One-shot - Tragédinhas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Essa fanfic foi elaborada para um desafio da Liga dos Betas.
O objetivo era fazer uma fic contendo as dez palavras sorteadas, de modo que essas não poderiam ser alteradas. A fic deveria ser uma one-shot e com no máximo 2.000 palavras.
Boa leitura.
Tragédinhas
A vida é cheia de tragédinhas. Como quando você é escolhido por último no jogo de queimada. Ou quando seu melhor amigo vai morar do outro lado do país. O fato, é que algumas tragédias, tornam-se mais interessantes apenas por serem contadas. Como Romeu e Julieta.
Mas qualquer pequena tragédia pode virar uma tragédia grega.
Aos vinte quatro anos. Miguel já tinha um livro publicado, e este, o maior best seller do ano. Um sucesso absoluto no país, e acima de tudo uma história de superação. Ele perdera a esposa num acidente automobilístico, e nela se inspirou para escrever (ou pelo menos foi isso que ele explicou para mídia). A personagem era uma moça tão inocente e pura, que causou letargia nos leitores. Entretanto, tal como na vida, a personagem morria de forma trágica e dolorosa, fato que realmente interessou o público.
Transtornado, Miguel jogou longe suas cobertas e levantou-se da cama em desespero, vestindo-se e correndo em direção a saída. Fazia meses que ele não sonhava com Cíntia, mas pelo visto, hoje era o dia do passado assombrá-lo como um fantasma.
Culpava sua ansiedade, acima de tudo, a maldita baixista que vira tocar no jantar. Da última vez que a viu, ela estava servindo mesas. Tinha se inspirado naquela moça caipira da cidade pequena para escrever, e parecia inconcebível para ele, ver como ela evoluíra.
Ele andou pelo corredor, totalmente sem rumo, como um zumbi; enquanto estava peneirando seus pensamentos. Quase inconscientemente, ele parou na porta do quarto, e quando o fez, já sabia que iria se arrepender de procurá-la. No entanto, sua depressão o atacou. Não queria ficar sozinho, e mesmo tendo sentimentos contraditórios (como culpa, saudade, medo, e aquela vontade de comprovar se ela ainda nutria algum sentimento por ele – afinal, não precisa ser reciproco para ser importante), decidiu bater na porta.
Ela não suportava mais aquele filme. Era sobre um naufrágio, o que a lembrava de Titanic, o que a lembrava de um romance pífio que a deixava deprimida; principalmente depois de vê-lo hoje.
Era bem verdade que ela sabia que ele estaria lá. Porem, no fundo ela queria vê-lo. Até o
fim de sua vida, ela insistiria que esse desejo era para esfregar em sua cara como ela havia melhorado, não só de vida, mas principalmente de atitude. Entretanto, era claro que ela nutria ainda uma pequena chance de ficar com ele.
Ouviu alguém bater na porta, e estranhou. Não tinha pedido serviço de quarto, logo, só poderia ser um engano. O engano, entretanto, era absolutamente da parte dela.
- Oi Luana. – Cumprimentou o escritor, que tinha uma aparência nada boa. Soava tanto que parecia que acabara e correr vários andares, sem contar o rosto amarelo. Ela não esperava, mas a realidade bateu forte nela. Ela não via mais o homem que um dia fora apaixonada, e sim, um homem doente, de várias maneiras (todas que a repeliam).
- O que faz aqui á essa hora, Miguel? – Ela perguntou seriamente, cansada dos jogos que ele fazia.
Ele ficou desconcertado. Realmente, não havia nada para fazer ali. Mas tinha que responder algo a ela.
- Você me chamou para ouvir música. Lembra? – Disse colocando um sorriso no rosto, com a desculpa mais ridícula que pensou. Ela havia o convidado logo após o primeiro encontro deles; uma maneira desajeitada de meninas caipiras de sugerirem sexo.
Luana ficou estarrecida de raiva. A vontade era sovar a cara dele no asfalto. Como ele podia ser tão cínico? Ele nunca pararia de brincar com ela? Ela respirou fundo, contando até dez, e finalmente respondeu:
- Chega Miguel. Se você não se cansa, eu já cansei faz tempo! – Ela disse, controlando-se tanto quanto podia, já segurando a porta com a intenção de fechá-la.
- Não é bem assim, Luana. – Ele disse, fechando seu sorriso, assumindo então uma expressão torturada. – Eu tenho minhas razões para ser assim.
Ela revirou os olhos, e olhou para ele com um olhar acusador, enquanto ria em escárnio.
- Nada justifica seu egoísmo Miguel. Você sempre se aproveitou que eu era “apaixonadinha” por você, e me usou da forma que queria. Aposto que essa é mais uma gambiarra para me atrair para seu quarto. Assim, além de uma boa trepada, você consegue mais uma personagem para seus livros de bosta, não é?
- Eu nunca te usei Luana. Você sabe que meu passado é difícil...
- Porque você perdeu alguém? Isso não justifica o que fez para mim. Eu não vou perder meu tempo brigando com você. Além do mais, amanhã você tem uma tarde de autógrafos; se estiver muito cansado, quem mais poderá me ridicularizar? – Ela ia fechar a porta, mas ele parou com as mãos.
- Não vim em busca de sexo fácil. Vim por uma amiga. E você não sabe como me arrependo por ter te contado que me inspirei em você para escrever sobre Vanessa. Mas no fim, eu estava certo. Você é um poço de ingenuidade, e suas palavras demonstram isso. Porem fica claro para mim que você não precisa de malicia, para ser cruel.
Depois disso, a porta foi fechada. Eles não se viram nunca mais. A não ser que contem a foto dele, estampada no jornal cuja manchete dizia: “Escritor de best seller é encontrado morto” um encontro.
Miguel suicidou-se, não antes de deixar um pedido de desculpas formal para Cíntia. Sim, Luana fora ignorada ainda uma última vez antes de sua morte. O que é bem irônico, se pensarmos que ele morreu por não querer ficar sozinho, e ela era tudo o que ele precisava para não ficar só.
Luana, também não teve um final feliz. Tocou baixo até os vinte cinco e depois voltou para sua cidade natal, trabalhar como garçonete. Esqueceu tão bem Miguel, que sua única tristeza era ter que trabalhar sem o baixo.
Provavelmente, você deve achar bem absurdo o que eu acabo de escrever. Porem, a intenção não era escrever uma comédia, nem um romance, tampouco, fazer seus olhos banharem em lágrimas.
A intenção é apenas que você compreenda que coisas assim acontecem todo dia. Talvez não com baixistas e escritores. Mas Migueis e Luanas estão por aí, escrevendo suas histórias e esperando que alguém possa contá-las, apesar de seus finais infelizes e incompletos.
Notas finais
- Fantasma;
- Música;
- Escritor;
- Naufrágio
- Zumbi;
- Sovar;
- Amarelo;
- Peneirando;
- Gambiarra;
- Amiga.
Conseguem lembrar de todas?
Espero que tenham gostado da brincadeira.
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