Oneirataxia
8 Iris

A menina de olhos castanhos está sentada no balanço. Seus pés não alcançam o chão, por isso não consegue dar impulso para balançar. Ela só queria alguém para empurrá-la. Um amigo, talvez. Forte, mas não tão forte assim, só o suficiente para fazer o balanço subir e ir mais rápido. E talvez se ele fosse mais velho, poderia ensinar algumas coisas pra ela; mas não tão velho, o cheiro de gente idosa era insuportável para as suas narinas. Gostaria que ele fosse bonito, embora essa qualidade não lhe trouxesse muitos benefícios.
A menina de olhos castanhos — é claro que ela tem um nome, mas a primeira coisa que você nota são os olhos, olhos amendoados e sonhadores herdados do pai — olha ao redor, mas não vê nada.
Enquanto ela encara os seus sapatinhos polidos, a luz do sol ilumina a grama falsa do playground. E num passe de mágica, ele está ali, com os olhos verdes esbugalhados. De onde veio? Onde está? O que está fazendo?
— Oi. — Parece confuso com aquele mundo novo e cruel.
— Oi. — diz a menina de olhos castanhos
Fica assustado, a princípio. Mas quando vê aquela garotinha — que está tão surpresa quanto ele — e nota uma estranha familiaridade no seu rostinho juvenil, se apaixona por ela.
Assim como se apaixonou perdidamente pela sua mãe, que agora é uma mulher importante e uma esposa muito dedicada, e como se apaixonou pela sua avó. E como se apaixonará pela sua futura filha, e também pela filha da filha da menina, e pela filha da filha da filha dela. E assim continuará sendo, enquanto as crianças forem alegres, inocentes e desalmadas.
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