Onze Vidas Impostas
1 O Prólogo da Pedra Vermelha
Notas iniciais
Ouvem-se gritos. Sim, é o grito de uma criança, mas Maia não sabe ao certo de onde vêm eles. Ela então corre por uma passagem criada por uma parede parcialmente destruída e procura ouvir com mais atenção os gritos tentando encontrar a origem deles. Maia não consegue entender onde está e como chegou lá, mas o choro da criança a faz lembrar que esse não é o momento de se preocupar com isso. Neste momento um estrondo faz com que todas as paredes de concreto tremam e a fazem se desequilibrar e cair no chão já totalmente coberto por fragmentos de concreto, madeira, vidro e uma poeira que cobre indiscriminadamente cada centímetro daquele lugar. Já em desespero, a garota já em lágrimas e cuja cor de suas roupas já nem podem ser notadas decorrentes da sujeira, corre em direção a um buraco formado pela parcial queda de outra parede em um cômodo ao lado do que estava. Neste momento, Maia já não consegue ouvir os gritos da criança a qual estava procurando, provavelmente por culpa do forte estrondo que quase estourou seus tímpanos e quase derrubou a edificação ou pelos gritos dela, que a este ponto abafam até mesmo uma pequena tentativa de ouvir seus próprios pensamentos.
– Preciso me acalmar. – sussurrou para si mesma enquanto removia as mãos que protegiam seus ouvidos.
Após passar pela passagem formada pelo último estrondo, Maia encontra as escadas do edifício. Todo o percurso até o térreo está coberto por uma camada extensa de poeira que cobria paredes, corrimões e os degraus. Durante alguns momentos, ela tropeça naquilo que achava ser apenas entulho, naquilo que ela torcia para que fossem apenas destroços, mas que na realidade não tinham a forma de destroços, mas de corpos humanos, ainda que completamente cobertos pela poeira. Novamente a garota consegue ouvir aquele mesmo grito que havia ouvido mais cedo e lembra que precisa encontrar aquela criança, apesar de não conhecer-la.
O som vem de um dos cômodos de um andar ao qual ela já havia passado ao descer apressadamente por aquela parcialmente escura escadaria em forma de caracol. Em um momento de coragem, Maia volta a subir pelas escadas e empurra a pesada porta de acesso do andar e vendo que os gritos estão ainda mais próximos, ela os segue até entrar em um apartamento completamente destruído, com exceção de algumas pequenas partes do piso que ainda insistiam em permanecer inteiras, mas ainda cobertas de poeira e destroços, inclusive de corpos. O lugar parecia mais uma cratera com vista para a cidade do que uma casa, com uma abertura gigantesca que tomou boa parte da edificação, como uma gigantesca mordida.
Ao andar alguns metros, Maia sente uma pequena mão puxar a barra de sua calça. Ela se vira para baixo e, espantada, avista um pequeno corpo preso, da cintura para baixo, preso em baixo de um pedaço grande de concreto. Sim, pensa ela, é um garotinho.
Maia sente seu rosto enrijecer-se e percebe que não está conseguindo respirar com facilidade, mas aparentemente a criança está ainda mais assustada do que ela. Ela então tenta manter a calma.
– Est...está tudo bem. – diz Maia. Mesmo que sua voz tenha saído seca e rouca, quase que imperceptível, o garoto a olha como se a entendesse. Ela então se abaixa e acaricia a face da criança enquanto gira o rosto em busca de algo para usar como alavanca e levantar o pedaço daquilo que parece ser um pedaço de parede do pequeno garoto de cerca de cinco ou seis anos. – Eu vim ajudá-lo! – finaliza ela enquanto se levanta e sai cautelosamente andando em direção a uma viga a alguns metros de onde estava.
Mas ele não parecia ser um garoto comum. Maia sentiu como se nunca houvesse visto alguma outra criança assim. Seus cabelos, compridos até o pescoço, eram de uma cor prata escura, e seus olhos de uma tonalidade cinza avermelhada. Até este ponto, as cores de seu cabelo e olhos não seriam tão estranhas quanto à forma de suas pupilas, que possuíam um formato estrelado de sete pontas, e sua testa, que possuía uma pequena lasca de uma pedra vermelha em forma de losango, como um rubi.
Finalmente Maia traz uma grande viga de madeira, provavelmente da armação de uma cama, e a encaixa sobre um pedaço menor de concreto ao lado da criança. Com o peso de seu corpo, a garota consegue erguer a pedra de concreto o suficiente para que o garoto se arraste para fora.
O garotinho estava usando uma espécie de bata de um tecido grosso, porém macio, não se sabe se branca ou cinza por causa da poeira. Ela possuía um recorte não muito comum na parte do pescoço e com duas grandes faixas cor de vinho e inscrições douradas que iam desde um broche de ouro presa em seu pescoço até o calcanhar. A bata se abria logo abaixo desta abotoadura e formava uma espécie de capa, revelando um macacão de uma cor vinho, muito bem desenhado e botas altas de uma cor clara e linhas douradas. As inscrições estavam escritas em uma linguagem totalmente desconhecida por Maia.
Maia notou claramente o desenho formado pelo broche, uma estrela de sete pontas, assim como os olhos do garoto. A estrela inteira parecia ter sido construída de um único e circular fio de ouro, torcida e entrelaçada perfeitamente para que formasse o desenho. Nela também havia muitas inscrições que pareciam emitir um brilho leve e esbranquiçado, que faziam com que Maia os olhasse com ainda mais atenção.
Por alguns segundos Maia encarou a criança, mas então, em um acesso de lucidez, o abraçou e pediu para que ela segurasse firmemente em seu pescoço enquanto ela o apoiava sentado em seus braços.
Calmamente, a garota e a criança desviam dos escombros enquanto voltam para o corredor, em direção à grande escadaria em forma de caracol. Neste meio tempo, ela consegue sentir o coração acelerado do garotinho em meio ao choro abafado da criança, que neste instante pressionava com força a cabeça contra o peito de Maia, que tinha a certeza de que ele também podia ouvir as batidas aceleradas de seu coração.
Faltando apenas cerca de três andares até o térreo, ouve-se um novo estrondo, que apesar de ter ocorrido a uma distância maior do anterior, fez com que ela Maia percebesse que talvez a construção não venha a aquentar mais do que mais alguns minutos. Ela então decide começar a correr pelas escadas e, por algumas vezes, ameaça cair, provavelmente pela mistura de terror e cansaço. Mas apesar de tudo, ela sabe que precisa tirar a criança daquele lugar e levá-la para um local seguro.
A poucos degraus da saída, a garota, cuja criança em seus braços começara a soluçar de medo, decide olhar para traz e percebe que boa parte do que antes achava ser entulho gerado pela destruição e cobertos por uma camada espessa de poeira, eram na verdade pessoas falecidas, ou parte delas.
Notar aquilo fez com que a parte de Maia, que ainda estava lutando para fugir, se quebrasse em muitos pedaços, e próxima de perder o controle e cair de vez sobre o chão, ela acaba mordendo com força o lábio inferior, o que faz com que gotas de seu sangue se misturem ás lágrimas, que a este ponto, já escorriam sobre a cabeça do pequeno garoto.
Ver a saída daquele prédio fez com que retomasse um pouco das energias até agora escassas e criasse um pouco mais de esperança para conseguir escapar daquele lugar.
Ao correr para o lado de fora, para o meio de uma avenida igualmente empoeirada e repleta de destruição, Maia tenta respirar, mas com muita dificuldade, pois o cheiro de poeira, cinzas e carne humana queimada era ainda mais forte ao ar livre, impedindo-a de puxar o ar para os pulmões propriamente.
O céu estava repleto de luzes, como um crepúsculo psicodélico de laranja, vermelho e roxo, e bolas de fogo gigantescas cruzando o céu em direção ao solo. Neste instante, Maia percebe que não está em sua cidade, mas em algum outro lugar aonde nunca Estée, e que este lugar logo chegaria ao fim, pois aquele não parecia ser um cenário de guerra ou um acidente natural, mas o real fim daquele mundo.
Ainda com o garotinho nos braços, o terror toma conta de todo o ambiente e Maia cai de joelhos no asfalto e, de olhos fechados, se curva sobre a criança e começa a gritar.
...
Neste instante, Maia ouve uma voz familiar.
Notas finais
Espero que tenham gostado.
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