Only You
3 Invite
Notas iniciais
Touko's Pov.
On
Abri a porta e dei um passo a frente, entrando no hall. Olhei em volta, a luz do corredor desligada, apenas os abajures iluminando o ambiente provavelmente com ajuda da lareira, que crepitava ao fundo na sala de estar.
– Hm... Okaeri…? — disse, sem obter qualquer tipo de resposta a não ser o ranger das dobradiças da porta que eu ainda mantinha aberta.
É, minha mãe ainda não estava em casa.
A situação estava ficando um tanto desconfortável. Ou talvez não.
Pelo menos não teria que enfrentar a inquisição nada discreta de minha mãe, esta que com toda certeza me deixaria sem-graça e pouco à vontade para responder...
Por hora, estava tranquila quanto a isso.
Virei-me, dando passagem a ele, ainda plantado do lado de fora.
– Não tem ninguém em casa. Minha mãe deve estar esperando a nevasca passar e Touya deve estar na casa de Bianca, está tudo bem — justifiquei, olhando pela neve espessa que ainda caia do lado de fora, olhando em seguida para ele ainda parado no batente da porta, seus olhos encontraram os meus por um momento, indecifráveis.
O que eu não daria para entender o que se passava por sua mente?
– Entra — chamei mais uma vez — Não fique aí fora congelando — reclamei, impacientemente.
N suspirou, dando um passo a frente, fechei a porta atrás dele, caminhando até o meio do hall, passando a mão pelo cabelo úmido de neve e sacudindo-os levemente, tentando tirar quaisquer resquícios que ainda pudessem estar no meu cabelo que ainda não haviam virado água.
– O que é isso? — perguntou apontando para o enfeite em cima da porta.
Olhei para a porta, procurando a que ele se referia, enfim percebendo o que a enfeitava.
– Um visco — respondi simplesmente, apoiando-me na parede e soltando o cadarço do coturno que eu usava.
– Visco..? — perguntou ainda sem entender.
– É, um visco — disse, tirando a bota de um dos pés — Diz a lenda que, pela mitologia escandinava, eu acho, que uma flecha feita de visco matou Balder, filho de Frigga que era a deusa do amor. Quando suas lágrimas caíram sobre o visco, ele passou a dar pequenas frutinhas, e durante o seu sofrimento ela decretou que o visco nunca mais seria usado para guerra e sim para.. — parei lembrando da história, sentindo meu rosto esquentar, foquei meu olhar no outro cadarço, torcendo para que ele assimilasse o vermelho do meu rosto com a neve.
Ah sim, a parte constrangedora da história para aquele momento.
Que ironia do destino.
Mais ironia ainda era ter nos encontrado justo no Natal.*
– E sim para...? — incentivou a continuar.
– Para o amor — completei — Diz a lenda que se um casal declarar seu amor um ao outro embaixo dele… Será para sempre, eterno, ou algo assim. É apenas uma lenda boba que contam por aí — completei rapidamente.
O silêncio instalou-se entre nós.
Não que eu estivesse verdadeiramente curiosa, na verdade tinha mais vergonha do que vontade de saber. Então nem me arriscaria olhando-o para saber.
Tentei ficar o mais indiferente possível.
Até o momento, não podia negar que eu nunca havia pensado em uma possibilidade como essa.
Pensar em nós… Desse jeito... Era um pensamento tão...esquisito. Bem… Não esquisito, mas certamente constrangedor, então o deletei de minha mente.
Tirei o coturno do outro pé calçando as pantufas atoalhadas pretas.
– Tome, calce esses, devem ser do seu tamanho.
Joguei um par de pantufas parecidas com as minhas, na cor branca para ele, desenroscando-me do cachecol e dos demais agasalhos, pendurando-os no cabideiro, permanecendo apenas com a básica camiseta de manga longa branca e sob o habitual shorts jeans, a grossa meia-calça.
Olhei para o lado, onde ele já esperava, calçando as pantufas.
– Venha — chamei, seguindo na frente.
– Sumimasen... — ouvi-o dizer atrás de mim, seguindo em meu encalço.
Empurrei a porta de correr, acendendo a luz do cômodo, olhando em volta, até avistar a caixa de curativos sobre o armário, onde eu havia deixado da última vez. Caminhei até estar em frente ao armário, puxando com o pé uma pequena banqueta de madeira ali próxima, subindo nesta a fim de alcançar a alça da maleta.
Me estiquei mais um pouco na ponta dos pés, minha meia me fazendo escorregar na madeira envernizada, instintivamente estendendo a mão e tentei agarrar a primeira coisa próxima sentindo meu pulso ser fortemente agarrado.
Abri os olhos, a mão morna de N fechada em meu pulso e seu pé agora apoiava banqueta com o pé.
– Você deveria ser mais cuidadosa — disse, sua expressão visivelmente preocupada.
– Perdão — pedi, olhando-o envergonhada e agradecida, aceitando a mão estendida para me ajudar a descer, com a maleta em mãos.
Sentei-me no chão, abrindo a caixa e separando tudo o necessário.
– N — eu chamei, ele caminhou até a minha frente, sentando-se, em silêncio novamente.
Respirei fundo e aproximei-me dele um pouco mais, ajoelhando-me, me curvando sobre ele e passando um algodão para limpar o ferimento.
Averiguei cuidadosamente, depois que o produto antibactericida havia tirado o sangue seco em volta do ferimento que grudava o tecido de suas roupas contra a pele, podendo enfim ver que ele não fora tão simples, o talho profundo voltando a exsudar sangue.
– Não é tão superficial quanto eu pesei, vou precisar dar alguns pontos. Tire o casaco e a camiseta, por favor — pedi e lhe dirigi o olhar esperando que ele intervisse de alguma forma, mas ele apenas assentiu, tirando o grosso casaco. Virei-me, separarando o restante dos utensílios que usaria, voltando sua atenção a ele que passava os dedos pelo buraco aberto no ombro de seu grosso casaco.
Arqueei a sobrancelha, achando graça.
– Acho que precisa de um casaco novo — comentei.
– E uma camisa nova também... — completou, averiguando o rasgo nas roupas feito pelo mesmo que rasgara seu ombro, em meio as manchas de sangue já secas e amarronzadas. Manchas essas que haviam espalhado pela manga, ombro e tórax da camisa branca de cima e na blusa preta que usava por baixo.
Peguei-as de suas mãos deixando-as ali ao lado.
– Vire-se de costas — pedi, ele me olhou indagativo, mas obedeceu, virando-se de costas.
Aproximei o suficiente, ficando de joelhos para visão plena do ferimento, dando alguns uns petelecos na pequena seringa de anestesia antes de espetá-la contra o ferimento, massageando-o levemente.
– Está sentindo algo? — perguntei, inclinando levemente a cabeça sobre seu ombro.
– Está dormente agora — respondeu, virando-se para me olhar.
– Certo. Me avise caso contrário — avisei. Ele meneou com a cabeça, concordando.
Retornei a posição de antes e prossegui os cuidados, iniciando a sutura no corte.
Tirando, é claro, o fato de suas costas nuas, levemente pálida de pele praticamente impecável, tirando cicatrizes marcadas, totalmente amostra.
Não podia evitar que nos tocássemos em alguns movimentos, fazendo uma descarga elétrica inexplicávelmente boa percorresse minha espinha e agitasse meu estomago. Estava...
Tudo bem, ótimo.
Fiz uma nota mental de calma, repetindo-a como um mantra.
– Te devo algumas respostas, não é? — disse ele, olhando para o teto.
Olhei seu rosto impassível de relance, desviando a atenção para o corte novamente.
– É, creio que sim — murmurei em resposta.
– O que quer saber primeiro?
Eram muitas coisas a serem perguntadas e esclarecidas.
– Bom... Acho que primeiro... Saber porque seu...
Senti minhas sobrancelhas se juntarem quando parei por um momento, ponderando se seria uma boa idéia, referir-se a Ghetsis com algum grau de parentesco. Qualquer um notaria as semelhanças eminentes entre os dois. Mas ao que tudo indica, a relação que eles tem no momento não passava nem perto de algo pacífico, muito menos de pai-filho, tio-sobrinho.
– Porque Ghetsis quer minha morte, seria um bom começo.
– Primeiramente... Acho que a maior motivação dele seria a vingança.
– Primeiramente?
Incentivei-o a terminar a sentença, depois de alguns segundos longos demais em silêncio.
– Não sei. Não consigo acreditar que seja só isso. Pelo que conheço do meu tio — pausou, sua voz representando o imenso desagrado ao referir-se a ele em algum grau de parentesco — Não faz do tipo que arriscaria algo como o esquecimento da polícia com relação a ele, apenas por vingança. Parece vago demais.
Ouvi-o suspirar, frustrado.
– Talvez não. Vingança é uma boa motivação, pelo menos para mim seria — comentei, dando de ombros.
– É, talvez tenha razão. De qualquer forma, é apenas uma suposição — completou.
Prossegui calmamente. Olhando-lhe uma última vez. Antes de voltar minha atenção a sutura em silêncio.
– Terminei — avisei, partindo a linha de sutura — Está tudo bem? — indaguei, ao perceber a ruga entre suas sobrancelhas, sinal ao pouco que conhecia dele, que indicava que ele estava realmente preocupado com algo.
– Sabe uma coisa que não consigo entender?
– Hum?
– Por que só agora? — perguntou.
– Como assim? — perguntei, sem entender a pergunta anterior, voltando-me para caixa, para organizar tudo.
– Depois todo esse tempo… Por que só agora? Por que ele só decidiu agir, agora?
– Talvez como você disse, faz sentido se ele estava esperando o esquecimento da polícia antes de agir.
– Mesmo assim. Ele tinha uma passagem só de ida para prisão de segurança máxima Unova. Zekrom até me disse que fica em uma parte do continente inacessível. Era pra ser impossível fugir de lá.
– Fugir? Não, ele não fugiu. Ele nem chegou a ser preso.
– Hã?
– A tríade das sombras ajudou ele — expliquei.
– Como você sabe? — indagou desconfiado.
– Eu… Encontrei eles — disse, receosa com sua reação.
– O quê?! Onde? Quando? — indagou alterado.
– Quando eu estava atravessando a ponte… Não lembro que ponte. Acho que… Alguns meses depois que você… Partiu.
– O que eles queriam? Eles te machucaram? — indagou, preocupado.
Avaliei sua expressão por um momento.
– Eles não me fizeram mal nenhum… Me disseram que eram servos leais a Ghetsis. Tiveram suas vidas salvas por ele no passado, eles só se sentem em dívida, não parece ser realmente uma questão de livre arbítrio.
– Então..? — perguntou, mais calmo.
– Eles vieram me dizer que ajudaram na fuga de Ghetsis antes mesmo dele por os pés no barco para Unova, e me trouxeram alguns presentes, em nome do mestre.
– Presentes? Meu tio te deu presentes?
Olhei para o lado, sem graça. Eu também não entendia o porque disso.
– Eu tentei recusar. Mas eles disseram que não era uma opção recusá-los. Então eu tive de aceitar. Estão… acho que guardados na minha bolsa ainda…
Observei-o permanecer em silêncio desde então, provavelmente pensativo.
Vez ou outra permitindo-me observa-lo distraído em algo do lado de fora, na janela coberta de neve.
Levantei-me, juntamente das roupas e da maleta, colocando esta sobre a cômoda ao lado, e as roupas dentro da máquina, iniciando a lavagem.
Virei-me e encostei na máquina, estudando-o distraidamente.
N tocou a sutura do corte recém fechado, esforçando-se para levantar. Dei um passo a frente, estendendo uma mão para que o ajudasse a levantar, que foi segurada até ele se erguer totalmente.
– Pode usar esse banheiro se quiser — disse, caminhando até o armário, pegando uma pequena pilha de toalhas na porta de baixo.
– Vou checar se não tenho nenhuma blusa aqui em casa que possa usar enquanto eu estiver consertando suas roupas — disse, entregando-lhe a pilha, indicando a porta de correr ao lado na cômoda — O banheiro é ali… Hum… Fique à vontade.
Touko’s pov.
. . .
N’s pov.
– Desculpe não ter nenhuma outra para te emprestar. Touya é menor que você e tirando ele, só mulheres vivem na casa — disse, posicionando as gazes sobre o ferimento delicadamente.
– Sem problemas — respondi, deixando a toalha que usava para secar o cabelo, cair em torno do pescoço, sobre os ombros.
Ela prosseguiu, enfaixando meu ombro, em silêncio.
Vez ou outra, permiti-me por-me a observa-la. Seu rosto em uma expressão calma, moldada pelas poucas mechas que caiam do cabelo úmido do banho recém tomado preso em um coque frouxo, os traços, que antes lembravam-me de uma simples garotinha, haviam-se perdido e abandonado-a completamente.
Quanto tempo havia se passado?
– Pronto — avisou terminando de prender a faixa.
– Ah, obrigado.
Peguei a camisa que ela me entregara, tentando passa-lá pelo braço, sentido os pontos repuxarem com o esforço. Fechei levemente um dos olhos, dolorido.
– Hã… Posso te ajudar com isso? — se ofereceu, preocupada.
– Seria… Hã... Ótimo se o fizesse — murmurei, concordando.
Touko se aproximou, fechando os botões pouco a pouco, deixando os dois últimos de cima abertos e seguiu para os braços, dobrando as mangas, curtas para os meus braços, por fim arrumando a gola.
Podia sentir o cheiro de morango vindo dos cabelos dela.
– Pronto — avisou.
– Obrigado — agradeci novamente.
– Tadaima — ouvi a voz de uma mulher no hall da casa.
– Okaeri, Okaa-sama — saudou Touko.
– Ano né.. N? — chamou
– Hum?
– Não comente nada sobre isso com minha mãe — pediu, olhando pela janela, séria.
– Tem certeza?
– Sim… — respondeu, visivelmente decidida.
– Como desejar.
– Obrigada — sorriu.
Observei-a por um momento. Os olhos brilharem no sorriso.
– Mas uma coisa que não muda. Você corre perigo. — disse ele.
– É — murmurei simplesmente, pegando as bandagens — Mas eu sei me cuidar! — sorriu, inflando o peito orgulhosa.
– Eu sei que sabe. É só... Uma medida de segurança a mais.
– Como o quê por exemplo?
– Venha comigo para o palácio.
To be Continue...
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