One-shot - Eu escolhi o nada
2 Final alternativo
Notas iniciais
Pensei que a morte traria meu alívio. Principalmente ao lembrar da última coisa que meus olhos captaram: Edward, meu anjo. Eu deveria odiá-lo. Mas eu não podia. Não ao lembrar do último olhar que ele me lançou. Era como se ele me amasse. Como se ele estivesse assistindo a cena do filme de terror mais assustador de sua vida. Era desespero puro. Contudo, o fato de eu estar lembrando desses fatos, mostravam que algo estava estranho. E pior, junto com minhas lembranças, eu sentia uma queimação em meu coração.
Aos poucos eu estava recobrando minha percepção de corpo. Era como se meus órgãos internos fossem massinha de modelar e meus ossos cacos de vidro. A única parte que funcionava era o meu coração, que fortemente bombeava sangue para o meu sistema.
Eu podia sentir sangue correndo por debaixo da minha pele, porque por onde ele passava, eu sentia uma queimação. Aos poucos tudo foi ficando mais e mais quente. Eu estava pegando fogo!
Eu fui para o inferno?! Era meu castigo por tentar suicídio? Não seria muito justo, já que ao fim fora Victoria quem me matou. Mas quem era eu para mudar uma ordem divina?
Pensei em Edward de novo. Toda minha mágoa, se transformou numa enorme decepção. Queria ter falado com ele pela última vez. Saber o que ele estava fazendo ali. Então algo estalou em minha mente. Ele não era real. Edward não se importava comigo. A última visão que eu tive não passou disso, uma visão.
Naquele momento o fogo começou a aumentar e arder mais forte, fazendo com que fosse impossível ficar divagando (o que era bom, dadas as circunstâncias. Já que eu passaria minha eternidade no inferno, iria ao menos mentalizar que ele tinha me amado e o sacrifício para vê-lo pela última vez tinha valido a pena).
Eu estava presa numa imensidão de fogo e nada. Havia apenas o escuro, o silêncio e o fogo invisível, que me dilacerava. Tudo que eu queria era encontrar a minha garganta e gritar bem alto e forte. Mas não dava.
Foram horas.
Décadas.
Séculos.
Finalmente eu aconteceu algo além do fogo. Senti os ossos do meu esterno e costelas se reconstruírem, e aos poucos, meus órgãos assumirem seus lugares de origem.
Mais um infinito de tempo depois, senti o osso do meu braço ser consertado. Por último, ia sentindo que não havia mais uma ferida aberta em minha panturrilha.
O fogo prosseguia lambendo meu corpo, mas eu entendia que aquilo era o preço para que eu passasse para o paraíso. Afinal, não tinha um motivo para me reconstruir se eu iria permanecer no inferno.
O calor das chamas aumentou ainda mais. E ainda mais. E quanto mais aumentava, mais eu sentia minha cabeça ficar pesada e estável. Meus ouvidos começaram a captar sons. Primeiro, eram barulhos esparsos e ininteligíveis. Mas depois do fogo aumentar mais duas intensidades, eu conseguia entender as palavras.
– Não está funcionando, Carlisle. – o tom urgente entregava o quanto ele estava desesperado. Só não sabia o porquê. A sala prosseguiu em silêncio, como se ninguém fizesse questão de respondê-lo. – Eu espero que ela me odeie. É o mínimo que eu mereço. – ele disse com a voz embargada, encostando a ponta de seus dedos em meu rosto.
A mão dele ardeu muito forte em minha pele, como se fossem labaredas de fogo. Naquele momento encontrei minha garganta e pulmões, e dei o grito mais alto e desesperador da minha vida. A sensação era horrível demais.
Acho que ele tomou um susto muito grande, pois tirou imediatamente a mão do meu rosto. E eu só notei isso, porque o fogo abrandou um pouco.
Continuei queimando, e dessa vez gritando a cada aumento de intensidade do fogo. Eu deveria estar carbonizada. Ser apenas cinzas. Mas por algum por algum motivo, eu me sentia muito forte.
Em algum ponto, tudo simplesmente enegreceu por alguns segundos. E após isso, o fogo começou a abrandar. Eu sentia ele deixando as extremidades do meu corpo, e concentrando-se em meu coração. Tentei me concentrar para saber o que estava acontecendo, mas eu não lembrava. Não me lembrava de nada. Vultos escuros se passavam por minha mente: uma menina de cabelos e olhos castanhos aparecia, sempre se olhando através de espelhos. O fogo recuava cada vez mais, e as imagens iam ficando cada vez mais borradas. Tinha um ruivo. Uma mulher loira. Um homem de cabelos pretos. E então apenas silhuetas, que eu apenas conseguia diferenciar o sexo e a altura.
Enquanto pensava nisso, meu coração começou a martelar violentamente, como se estivesse sobrecarregado. E de fato estava. Era a única parte de mim que queimava agora. O barulho que ela fazia era extremamente alto e rápido, quase como hélices de um helicóptero. Desisti de pensar e gritar, e tratei apenas de me concentrar naquela dor.
Doeu por mais algum tempo, e da mesma forma súbita que tinha começado, tudo parou.
Era para eu estar morta, tinha consciência disso. Contudo, eu sabia que se me mexesse e abrisse meus olhos, estaria tão viva quanto sempre estive. Forcei meus olhos a se abrirem, e foi estranho. Eu estava deitada em uma cama, mas tudo que eu via era um espelho fixado no dossel. Ele refletia a minha imagem, clara e nitidamente, e embora eu soubesse disso, sentia como algo ali fosse estranho. Pensei um pouco, e então lembrei-me da menina de cabelos e olhos castanhos. Era eu. Era eu, mas muito diferente da imagem que o espelho refletia. Mas por quê?
Enquanto continuava a refletir minha aparente mudança física, meus pensamentos foram até o local onde eu estava. Meu instinto mandou que eu puxasse o ar a minha volta, e quando eu o fiz, automaticamente me levantei de onde estava e fui em direção oposta aos dois vampiros que me esperavam ali. Atrás deles havia uma porta que me levaria ao andar de baixo, que exalava um cheiro irresistível. Contudo, eu precisava me defender daqueles dois, que claramente eram uma ameaça para mim.
– Bella? – disse um deles (o ruivo, que parecia jovem) para mim. Assimilei rapidamente que meu nome era Bella e que nós nos conhecíamos. Mas não me lembrava de nada mais concreto.
– Você deve estar confusa. Não iremos te machucar. – garantiu o loiro. Após vários segundos de silêncio e inércia, saí da posição de defesa. De fato eu estava confusa. Mas também estava morta de... Sede. Minha garganta estava em brasa, e eu queria que algo descesse para abrandar aquele fogo. E meu instinto mais uma vez me guiou, dizendo que o que eu queria estava no andar de baixo. O cheiro era bem fraco, mas ainda assim, delicioso.
– Minha garganta arde. – disse simplesmente. Se eles queriam me ajudar, era só me guiar para o maravilhoso cheiro.
– Oh, sim. Venha comigo. – o ruivo estendeu sua mão, aproximando-se de mim. Eu estava com muita dor, e só queria saná-la. Por isso confiei no estranho ruivo, e rodeei sua mão na minha.
Para minha surpresa (e decepção) ele me levou para floresta. Eu não entendi o porquê, uma vez que o piso inferior parecia muito mais próximo. Ele tentou me ensinar a caçar animais, mas todos tinham cheiros horríveis. Minha sorte foi encontrar um cheiro que tinha um sabor ainda mais palatável – um montanhista que estava perdido na floresta. Depois de tomar o sangue de um cervo e de um humano, a ardência pareceu abrandar-se.
Eu ainda não sabia o nome do ruivo, mas já estava na hora de perguntar (em algum momento da caçada, percebi que ele era o ruivo que eu vi enquanto queimava. Será que ele tinha respostas?). Resolvi começar a perguntar, enquanto ele escondia o corpo do falecido.
– Como você se chama, e de onde me conhece? – ele parou o que estava fazendo e olhou para mim antes de responder.
– Você não se lembra de absolutamente nada?
– Não. Sei que me chamo Bella, pois você me disse. E sei que eu fui queimada durante os últimos dias. – ele pareceu ponderar minhas palavras, e depois de um tempo, aproximou-se de mim.
– Sou Edward. Você é a minha companheira. Eu era vampiro quando te conheci, e agora você também é uma. Por isso que queimou nos últimos quatro dias. –– fui assimilando as informações. Sinceramente, não me pareceu nada absurdo.
– Por que me trouxe até aqui para caçar? Senti o cheiro lá na... Nossa casa? – ele apenas assentiu, com a minha menção de espaço.
– Nós não deveríamos caçar humanos. Hoje foi uma exceção. – franzi meu rosto àquela informação. Não gostei do sangue de cervo, e não pretendia viver de algo diferente de sangue humano.
– Por que não podemos caçar humanos? – questionei.
– A questão é bem maior do que o “poder”. Não caçamos humanos, pois não é o certo. Enfim, antes de entrar nesse assunto, acho que temos muitas coisas a resolver... – ele pausou, como se buscasse as palavras. Eu, impaciente, resolvi apressá-lo.
– Sobre...?
– Sobre nós, Bella. – ele disse docemente, e eu apenas encarei em dúvida.
– Você fala sobre nosso relacionamento? Há algo errado? – disse confusa.
– Não. Não mais. Mas houve vários erros antes de sua transformação e... – enquanto ele falava, uma memória que parecia uma fotografia após pegar chuva e ser afundada na lama, de tão borrada e desgastada, surgiu em minha mente. Era algo sobre nós dois, e mesmo não conseguindo entender o que era, a tristeza que eu senti foi muito grande e real.
– Pare! – o interrompi. Decidi que eu não queria saber o que acontecia naquela memória. Não importava, afinal. – Eu não quero saber o que houve no passado. Foi péssimo, posso sentir. Para ser sincera, uma parte de mim sente uma forte atração por você, e está louca para acabar com esse papo tolo e esse espaço entre nós. Mas por outro lado, algumas memórias vêm, e mesmo que elas nunca sejam nítidas, porque sei que sofri muito por sua causa. Portanto, a minha ignorância é uma benção. Não quero lembrar que eu tive um passado; dele, eu só quero tirar meu nome e você. E se você não puder me ajudar nisso, talvez eu possa seguir sozinha e me afastar de tudo que eu não quero lembrar. –– Edward acabou com todo espaço entre nós, colocando suas mãos em meu rosto, e colando nossos lábios.
– Você sempre é boa demais para mim, Bella. Sempre foi, e sempre será. – ele disse com muita emoção, logo me beijando, e eu prontamente o correspondi. Assim que os lábios de Edward se separaram dos meus, eu descobri que não tinha volta. Eu o amava de forma incompreensível e irrevogável, de modo que seria impossível ficar longe dele.
Lembrei de uma citação de Shakespeare que dizia: “lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente”. Essa frase se aplicava perfeitamente aqui.
– O que você está pensando? – ele perguntou curioso.
– Citações Shakesperianas. Me lembro bem delas.
– A transformação em vampiro apenas mexe com nossas memórias pessoais. Você deixou de ser humana, então não precisa se lembrar da parte humana. Contudo, o que você aprende é algo que pode te ajudar a ser uma vampira melhor. Eu me lembro até hoje sobre meu último jornal lido antes que eu ficasse doente...
– Isso foi há muito tempo? – perguntei, e ele respondeu com um lindo sorriso.
– Podemos dizer que sim. Preciso te contar várias coisas. Vamos para casa? – ele perguntou, pegando em minha mão.
– Se eu aceitar vou poder tomar sangue de humano? – eu já imaginava a resposta, mas não custava tentar.
– Nada disso, mocinha. Espero que quando eu te conte a história da nossa família, você mude de ideia. – Edward rodeou minha cintura com um braço, enquanto segurava meu pescoço próximo ao seu rosto com o outro. – Eu te amo Bella. – ele disse intensamente, e eu senti deleite em cada palavra que saía de sua boca.
– Mesmo que eu tome sangue humano? – eu disse brincalhona.
– Mesmo que você aniquilasse minha família, e tentasse me matar. Você é meu tudo, Bella, e eu quero passar o resto da minha eternidade com você. – aquelas palavras deveriam me soar estranhas, mas elas eram mais que plausíveis para mim.
– Eu também quero, Edward. Não entendo o porquê, mas eu também não posso viver sem você.
Edward me beijou com sofreguidão. Para mim aquele foi nosso primeiro beijo (se é que tínhamos nos beijado antes), e tinha sido absolutamente perfeito. Qualquer período de tempo menor que eternidade, jamais seria suficiente para eu matar minha vontade do Edward.
– Vamos começar nosso para sempre? – ele perguntou assim que nos separamos.
– Para sempre. – eu respondi, e ele soltou de minha cintura e pegou em minha mão, escolhendo a direção que nos levaria de volta.
Não tinha ideia do que o futuro me reservava. Mas de uma coisa estava certa: enquanto eu estivesse com Edward, o caminho estava certo. E valia a pena.
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