Oota-kun is Sometimes Listless
1 Lazing on a Sunday Afternoon
Notas iniciais
O sol deslizava preguiçosamente pelo horizonte no fim daquela tarde anônima no meio do verão. Tão preguiçosos quanto o astro, escondiam-se dele sob uma marquise dois adolescentes. O ar cheirava a cloro, chocolate e morangos — os dois primeiros provenientes dos cabelos dos rapazes, o terceiro, de seus sorvetes.
Exaustos pelo dia na água, cansativo mesmo sendo gasto com a recém-descoberta aptidão para flutuar de Tanaka, os estudantes haviam desabado frente à porta de uma loja, incapazes de dar outro passo sequer uma vez obtido o necessário sorvete.
Até mesmo Oota, normalmente inabalável e prestativo, havia se entregado à languidez das férias de verão, provando um pouco da sensação sufocante, deliciosa e etérea que envolvia Tanaka todos os dias. Sentava-se mais desajeitado que o outro, esparramado, com as longas pernas ligeiramente doloridas dos mergulhos que dera enquanto ainda podia confiar Tanaka à sua bóia. Os braços, por sua vez, acostumados com o peso do colega a cada troca de aula e os esportes praticados na escola, não o incomodavam.
Escorado na fresca vitrine e observando os reflexos amarelados do céu, Oota ainda sentia o corpo a flutuar. A água ainda parecia oscilar sob suas costas, acariciando-o a cada batida de seu coração, levando o cabelo a fazer cócegas em seu rosto junto à brisa que hora ou outra soprava. Dividia sua atenção entre o céu, o doce e o amigo, feliz pela chance de acompanhá-lo em algo que realmente o havia divertido — talvez fosse isso o que o fazia flutuar.
Tanaka, por sua vez, sentava de uma forma mais contida, fruto de maior experiência na própria preguiça diária. Ocupava-se em lamber as gotas do líquido derretido do sorvete que insistiam em cair toda vez que tendia a outra, vencendo-as antes que lhe sujassem os dedos. Oota assistia a batalha, pronto para oferecer um lenço em caso de derrota, mas cansado demais para sacá-lo antes que fosse necessário.
O tempo passava, mas a noite hesitava chegar. O céu se contentava em ir do amarelo para o dourado, o rosa e o laranja, rendendo ao par mais tempo para que se recuperassem antes de encerrarem o dia e voltarem para casa. Ainda assim, Oota pensava na volta. O dia sem dúvidas fora cansativo, o ar estava abafado e a piscina pública estava distante da estação até onde acompanharia Tanaka para poder seguir para a própria casa.
Quando começasse a escurecer, decidiu, a moleza já deveria ter passado, então poderia carregá-lo, ou ao menos escorá-lo, por parte do caminho. Carregar Tanaka era quase terapêutico. Apesar de insistir que andasse sozinho parte das vezes, gostava de senti-lo contra a cintura ou sobre o ombro; apenas se preocupava com o impacto que o desuso das próprias pernas teria na saúde de Tanaka. O amigo não era uma pessoa ruim e, se o corredor da escola era o que o impedia de dar seu melhor, Oota ficaria mais do que feliz me carregá-lo para onde precisasse.
Também tinha os próprios motivos, claro. Gostava de Tanaka, havia percebido isso há muito tempo. Alegrava-se em saber o quão bem o corpo delgado se encaixava em seus braços e o quanto o amigo podia depender dele, confiando que Oota não seria uma perturbação aos seus dias tranquilos, aceitando sua presença com mais disposição do que aceitava aos outros colegas. Gostava do cheiro de seu cabelo, uma fragrância doce que ele jamais conseguia exatamente identificar, única e suave, que só podia associar ao rapaz. Adorava cada segundo do contato que compartilhavam, a certeza de que poderia e iria fazer de tudo para mantê-lo seguro, para cuidar dele.
Amava Tanaka e, no fundo, era isso que o machucava. Sabia que o outro não nutria intenções cruéis, mas ouvir seus pedidos de casamento sabendo que jamais seriam verdadeiros era doloroso, a breve e insistente esperança de que fossem reais era destruidora.
A melancolia, no entanto, não era constante; Oota era um inocente otimista, no final das contas. Os três anos que tinha ao lado de Tanaka seriam longos, seus pensamentos não se voltavam à tristeza com facilidade. Sentar-se à frente dele no intervalo, observando enquanto lânguida, mas rapidamente cedia ao sono, era o suficiente para fazê-lo feliz. Certa vez, ao insistir que, antes de dormir, Tanaka ao menos provasse algo, ele simplesmente abrira a boca, num pedido silencioso para que o próprio Oota o servisse. O êxtase da situação por pouco não fez com que suas mãos tremessem; representava uma imensa combinação de fatos positivos que encantavam o mais alto.
Olhou de volta para Tanaka e, movido pela lembrança, ofereceu o próprio sorvete ao rapaz, enquanto o assistia mastigar o palito vazio do doce que havia milagrosamente terminado antes — Tanaka era mais habilidoso em sua fadiga. Uma gota da mistura de morango e leite manchou o concreto entre os dois. Tanaka notou a oferta e, olhando para a embalagem vazia, percebeu o próprio atraso.
“Oh? Eu esqueci de te oferecer o meu. Se você tivesse oferecido um segundo antes…”
Orgulhoso da solicitude do amigo, boicotada apenas pela desatenção incapacitante que acompanhava a languidez, Oota precipitou-se a dizer que não havia motivo para a preocupação quando foi surpreso pelo rosto de Tanaka em direção ao seu. Incapaz de discernir se era o pânico ou a velocidade real do amigo (amigo?), viu o movimento como se em câmera lenta, fisicamente paralisado e mentalmente inquieto.
Tudo isso cessou quando os lábios de Tanaka tocaram os seus.
A ação não era inocente, Tanaka de fato queria beijá-lo. Os lábios entreabertos de Oota facilitaram o ato, natural até mesmo para a inexperiência dos dois. Foi, no entanto, uma das raras vezes em que Tanaka tomou a iniciativa e o controle, conduzindo um Oota enrubescido e maravilhado durante alguns preciosos segundos.
Ambos haviam escolhido um sorvete de morango, então. Oota reprimiu com dificuldade o sorriso a fim de devolver o carinho, confuso quanto a realidade do acontecimento, mas feliz demais para pensar demais nisso.
O beijo continuou por alguns segundos, brindado pelo sino de vento sobre suas cabeças, afastando o calor e os maus espíritos de um momento único e simplesmente alegre. Oota se afastou primeiro, ansioso pelo resultado do ato. Tanaka ostentava o quase sorriso calmo que seguia um bom cochilo.
“Seu rosto é macio como um travesseiro.”
Por mais que tentasse, seria impossível sufocar o sorriso dessa vez. Ootaa optou por sufocar a si mesmo no beijo novamente, voltando aos lábios de Tanaka em sincronia, aproximando-se no mesmo momento que ele.
Os minutos continuaram a navegar lentos enquanto os dois rapazes trocavam carinhos, evoluindo espontaneamente, com tanta suavidade quanto o pôr do sol, quanto o sorvete que se desfazia, esquecido, substituído por algo mais doce e agradável. Como se fosse o curso natural do beijo, Tanaka subiu ao colo de Oota, lentamente demais para que se pudesse dizer quando, mas aninhando-se num lugar que sempre pertenceria a ele. Da mesma forma sorrateira chegou a noite, despertando o gato que dormia sobre as máquinas, fazendo-o levantar-se com trejeitos que lembravam Tanaka, a sua maneira.
A súbita realização do tempo poderia ser o suficiente para deprimir Oota, mas a imensa felicidade do dia o deixaria inabalável por muitos mais. Fora revigorante, também. As pernas ainda doíam, mas o cansaço havia sido substituído pela vontade de carregar Tanaka em direção a um novo dia.
Afastou-se uma última vez, procurando o sorvete derretido após encontrar novamente a expressão contente no rosto de Tanaka. Sem mover a mão que repousava na cintura do outro, procurou o lenço com a mão direita. A sorte continuava a seu lado; encontrou-o no primeiro bolso em que procurou, limpando a sujeira na ponta dos dedos e envolvendo o palito no tecido — não o deixaria jogado na calçada, obviamente.
Incapaz de pedir que se retirasse e mais ainda de removê-lo, ergueu Tanaka no colo, dessa vez com mais conforto, sustentando-o com um braço sob as pernas e o outro abraçando-lhe as costas. Os pedidos de casamento não soavam mais tão dolorosos, refletiu. Talvez houvesse até mesmo falhado em entendê-los antes.
O retorno à estação de trem não foi cansativo como a languidez da tardinha o havia feito acreditar. O peso de Tanaka contra seus braços o confortava, tanto quanto a expectativa de que os três anos seguintes seriam melhores que o esperado.
Olhou para o amigo em seu colo ao avistar mais um gato deitado ao fim da rua.
Calmo como o outro felino, Tanaka dormia.
Os próximos anos não seriam tão diferentes — melhores, apenas.
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