One shot: As Ruínas de Emèrladren
1 Capítulo Único
A luz entrava galerias adentro por grandes vitrais cor de menta. Figuras envidraçadas de reis de outrora, de quando o mundo ascendera em grandes décadas de Ordem. Emèrladren fora um dos grandes reinos élficos do passado, palco de grandes avanços para o Mundo Conhecido. Os castelos élficos foram construídos de acordo com a vontade da floresta, respeitando suas leis impostas àqueles que a habitavam.
Ali era um amplo salão, com grandes colunas de pedra branca como prata, brilhando sob a luz da lua cheia. O chão era mármore polido, e uma lareira lançava um calor confortável pelos aposentos de pedra fria. Os ventos cruéis da noite não adentravam os Salões dos Reis Elfos em nenhuma circunstância, enquanto houvesse um rei para governar.
Ereld tinha os cabelos louros, ligeiramente castanhos. Longos e caindo em ondas, eles adornavam o rosto pálido do elfo em duas tranças bem feitas, com argolas prateadas onde haviam inscrições em alto feérico – joalherias antigas, de outros tempos. Os olhos eram vermelhos como o sangue, bastante severos, e a boca fina era como uma linha reta entre suas bochechas rosadas. O rei vestia um gibão de seda, e por cima uma túnica branca, cuja capa arrastava-se no mármore atrás de si.
Quando ele adentrou o salão, os menestréis élficos se dispuseram rapidamente a executar uma música suave, dramática e pesada. Era do gosto do rei elfo, e por isso ele permaneceu quieto enquanto passava pelo salão, o olhar deslizando melancolicamente sobre os vitrais. Quando eu finalmente dormir, terei o mesmo fim. Ele sabia, e por algum motivo aquilo não lhe era o bastante. Ser lembrado como apenas mais um rei. Logo ele, que governava os elfos com os punhos de ferro durante as eras escuras da Noite. Esses reis elfos não lutaram os servos da escuridão como eu. Talvez Merandriel, o Guerreiro, por viver entre o limiar do Caos e da Ordem, talvez ele saiba o que estou passando agora.
Seu olhar se demorou na imagem do ancestral. Os cabelos louros claros cortados, vestindo uma armadura de anéis prateados e uma espada com inscrições élficas. Aprendera sobre ele em seu primeiro século, o grande rei que conduzira os exércitos pelo rio Andelúr e derrotara os exércitos dos orcs que marchavam sobre a floresta. Merandriel morreria em um local chamado de Desfiladeiro da Serpente, onde sozinho enfrentara uma horda horrenda de criaturas de um olho só.
— Nilfsuúr lathos iamorè na lia.— murmurou o rei, o olhar respeitoso sobre a imagem do ancestral. Levou a mão em um punho fechado aos lábios e beijou suavemente o nó do dedo indicador. Um breve prece respeitosa.
A grande ironia, para Ereld, era que ninguém sabia o porquê. Ele perguntara para seus instrutores e, depois da negativa, pesquisou por si mesmo. Ninguém sabia, e não havia nenhum relato. Não se sabia porque Merandriel estava naquele desfiladeiro, nem porque ele enfrentara aquela horda de ciclopes.
Preso. Concluiu Ereld, voltando a caminhar em passos lentos pelo salão. Preso a si mesmo. Ao próprio destino. Ele levou as duas mãos aos ramos prateados finos como teias em sua testa, ajeitando a belíssima coroa que sustentava. À própria coroa.
Eren não se movia. A simples figura de seu avô o deixava desconfortável, mesmo que ele não estivesse olhando ou falando com ele. Os menestréis não o deviam ter percebido ali, escorado debaixo de uma sombra sob uma das colunas, o olhar atento recaindo sobre a figura do rei. O meio-elfo não se esforçara para ficar escondido, até porque não estava. Conhecia cada centímetro da residência real, sabia a história de cada sombra, a distância de cada passo ali tomado.
Vestia-se como de costume, o manto esverdeado cobria todo seu corpo, escondendo a armadura de couro. Deixara o arco e uma de suas espadas escondidas perto dali, porque entrar com muitas armas no castelo real para um “encontro reservado” com o rei poderia lhe render alguns problemas. Tinha somente uma espada curta devidamente embainhada por baixo da capa.
O rei estacou-se de frente para a lareira, o olhar frio recaindo em contraste com as chamas calorosas. Eren finalmente saiu da sombra onde habitava e seguiu até a figura do avô. Os menestréis – por um breve segundo – pararam de tocar a melodia, subitamente surpresos, mas logo se recompuseram. Eren conhecia alguns, eram os mesmos desde que era jovem e morava naqueles salões.
Postou-se ao lado do rei, o olhar distante também fitando as chamas.
— O que diz os ermos da floresta?— perguntou o rei, na linguagem dos anões. Sabia que o neto havia aprendido, parte com Filgorn, um amigo antigo, e parte sozinho, a linguagem daquele povo. Conversando com aquelas palavras, sabia que dificilmente os menestréis entenderiam do que se trataria a conversa.
— Noites difíceis.— respondeu Eren, baixo. – Os dias choram pelos que foram pela noite. O vilarejo fronteiriço foi atacado no último mês. Estou rastreando os autores, mas são um grupo de goblins, possivelmente liderados por um bugbear. Eles devem partir para sul, daqui a três semanas, ou voltarão ao vilarejo. De um jeito ou de outro, eu vou interceptá-los.
O rei ergueu uma sobrancelha.
— Quantos goblins?
— Oito.— respondeu Eren. Um dos menestréis moveu levemente a orelha. Os números eram compreensíveis, sabia ele bem.
— Não os intercepte. Você não conseguirá lutar contra oito goblins, muito menos com um bugbear os liderando.— respondeu Ereld, estático. – Chame outros patrulheiros para auxiliá-lo, ou não sairá vivo dessa empreitada.
Eren ficou em silêncio por uns instantes, e o rei sentiu sua teimosia crescendo nele.
— Tudo bem.— surpreendentemente, ele respondeu. – O Quatro-Folhas está pela região do sul, é capaz de estar na trilha dos goblins também. Ele é experiente, já me ajudou com algumas coisas, vou encontra-lo assim que partir daqui.
— Perfeito.— respondeu o rei, olhando o neto de soslaio. – Agora, veja bem, preciso que entenda algumas coisas. — ao dizer isso, viu que Eren virou a cabeça levemente para escutá-lo melhor, o cenho bem levemente franzido. – Meu filho está retornando. Sua empreitada nas terras ermas do norte está chegando ao fim. Setenta anos de aprendizado, ele voltará preparado para me auxiliar a governar e então tornar-se rei.
Eren moveu-se, quase minimamente, desconfortável. Seu tio Landros havia partido fazia décadas, e não sabia da morte da irmã, nem de seu nascimento. Pelo jeito que Ereld tratava o assunto, o meio-elfo entendia perfeitamente como o príncipe iria encarar a situação toda. O avô era a única força no reino élfico que o permitiria viver, sabia bem disso. Enquanto ele fosse rei, não correria perigo, mas uma hora Ereld iria adormecer, e Landros estaria triste, pronto e satisfeito em ter algum culpado.
A sabedoria de avô e neto coincidiam em poucos momentos, uma vez que Ereld era um elfo centenário e Eren um meio-elfo jovem. Porém, no olhar que trocaram, nunca souberam de tanta coisa em conjunto. Aquele olhar demorara-se por poucos segundos, mas só ali conversaram por horas. Debateram no brilho da íris, na imobilizada das pálpebras e nos arcos das sobrancelhas. Por um pequeno momento, eles encurtaram bastante a visita do meio-elfo, e pouco havia a ser conversado, ainda.
— Você deve estar aqui quando ele vier. Ele chegará em um ano, talvez. A patrulheira do norte irá avisar quando ele chegar nos domínios da floresta, e você será chamado imediatamente.— instruiu sabiamente, seu olhar agora fixo novamente nas chamas. – Deve permanecer nos andares superiores, e só atenderá a banquetes se for chamado, entendido?
— Sim.— respondeu simplesmente. Os menestréis também pareciam ter entendido a simples palavra.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo. Ereld soltou um comprido suspiro, os ombros relaxaram mansamente e ele virou-se de lado, iniciando sua caminhada de volta aos seus aposentos.
— Meu palpite é que ele atraiu os ciclopes para lá. – a voz de Erendil flutuou como música em língua élfica. O rei freou seu caminhar, mas sem se virar. – Ni’lathia era uma das patrulheiras da época. Ela relatou em seus registros um covil de ciclopes quatro milhas ao norte da floresta, nas colinas ventosas. Duas semanas depois, ela relatou que o covil havia pegado fogo por algum motivo que ela não conhecia.
— Alguém os atraiu para o desfiladeiro. Mas não era para lá que queriam que os ciclopes fossem. Se Merandriel tivesse galgado com mais velocidade, teria os encontrado mais ao norte, você sabe bem onde. – acrescentou o meio-elfo, olhando para as costas encapuzadas do rei. – Acho que foi assim que se deu. Merandriel quis reviver seu triunfo no Andelúr mais uma vez antes de adormecer.
Ereld fitava o chão, e o olhar levantou-se – com algum esforço – para a imagem do antigo rei. Era um bom palpite, ele reconhecia aquilo. Estava indubitavelmente errado, mas era uma boa linha de raciocínio, mais próxima que ele ou qualquer outro estudioso élfico havia chegado. Um leve sorriso forçou suas feições para cima, um pensamento que dançava entre a ironia e – sim, talvez lá no fundo – um pouco de orgulho.
Talvez um dia Eren descobrisse a verdade.
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