Only if for a Night
3 Capitulo 3
Notas iniciais
Era reconfortante acordar na sua cama macia. Kate virou de um lado para o outro desejando voltar a dormir por mais alguns minutos. Infelizmente o sol penetrava insistente pela persiana do quarto e aquilo era o suficiente para irritar seus olhos. Trocou de posição e sentiu o corpo doer. Puxou a coberta com violência e viu que estava de camisola, limpa e com... Com um hematoma roxo na perna.
Levantou no instante em que se lembrou do que tinha acontecido na trilha. Sua perna ao pisar no chão não suportou o peso e cedeu. Caiu de joelho em um baque intenso que não doeu tanto quanto ela esperava. Seria um sonho ou ela realmente passou por aquilo?
Kate lembrava muito nitidamente dos homens, de como estavam vestidos e de seus olhos ferozes. Em geral, nos sonhos nunca conseguimos enxergar nitidamente o rosto das pessoas, nunca memorizar suas expressões. Mas ela se lembrava das sobrancelhas curvadas e de lábios contraídos de dor. Lembrava-se de tudo.
Levantou e desceu as escadas aos tropeços. Só parou e respirou aliviada quando viu sua mãe fazendo seu café, como sempre fazia todo dia de manhã. Kate se sentou a mesa para ouvir sua mãe, era nesses momentos em que ela mais gostava de falar e Kate ouvia, porque era tudo o que ela precisava: alguém para ouvi-la.
–Não queria te esconder sobre eu ter saído do meu emprego, Bill me disse que você passou mal, sinto muito por isso. -disse Andrea mexendo uma colher na xicara de café. – Bill é uma excelente pessoa e eu acho que...
Kate se desligou de sua mãe, às vezes era automático e outras intencional. Ela tinha essa habilidade de se distrair com pequenas coisas, como com a torneira pingando ou o som de bater de bolas na calçada. Deixou que sua mente vagasse para o que aconteceu na trilha, era difícil saber quando todas as lembranças pareciam estar se borrando. A sensação era de derramar agua em um desenho perfeito e vê-lo embaçar até se tornar um papel sujo.
–... Então Josh saiu. -finalizou sua mãe. Kate nem havia percebido que ela tinha se sentando na sua frente e bebericava o café enquanto a observava. — Kate, esta tudo bem? Hoje eu acordei e você não estava no quarto, você está tomando os remédios?
Foi como levar um tapa no rosto com força. Então ela realmente esteve fora de casa essa manhã?
–Fui dar uma volta. -respondeu sem entusiasmo se servindo de um pouco de café. — Você disse algo sobre Josh?
Ela lhe lançou um olhar preocupado, mas não prolongou o assunto quando respondeu:
–Sim, ele esteve aqui há algumas horas atrás, não sei por que não bateu na porta, estava diferente, mas o reconheci porque observava a janela do seu quarto.
Seu coração pulsava tão desesperado que era possível senti-lo contra o peito. Seu ouvidos se encheram o barulho dos seus batimentos e sua mente com essa visita do Josh.
–Eu acho que ele está precisando de uma amiga. –disse Andrea tomando mais um gole do café. – Da Kate que quebrou o braço dele com oito anos, e a mesma que foi capaz de brigar com meninos na escola aos doze anos para defendê-lo.
Kate respirou fundo sorrindo ao ver que sua mãe tinha injetado boas lembranças da sua cabeça. Agora, ela só conseguia se lembrar dos bons momentos vividos com Josh. De como ele sempre esteve com ela e como agora, ela precisa estar com ele mais uma vez.
–Eu sei. –foi tudo o que Kate disse na esperança que suas palavras não interrompessem as boas lembranças.
(...)
Precisou bater na porta apenas uma vez, antes que Josh abrisse. Ele estava com o cabelo bagunçado de um jeito engraçado e com o sono estampado no rosto. Passou a mão do rosto algumas vezes irritado com a luz entrando nos olhos. Pelo silencio atrás dele, era de se supor que a mãe dele não estava em casa.
–Não queria te acordar. -Kate batia o pé no chão em um som ritmado sentindo uma tensão estranha. — Soube que você foi me ver.
–Eu não fui te ver. -respondeu ele com uma secura na voz desnecessária. – Cheguei da viagem de madrugada, minha mãe ficou para resolver algumas papeladas.
–Ah claro, ela deve ter se enganado. –respondeu sentindo a apreensão na própria voz. Se não era ele, então quem? – Josh, seu pai ele... Ele está bem?
Josh olhou para um lado da rua depois para outro. Aquilo está deixando Kate ansiosa, seu pé direito continuava cada vez mais intenso e era quase impossível conter a perna tremendo.
–Ele vai voltar para a cidade essa noite. –respondeu ele depois de um longo tempo. – Vão tirar a suspensão dele, e então ele vai voltar a trabalhar na cidade como policial.
Estava ai uma coisa que surpreendeu muito Kate. O pai de Josh, Marcus, era um cara muito arrogante que de alguma maneira, que a família dele preferia esconder, foi suspenso das suas atividades como policial na cidade e transferido para o Canadá para problemas burocráticos em uma Federal por lá. Pelo menos, essa era a historia que Mary contava a todos, já que ele viajava por longos períodos sem noticia.
–Isso é realmente uma droga. –murmurou Kate, sabendo que Josh também não gostava dele. Por motivos óbvios, Marcus era um machista estúpido. Muitos boatos dizem que ele batia na mulher há muito tempo atrás. Nada comprovado. Kate tinha uma leve suspeita que isso se devesse porque ele fazia parte da policia.
–Pelo menos ele vai estar ocupado na policia, parece que há bastantes casos para resolver nessa cidade. –comentou Josh indiferente.
Kate assentiu, havia muito mais por trás dos panos que colocavam nessa cidade. Incluindo assassinados, casos sem explicação lógicas, estupros, suicídios em uma maça até mesmo recorde para um lugar tão pequeno.
Kate encarou Josh. A respiração dele estava intensa, mas o que mais a incomodava era os batimentos dele. Estavam tão intensos que ela poderia... Bater o pé no ritmo. Percebeu que sua inquietude no pé, vinha no ritmo dos batimentos de Josh alterando de acordo com o nervosismo dele.
Ao se concentrar Kate passou a ouvir outros sons que se sobrepunham uns aos outros. Olhou para o lado e viu um garoto de uns dez anos mascando chiclete enquanto levava seu cachorro para passear, o barulho de mascar daquela borracha rangia devagar. Kate se encolheu ao ouvir um homem velho tossir, e o arfar sufocante dele penetrar cortando seus ouvidos.
–O que foi? -Josh tentou chamar atenção balançando a mão na frente do rosto de Kate. – Precisa da sua bombinha? Você a trouxe?
–Eu não sei. -Kate não sabia se havia gritado ou apenas sussurrado. Todos os sons cada vez mais altos e irritantes. Agora nem mesmo a batida do coração de Josh parecia tão forte quanto o cortador de grama da vizinha da frente. – Josh! Você pode, por favor, respirar mais baixo?
Os sons se misturavam. Gritos, conversas, sussurros. Kate fechou seus olhos com força sentindo seus batimentos na cabeça. Josh a agarrou pelos braços e com a voz distante pedia coisas como: "Olhe para mim! Você esqueceu sua bombinha, mas tudo bem, você pode respirar!". Kate balançava a cabeça de um lado para o outro negando tudo, até as palavras de Josh.
–Kate. -uma mão quente, porém reconfortante lhe tocou o ombro. — Acalme-se e respire devagar.
A voz lhe trouxe um fulgor estranho, uma sensação de tranquilidade e ao mesmo tempo proteção. Veio como uma onda de tranquilizantes. Gradativamente os sons iam abaixando o volume. O mundo silenciando a cada golfada de ar.
Kate abriu os olhos e virou-se para a figura que ainda mantinha a mão em seu ombro. Aquele rosto lhe era familiar, como uma lembrança que dói quando pensamos nela. Lembrou-se da trilha, das montanhas, dos lobos...
–Oi, sou Charles. -ele estendeu a mão em um cumprimento firme com Josh. — Eu e Kate nos conhecemos fazendo trilhas.
Josh encarou Kate em busca de uma explicação, estava claramente confuso. Kate tirou a mão de Charles do seu ombro sentindo o corpo tremer com o toque.
–O que você esta fazendo aqui? -foi o máximo que Kate conseguiu dizer arfando.
–Acabei de sair da sua casa e sua mãe me disse que poderia encontra-la aqui, aliás, muito simpática ele. -explicou Charles exibindo um sorriso arrepiante. — Nos precisamos conversar Kate... A sós.
Um psicopata. Kate estava sendo perseguida por um louco. Ela poderia ter sido estuprada sem nem se lembrar, afinal quem pós a camisola nela?
–Não. –respondeu Kate com a maior firmeza que pode. – Não temos o que conversar.
–Vamos lá Kate... –insistiu ele se aproximando dela. – Eu sei a verdadeira historia de como John morreu e você nem quer ouvir?
Uma tentação, ela devia assumir. Seu pai deveria ser seu ponto fraco em tudo. Havia algo tão misterioso em volta de John, tão tentador a uma jovem curiosa como Kate. Além disso, a morte de seu pai pareceu banal demais, tudo bem que ele era alcoólatra e pessoas bêbadas que dirigem morrem todos os dias. Mas se sua mãe estivesse mentindo mais uma vez? E melhor, se Andrea havia dito aquele estranho onde Kate estava ela de algum jeito confiou nele. Kate viu esse tal Charles se transformar em um lobo, na verdade não viu, mas sabe no fundo que se tratam da mesma pessoa. E até para uma mente perturbada como a dela, certas coisas como isso são surreais demais.
–Vamos dar uma volta na praça. –disse ela por fim.
Charles sorriu e se virou para caminhar tranquilo na frente. Antes que Kate o seguisse Josh a segurou pelo braço a repreendendo.
–Está tudo bem. –falou Kate se soltando devagar de Josh. – Ele conhece a minha família.
(...)
Caminhavam pela praça devagar e lado a lado. Nos brinquedos do lugar, as crianças se divertiam com suas famílias. Era um dia bonito e aparentemente normal para algumas pessoas. Kate apenas não conseguia lidar com os fatos que iam explodindo na sua vida em sequencia.
–Você esta bem? -disse ele iniciando a conversa. –
–Quando você diz bem, quer dizer não estar ouvindo sons além do necessário? –perguntou ela enfiando as boas no bolso da blusa. Charles deu de ombros como se não fosse apenas essa a pergunta. – Eu acho que estou bem. Veja, eu quebrei a perna e a única coisa que me faz lembrar que isso um dia aconteceu é um hematoma roxo, cortei minha cabeça e nem ao menos o local dói, ouvi sons que as pessoas geralmente não ouvem... Posso conviver com a minha loucura diária, não com isso, então por que você não me conta se eu estou bem?
–Você está ótima. –disse ele com total certeza na voz, mas sem olha-la diretamente- Não poderia estar mais saudável do que isso.
–Então o que você quer comigo? –rebateu ela sentiu o sangue ferver por debaixo da pele. – Como pode saber tanto sobre meu pai e eu?
–Conheci seu pai há muito tempo, quando ainda éramos jovens adolescentes. Digamos que ele salvou a minha vida. –começou Charles com um olhar distante e inundado por lembranças antigas. – Antes de tudo, você precisa entender que há mais nesse mundo do que você acredita existir. Coisas difíceis de entender, mas que de algum jeito você sempre foi capaz de enxergar.
Kate riu com aspereza. Nem sabia o que estava fazendo ali conversando com aquele cara. Por um breve momento se arrependeu de ter acordado hoje. Sua vida seria mais simples se ela passasse ignorar tudo o que envolvesse seu pai.
–Muito legal saber que você e meu pai deviam beber juntos. –retrucou Kate suspirando exausta. – Agora eu acho melhor voltar para casa e dizer a ela para me internar em centro de ajuda psicológica. Prazer Charles, nossa conversa foi muita produtiva.
Ela deu as costas para atravessar a rua. Deu alguns passos antes que Charles a surpreendesse com as palavras firmes dele.
–Kate! –chamou ele e ela se virou – E se eu te dissesse que se pai pode estar vivo?
Antes que as palavras se formassem na boca de Kate. Antes mesmo que seu coração pulsasse ansioso. Antes que ela voltasse para Charles como uma criança curiosa. Uma buzina horrorosa impediu todos os seus pensamentos. Alguns gritos apavorados fizeram Kate se virar, mas não o suficiente para que a batida chegasse como um tiro por todo o corpo.
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