Open wounds, closed heart
20 Dia 20
09/09/2017
Logo que cheguei ao GAPAD fui de encontro a Leo e Guang e começamos a conversar sobre nossas semanas. Obviamente que meu “encontro”, como Leo insistiu em chamar meu passeio com Victor, não foi um tópico que eles pudessem simplesmente ignorar. Perante provocações e olhares curiosos, corei e pedi para que eles parassem, pois só estavam me deixando desconfortável. Não é como se Victor gostasse de mim, afinal. Guang então perguntou se pelo menos eu havia me divertido e respondi que sim, e que foi legal descobrir tantas coisas sobre Victor. “Se apaixonou por ele de novo?”, brincou Leo, pouco a seguir. Guang reagiu com uma risada baixa mas eu não falei nada, corado demais pensando que talvez fosse mesmo o caso.
Enquanto eu tentava acalmar o coração que batia rápido em meu peito, Leo chamou-nos a atenção para uma figura que caminhava até nós, e que era ninguém menos que Victor. A primeira coisa que notei foi que ele sorria, a segunda que ele olhava fixamente para mim. Ficamos nessa troca de olhares até que ele extingue a distância que o separava de meu grupo. Ele cumprimentou Leo e Guang e, quando voltou-se novamente a mim, chamou minha atenção para a sacola que carregava em mãos. Sorri, feliz que ele não se esquecera dos biscoitos.
Foi Minako se postar no meio do saguão que todos se reuniram à sua volta. Sem delongas, ela perguntou se alguma dupla gostaria de ir primeiro, e minha reação foi pensar qual era o ponto de fazer uma pergunta dessas numa sala cheia de pessoas ansiosas que, se pudessem, sequer sairiam de casa apenas para não ter de interagir com ninguém (eu incluso). Mas então Victor se prontificou e me vi sem opções além de o seguir até o meio do círculo, lançando um olhar fulminante em sua direção a todo momento; ele, porém, não pareceu entender o que havia feito de tão ruim assim.
Falamos do nosso passeio ao parque e de como haviam muitas pessoas aproveitando do dia bonito que fazia. Nós, claro, não mencionamos a nossa ida ao cinema, pulando direto para a parte do café, momento em que fiz questão de elogiar o lugar sempre que podia. Victor então levou a caixa até Minako, que começou a distribuir os biscoitos.
Enquanto voltávamos para nossos lugares, Leo e Guang nos substituíram e falaram da ida deles a um curso de artesanato. De uma sacola, eles puxaram o produto do dia deles: um vaso feito por Guang e algo que Leo insistiu em chamar de tigela, apesar de eu não ter certeza se a massa irreconhecível podia ser chamada de tal. Leo então disse que avisou Guang que não era bom nessas coisas, e Guang seguiu dizendo que pelo menos eles se divertiram.
Depois de todas as duplas se apresentarem, o intervalo foi decretado. Victor trouxe o resto dos biscoitos e os ofereceu a mim. Recusei, dizendo que não podia continuar comendo assim e que já tinha exagerado durante a semana. Victor pareceu confuso e disse que eu estava ótimo e que não achava que eu tinha de me preocupar com meu peso, e que se eu engordasse um pouco também não tinha problema. “Você vai de bonito para fofo, apenas isso”, ele disse, ou eu acho que disse. Não tive coragem de perguntar se eu havia ouvido errado (apesar de agora eu achar que devia ter feito o esforço). Se bem que, mesmo que ele realmente tenha dito aquilo, não é como se tivesse grande significado, pois é do Victor que estamos falando e ele tem jeito de ser o tipo de pessoa que adora jogar elogios para todos os lados. Victor perguntou mais uma vez se eu não queria mesmo um biscoito e acabei cedendo à tentação e apanhando um na caixa.
Ele então perguntou por Leo e Guang, dizendo que era estranho não estarmos juntos. Respondi que eles queriam falar sobre algumas coisas a sós (já que eu não podia dizer que eles haviam me largado assim que notaram que Victor vinha ao nosso encontro). Subitamente, Victor comentou algo sobre amor e de como às vezes ele surgia de repente, e fiquei sem entender do que ele estava falando. Antes que eu pudesse questioná-lo, porém, ele perguntou se Leo e Guang estavam saindo. Surpreso e sem saber o que dizer, eu disse que nunca havia pensado a respeito, mas que não achava a ideia impossível. Isso, inclusive, explicaria muitas coisas. Pensei então em todas as vezes que me intrometi, caso fosse mesmo o caso.
Durante a roda, falei que tive uma semana boa, mas que não havia nada que eu achasse significativo declarar. As coisas andavam tranquilas no trabalho (um milagre) e meu editor quase não havia sido insuportável nos últimos tempos. Victor comentou que um amigo o chamou para ir trabalhar com ele e que estava considerando o convite, mas que a ideia de tentar coisas novas o assustava um pouco.
Quando o encontro se deu por encerrado, Victor veio logo se despedir, mas pedi que ele esperasse um pouco porque eu queria falar com ele. Lembro até agora de seu olhos ansiosos e brilhantes, nos quais quase me perdi por um momento.
Após recuperar o foco, falei que se ele quisesse falar do possível novo emprego que ele podia me mandar uma mensagem a qualquer hora, e segui dizendo que era uma ótima oportunidade e que ele deveria aceitar.
Umas das coisas que descobri sobre Victor durante o nosso não-encontro foi que ele passava tempo demais em casa e, apesar de eu não ter muito direito de falar qualquer coisa nesse assunto (pois eu mesmo ficava a maior parte do tempo trancado em meu quarto, escrevendo), eu achava ótima a ideia dele se ocupar mais e respirar um pouco de ar fresco.
Ele anuiu a cabeça e agradeceu, e então mudou de assunto, perguntando quando eu ia poder ensiná-lo a cozinhar, pois mal podia esperar. Eu disse que podíamos combinar algum dia durante a semana, mas que ele deveria ver o trabalho primeiro. Assim que nos separamos, fui atrás de Leo e Guang, encontrando os dois rindo enquanto conversavam. Imediatamente pensei no que Victor havia dito, sobre eles estarem saindo, e então pensei em voltar por onde eu havia vindo e deixá-los sozinhos. Entretanto, fui avistado por Guang antes que eu pudesse escapar.
Juntei-me a eles, sem opção além de me intrometer. Conversamos um pouco sobre assuntos variados até que minha mãe chegasse e me levasse embora.
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