Onward
1 Único
Notas iniciais
Genética, a pulsação da hereditariedade, o eixo da família. Os pais suprem seus filhos com os mesmos fundamentos básicos da construção do ser humano, os mesmos tipos sanguíneos, a mesma e essencial cadeia genética. Apesar deste incrível potencial de similaridade, às vezes as coisas ficam confusas, às vezes a mãe natureza com todo seu senso de humor irônico, cria seres completamente opostos. Como eu e meu irmão James.
Na primeira vez que batemos os olhos um no outro tivemos aquele instinto natural de irmãos, um vínculo bem pegajoso... Só brigávamos. Na infância brigávamos de socos, na adolescência brigávamos em palavras.
Estava no banheiro lavando meu rosto quando James entrou sem pedir licença e começou a escovar seus dentes no mesmo espaço e tempo em que eu ocupava. Normalmente não me importava, estava acostumado a isso. Mas já tenho dezesseis anos e aprendi a revidar as sucessivas tentativas dele de me colocar como alguém inferior ou simplesmente esquecível.
— Dá pra tentar deixar a pasta dentro de sua boca!? – retruquei observando a espuma cair mais para fora que para dentro de seus lábios.
Ele me olhou abriu a boca e deixou que a espuma escorresse por todo seu rosto só para implicar comigo.
Não dava para acreditar que tínhamos habitado o mesmo útero, nem que nossa linhagem genética era a mesma.
Por fim, encheu a boca de espuma e cuspiu, não na pia, mas sim em minha direção. Sua pontaria foi certeira em meu sapato.
— Ops... – exclamou observando meu rosto zangado. – Erro de pontaria maninho.
A única coisa que tínhamos em comum era o desprezo que sentíamos um pelo outro.
— James! Estou te esperando! Vamos! – minha mãe apareceu na porta e decidi não dedurá-lo. Se Ginevra Weasley Potter sonhar com outra briga nossa é capaz de nos expulsar de casa na mesma hora. – Você sabe que eu e seu pai vamos viajar a noite, não posso enrolar.
James suspirou quando ela o apressou e saiu do banheiro. Já fazia um ano que havia terminado Hogwarts e ainda não tinha encontrado emprego algum. Minha mãe estava o levando ao Profeta Diário para tentar uma vaga de fotógrafo, já que escritor estava fora de questão com ele.
James não trabalhava, parecia não se importar para arranjar um emprego sequer, além de não parar com namorada nenhuma, ouvia sempre minha mãe ralhar com ele de que precisava arranjar um rumo em sua vida e que eles não o sustentariam para sempre. Meu pai tentava apaziguar as coisas, mas a opinião da minha mãe era sempre soberana.
— Aquele seu amigo Malfoy está no telefone. – Lily me chamou.
Diferente de mim, James tinha um relacionamento bom com minha irmã menor. Lily era intensa, falava pelos cotovelos, exalava amor em cada lugar que passava, mas também era uma rocha e James não se metia com ela como fazia comigo. Na verdade ele a protegia mais do que eu a protegia.
— Fale Scorpius. – mal relei no telefone e já escutei meu melhor amigo se lamentar do outro lado da linha.
— As férias começaram não faz nem doze horas e já querem me mandar pra mansão de meus avós. Preciso de sua ajuda!
Scorpius era dramático, mas até que entendia seu lado, seus avós Malfoys eram horríveis.
— Vem aqui em casa, podíamos chamar a Rose e assistir um filme na TV.
— Não Al, seria como em Hogwarts quando estávamos entediados jogando xadrez, precisamos de algo diferente.
— Tipo o que? Quadribol nos jardins de meus avós? Posso chamar meus primos e…
— Não quadribol. Já temos 16 anos, podemos chamar o Ralf e o Newt e jogarmos snap explosivo.
— Snap explosivo? – Scorpius e suas vontades de jogos de criança.
— Sim, mas com bebida alcoólica! Quem perde as rodadas precisa tomar um shot em um gole só de whisky de fogo.
Era uma ótima ideia, admito, tiraríamos o tédio que 12 horas de férias tinham nos proporcionado. Mas…
— Está maluco Scorpius? Temos 16 anos, mas ainda moramos com nossos pais, e acho que em nenhum lugar eles irão nos deixar beber.
— Sim, esse é o problema, acho que minha mãe não se importaria muito, mas…
Olhei ao redor e lembrei de repente de um compromisso de meus pais que tinha apagado momentaneamente da minha memória.
— Meus pais não estarão em casa essa noite. Eles têm um casamento na praia de uma das amigas da minha mãe do trabalho. Lily vai porque será florista. Mas eu e James não vamos e bom... Se for só nós quatro... O James nunca fica em casa de sexta a noite mesmo.
— Maravilha! Aviso os dois por carta e aparecemos na sua casa às nove.
— Se algo der errado te aviso! Só chame os dois! Minha mãe me mata se descobre que chamei vocês para beberem em casa, imagina se tiver mais pessoas.
— Só nós três. Fica tranquilo.
Desliguei o telefone, isso eu tinha controle, sei onde pisar com meus amigos e minha mãe confia em mim, sou o filho responsável. Não sou irresponsável como meu irmão.
Mais tarde ouvi minha mãe chegar em casa com ele, furiosa do pior jeito que Gina Weasley Potter poderia ficar.
— Você é um irresponsável. Custava aceitar o emprego?
— Eu não quero trabalhar como fotógrafo, quantas vezes preciso te dizer isso?
James parecia estar cansado, mas veja, entendo minha mãe, ele nunca se esforça e não demonstra interesse nenhum em fazer algo útil.
— Era só um emprego, para não ficar sem fazer nada o dia inteiro como anda fazendo nesse ano inteiro que passou. Seu pai já tinha arranjado outro emprego para você que recusou... Sinceramente eu desisto e lavo minhas mãos.
James suspirou ao ver minha mãe saindo da sala. Parecia exausto. Me encarou o observando e mostrou o dedo do meio para mim.
Continuava a ser ele afinal.
À noite meus pais já tinham organizado toda a bagagem e estavam na frente da lareira prontos para partirem.
— Tem comida congelada na geladeira... – minha mãe começou.
— O número do hotel está na porta, qualquer coisa liguem ou nos chamem pela lareira. – orientou meu pai.
— Ficaremos só uma noite fora. Não se matem.
Minha mãe sabia que eu e meu irmão nos amávamos.
— Harry acho que vou pedir pro Ron e a Hermione virem ver se está tudo bem amanhã cedo.
— Não há necessidade mãe, cuido do Albus. – James me abraçou pelo ombro e esfregou meu cabelo com os nós dos dedos dele. Automaticamente dei um passo para o lado para escapar dessa demonstração de afeto calorosa.
— Fique tranquila mãe, vamos ficar bem... – apressei em tranquilizá-la e garantir minha noite de adolescente que bebe escondido dos pais.
— Número dos bombeiros, ambulância e polícia trouxa também está pregado na geladeira para emergências. – meu pai sempre preocupado com nossa segurança voltou a falar. – Qualquer coisa ligue para seus tios. – olhou diretamente para mim.
Sacudi afirmativamente a cabeça concordando.
— Bom então vamos... – minha mãe já estava se encaminhando para a lareira com malas e Lily quando James pigarreou e esticou a palma de sua mão.
— Nenhum dinheiro para nós?
Meu pai olhou cúmplice para minha mãe, mas abriu sua carteira e tirou de lá notas de dinheiro bruxo e de dinheiro trouxa.
— 30 galeões e 30 libras. Usem com consciência. E dividam!
James se apressou a pegar todo o dinheiro da mão dele e a guardar no seu bolso.
— Certeza que vão ficar bem? – minha mãe perguntou diretamente para mim claramente preocupada.
— Claro mãe. – a tranquilizei pela segunda vez. – Divirtam-se.
— E não façam nada que eu não faria. – James deu uma risada e uma piscadela a eles.
Enfim desapareceram nas chamas verdes da lareira. James pegou a chave de sua moto na estante da sala e se encaminhou para a porta.
— Não me espere babaca.
Normalmente não me importava para onde ele iria, na verdade estava dando graças aos céus dele estar saindo e deixando a casa totalmente livre para mim, mas ele levava consigo algo que me interessava.
— Minha parte no dinheiro que papai entregou. – estiquei minha mão direita em direção a ele.
James simplesmente olhou a palma de minha mão esticada e deu dê ombros.
— Infelizmente papai só deu notas altas e estou sem troco.
Ah! Ele não ia sair com todo dinheiro. Não ia mesmo, nem que eu tivesse que usar magia para arrancar de suas mãos e me encrencasse por usar magia fora da escola.
Acho que ele percebeu que eu não ia desistir fácil e tirou duas notas de seu bolso.
— Estou sem troco, mas tenho 10 libras trocadas para você. É pegar ou largar.
Por que acho que ele já tinha essas notas guardadas há tempos para momentos como esse?
Peguei da mão dele antes que desistisse e eu ficasse sem dinheiro algum. Com o James era assim, eu tinha que aprender a ganhar perdendo.
— Não me espere acordado querido! – e enfim ele saiu porta afora com sua moto. A moto que tinha ganhado de meu pai quando fez 17 anos. A moto do padrinho de meu pai, Sirius.
Ok! Eu tinha certo tempo para comprar uns snacks e umas cervejas trouxas. Eles iam trazer também. Fui ao mercado perto de casa e comprei o máximo que consegui com 10 libras mais 10 que tinha guardado. Organizei nosso porão da melhor maneira que encontrei. Uma mesa com cinco cadeiras – deixei uma a mais – esperei o horário em que havia marcado com Scorpius.
Por um motivo estranho, estava ansioso, como se fosse ter um encontro, não como se fosse ver meus colegas como fiz dias atrás em Hogwarts. Era como se tivesse fazendo algo proibido. De fato, se minha mãe soubesse que estava recebendo adolescentes em casa menores de idade para beberem bebidas alcoólicas, não ficaria feliz. Com certeza diria que isso não era algo que eu faria. Mas sim James.
Mas nada estava fora do meu controle. Meus amigos chegaram na hora marcada. Scorpius trouxe uma pizza. Vantagens de ter uma prima que o introduziu as comidas trouxas.
Logo estávamos sentados em círculo na mesa nos encarando como numa guerra, tentando adivinhar as próximas jogadas dos adversários e comendo pizza com cerveja.
— Ande logo Ralf. – Scorpius suspirou impaciente. Fazia pelo menos cinco minutos que Ralf pensava o que faria na sua vez de jogar.
— Estou pensando. – se concentrava olhando seu baralho como se a resposta surgisse no ar.
Estava observando meus três amigos. Completamente à vontade no porão. A mesa da minha mãe estava cheia de marcas de queijo e copo molhado. Conhecia Ginevra Weasley Potter o suficiente para saber que ela notaria qualquer mancha fora do comum naquela mesa.
— Dá pra colocar seu copo em cima do guardanapo de papel!? – ralhei com Newt, o mais desastrado de todos.
— Ok, eu desisto. – Ralf virou sua carta de cabeça para baixo na mesa e Scorpius explodiu.
— Sete minutos! Sete minutos da minha vida perdidos para você pensar na próxima jogada, para nada?
Explodiu tanto que seu copo virou, molhando toda mesa e por conseguinte o carpete.
— Caramba Scorpius! Dá pra prestar atenção no que está fazendo!?
— Desculpe senhora Potter. – ele levantou as mãos no ar como se estivesse se rendendo. – Quer saber? Essa noite está mais entediante do que aula do Binns.
— Nossa está mesmo. – reiterou Newt.
— Acho estudar na sala comunal mais interessante que isso. – Terminou Ralf.
Bufei nervoso com os três. Tudo bem, a noite de fato estava sendo um completo fracasso. Tentava imaginar o que meu irmão faria numa situação dessa. Bom, com certeza uma noitada de James Potter não tinha nada a ver com snap explosivo no porão.
— Em primeiro lugar, quem teve essa ideia foi o Scorpius, eu só cedi a casa. Não tenho culpa.
— Não precisamos achar um culpado. – Scorpius me defendeu, ao mesmo tempo em que se defendia. – Precisamos achar uma solução para essa noite de monotonia.
Foi um segundo pensando, para enfim Ralf dizer em voz alta o que mais temia.
— E se convidássemos mais pessoas para virem?
Ok! Era uma brilhante/péssima ideia para acabar com o tédio.
— Só pode estar brincando Ralf... – Scorpius começou, pelo menos não eu precisaria acabar com essa ideia maluca deles, meu melhor amigo traria a razão para a discussão. – Quem toparia vir para uma festa nove da noite? Está muito em cima da hora.
Ok! Meu melhor amigo, a voz da razão, estava completamente sem razão.
— Conheço algumas pessoas que conhecem outras... Bom…
Engoli em seco diante da resposta de Newt, logo imaginei a casa lotada e minha mãe percebendo cada micro detalhe fora do lugar quando voltasse de viagem.
— Caras, não é melhor a gente só... Terminar de beber e ver algum filme na televisão? Tem um de terror que acabou de lançar que ainda não assisti e aposto que vocês…
— Comecem a se mexer! — animou-se Scorpius.
Aparentemente ninguém me ouvia e comecei a suar frio ouvindo eles discarem vários números chamando várias pessoas para virem à minha casa. Na casa de meus pais. Na casa de meus pais...Na casa de meus pais. Esse pensamento me assombrava o tempo todo.
— Limites! Um convidado para cada e só. – me impus. Tinha que mostrar quem mandava ali.
— Relaxa Al, está tudo sob controle. – Scorpius colocou a mão em meu ombro me dando apoio e dando a entender que estava mesmo tudo sob controle.
A campainha começou a tocar meia hora depois. Alice Longbottom apareceu na porta e sorri ao vê-la.
— Oi Al. – Ok! Por um mísero momento esqueci meu desespero. Atrás dela apareceram milhares de jovens, pareciam não ter mais de dezessete anos. Voltei a me desesperar. – Fique tranquilo, é só minha prima e seu namorado, seu irmão e seu amigo com o namorado. Achei que não tinha problema.
Abri a boca sem saber o que dizer. Minha garganta estava seca, as palavras simplesmente não se formavam mais.
— Ei Alice, entre. Quanto mais gente melhor. – Scorpius fez as honras de deixar o mundo inteiro entrar na casa de meus pais.
Scorpius Melhor Amigo Traidor Malfoy me olhou assustado. Me deu um tapinha nas costas.
— É melhor tirar essa carranca, chamei a Alice por causa de você. Quem sabe hoje você tira a teia de aranha de sua boca.
— Sinceramente está acabando com minha vida. Viu a quantidade de pessoas que ela trouxe? Sabe o que isso significa? – com certeza olhei apavorado para ele. Scorpius limitou-se a dar um tapinha em meu ombro.
— Deixe de ser careta. Precisa pensar mais como seu irmão James. Ele sim saberia fazer uma festa decente.
Ser comparado com meu irmão não era algo que eu gostava. Nunca gostei. Desde que entrei em Hogwarts, não era conhecido como filho do meio de Harry Potter, ou o primeiro Potter a ir para a sonserina, mas sim como o irmão de James. No começo os professores me olhavam torto, achando que eu aprontava como ele nas aulas, os demais alunos achavam que eu seria como ele, extrovertido ao ponto de entrar para o time de quadribol no primeiro ano, como ele fez. Mas com o tempo, viram que sou o completo oposto.
Para mim, ser o completo oposto dele é algo que me traz paz, como se fosse um elogio. Mas no momento, ser comparado a ele quanto a festa e ser careta, só me irritava.
Resolvi engolir meu orgulho.
— Tudo bem... – as palavras queimaram ao sair da minha boca.
Scorpius saiu do meu lado e vi entrando minha prima Rose, meu primo Loius com seus amigos trouxas que trouxeram mais amigos trouxas, e pasmem. Trouxas que passavam pela rua e perceberam a luz acesa e o som alto e simplesmente perguntaram para mim:
— Está rolando uma festa?
Não consegui nem pensar numa resposta. Eles simplesmente entraram em casa. Decidi fechar a porta, foi quando ouvi um vaso quebrar. Enquanto recolhia os cacos e imaginava como consertaria aquilo sem magia, em meio a pessoas dançando, bebendo e cantando, ouvi a campainha voltar a tocar.
Nessa altura do campeonato minha pequena reunião para tirar o tédio que um dia sem Hogwarts havia proporcionado, tinha virado um evento.
Ao mesmo tempo em que olhava todos os cômodos da casa lotados de gente, com bebidas frequentemente derrubadas, cacos de vidro, manchas de salgadinhos no sofá, pessoas se beijando na escada, banheiro congestionado, vômito no chão da cozinha, cheiro de cigarro no porão. Dizia a mim mesmo que tudo estava sob controle, ao mesmo tempo em que recolhia toda sujeira que encontrava pela frente.
— Albus! Albus! – Scorpius veio em minha direção sorrindo, de orelha a orelha. – Melhor festa! Rose finalmente confessou que gosta de mim!
— Melhor festa? Melhor festa? Sabe o que minha mãe fará comigo se descobrir o que aconteceu?
Estava tão nervoso, que minha vontade era lhe dar um soco, por ser ele o primeiro responsável por aquilo acontecer, se sobressaia.
— Relaxe, eu te ajudo depois. Não é como se sua mãe fosse chegar daqui duas horas.
Então a lei de Murphy acontece. Anos de reputação arruinados em uma noite. O telefone tocou.
Ao mesmo tempo, várias pessoas olharam pra mim complacentes com o desastre iminente.
Olhei meu celular e o nome “Mãe” quase me causou um ataque cardíaco.
— TODO MUNDO EM SILÊNCIO! NÃO ABRAM A BOCA.
Como um milagre, todos me obedeceram. A música alta cessou. Pareciam entender exatamente o que estava acontecendo comigo. Como se já tivessem vivido aquilo antes.
— Al como vocês estão? Ligo pro James e ele não atende. – dava pra sentir a raiva na voz da minha mãe longe dali.
— Tudo ótimo mãe…
— O que estão fazendo?
— Assistindo um filme de terror, ele me xingando de frouxo por sair no meio do filme para atender seu telefonema. Ah e comendo pizza.
Era horrível mentir para minha mãe, mesmo por telefone, me perguntava se ela não sabia que era mentira pelas vibrações das minhas cordas vocais ou se era possível ela usar de legimência mesmo por telefone.
— Hum... – Óbvio que ela não acreditou. – De qualquer forma só te liguei para avisar que o casamento foi suspenso. Estamos cancelando nossa estadia no hotel e assim que resolvermos toda papelada voltamos para casa, hoje mesmo.
— Hoje mesmo? – minha voz saiu fina de terror. Eu sentia minha mão tremer de pânico. – Que bom…
— Não precisa nos esperar acordado. Sei que está tarde. Só queria checar se estava tudo bem... Até mais.
Não consegui lhe responder. Desliguei o celular e deixei que o aparelho caísse no chão.
— Meus pais estão chegando!
Como se fosse uma senha para sair correndo da casa sem prestar ajuda. Todos começaram a correr para a porta.
— Não! Vocês precisam me ajudar a arrumar a casa!
Comecei a correr meus olhos por todos os cômodos, mais apavorado que nunca, precisava encontrar alguém para me ajudar. Achei uma cabeleira loira debaixo da escada beijando minha prima.
— Isso é hora? Estou no meio de uma explosão nuclear. Preciso da ajuda de vocês!
Não queria ser insensível com eles, anos esperando para que finalmente esses dois se acertassem e ficassem juntos. Mas agora não era hora.
Scorpius, num sacrifício enorme, desgrudou seus lábios dos de Rose e me olhou com o rosto completamente vermelho.
— Desculpe, mas era agora ou nunca.
Rose evitava me encarar, mas eu podia ver suas orelhas vermelhas na penumbra.
— Só dá pra vocês segurarem uma vassoura e me ajudarem a recolher o lixo?
— É claro.
Rose prontamente começou a me ajudar arrastando Scorpius consigo. Era nós três lutando contra o relógio. Eu só queria ter um vira-tempo. Ou poder usar magia fora da escola para organizar tudo simplesmente sacudindo a varinha. Fazia dez minutos que esfregavamos o chão. Estranho que não eram as marcas de cigarro ou as manchas de cerveja no tapete que me preocupavam.
Ouvi a moto de James estacionar na garagem. Enfim, alguém que podia usar magia pois já era de maior, ao mesmo tempo sentia que ele não faria isso.
— Ei panaca, ainda acordado? – James parou na porta e observou o caos, nos meus olhos, e na casa toda. – Meu Deus! – ele começou a rir, rir não gargalhar. – O que aconteceu?
Certo, ele estava ali para piorar tudo. Nunca para me ajudar.
— Cale a boca! – parei de o olhar e voltei a concentrar na mancha de molho de tomate que não saia do sofá.
James observava tudo, inclusive Scorpius e Rose que recolhiam o lixo que minha casa havia se transformado em menos de uma hora de festa clandestina.
— Isso é tão irônico. Imagine mamãe chegando e brigando com você: “Nunca esperei essa atitude vinda de você Albus. Um mês de castigo!”— Ele me deu um tapa no rosto para chamar minha atenção a ele. – Ela vai te matar.
James continuou a rir. Não restava nada a fazer, a não ser tentar ter uma conversa decente com meu irmão mais velho para enfim o convencer a me ajudar.
— Se fosse com você o que faria?
— Eu? – apontou a si mesmo, ao mesmo tempo que tirava um chiclete recém grudado na estante da sala. – Eu sentaria num canto e choraria. Você conhece dona Ginevra Weasley Potter não conhece?
Foi o ultimato para que Rose e Scorpius se tocassem que estavam me ajudando à toa.
— Al eu preciso ir. Meu pai não pode nem sonhar que não estou em casa.
— Eu vou acompanhá-la…
Não consegui me despedir de meus amigos traíras. Só os observei saírem rua afora de mãos dadas. Nem um pouco preocupados com meu funeral que certamente se seguiria.
Sentei no sofá exausto, com uma vontade louca de chorar de ódio e desespero.
— James, você precisa me ajudar. Pode fazer magia, pode consertar tudo o que estiver quebrado e as outras coisas eu dou um jeito…
— É um plano perfeito. Pena que não posso entrar. Tenho um compromisso inadiável. – ele ergueu seus braços no ar se espreguiçando ao mesmo tempo que bocejava. – Preciso dormir.
Foi aí que percebi que meu irmão, James Potter, sangue do meu sangue, tinha um coração de pedra.
— Ótimo. Se não quer me ajudar, faço tudo sozinho. – Não precisava dele afinal. Não precisava de ninguém.
E assim ele virou as costas para mim em direção ao seu quarto, o fogo verde da lareira de casa se acendeu e meus pais com minha irmã mais nova surgiram em minha frente.
Talvez só precisasse de alguém para me abençoar quando fizesse a passagem para a morte que se seguiria.
— Mãe! Pai! – James correu para abraçá-los. – Tão bom ver vocês mais cedo em casa.
Podia ver meu fim, sem a luz no fim do túnel, o fim trágico a confiança materna e paterna no filho mais responsável que tiveram.
Minha mãe começou a passar os olhos ao redor da sala, sob as manchas no carpete, os vasos e porta-retratos quebrados, as queimaduras de cigarro na madeira da mesa de centro. Meu pai fazia o mesmo, não com a mesma precisão que minha mãe, mas com a mesma atenção. Lily começou a dar risada. Deveria estar feliz de ter um irmão a menos para dividir a herança da família.
De fato estou preparado. Pode vir grito, ranger dos dentes, castigos e decepções transpassadas em rostos que eu tanto respeitava.
Enquanto minha mãe pegava caco por caco eu esperei tudo. Menos:
— Eu não acredito no que estou vendo. – meu pai falou com a voz mais decepcionada que já ouvi sair da boca dele.
— Só pode ser brincadeira. – a voz da minha mãe não era de decepção, mas sim de raiva.
Não havia saída afinal.
— Mãe, pai... Sei que estão bravos, e estão com total razão em estar bravos... Mas…
— Albus, fique fora disso... – meu pai disse apontando o dedo para mim.
— James! Como conseguiu fazer isso? Como transformou minha casa num cenário de guerra em menos de uma noite?
— O que? – eu e James dissemos ao mesmo tempo.
Meu irmão me olhou, eu automaticamente neguei com a cabeça.
— Não, mãe, pai…
— James, sua mãe te fez uma pergunta e é melhor responder agora!
Veja bem, meu pai nunca ficava bravo, a não ser em certas ocasiões, como aquela…
James balançou a cabeça em negativa diante de tudo o que estava acontecendo, olhou pra mim e engoliu em seco. É claro que ele ia me dedurar. Afinal era meu irmão, sangue do meu sangue, o coração de pedra, meu completo oposto. Aquele era o momento no qual ele havia esperado a vida toda, jogar na cara de meus pais que eu não era o filho perfeito.
— Desculpe. Não vai mais acontecer.
Ele não contou... Virei meu rosto espantado para ele.
— Eu só queria fazer uma festa de despedida…
— Você destruiu minha casa e só pede desculpas... – minha mãe não aliviaria para ele afinal. – Festa de despedida de que? De vida? Porque com certeza imaginou sua morte após fazer isso!
Gina Weasley Potter sabia ser incisiva quando queria.
— Me alistei para o exército trouxa do governo inglês. Aparentemente não serei um completo desperdício para vocês.
Então ele saiu da sala, deixando todos assustados com suas últimas palavras. Não sabia exatamente o que significava alistamento em exército. Mas meus pais pareciam preocupados, deixaram tudo para trás e foram atrás dele no quarto.
Eu não sei exatamente o que aconteceu naquela noite. Não sei porque James mentiu, talvez porque soubesse que meus pais seriam mais duros comigo do que com ele, talvez estivesse acostumado a levar castigos e broncas, talvez só quisesse desabafar e chamar atenção para si de que não era simplesmente o filho irresponsável.
No fim, arrumei a casa sozinho, o máximo que consegui, tentei o tempo todo ouvir a conversa de meus pais com ele em seu quarto. Parecia importante e séria. Fiquei imaginando se em algum momento estaria contando a verdade da festa para eles. Horas depois minha mãe saiu do quarto chorando.
Era mais grave do que imaginava. Decidi ir até seu quarto, o observei sentado na cama, brincava com a chave de sua moto, jogava ela no ar e a pegava de volta, como se nada tivesse acontecido.
— Você é um completo amador em fazer festas, sabia? – levantou da cama e chegou perto do batente da porta na qual eu estava. – Talvez um dia te ensine minhas técnicas. Mas por hora!
E então ele bateu a porta na minha cara. Sem conversas amigáveis, sem agradecimentos ou um abraço, ou uma conversa sobre sua profissão futura. James continuou a ser o mesmo James que sempre foi comigo.
Duas semanas haviam se passado e eu continuava a observar os movimentos de casa. Minha mãe triste e mais nervosa que o normal pelos cantos, meu pai conversando mais que o normal com meu irmão. Lhe mostrava fotos, lhe mostrava lembranças na penseira que ele não mostrava a mais ninguém. Um novo mundo se abria em minha frente e eu não sabia o que pensar ou como agir.
Certo dia, James anunciou que partiria no dia seguinte para seu alistamento no exército. Para seu suposto emprego que fazia minha mãe chorar e meu pai remexer em lembranças intocáveis. Sabendo que ele partiria no dia seguinte, tomei uma atitude silenciosa. Como um agradecimento mudo para o que ele havia feito comigo dias atrás.
Lavei sua moto.
Irmãos como eu e James são como uma página em branco, às vezes estranhos, às vezes óbvios, às vezes inimigos, às vezes amigos. Eu nunca agradeci com palavras o que meu irmão fez por mim. Talvez nunca entenda o que ele está fazendo por nossa família ao escolher a profissão que escolheu. A única certeza que tenho, é que depois daquele dia, James e eu cruzamos a linha tênue da nossa relação perturbada e percebemos que temos mais coisas em comum do que supomos imaginar.
Fale com o autor