Only Ones Who Know
6 Past and present
Hinata estivera visitando Mikoto todos os finais de semana desde a alta do hospital. Aos sábados, a floricultura funcionava apenas no período da manhã, o que a deixava com tempo de sobra para acompanhar a sra. Uchiha em seu habitual ritual do chá da tarde.
— Estive pensando em mudar o arco de flores para mais perto do lago, você sabe Hina, onde os casais geralmente gostam de se amontoar.
As duas conversavam na varanda espaçosa da casa. Era uma tarde agradável e ensolarada. Sentadas em volta à mesa redonda de metal, ambas analisavam um pedaço de papel sob a mesa. Tratava-se do esboço de um grande arco de flores feito especialmente para o festival. Hinata estivera trabalhando nele durante a semana e Mikoto fazia questão de acompanhar o processo.
— Eu não sei sobre os casais – Hinata riu antes de tomar o chá — Mas como provedora dos buquês, posso dizer que a sombra das árvores com certeza vai ajudar as flores a durar mais.
— Ora Hina, vamos, não seja modesta – disse a sra. Uchiha com um sorriso — E faça o favor a uma velha romântica como eu: trate de tirar pelo menos uma foto debaixo desse lindo arco e— ela levantou o indicador, fazendo questão de enfatizar a segunda condição — com o homem mais bonito que encontrar naquele festival.
Hinata teve que colocar a mão na boca para evitar cuspir o chá. Ela se controlou para evitar rir e engasgar, tudo ao mesmo tempo.
— Bom, eu vou levar a Hanabi então...
— Não, não. Sem desculpas dessa vez. Veja bem, um dos enfermeiros que conheci era extremamente gentil. Sai, acho que era o nome do rapaz. É claro que não tive nenhuma intenção a mais quando o convidei, mas ele pareceu muito disposto a comparecer...
Enquanto Mikoto recitava a fixa completa de Sai, os pensamentos de Hinata esvoaçaram, inevitavelmente, para outro lugar ou, mais precisamente, outro alguém. Desde que Mikoto tocara no assunto, Hinata não conseguiu evitar pensar em uma pessoa em especial, Sasuke. Fora ele que havia sugerido que se encontrassem lá, afinal. Claro, Hinata estava inteiramente certa que não seria um encontro com as intenções que sua mente insistia em considerar. Não houve convite formal. Não houve nem hora marcada. Apenas um encontro, casual, entre amigos. Era o que volvia a repetir para si mesma.
— E então, Hina? O que me diz?
— Hm? Ah sim. Claro, ele parece ser uma pessoa ótima, mas sei que vou encontrar pessoas conhecidas por lá.
Mikoto sorriu.
— Tem razão. A estimativa de visitação está mesmo alta este ano, não é? Confesso que um dos meus medos era que as novas gerações não dessem continuidade as tradições da cidade, mas ver você, e até mesmo Sasuke ajudando a montar os preparativos, é de certa forma reconfortante.
— E ainda vamos continuar por muitos e muitos anos. O que me diz?
Hinata levantou-se para abraçar Mikoto e ela retribuiu o afeto.
— O que quer dizer esse “até mesmo Sasuke”, sra. Uchiha? Você sempre fez que Itachi e eu ajudássemos a montar aquelas barracas quando éramos novos. São anos e anos de prática.
Sasuke estava apoiado preguiçosamente em uma das colunas da varanda. Os braços cruzados e um sorriso no rosto. Hinata riu e Mikoto apoiou as mãos na cintura.
— Mas você tem andado meio enferrujado, não é filho?
— Touché. A idade chega para todos.
— Então é melhor se preparar. Falta apenas uma semana e teremos dezenas de barraquinhas esse ano.
Sasuke riu e assentiu com um aceno de cabeça.
— Talvez eu possa usar uma ajuda, Hinata.
— Talvez eu possa te ajudar se terminar o arco a tempo. – Hinata sorriu antes de voltar-se para sra. Uchiha — Já vou indo, Mikoto. Obrigada mais uma vez, o chá estava ótimo, como sempre.
— Próximo sábado, mesmo horário. E dessa vez nos encontramos no festival, certo?
— Combinado.
Mikoto segurou sua mão e deu-lhe duas palmadinhas gentis de despedida.
— Obrigada pela companhia.
Hinata virou-se com um sorriso e passou por Sasuke, sabendo que ele a acompanharia até o carro, como geralmente fazia.
— Já sabe em qual horário vai chegar?
Hinata parou em frente ao carro e olhou para Sasuke.
— Por volta das 17h.
Ele sorriu.
— Vou estar esperando.
***
Hinata abriu a garrafa de vinho que havia comprado na volta da casa dos Uchiha e serviu em uma das taças de seu único conjunto. Eram 22:37 e tudo que restava fazer era aproveitar as últimas horas de um sábado tranquilo enquanto degustava um bom vinho e ouvia suas músicas favoritas após um reconfortante banho quente. Durante o banho, porém, Hinata se pegou rindo sozinha algumas vezes sem nenhum motivo aparente. Deixou a taça na mesinha de centro e deitou-se no sofá. Os longos cabelos caíam sob o braço do móvel e Hinata pensava na conversa que tivera com Mikoto. Estivera pensando em Sasuke nos últimos dias, era verdade. Assim como também era verdade que estivera evidentemente mais feliz.
Fazia tempo desde a última vez que lembrava de sentir-se assim. Anos, mais precisamente. De um só pulo, Hinata se levantou e, em um breve segundo de epifania, caminhou apressada até o quarto. Parou em frente ao seu guarda-roupa e abriu as portas à procura de algo que muito provavelmente estava soterrado em embaixo de lenços e meias. Palpando o fundo do armário, ela finalmente encontrou o que procurava: uma caixa de madeira de tamanho um pouco maior que a palma da mão.
Hinata sentou-se na cama e abriu a caixa com cuidado. Era uma cápsula do tempo. Cartas, pequenos souvenires, fotografias. Resquícios de memórias que, em algum momento, pareceram eternas. Pegou uma das fotos. Sob um arco de jardim majestoso, uma Hinata mais jovem vestia um delicado vestido de chiffon lilás. Ao seu lado, um Sasuke de 17 anos vestindo smoking, sorria placidamente para a câmera. Era engraçado — ou trágico – ela não sabia dizer. Crianças podem fazer amizades duradouras em um dia. Adultos, por sua vez, se acomodam com mais facilidade do que Hinata gostaria de admitir. A linha entre os dois termos que parecem polos opostos era mais tênue do que imaginava. Sasuke se mudara para Tóquio apenas alguns meses depois daquela foto ter sido tirada. A Hinata da fotografia, sorridente e de bochechas coradas, porém, não poderia prever os eventos que viriam a seguir. Nenhum dos dois podia.
Ela deixou a foto em cima da mesa de cabeceira e apagou as luzes. Ao voltar para a cama, pensou uma última vez no arco de flores que vinha trabalhando e as palavras de Mikoto flutuaram em sua mente involuntariamente: “com o homem mais bonito que encontrar no festival”. Hinata riu do rumo que seus próprios pensamentos estavam tomando e aconchegou-se nas cobertas. Em pouco tempo, a Hyuuga dormia pesadamente e seus pensamentos mais uma vez encontravam-se em fendas oníricas, repletas de melancolia.
***
A semana passou rapidamente para os moradores de Konoha. Os mercadores faziam mais e mais encomendas para suprir a demanda da comunidade. As autoridades certificavam-se de monitorar o local delimitado para o festival e faziam pequenas modificações nas ruas da proximidade para melhorar o trafego. Estudantes preparavam-se para apresentar o desfile da banda e cada vez mais garotos e garotas eram vistos nas lojas experimentando roupas e sapatos novos para usar no festival.
A floricultura, assim como o restante do comércio, não abriu no turno da manhã como era o de costume. Ao invés disso, Hinata passou o dia com Hanabi que, por sua vez, estava notavelmente mais alegre que o normal.
— Eu não sabia que gostava de festivais, Hana.
Hinata fazia uma trança no cabelo da irmã e já imaginava o motivo por trás de seu bom humor.
— Festivais são uma oportunidade de fortalecer os laços da comunidade.
Ela riu da resposta costumeiramente sincera de Hanabi.
— Certa e concisa como sempre. Mas será que esse bom humor todo não é por causa do Konohamaru?
— Sim. – Hanabi refletiu.
— Então vamos te deixar mais bonita ainda! – disse Hinata empolgada.
Ela passou o espelho para Hanabi que abriu um sorriso ao ver seu reflexo. Hinata havia passado uma leve camada de maquiagem ressaltando os bonitos traços da irmã.
— Gostou?
— Ficou lindo. Obrigada, Hina
Hinata sorriu de volta, satisfeita com o resultado. O lado bom da sinceridade de Hanabi era saber que os elogios eram sempre verdadeiros.
— E você, irmã? O que vai vestir?
— Boa pergunta. Vamos ver.
Hinata pegou dois vestidos do guarda-roupa. Um era azul-escuro e ficava um pouco cima dos joelhos. O outro tinha alças finas e ia até um pouco mais abaixo dos joelhos. Branco e com estampas florais.
— Essse ou esse? – ela perguntou enquanto os colocava em frente ao corpo.
— O branco.
Hinata virou-se para o espelho e inclinou a cabeça para o lado, analisando o reflexo.
— Também gostei desse. E acho que também fica bom com uma jaqueta.
— Fica, mas temos uma hora para o início do festival. – disse Hanabi enquanto conferia o relógio de pulso.
— Tempo de sobra. – Hinata assegurou-lhe.
Conhecendo a pontualidade da irmã, ela apressou-se para dar os retoques finais no cabelo e na maquiagem. Como havia prometido, em uma hora, as duas Hyuuga estavam dentro do carro a caminho do festival de Konoha.
Fale com o autor