Onírico
7 Capítulo VII: A Caverna
Notas iniciais
CAPÍTULO VII:
A Caverna
•♦•
OS TÚNEIS ERAM MUITO mais intrincados e estreitos do que eles haviam imaginado, e certamente tinham sido escavados por algum usuário do elemento doton, a perfeição da estrutura firme não deixava margem para dúvidas. Isso os colocou mais alertas para a possibilidade de haver armadilhas escondidas em meio à penumbra.
Sasuke ia à frente, com o Sharingan ativado no olho direito brilhando carmesim para detectar com folga qualquer movimentação suspeita. Sakura cuidava da retaguarda de ambos, encarando com desconfiança as poças de escuridão que se avolumavam naqueles túneis.
— Isso é imenso — ela sussurrou cautelosamente, seus dedos se contorciam dentro das luvas de couro pela possibilidade de bater em alguma coisa ou, de preferência, em alguém.
Ela se virou bruscamente quando pensou ter visto um movimento com o canto do olho, mas descobriu que não era nada; seus sentidos de ninja estavam aguçados ao máximo ali dentro. Cada cheiro, cada cor e cada som lhe saltava gritante naquele lugar.
— Com certeza é utilizado como base — ela acrescentou depois de um momento.
Sasuke, apesar de não tê-la respondido, concordava. O lugar era mesmo imenso, os túneis se estendiam praticamente por toda a montanha, subindo e descendo num trabalho minucioso que visava confundir quem quer que ousasse se aventurar por ali. Mas o fato de parecer estar desabitado à primeira vista inquietava algo dentro dele, quase como se pudesse farejar o cheiro de uma emboscada. E Sasuke não gostava daquilo nem um pouco por alguma razão.
— Acha que é mesmo prudente irmos adiante, Sasuke-kun? — Sakura perguntou-o num sussurro, os saltos da sua bota ecoavam atrás dele com o mínimo de ruído, os próprios passos dele estavam mais leves, mais sincronizados devido ao excesso de cautela.
Sem se virar para fitá-la, pois a tensão exigia que ele mantivesse os olhos pregados ao que os aguardava logo adiante, ele a respondeu também aos sussurros, franzindo o cenho.
— Concordo que isso cheira a uma armadilha, mas eu quero ver o que há no fim desses túneis.
— Certo — Sakura concordou com firmeza, não recuando, como ele sabia que ela agiria frente à situação.
Bastava que eles tivessem cuidado e que não caíssem numa armadilha. Sakura suspirou, seguindo os passos de Sasuke, pisando onde apenas ele pisava. Ela podia não dispor do auxílio de um dōjutsu como ele, mas tinha sido treinada por sua shishou para situações como aquela. Na realidade a situação lembrava-a um pouco da vez em que Naruto, o capitão Yamato e ela invadiram um dos esconderijos de Orochimaru para trazer Sasuke de volta. Fitando a nuca dele, contemplou o quanto ele havia mudado desde aquela época, o quanto se libertar do ódio fizera bem a ele. Ali estava Sasuke agora, lutando tanto quanto ela para libertar outros da opressão de criminosos.
Ele estagnou no meio do caminho de repente, o braço estendido como um sinal para que ela também parasse. Seu alerta, somado à sua postura rígida, colocou-a em alerta máximo num piscar de olhos.
— Espera — ele comandou enquanto ambos esperavam num silêncio sepulcral.
Lentamente, um ruído baixo emergiu do fim do túnel, crescendo em intensidade como se viesse de encontro a eles numa velocidade absurda. Só mais tarde Sakura percebeu seu erro: o ruído não vinha do fim do túnel, tomado por sombras, vinha de baixo dos pés deles.
Ela encarou o chão, notando que tremia, e no instante posterior uma explosão atingiu ambos, vinda de baixo. Sasuke se moveu depressa, girando o corpo e saltando para longe do impacto a tempo, ileso. Sakura o imitou, flexionou os joelhos e impulsionou o corpo para trás, escapando por muito pouco da nuvem de pó que antecedeu a parede de rocha maciça que se elevou do ponto onde seus pés estiveram só um segundo antes.
Ela cruzou os braços na frente do torso, pronta para se defender de um possível ataque enquanto suas botas pousavam no chão outra vez, deslizando pela pedra até que Sakura recuperasse seu equilíbrio. Então encarou a parede grossa e sólida antes que outro ruído lhe chamasse a atenção: um som mecânico, procedido de dezenas de outros. Rápida e astuta, olhou para as paredes de onde pequenos orifícios de metal apareceram. Num átimo de segundo, todos eles dispararam senbons de todas as direções. E num átimo de segundo seu corpo reagiu, desviando com uma agilidade impecável das agulhas provavelmente embebidas em veneno.
Ela se curvou, atirou o corpo para trás e para os lados. Num ato preciso, alcançou uma kunai da bolsa na sua coxa direita e a usou para rebater algumas que passaram a centímetros do seu rosto, que caíam tilintando no chão de pedra. Seus movimentos graciosos e perfeitos permitiram-na escapar ilesa da chuva de senbons, nem um único arranhão maculava sua pele ao término da saraivada de agulhas.
Estabilizando a própria respiração, ela fitou a parede, que estava mais distante do que antes. Sakura não ousou mover seu corpo muito bruscamente, temia acionar outra armadilha. Mas Sasuke estava logo do outro lado e sabe-se lá o que havia enfrentado. De qualquer modo, ela não precisou esperar muito.
Sua audição afiada captou o ruído estridente do Chidori um pouco antes que a rocha explodisse violentamente, causando uma nova nuvem de fumaça, ainda mais densa do que a anterior, que precedera a aparição da parede. Quando a poeira assentou, revelou a silhueta de Sasuke diante de um buraco grande o bastante na rocha. Seu punho estava iluminado pelo brilho azulado do seu jutsu e sua expressão fechada lhe sugeriu que ele não estava mais de bom humor. Mas numa primeira inspeção ele lhe pareceu ileso, como ela, e isso a deixou aliviada.
— Está tudo bem? — ele perguntou enquanto abaixava o braço e seu jutsu desaparecia.
Sakura suspirou e guardou sua kunai de volta na bolsa.
— Sim.
Com cuidado, ela retirou uma senbon cravada na parede e a examinou as duas extremidades pontiagudas com cuidado. Um líquido transparente gotejou de uma das pontas. Veneno, exatamente como ela havia cogitado. Que bom que sua shishou tinha refinado suas habilidades de esquiva ao ponto da perfeição. Sakura não queria ser envenenada e ter que defasar a missão para preparar um antídoto só a frustraria. Por via das dúvidas ela resolveu guardar aquela senbon na bolsa que usava atrelada às costas. Se o grupo possuía um especialista em venenos ela gostaria de descobrir que tipos de venenos ele usava e preparar um antídoto para o caso de uma futura luta.
Ela ergueu o rosto para encarar Sasuke outra vez, que a aguardava na abertura que criou na rocha. Foi até ele, tomando o cuidado de não acionar uma segunda armadilha. Passou pela fenda e percebeu que havia muitos escombros do outro lado, pedaços gigantes de rocha espalhados por todo o lugar e que certamente não provinham da explosão que Sasuke causara na parede que os separara.
Colocou as mãos na cintura e agradeceu a qualquer divindade que ele fosse tão letal e furtivo. Sakura não tinha ouvido nem um ruído sequer da destruição que ele causou ainda que uma sólida parede separando-os.
— Vamos em frente — ele declarou, virando-se e seguindo pelo túnel.
Ela o seguiu de perto, voltando a acompanhar seus passos. Por sorte, não acionaram mais armadilhas e os túneis, que antes seguiam pelo interior da montanha numa só direção, bifurcaram-se, deixando para que ambos decidissem qual caminho tomariam. Sasuke optou pelo túnel da esquerda primeiro, avançando em meio à penumbra fria e que eriçava os pelos dos braços de Sakura.
Por fim, a arquitetura dos túneis mudou: a rocha nua sob os seus pés tornou-se mais polida e lisa, as paredes também enquanto que o teto baixo e úmido deu lugar a um espaço mais amplo e seco, muito bem ventilado graças às passagens de ar abertas nas paredes. Eles chegaram ao que parecia ser um imenso corredor, com algumas portas de madeira com um bom espaço entre elas.
Sasuke e Sakura colaram na parede da primeira porta, um de cada lado. Ele envolveu a maçaneta e a girou de uma vez, escancarando a porta e avançando pelo recinto com a mão voando para o punho da Kusanagi que trazia na bainha atrelada à cintura.
Sakura entrou junto com ele, os punhos erguidos e carregados de chakra, prontos para desferirem socos num possível adversário. Mas, consternada, ela percebeu duas coisas: que o cômodo se tratava de um quarto a julgar pela mobília que o ocupava, como uma cama de solteiro com um colchão simples e um lençol amarelado esticado sobre ele, uma mesa de cabeceira com alguns pergaminhos lacrados em cima e uma cômoda encostada na outra parede; a segunda coisa importante que percebeu é que o quarto estava vazio.
Devagar, ela avançou pelo cômodo, tomando cuidado para não acionar nenhum mecanismo. Olhou atentamente para os contornos da mobília na penumbra. Aproximou-se da mesa de cabeceira e tocou na superfície, observando a camada de poeira que impregnou no couro de sua luva com um sentimento de frustração crescente.
— Ninguém vem a esse cômodo há meses, a julgar pelo pó nos móveis — comentou para Sasuke, que anuiu.
— Talvez tenhamos tropeçado numa base abandonada. Mas isso não quer dizer que não possamos encontrar algumas pistas sobre esse bando.
A confiança de Sasuke reacendeu sua vontade de continuar explorando o esconderijo. Sakura mexeu nos pergaminhos sobre a mesa de cabeceira, abriu-os, mas descobriu que estavam limpos e inutilizados. Mexeu nas gavetas, mas não havia nada também. Olhou embaixo do colchão por via das dúvidas e passou para as gavetas da cômoda no outro canto; tudo tinha sido esvaziado no fim.
Eles irromperam em outro cômodo, encontraram mais um quarto com pó sobre a mobília e todas as gavetas esvaziadas. O padrão se repetiu ao longo de todas as portas do corredor. Frustrados, os dois retornaram por onde tinham vindo e tomaram o outro caminho, esperançosos de que encontrassem algo ali.
O túnel da direita revelou uma câmara ampla, com pé-direito alto, que sem dúvida havia sido usada como um espaço para treinamentos. Havia marcas de kunais e de shurikens nas paredes, além de algumas manchas de fuligem e de outros jutsus. A câmara seguinte revelou o que, talvez, tivesse sido uma sala de reuniões com uma mesa comprida de pedra e algumas cadeiras ocupando seu centro, e foi lá que Sasuke e Sakura encontraram a única pista possível do bando.
Sakura topou com algumas caixas de papelão amontoadas num canto. Curiosa, ela as apoiou sobre a mesa longa de pedra e passou a verificar seus conteúdos com muita atenção. Na primeira caixa, ela encontrou uma pasta com algumas fichas médicas de alguns Shinobis. Eram anotações tão precisas na realidade que ela não duvidava que tivessem sido escritas por um Iryō-nin. As fichas eram muito detalhistas e listavam praticamente todas as peculiaridades de alguns Shinobis de um punhado de nações variadas, sendo a maioria oriunda de Kumogakure mesmo, todos ninjas de alto escalão, membros da elite Shinobi. Infelizmente, as fichas também traziam, na frente e logo abaixo de uma pequena foto de cada um, a informação de que aqueles Shinobis haviam sido eliminados. Por quem ela tinha uma vaga suspeita.
Ela resolveu guardar as fichas para examiná-las mais tarde, com mais calma. Na caixa de baixo, contudo, foi que ela encontrou o conteúdo que mais a afligiu. Tratava-se de outra ficha médica, com a diferença crucial que o Shinobi da foto na capa estava bem vivo e no mesmo recinto que ela. Um calafrio fez sua espinha estremecer quando ergueu os olhos dos documentos para fitar Sasuke, que perambulava pelo cômodo à procura de alguma pista.
Sakura folheou a ficha médica, reconhecendo que eram informações sigilosas a respeito de Sasuke, informações muito precisas sobre o modo como seu dōjutsu funcionava — não só o Sharingan como o Rinnegan também —, as técnicas oculares que ele possuía, toda uma listagem dos jutsus e dos elementos que era capaz de usar. Seu estilo de luta, dados coletados através de exames de sangue e sem dúvida feitos em Konoha na época em que ele retornou ao lado dela e de Naruto, logo após o fim da guerra.
O próximo documento trouxe dados referentes à época da Academia de Sasuke como suas notas, seu desempenho nas matérias, pontos fortes e fracos, traços de personalidade etc. E o outro documento tratava-se de um relatório sem dúvida redigido por um dos assistentes do Raikage, pois as folhas traziam uma marca d’água com o símbolo da vila e documentavam a respeito dos crimes que ele cometeu e dos quais foi absolvido pelas cinco nações e seus respectivos líderes. Sua fuga da aldeia, seu período com Orochimaru, sua aliança temporária com a Akatsuki, o ataque à reunião dos Kages e o atentado contra suas vidas. Tudo estava descrito ali muito minuciosamente.
Sakura folheou o documento com interesse, um suor atípico porejava sua nuca. Notando como ela estava concentrada, Sasuke se aproximou e ela precisou conter o reflexo de esconder o documento dele, esconder a verdade tenebrosa contida entre os seus dedos.
— Achou alguma coisa interessante?
Ela engoliu em seco primeiro e se forçou a anuir para respondê-lo. Achou melhor começar pela parte mais fácil.
— Encontrei algumas fichas médicas de alguns Shinobis de nações variadas, a maioria deles era de Kumo e foram todos mortos, possivelmente por esses criminosos, Sasuke-kun..
— Algo útil para nós? — ele insistiu, franzindo o cenho.
Sakura meneou a cabeça, incerta.
— Preciso olhá-las com mais atenção. Não tenho certeza se essas fichas foram furtadas de algum Iryō-nin ou se existe a possibilidade de haver um Iryō-nin entre eles — acrescentou entre dentes, a possibilidade de haver um ninja médico naquele bando a enojava.
Ao invés de salvar e proteger vidas, podia ter um patife por aí usando seus conhecimentos e habilidades de cura para ajudar mercenários a oprimir pessoas inocentes.
Sasuke assentiu, compreensivo, mas então ela ergueu os olhos até o rosto dele com uma expressão que o fez estagnar e escutá-la:
— Tem mais uma coisa, Sasuke-kun... Outros documentos que encontrei numa outra caixa e estes não pertenciam a Shinobis aleatórios, mas a uma mesma pessoa. — Sakura mordeu o lábio antes de sussurrar a palavra-chave que poderia solucionar parte daquele grande mistério: — Você.
Sasuke franziu o cenho por um momento, alongou o silêncio — e consequentemente a tensão — entre ambos. O coração de Sakura acelerou, martelando seu peito, e ela desejou que ele rompesse todo aquele silêncio. Ao invés de fazê-lo, entretanto, ele abaixou o olhar, como se pesasse aquela revelação, ponderando sobre as consequências que traria para ambos, tanto ele quanto ela.
Incapaz de lidar um só segundo a mais com o silêncio resignado dele, Sakura se manifestou, apertando os documentos entre os dedos inconscientemente:
— Esses documentos são confidenciais e tenho quase certeza de que foram furtados do arquivo do Raikage, a julgar pelo símbolo de Kumo nas páginas. E eu lembro que relatórios como este foram distribuídos a todos os cinco Kages como parte de um acordo na época em que você foi absolvido...
— Dos crimes que cometi — Sasuke completou por ela num tom monocórdio. — E para preparar as nações aliadas para o caso de que eu perdesse o controle outra vez, para que soubessem como lidar comigo e aprendessem meus pontos fracos. Konoha teria pagado o preço maior se eu fraquejasse, é claro, assim como o Naruto e o Kakashi. Eu me lembro.
Sakura mordeu o lábio com força. Não havia como refutá-lo ou como oferecer a ele palavras reconfortantes. Aquela época havia sido atribulada para todo o Time 7, todos os quatro esperando com apreensão pelo veredicto das nações aliadas a respeito do futuro do último membro vivo do formidável — e temível na mesma medida — clã Uchiha.
— Eu não quero fazer suposições com base só nesses documentos, mas se tivesse que palpitar diria que um dos objetivos dessa organização criminosa pode estar relacionado a você.
Sua voz era suave, mal passava de um murmúrio no recinto amplo que propagava o som independentemente do tom que ela usasse. Na verdade uma parte de Sakura temia vocalizar aquela suspeita que começava a ganhar força, as engrenagens do seu cérebro ligando pontos que antes não haviam ligado. Sasuke, sempre calmo e composto, fez isso por ela, contudo, ao se pronunciar:
— Não. Eu sou o alvo deles.
Sakura apertou os documentos com mais força entre os dedos, por pouco se lembrando de conter-se para não danificá-los. Então suspirou. Ele estava certo. Por que mais razão criminosos se dariam ao trabalho de furtar documentos do arquivo pessoal do Raikage? E por que Konoha não fora comunicada a respeito do sumiço desses documentos confidenciais em primeiro lugar?
Além do mais, ela se lembrava de como Iori e Suzumo tinham se comportado de forma estranha depois que descobriram a identidade de Sasuke no meio da batalha. Era quase como se estivessem satisfeitos pelo encontro na verdade, como se quisessem encontrá-lo há muito tempo. E aqueles documentos descartados indicavam que eles já os haviam estudado, que já tinham se preparado para confrontar Sasuke.
— Preciso examinar esses documentos com mais calma. — Sakura deixou que a porção mais racional da sua mente trabalhasse a partir dali, enfiando os documentos na mesma pasta que os outros.
Sasuke assentiu, observando o recinto com os olhos desiguais entrecerrados
— Vamos sair daqui.
Ela concordou e o seguiu pelos túneis em direção à saída e à luz do dia outra vez. Ao respirar ar fresco, ao invés do ar parado e úmido da caverna, Sakura se sentiu aliviada como se tivesse se livrado de uma presença incômoda que acompanhava cada passo seu, esgueirando-se pelas sombras e espiando-a por cima do ombro.
Sabia que ela e Sasuke precisavam discutir o que descobriram naquele esconderijo, mas preferiu postergar a conversa por ora ao apertar a pasta contra o peito e segui-lo pela floresta viva que os cercava. Como não estavam fora de perigo e não haviam se livrado da iminência de um ataque inimigo, continuaram a prosseguir com cautela até que os primeiros vislumbres da vila transparecessem pelos troncos e pelas copas das árvores.
O regresso à Iwaki foi relativamente tranquilo, embora a tensão estivesse presente sob aquela falsa fachada de calmaria. A descoberta pairava entre ambos como uma nuvem de tempestade, mas nem Sasuke nem ela fizeram qualquer iniciativa de discuti-la.
E Sakura sabia que quanto mais prolongassem aquela conversa, mais a complicariam.
•♦•
Quando subiam o caminho que levava à hospedaria de Mahina, Sachiko se revelou de trás do tronco de um freixo frondoso e correu até Sakura com um sorriso imenso no rosto.
Sakura imediatamente se recordou da promessa que fez à menina mais cedo naquele dia.
— Sakura-san!
— Sachiko-chan, que bom revê-la. — Ofereceu um sorriso afável a ela e se recriminou por ter esquecido, por um momento, de que Sachiko pediu para falar com ela a sós quando tivesse um tempo livre.
A menina a olhou expectante, as bochechas coradas pela empolgação. Sakura se virou para Sasuke, seu sorriso inabalável.
— Sasuke-kun, se quiser ir a outro lugar pode ir. Eu prometi à Sachiko-chan que conversaríamos a sós.
Ele anuiu e combinou de encontrá-la mais tarde na hospedaria. Ela suspirou internamente em resposta. Não tinha um bom pressentimento quanto às intenções implícitas que Sasuke demonstrou através daquelas palavras. Embora uma parte dela soubesse que teriam que tocar naquele assunto delicado mais cedo ou mais tarde.
Observou as costas dele cobertas pela capa preta se afastarem pelo caminho íngreme de cascalho até perdê-lo de vista numa curva e na vegetação densa. Sem demora, virou-se para Sachiko e pediu que ela fosse à frente. Como ainda carregava a pasta com os documentos, certificou-se de que estavam bem guardados e seguiu a menina até uma clareira ali por perto com a relva e os botões de madressilvas amarelas que se prendiam às rochas e aos troncos velhos de árvores enchendo o ar com uma fragrância doce.
Sakura sentou num tronco caído e acomodou a pasta no seu colo, olhando para a menina no centro da clareira que tinha as bochechas muito coradas agora.
— Muito bem. Aqui estou, Sachiko-chan. O que gostaria de conversar comigo?
Sachiko prendeu o lábio entre os dentes e desviou os olhos verdes e brilhantes para os próprios pés, que remexiam na relva com a ponta das suas sandálias. Sakura nunca a tinha visto tão tímida até o momento e achou-a graciosa.
— Eu... Eu estava pensando, Sakura-chan. Você é tão inteligente, e forte, e confiante... — De repente ela ergueu o rosto para Sakura, o tom meigo da voz subindo um pouco: — E ainda é tão linda! Eu te admiro muito!
Sakura sorriu, encantada.
— Ora, isso é muito lisonjeador, Sachiko-chan. Obrigada. Mas duvido que tenha me chamado aqui só para me dizer isso, estou enganada? — Tombou o rosto para fitá-la de outro ângulo, de modo que pudesse olhar completamente para a sua expressão amigável.
Sachiko fechou os olhos com força enquanto relutava para encontrar as palavras certas.
— Não, não está enganada, Sakura-chan. É exatamente por te admirar tanto que tomei uma decisão — ela admitiu num rompante de coragem, encarando-a nos olhos e tomando fôlego para anunciar o que tinha decidido: — Por favor, me ensine a curar!
O pedido pegou-a de surpresa. Sakura não imaginou que ouviria pedido semelhante quando a seguiu até aquela clareira. Sachiko era uma menina incrível, corajosa e tinha um coração enorme. Mas Sakura sabia como ninguém o quão árduo era o treinamento para se tornar um Iryō-nin e o quanto ele exigia que o aprendiz desse tudo de si. Tsunade nunca tinha facilitado para ela, testando sua determinação de aprender a curar a cada dia, levando suas habilidades ao limite em cada sessão de treinamento e ainda a instigando a nunca se acomodar, a nunca deixar de aprender e de desenvolver novas técnicas de cura, novos medicamentos.
E era exatamente por entender tudo isso que Sakura se inclinou para Sachiko e usou seu tom de voz mais afável ao se dirigir a ela.
— Sachiko-chan, eu estou muito honrada com o seu pedido. Mesmo. Mas temo que não possa ser capaz de atender o seu pedido.
A alegria no semblante da menina murchou como uma flor e Sakura se sentiu péssima por frustrar suas expectativas.
— Escute-me, leva-se anos para se tornar um Iryō-nin, anos para se aperfeiçoar os ninjutsus médicos e eu temo que não tenhamos tempo para isso, afinal, Sasuke-kun e eu só permaneceremos aqui até que resolvamos a situação da vila com os bandidos.
Para amenizar sua negativa, ela estendeu as mãos e apanhou as mãos pequenas de Sachiko entre as suas, apertando-as suavemente.
— Você quer aprender a curar pelo Shouta?
Sachiko emitiu um arquejo assustado, enrubesceu e desviou o olhar para os pés outra vez. O riso delicado de Sakura fez com que voltasse a fitá-la.
— Eu também pedi à minha Shishou que me ensinasse a curar para proteger as pessoas que eram importantes para mim, sendo uma delas o Sasuke-kun. Sabe, eu me sentia muito impotente por não ser capaz de ajudá-lo nem de protegê-lo quando tinha a sua idade. Então eu decidi mudar, decidi me fortalecer. Mas eu só encontrei o meu caminho, de fato, depois que perdi o Sasuke-kun.
— Como assim? — Sachiko indagou com os olhos levemente arregalados.
Sakura suspirou e não soltou as mãos dela quando abriu seu coração sobre aquelas lembranças distantes que ainda eram capazes de trazer angústia ao seu coração.
— Sasuke-kun quase se perdeu de si mesmo ao se enveredar por um caminho de escuridão e de ódio, e nem eu e o nosso melhor amigo conseguíamos salvá-lo por um tempo. Desconfio que o Shouta-kun possa estar passando por uma experiência familiar.
Sachiko abaixou o rosto em concordância, seu tom de voz mal passava de um sussurro.
— Shouta-kun está determinado a vingar a morte da sua família. Eles foram mortos pelos bandidos quando tentaram se opor a eles para que servissem de lição a todos os outros e para instigar medo nos corações de todos. Eu tenho tanto medo, Sakura-chan — ela confessou entre soluços, lágrimas brilhantes escorrendo pelo seu rosto.
Sakura assentiu, era exatamente como tinha desconfiado. Ela apertou as mãos de Sachiko para lhe transmitir segurança, atraindo a atenção de volta para a sua expressão determinada.
— Mas me escute, Sachiko-chan, você pode salvá-lo. Não é tarde demais. Não desista dele, salve-o, Sachiko-chan.
— Mas como posso fazer isso? — ela indagou, soltando uma mão do aperto de Sakura para enxugar as lágrimas. — Não sou corajosa e poderosa como você.
Sakura comprimiu os lábios, mas não teve dúvida ao respondê-la:
— Diga a ele como se sente, não tenha vergonha dos seus sentimentos, Sachiko-chan. Diga a ele sem receios de ouvir a sua resposta e quantas vezes precisar, aposto que isso fará diferença.
Depois de uma pausa, acrescentou com um sorriso doce.
— E eu posso te ensinar um pouco sobre ervas e medicamentos, só para que você possa cuidar do Shouta.
O rosto de Sachiko voltou a se iluminar.
— Mesmo?!
Sakura assentiu com um aceno da cabeça, espelhando o sorriso da menina. Parecia ser o início de uma boa amizade entre ela e Sachiko. A menina tinha muito mais em comum com Sakura do que queria acreditar, só precisava arranjar um jeito de mostrar isso a ela, mostrar que era mais forte e corajosa do que imaginava.
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