Ele está sentado á alguns metros de distância de mim, mas como eu não consigo parar de sorrir pra mim mesma, me viro para que isso não fique tão evidente assim.

Encontro algumas pessoas que estavam comigo e Chloe mais cedo, Peter que trabalha na recepção me dá uma de suas cantadas de sempre. Chloe me avisou que ele era assim e eu finjo que já tenho compromisso, é meio que nossa piada interna.

Olho na direção do Ed pela milionésima vez durante esses minutos é triste eu nem conseguir disfarçar, ainda bem que ele está meio ocupado e não me olha de volta.

Resolvo ir ao banheiro porque meus óculos estão ficando embaçados e também quero colocar um pouco de gloss nos lábios.

Duas garotas, uma loira e uma com cabelos vermelhos, entram no banheiro em uma conversa animada.

__Talvez eu fique com ele hoje de novo.

__Você tem tanta sorte, o Ed é um gato! E ainda por cima ele é famoso.

Elas saem e eu fico ali prendendo a respiração por um tempo para tentar não sentir nada.

Eu termino de limpar meus óculos e saio do banheiro. Eu acho que tem uma faca enorme cravada no meu coração agora.

Assim que chego onde estava sentada antes, vejo a repórter se despedindo do Ed. A garota de cabelos loiros chega por trás dele e lhe dá um beijo demorado no rosto, ele está sorrindo. Ela diz algo em seu ouvido, ele sorri e ela vai em direção á alguma outra parte longe do meu alcance.

Ed olha pra mim, eu mantenho minhas expressões firmes não demonstrando nada. Eu me sento de costas para eles e procuro respirar regularmente, para que aquele peso saia do meu coração.

Que droga! Tudo o que eu mais queria era não me magoar de novo, mas ser apenas uma das garotas que ele encanta só para se divertir, dói muito. Eu sei que eu crio toda uma expectativa sobre ele, mas isso é tudo que eu tenho, porque não tive a chance de conhecê-lo antes de começar a gostar dele.

Eu olho novamente em sua direção e me levanto para ir embora. Ele me olha confuso, mas tem muita gente perto dele para que ele possa me impedir. E eu sou boba de pensar que ele vá fazer isso, porque assim que me viro para sair pela porta, o vejo saindo de mãos dadas com uma garota de cabelos pretos longos, que mais parece uma modelo e que vi na primeira fila, o vendo cantar hoje mais cedo.

Eu ando depressa até o estacionamento e agradeço aos céus por ali estar tranquilo e não ter ninguém para me perguntar se estou bem. Eu entro no carro, coloco minhas mãos e a cabeça no volante, respiro fundo muitas vezes e repito baixinho:

"Eu não vou chorar, eu não vou chorar, eu não vou chorar..."

Coloco a chave na ignição, dou partida no carro e começo a manobrá-lo, com cuidado para que não se encoste a um carro que está muito perto do meu.

__Maldição! Quem colocou esse carro aqui é muito idiota mesmo!

Eu digo pra mim mesma.

Eu começo a dirigir em direção á saída. Olho pelo retrovisor para ver se não vem vindo nenhum carro,quando olho pra frente, Ed está com as duas mãos no vidro da minha janela e tem sangue do lado direito de sua sobrancelha. Eu desligo o carro e desço rapidamente.

__O que aconteceu?

Ele pega no rosto e sorri sem graça.

__Isso? Não foi nada!

__Como nada? Tá sangrando.

Eu nem percebi que estamos tão próximos e eu estou tocando seu rosto. A gente se olha por uns segundos e eu me afasto ao me lembrar daquela cena em que ele sai de mãos dadas com aquela garota antes.

Ele diz:

__Pedi pra você não ir embora!

Aquela dor começa a me invadir de novo, eu olho para baixo e não respondo nada. Ele percebe que eu estou desapontada.

__Aquilo que você viu não é nada disso que você está pensando, eu...

Eu ergo meus olhos e antes que ele termine a frase eu o interrompo.

__Você não precisa me explicar nada, tá tudo bem!

Eu digo fingindo um sorriso que não tem nada de verdadeiro.

__Só me escuta!

Ele segura meus braços e eu percebo que nunca nos tocamos assim e me concentro no calor que aquele simples toque causa em meu corpo. Eu olho para meus braços,suas mãos me segurando e em seguida olho para ele que continua:

__Eu não queria que você saísse, mas eu não pude te impedir. Lisa, uma amiga minha me levou até uma saída dos fundos, a porta estava difícil de abrir e me cortei.

Agora eu me sinto meio boba. Porque aquilo tudo me irritou tanto? Acho que tenho um coração muito maltratado e sempre penso que não é possível que alguém goste de mim. Afinal ele fez isso tudo para me impedir de sair,ele está comigo agora e não com aquela garota loira,não é mesmo?

Ele fica por um momento observando minha reação, ele sempre faz isso, talvez ele pense que a qualquer momento vai dizer algo que me fará correr para bem longe dele. Eu nunca teria forças para fazer isso, mas saber que ele também tem esse medo, de certa forma me deixa feliz.

__Você é louco!

Eu digo rindo.

Ele se afasta e ri. Acho que seu medo foi embora ao ouvir minhas palavras.

__Você quer voltar para dentro?

Eu digo sem muita convicção.

__Não! Preciso ficar longe de multidões por um tempo.

Ele passa a mão no machucado e faz cara de dor.

__ Quer que eu chame alguém para cuidar disso aí no seu rosto?

Eu começo a andar em direção á casa de shows novamente e ele diz:

__Não! Por favor, não chame ninguém.

__Mas você não parece bem.

__Eu vou ficar.

__Mas tem muito sangue! Você precisa limpar isso!

__Meu apartamento não fica muito longe daqui! Eu posso dirigir até lá.

Eu não posso deixar ele fazer isso. Eu não vou dormir em paz sabendo que ele não está bem.

__Vem comigo. Eu te levo. Só me diz como chegar lá. Afinal é um pouco minha culpa também.

Eu peço para que ele entre no meu carro. Eu olho pra ele que está com a mão acima do olho.

__Então, onde é seu apartamento?

...

...

Já no carro eu tento não deixar que a sua presença me faça perder a noção da realidade. Mas pensamentos como: "Ele está comigo, no meu carro", "Ele não queria que eu fosse embora","Meu Deus,ele está aqui comigo em meu carro!"... Droga! Eu balanço minha cabeça para afastar aquilo tudo de lá e me deixar concentrar nesse momento. Ele me olha e ri. Eu o olho e pergunto rindo também:

__O quê?

__Por que você sempre balança a cabeça assim?

Eu olho pra ele que também está olhando pra mim. Em seguida eu olho pra frente porque eu já sei que não posso ficar hipnotizada por ele enquanto estou dirigindo e não olhar para ele me faz raciocinar com mais clareza. Eu não sabia que ele havia notado que faço isso, mas respondo:

__É para afastar alguns pensamentos e me concentrar no aqui e no agora.

__Certo!

Ele está olhando para frente agora e eu agradeço, porque quando ele olha pra mim, mesmo que eu não esteja olhando para ele, eu sinto meu corpo queimar.

Estamos parados em um sinal fechado. Um minuto de silêncio é interrompido pela pergunta inesperada dele.

__Aquele cara da recepção da gravadora... Ele é seu namorado?

Eu me surpreendo com aquela pergunta e digo com um riso divertido no rosto:

__O Peter? Claro que não!

E acrescento meio constrangida por estarmos falando sobre isso:

__Eu não tenho namorado.

Ele olha pelo vidro da janela do seu lado e eu posso jurar que vi um sorriso em seu reflexo, eu mordo meus lábios para não sorrir também.

__É só virar á esquerda e chegamos.

Realmente o apartamento dele é relativamente perto de onde estávamos. Chegamos e ele agradece por eu ter trago ele. Eu peço para dar uma última olhada e vejo na claridade da luz da entrada que não é um machucado tão simples assim.

__Talvez precise de pontos!

__Não, eu vou ficar bem!

Ele diz isso e se desequilibra. Eu peço para ele se sentar em um dos bancos que há no estacionamento do hotel.

__Você tem certeza que não quer que eu chame o James?

__Não! Não precisa, eu sempre faço isso de sair á francesa. Ele sabe onde estou.

Eu preciso fazer alguma cosa a respeito.

__Vamos! Eu subo com você até seu apartamento e te ajudo a limpar isso aí.

Ele se levanta e seguimos até o elevador. O apartamento dele fica no quarto andar, assim que chegamos ele abre a porta e eu vejo que é apenas um lugar normal como outro qualquer.

__Achei que fosse mais colorido!

Eu digo rindo porque sempre que estou nervosa ou ansiosa essa é minha tendência também.

Ele acha graça e diz:

__Eu tenho um kit de primeiros socorros no banheiro, vou pegar e já volto. Fique á vontade!

Eu tiro meu casaco porque ali não faz mais frio como lá fora.

Alguns minutos depois ele volta com o kit na mão. Eu peço para que ele se sente de frente para mim no sofá que está no meio da sala. Eu separo tudo que vou precisar e deixo em cima da mesinha de centro e começo a examinar o machucado, ele me olha curioso.

__Você parece entender disso!

__Minha mãe é enfermeira!

Eu examino tudo de perto e tento ignorar que estou á poucos centímetros do seu rosto. Eu respiro fundo e digo:

__Não, acho que não vai precisar de pontos, não é tão profundo, mas eu tenho que limpar isso aqui com um pouco de álcool.

__Droga!

__O quê?

Eu digo rindo.

__Vai doer?

__Não, só vai arder um pouco.

Ele não faz uma cara muito boa. Eu pego o algodão coloco um pouco de álcool e assim que me encosto a seu machucado ele se afasta fazendo uma cara assustada.

Eu não consigo evitar rir novamente.

__É só você pensar em alguma outra coisa.

E começo a falar com ele.

__Te ouvi dizer para aquela repórter que você vai fazer shows pelo país?

Isso parece funcionar porque ele me responde enquanto eu ainda estou passando o algodão retirando todo vestígio de sangue do seu rosto.

__É, nós vamos fazer alguns shows a partir de amanhã.

__Amanhã?

Eu sinto uma pontada de tristeza, que logo disfarço.

__Que bom! E você pretende fazer esses shows por quanto tempo?

__Um mês, ou mais, não sei direito ainda.

Meu coração se aperta um pouco mais.

Ao pararmos de falar eu lembro de novo que estou muito perto dele,ele está olhando pra mim e lá estão aqueles pensamentos de novo: "Por que ele tinha que ter um cheiro tão bom?" "Como seria beijar ele?"...

Eu balanço a cabeça novamente e ele ri.

__Você fez de novo!

Eu desvio minha atenção para um band-aid que deixei separado na mesa para colocar assim que terminasse.

__Pronto!

__Valeu,enfermeira!

__Hey,eu não sou enfermeira!

Ele dá de ombros enquanto diz:

__Bem,para mim você foi!

Eu respiro fundo e noto que ali tem vários violões espalhados por todos os cantos.

Ele me olha enquanto eu observo tudo. Eu olho para ele e peço:

__Você poderia tocar alguma música?

Ele me olha surpreso e diz com um sorriso enorme.

__Claro!

Ele começa a cantar uma música que fala sobre pedir o amor de alguém e eu me agarro aquele momento como se fosse o último que teremos juntos.

Eu agradeço aos céus por ele estar de olhos fechados, assim eu posso observar cada detalhe e guardar na memória,o jeito como ele segura o violão, a paixão que coloca em cada acorde que ele toca, aquelas várias pulseiras que ele tem no braço,o som daquela voz...

Ele abre os olhos canta mais uma vez o refrão e vai silenciando o violão, é tão triste a falta que me faz o som daquela voz assim que ele pára de cantar. Ele segura as cordas do violão com a mão e me olha de um jeito tímido que eu nunca tinha visto antes. Eu quero aplaudir ele por horas,mas tudo que consigo fazer é respirar fundo enquanto olho pra ele.

__Eu senti tanta falta disso.

Ele diz com um olhar nostálgico. Eu questiono:

__Falta de quê?

__Do jeito que o meu coração fica acelerado, toda vez que você me olha assim.

145...150...160

Como meu coração pode acelerar tanto, enquanto eu sinto que meu corpo mais parece uma gelatina?

Lá estou eu de novo sem reação,paralisada olhando pra ele.

Ele coloca o violão no chão ao seu lado e se aproxima.

__Posso fazer uma coisa?

Eu emito algum tipo de sinal corporal afirmativo. Ele então retira meus óculos e olha no fundo dos meus olhos.

__Eles são tão lindos quanto eu os imaginava por detrás desses óculos.

Estamos á centímetros agora, ele se aproxima e eu posso sentir sua respiração. Ele parece esperar por alguma permissão minha para que ele me beije. Eu fecho meus olhos e ele entende isso como um sim,porque seus lábios estão nos meus agora.

Sempre que eu beijava algum garoto eu ficava comparando com os beijos do Feliphe,mas eu sinto que agora eu não posso fazer essa comparação, porque a sensação que tenho ao beijá-lo é totalmente diferente de todas que já experimentei antes.

E eu balanço a minha cabeça para afastar aqueles pensamentos que estão lá. Ele ri em meus lábios e eu quero sentir o som daquele riso em meu coração, então eu o beijo ainda com mais intensidade. Estamos deitados no sofá.Geralmente eu não tenho essa reação quando alguém me beija, ainda mais pela primeira vez,mas há mãos minhas e dele por todo nossos corpos e eu não estou me preocupando em tirá-las de lá como sempre faço.

Ele se apoia em seu joelho enquanto retira seu casaco,por que de repente um calor nos invade,eu sei porque também posso sentir. Eu não o impeço,pelo contrário eu me ergo e vou ao seu encontro,eu não quero ficar nem um segundo longe do seu alcance. Eu o ajudo a tirá-lo por sua cabeça, estamos rindo daquela cena,voltamos juntos e nos beijando para o sofá novamente. Nossos beijos ficam a cada instante mais intensos.

__Ed! Então você está aí né?

Nos levantamos depressa e nos separamos. James está na porta nos olhando sem nenhum constrangimento. Eu procuro meus óculos,mas não consigo encontrá-los. Ed me entrega enquanto se levanta e me olha. Estamos ofegando não sei se pelo momento ou pelo constrangimento de termos sido pegos daquela forma. James vai até a cozinha,abre a geladeira e continua.

__Eu não me importo com tudo isso,mas é que tá vindo mais algumas pessoas aí para fazermos alguns ajustes sobre a viagem de amanhã e eu só vim na frente avisar.

Eu me levanto,pego meu casaco e passo as mãos pelo meu vestido tentando concertar uns amassados. Ed está me olhando,eu posso sentir mas eu não tenho coragem de olhá-lo de volta.

__Eu tenho que ir!

Ele segura meu braço e eu sou forçada a olhar para ele.

__Não! Você não precisa ir agora!

__Eu acho que é melhor eu ir!

Eu me afasto de seu toque e vou em direção a porta.

__Eu te levo até a saída.

__Não precisa!

Eu digo sorrindo. Algumas pessoas fazem barulho pelo corredor e eu me apresso em sair pela porta. Ele volta pra dentro e assim que está de volta ele grita:

__Pelo menos leve meu casaco,tá muito frio lá fora.

Eu pego o casaco laranja de sua mão e o coloco,agradeço e sigo em frente. Ele fica parado na porta me olhando até o elevador se abrir. Várias pessoas saem de lá e eu entro. As pessoas falam com ele, mas estamos nos olhando como se estivéssemos sozinhos naquela cena. O elevador se fecha.