Notas iniciais
A temperatura do corpo eleva para um calor angustiante. Os ossos se quebram um a um lentamente se sobrepondo. O coração passa a bater em um ritmo desenfreado, bombeando sangue e calor para manter o corpo firme. O rosto estica e a boca se acomoda as pressas que rasgam a gengiva com violência. O joelho cede incapaz de sustentar um ser bípede. Uma raiva sobre-humana te torna selvagem. Os olhos já não distinguem cores e o olfato é apenas instintivo. O som fica mais sensível e o batimento é a única coisa que passa diferir um ser vivo do outro. O pelo cai como um cobertor de cimento sobre a pele. O corpo pesa, dói e depois de alguns minutos deixa de ser humano. - Trecho do livro "Filhos da Noite" - Licantrope

As casas da cidade eram pequenas e pouco diferentes entre si. Os vizinhos se conheciam, e em algum momento todos pareciam ser da mesma família. Ninguém, nem mesmo os andarilhos, se interessavam naquele lugar simples com gente simples. Não havia pontos turísticos e em geral, o único lugar para passeios era a pequena floresta que cercava o lugar, com belas cachoeiras límpidas e vales por entre as montanhas. Um lugar onde o mais divertido era fazer trilha.

Era nos dias frios, em que os pinheiros da floresta pareciam enormes e sombrios, que Kate gostava de fazer trilha. Vestia seu casaco preto meio desbotado e as galochas de chuva que rangiam muito. Era exatamente nesses dias que o ar estava perfeito para quem sofre com problemas respiratórios, como ela sofria. Algo que nasceu com ela e que a limita a estar sempre com uma bombinha de asma.

As trilhas eram bem gastas e continham placas com instruções. Kate parava uma vez ou outra para observar pássaros estranhos que apareciam do nada voando para trás. Ver aquilo já fazia parte da sua vida, assim como ver pinheiros com sombras estranhas e reflexos parados na água. Quando relatou isso ao médico foi diagnosticada como dislexia, porque era algo que não a perturbava a ponto de ser esquizofrenia. Conviver com ilusões é um habito constante onde ela deve separar o real do que não é.

–Você ia mesmo à cachoeira sem mim? -uma voz familiar fez Kate se virar sobressaltada.

O vento balançou seus cabelos e demorou um pouco para que ela se desvencilhasse dos fios embaraçados e enxergasse seu amigo parado alguns metros de distancia.

–Por favor, Josh, não me assuste assim. –suas palavras falharam no fim quando se viu obrigada a controlar a própria respiração.

Josh assentiu com um sorriso tímido, mas ao mesmo tempo satisfeito.

–Desculpa Kate. -ele pareceu sincero. –Só achei que você devesse me convidar para fazer trilha também, para o caso de você tossir com falta de ar, acabar tropeçando e caindo em uma pedra...

Kate reprimiu uma risada quando o vento gelado fez sua garganta queimar e clamar pela bombinha de asma.

–Ok, já deu para perceber que sou incapaz de andar em linha reta. -ironizou ela fazendo uma careta enquanto pegava a bombinha de asma e apertava rapidamente duas vezes. -Vamos logo.

A medida que avançavam os pinheiros se curvavam e dificultavam a passagem. Tinham formas de braços e pessoas, ou talvez fosse o sol entre nuvens que aterrorizada o lugar. Kate sempre gostara de viver naquela cidade, era boa para seus pulmões, mas acima de tudo havia alguma terrível e sinistro, quase impossível de conter a curiosidade.

Josh respirou fundo, não de um jeito normal, mas como quem diz: “Vamos diga algo! Fale alguma coisa, puxe conversa, está esperando o que?”. Kate ignorou essa situação engraçada por alguns minutos até ele mesmo tomar coragem de falar:

–Você acha que esse ano sua mãe consegue pagar seu tratamento? -Josh quebrou o silencio com uma pergunta inquietante para Kate. Ambos trocaram um olhar tenso. -Tudo bem, não vamos falar sobre isso.

Kate respirou aliviada. Claramente, ela e sua mãe não eram pobres, não quando seu pai era vivo. A questão é que seu pai era um bêbado, um pai bom, porém inconsequente. Que morreu em um acidente de carro -após uma bebedeira- e largou a mulher dona de casa e a filha de seis anos. As duas passaram a viver a base de um único emprego tendo que pagar as contas e as dispersas com remédio e tratamentos para Kate.

Josh a olhou como todas as pessoas costumavam olhar para ela e a sua mãe. Aquele sentimento de pena era um dos que Kate mais odiava. Como alguém poderia sentir pena de você se não passava pela mesma situação? Como poderia ficar triste por você naquele momento, mas que de noite deitava sua cabeça e dormir seu sono tranquilamente? As pessoas são falsas e nem se dão conta.

–Não me olhe assim. -advertiu Kate, mas percebendo sua grosseria com Josh voltou atrás. – Quero dizer... É só que ultimamente as coisas andam meio difíceis...

Ele passou a mão envolta dela e a puxou para si. Ele transmitia uma segurança inabalável e a amizade dele há muito tempo havia se tornado uma necessidade. Ambos só se soltaram quando o barulho da agua caindo preencheu o ar.

A cachoeira estava de um tom límpido quase cristalino. Caia por quatro rochedos espalhando um agua ao redor. O barulho era insistente, mas não incomodava. Não havia nada no céu além da fina camada de nuvens escuras. Kate inalou aquele cheiro de chuva misturado a musgo, enquanto se sentava ao lado de Josh em uma pedra seca.

Kate e Josh ficaram em absoluto silêncio, apenas absorvendo cada detalhe da paisagem. Com o inicio das férias escolares estava bem claro que eles se encontrariam naquela mesma cachoeira diversas vezes durante dois meses inteiros sem nada para fazer, era sempre assim, todos os anos desde pequenos.

–Você trouxe cigarros? -perguntou ela enquanto procurava nos bolsos de Josh. Sua risada saiu como um grunhido perto do som da cachoeira.

Ele a segurou pelos braços impossibilitando qualquer movimento de busca. Sua expressão seria fez Kate rir ainda mais.

–Cigarros?

–Não é isso que os adolescentes comuns fazem por aqui? Fumam um baseado e... -Kate se calou diante da expressão perplexa dele. -Estava brincando, apenas brincando, eu sei que não posso fumar...

Josh assentiu por um momento serio e no outro contendo um sorriso antes de anunciar:

–É por isso que eu trouxe bebida. –ele falou abrindo sua mochila com um sorriso malicioso. Ao tirar a rolha da garrafa, o aroma suave de maçã e álcool foi entorpecente em Kate. Josh deu um longo gole antes de oferecer. — Beber você pode?

Kate sentiu o próprio sorriso crescer no rosto enquanto triunfante dava um gole feroz na bebida, ignorando todos os alertas da sua consciência.

(...)

A bombinha de asma funcionara bem o suficiente para trazê-la de volta a casa. Só precisava apertar algumas vezes que até mesmo o cheiro da bebida seria inibido pelo remédio. Kate parou em frente a sua casa, simples e humilde, a única coisa que sempre a diferenciava dos outros era o cheiro de comida que recepcionava as visitas.

Ao abrir a porta sua mãe logo entrou no seu campo de visão, Andrea, estava na cozinha sozinha montando a mesa para três pessoas, ela era baixinha com um cabelo loiro quase branco preso em um coque mal feito.

Kate tirou o casaco e colocou no sofá sua mãe sorriu gentilmente e ela retribuiu, mesmo tentando se surpreendido com as olheiras fundas da mãe.

–Onde esta Josh? -perguntou ela com uma voz delicada enquanto desligava o fogão. -Achei que ele iria jantar aqui...

–Ele não vem. -se limitou a responde apenas o necessário, não precisa citar a parte onde ela pede para Josh ir para casa porque nem mesmo conseguia ficar em pé. – Eu posso comer por ele se quiser;

Andrea sorriu e suas rugas formaram camadas perto dos olhos; Kate não se lembrava da mãe tão acabada como estava ultimamente, na verdade, ela poderia dizer que desde da morte do pai as coisas envelheciam mais rápido em todos os sentidos.

–Tudo bem. -sua mãe pareceu compreender a situação sem questionamentos. – Ele nem iria conseguir voltar para casa nessa chuva...

Kate se virou para confirmar. Sim, a chuva caia insistente perto de uma garoa. Caminhou em direção ao vidro da janela lentamente e sem acreditar que as gotas no vidro parecia inacreditavelmente voltar ao invés de escorrer. Massageou as têmporas esperando que fosse alguma enxaqueca porque ver aquilo a deixava transtornada. Poderia estar ficando maluca?

–Continua vendo coisas estranhas?

A voz da sua mãe tão perto da sua nuca fez com que Kate se sobressaltasse. Percebeu que estava agachada e sua mão molhada no vidro abafado da janela. As gotas escorriam normalmente.

–Não. –sussurrou Kate secando a mão na calça jeans. — Eu estou bem.

–Não acha melhor tomar os seus remédios querida? –aconselhou Andrea ainda perto demais.

A dor de cabeça sumira e agora só o zumbido da chuva que a incomodava. Kate olhou para um lado, depois para o outro. Não queria de jeito nenhum voltar a tomar os remédios. Eles a deixavam dopada e fraca.

–Já disse que estou bem. –Kate passou pela mãe sem encostar e seguiu para a mesa na cozinha. Sua a mãe a seguiu. – Então, como vai o trabalho?

–Ótimo. -disse Andrea forçando um sorriso que Kate deixou passar. — Bem tranquilo já que há poucos produtos para se organizar na loja.

Kate assentiu e conteve em perguntar se o salário dela havia diminuído já que agora a loja de conveniência do posto andava as moscas. Ela não falava de assuntos financeiros com a sua mãe, porque ela sempre vinha com uma longa conversa sobre: "Temos poucos, mas é o suficiente", só que com os tratamentos que Kate devia fazer regularmente as coisas haviam ficado complicadas. É claro que as empresas não se deixavam levar por esse tipo de conversa dos seus devedores, mas ninguém esperava que o pai de Kate tivesse deixado algumas dividas antes de morrer.

–Estou quase completando nossas economias e em breve poderemos fazer aquele tratamento em outra cidade que eu te falei. -comentou sua mãe enquanto servia a comida. – Eu já agendei o exame que confirma a sua guia.

Kate pousou as mãos sobre a mesa e encontrou coragem para falar o que já pensava algum tempo:

–Sobre isso, eu acho que podemos esperar. -antes que a secura em sua garganta chegasse Kate rapidamente sacou a bombinha de asma do bolso e aperto duas vezes. — Podíamos fazer algumas reformas e há ainda algumas dividas a se pagar.

Os olhos de ambas pousaram sobre as correspondências endereçadas a Andrea, todas com carimbos de atrasadas. Sua mãe as tirou da mesa e colocou no balcão. De costas para Kate com as mãos apoiadas no balcão ela parecia ainda mais frágil. Kate não se conformava com o abandono do pai. Nunca o perdoaria por deixa-las assim.

–Eu parcelei essas contas. -argumentou Andrea ainda de costas. — E o dinheiro que estou juntando é para o seu tratamento.

–Mas eu não quero. -rebateu Kate controlando o volume da voz. — Não preciso fazer o tratamento agora, posso esperar um ou dois anos.

Andrea se virou e estendeu a mão para tocar o braço de Kate. O toque dela era acima de tudo reconfortante e tentador a uma crise de choro.

–Preciso cuidar de você — insistiu ela a filha.

–Não posso deixar que você faça isso, não quero você trabalhando igual a uma escrava por um salário que mal nos mantém. -Kate se soltou da sua mãe ao sentir que sua voz tremia. — Eu não quero fazer esse tratamento.

Sua mãe de inicio lhe olhou com pena enquanto se aproximava ao poucos da filha para um abraço, porém no caminho ela endureceu a postura e algo dentro de Kate a alertou.

–Você bebeu. -afirmou Andrea com os olhos semicerrados. — Como você pode beber sabendo pelo que seu pai passou? Sabendo que esta doente?

–Só foi um pouco e nem estou bêbada. -respondeu Kate sem tanta convicção

Andrea abaixou a cabeça e Kate podia jurar que ela devia estar escondendo o choro. Depois da morte de seu pai, Andrea passou a ser forte porém mais sensível a decepções. Kate odiaria decepciona-la.

–Boa noite Kate. -disse ela por fim, com a voz firme.

–Mas mãe eu posso...

–Por favor... -implorou sua mãe como quem clama por um: "Chega de desculpas!”.

Kate se levantou com um drama desnecessário e seguiu para as escadas sentindo o peito pegar fogo. Sua mãe poderia culpa-la de muitas coisas, mas nunca de agir como seu pai. Ela não era ele e se um dia fosse, então não valeria mais a penas viver. Antes que ela terminasse o lance de degraus olhou para trás bem a tempo de pagar sua mãe secando as ultimas lágrimas que lhe escorriam o rosto.

Notas finais
Obs: O livro "Filhos da Noite" é ficcional e se ele de fato existir não tem ligação com o trecho publicado aqui. Na verdade, esse trecho é uma serie dos que eu postarei durante todos os capítulos, para melhor compreensão do mundo sobrenatural. Obrigada pela leitura! Comenta, vai?