e então eu decidi ir direto ao ponto. Eu estava nervoso e, a cada segundo que passava, tornava-se mais difícil trazer o assunto à tona. Quando enfim o fiz, a reação de Guang foi corar imediatamente, seu rosto arredondado se tornando ainda mais delicado que o normal. Ele, porém, não negou.
Depois de dar a ele algum tempo para se recuperar, perguntei porque eles não haviam me dito nada, já que eu certamente me intrometi muitas vezes. Se eu soubesse, teria os dado mais privacidade. Ele foi rápido em replicar que eu nunca havia me intrometido e que eles gostavam de me ter por perto. Sorri inconscientemente, feliz pela revelação.
Guang então me contou que ele e Leo estavam saindo há mais de um ano, e que Leo, na época apenas um amigo de infância, havia se confessado para ele nos bastidores de um festival de música. “Eu costumava ir junto porque ele dizia que eu era o seu amuleto da sorte, mas nunca imaginei que receberia uma confissão de amor”, ele comentou, timidamente, enquanto sorria docemente.
Guang continuou falando sobre o relacionamento dos dois, contando histórias dignas de livros. Ele parecia aliviado por poder se abrir sobre tudo aquilo comigo e, por isso, deixei-o falar a vontade. Era fácil ver o quão apaixonado ele estava, e eu estava sinceramente feliz por eles. De repente, senti-me um idiota. Eu devia ter ido direto a ele e apenas perguntado ao invés de ficar investigando pelas costas deles.
Atrasado, Victor chegou durante o intervalo. Assim que adentrou o salão, ele foi até Minako, que ficou surpresa ao vê-lo. Eles falaram alguma coisa um para o outro e Victor então seguiu na nossa direção. Aproveitando que Victor ainda não havia nos alcançado, Guang bateu de leve em meu ombro e, com um sorriso, me desejou boa sorte. Quando Victor finalmente me alcançou e viu Guang se afastar, ele perguntou onde ele estava indo e falei que ao banheiro (a primeira coisa que me veio à cabeça). Ele não questionou.
Desejando mudar de assunto, perguntei o motivo do seu atraso, e de repente ele pareceu-me muito cansado. “Você não vai acreditar…” Ele me contou que havia ido levar o lixo na rua e esqueceu a porta aberta, e que Makkachin fugira. “Ele é um cachorro velho! Não devia correr tanto!” Sorri levemente e falei que ele devia pensar pelo lado bom, pois isso mostrava que Makkachin era saudável. Ele então olhou para mim e sorriu. “É, acho que sim”, ele disse logo a seguir, e eu pude sentir meu coração se derreter em meu peito.
Durante a roda de conversa, falei que eu estava sentindo muitas coisas ao mesmo tempo ultimamente, e que eu não sabia como lidar com tantos sentimentos. Guang comentou ter feito um amigo na faculdade, um veterano coreano que estava fazendo intercâmbio, e disse que era legal ter alguém com quem comer o almoço de vez em quando. Minako então se virou na direção de Victor e brincou que pensou que ele tinha voltado aos maus hábitos. Em resposta, ele balançou a cabeça num silencioso nunca. Victor deixou claro que não ia voltar atrás quando finalmente estava fazendo algum progresso, e Minako pareceu ficar satisfeita com o que ouviu.
Na saída, eu caminhava com Guang em direção ao portão quando Victor se juntou a nós. Ele perguntou se a minha mãe já havia chegado e eu informei que ia voltar de ônibus. Ele então perguntou se nós não queríamos uma carona, ao que Guang recusou, falando que morava realmente bem perto. Guang então virou na minha direção e disse que eu devia aproveitar a oportunidade. Não foi difícil perceber as insinuações por detrás de suas palavras, mas acabei aceitando a carona ainda assim, pois não consegui abrir mão da chance de passar mais alguns minutos na companhia de Victor.
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