Only Dreamers
1 Nightlocks – Foxface
Notas iniciais
Ao caminhar silenciosamente pela floresta eu percebo o quão cansada estou. Eu aprendi no treinamento a correr com destreza por sobre pequenos musgos que acho na grama. Eu também mostrei aos Idealizadores o meu conhecimento de plantas, mas de nada adiantou. Eles me deram uma nota cinco e nem olharam mais para mim. Se eu pudesse relatar uma semana atrás o que eu achava disso, diria que foi humilhante, mas hoje eu sei que a inteligência não é tão importante quanto a força. Já que eu estou à beira da morte, e só tenho a inteligência como amiga. Há apenas quatro tributos na arena agora. Eu, Cato, Katniss e Peeta. O único que não sei onde está é Cato, mas ele deve ter ficado na Cornucópia depois de matar Thresh. Katniss e Peeta estão a poucos metros de mim, nem sabem que estou os seguindo. Eu devo ser uma sombra mesmo para parecer invisível.
Depois de mais de um dia de chuva forte, o calor parece algo que nunca senti. Passo as palmas das mãos nas calças afim de secá-las, mas isso é inútil. Minha única mochila está nas costas. Ela é verde e de tamanho médio, eu a obtive no ágape. Desde o anúncio eu sabia que o conteúdo dela era comida, e hoje todos os meus suprimentos acabaram. Estou sem nada. Mas parece que os aliados à minha frente possuem vários itens prontamente dispostos para serem roubados por mim. Essa é a minha estratégia, evitar confrontos e conseguir os suprimentos dos outros. Talvez essa foi a minha única opção, fugir, furtar e sobreviver.
Sinto a pressão da minha lâmina de faca no cinto. Tiro-a do suporte. Se alguma coisa acontecer, estarei pronta. Mas nada acontece. Continuo pulando pela grama, sem pisar nas folhas secas, seguindo os dois tributos do Distrito 12. Eles não parecem estar sofrendo com a fome e a desidratação. De repente eles têm água. Se pelo menos eles parassem de andar, eu poderia agir de forma rápida e sair correndo com alguma coisa. Parece algo desesperado, mas acho que aqui o desespero é algo esperado. Balanço a cabeça, acho que estou ficando louca. Todo esse tempo na arena fez-me mudar. Não quero mudar, quero ser eu mesma. Mas isso é tão difícil aqui, onde estou sendo controlada.
Paro de andar quando Katniss levanta o arco para matar um passarinho. Isso é algo que eu nunca conseguiria. Matar um animal que foi jogado aqui para morrer é como matar um tributo, pois não é muito diferente do que aconteceu com todos nós. Por um momento, penso na possibilidade tentar me aliar a eles, mas em menos de um segundo descarto a ideia, isso seria ridículo. Katniss me mataria com a mesma facilidade com a qual matou o pássaro indefeso. Me escondo em um tronco de árvore, meio receosa. A coisa mais estúpida que posso fazer agora é ser vista por eles. Katniss e Peeta começam a discutir sobre o barulho que ele faz ao andar. Depois eles se separam.
Vou para o lado para o qual Peeta está indo, já que o mesmo realmente terá menos chances contra mim. Basta eu acertar a minha lâmina na cabeça dele, e tudo está acabado. Percebo o absurdo que estou pensando, e tenho vontade de dar um tapa na minha própria face por isso. Eu nunca teria forças para matar alguém, nem consegui abater um esquilo, quanto mais um tributo forte, alto e de ombros largos como Peeta. Isso sim seria vergonhoso.
O garoto para e olha para os lados, quase me vendo. Então se abaixa e pega algumas amoras em um arbusto. Ele retira o seu casaco para servir como uma toalha, assim ele coloca as amoras em cima dele. E reconheço a forma e cor da amora, até mesmo a textura parece meio áspera quando olhada do ângulo em que estou. Elas são amoras-cadeado.
Jogo o corpo para trás. Se Peeta comer essas amoras, vai morrer. Estou torcendo para ele ter essa ideia quando olho mais atentamente para as amoras, e para a floresta à minha esquerda. Se Katniss souber alguma coisa sobre essas amoras, então ele não vai comer. Penso em todos os dias em que estive aqui, e em quantos tributos vi depois do banho de sangue. Praticamente nenhum. Eu não matei ninguém, não toquei em ninguém. Quer dizer, eu me choquei contra Katniss no primeiro dia, mas isso foi total acidente. Quando sobrar apenas eu e algum outro tributo, o que eu vou fazer? Matar? Com certeza não. Eu prefiro morrer do que me transformar em um monstro, um bestante que a Capital tanto quer que eu me transforme. Mas até agora isso parece que os esforços deles para eu matar alguém não funcionaram.
Observo novamente as amoras caírem no casaco do Peeta à medida que ele as colhe. Elas parecem tentadoras agora. Quando alguém me atacar, qual a alternativa que vou ter? Esperar uma morte rápida? Isso não vai acontecer, pelo menos se eu estiver nas mãos do Cato. Não tenho uma válvula de escape. Essa é uma chance única. Aperto as mãos, tentando me decidir. Será que eu realmente tenho uma chance? Será que tudo pelo que passei valeu a pena? Eu só sobrevivi, nada mais. E vou morrer em pouco tempo, meus dias já estavam contados a partir do momento em que meu nome foi chamado na colheita. Infelizmente, só descobri isso agora. E se eu vou morrer de qualquer jeito, prefiro que seja assim. Eu vou dar um aviso para Katniss e Peeta. Quando eles verem o meu corpo, com as amoras na mão, não vão comê-las. E, se for para eu perder, prefiro que os dois aliados do 12 vençam, não Cato.
Eu posso escolher uma morte lenta e dolorosa, ou uma morte extremamente rápida e indolor.
É uma escolha muito fácil.
Então quando Peeta se abaixa novamente para pegar mais amoras, eu dou um único e veloz salto e aterrisso sobre o casaco dele. Estou agora a apenas três metros do arbusto das amoras. Pego um punhado delas e saio correndo o mais silenciosamente que consigo. Apenas corro, sem me importar se ele vai me seguir ou se ele me ouviu. Atravesso as folhas de uma grande planta e então levo algumas amoras à boca, sem nenhuma hesitação.
E então o meu último minuto começa. Me deito no chão, em uma posição que não mostre que me suicidei. Pouso a mão que está com as amoras longe do resto do corpo e coloco a outra perto da cabeça. Acho que assim está bom. Penso em tudo o que aconteceu nos últimos tempos antes dos Jogos. Minhas lembranças boas são poucas, mas eu me agarro a cada uma delas: O meu pai me empurrando no balanço da praça lá no Distrito 5, um computador que ganhei de aniversário dois anos atrás, um passeio com os meus amigos no lago, a usina de energia onde minha mãe trabalha – toda tecnológica e incrível –, um dia em que minha irmã conseguiu uma nota dez em todas as matérias, e o meu parceiro de distrito, que está morto, desde o banho de sangue.
É um minuto muito curto, pelo menos é o que parece. A última coisa que consigo distinguir antes de tudo escurecer é um raio de luz que atravessa a folhagem e cai sobre o meu rosto.
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