One-short - Lábios Thropp...
1 Capítulo Único
Círculos arroxeados postavam-se sob as pálpebras inferiores de Galinda. Estas que, ao serem alvejadas, anelavam de modo excedente.
As íris, desprovidas de contraste, possuíam uma tonalidade deveras desbotada. Era comum, de fato, ouvir frequentemente comentários voltados àqueles notáveis orbes azuis.
Cores como aquelas descansavam nas profundezas de um poço sombrio e fúnebre. Jaziam escassas, mas tão escassas, que talvez Galinda tenha sido o único ser bípede a nascer com olhos tão bonitos, sobretudo, igualmente melancólicos.
Reflexões tempestuosas que, no entanto, nunca estiveram voltadas àqueles olhos tardios e airosos. Verdadeiramente, os mesmos raios que proviam do astro cálido, iluminavam gentilmente o real aborrecimento de Galinda, forçando-a a abandonar inúmeras noites de sono: o medo.
Minha coragem é exorbitante... Dividiu seu pensamento, sem no entanto nada verbalizar, com o gato de pêlos grisalhos que, pomposo e enfadado, deitava-se sobre os lençóis níveos e recém-lavados que revestiam perfeitamente um velho, porém aconchegante colchão. Então, por que temo tanto em dizê-la estas simples palavras?
Antes mesmo que a proprietária dos luminosos e ligeiramente encaracolados cabelos alvos pudesse sequer encontrar meras respostas para suas reflexões banais, um som côncavo invade o pequeno cômodo e um físico magro e esmirrado acosta-se á parede cor-salmão.
Era ela... A razão de seu mínimo sono ter dissipado-se... Conforme aquele sorriso amplo e naturalmente maléfico adentrava a mente jovial de Galinda, seu corpo era tomado por um desejo devasso e hiberbólico antes jamais presenciado.
Metaforicamente falando, quem seria Galinda Upland, caso não houvesse conhecido e apaixonado-se por Elphaba Thropp?
Os cabelos negros sobre a face naturalmente verde e naturalmente encantadora; Os livros aconchegados sobre os braços finos da morena, tais quais são tão preguiçosos quanto os óclinhos da jovem bruxa.
Elphaba transparecia euforia. Elphaba era, de fato, a euforia. A personificação de um sentimento escandaloso, talvez um tanto quanto dramático, porém deveras interessante.
Mas interessante ao ponto de algemar a atenção de um ser de ego tão inflado? Tal coisa seria mesmo possível? As respostas jaziam presas nos olhos de Galinda, que miravam, pervertidos, os lábios carnudos de Elphaba.
"O que ocorre, Elphie?" Indagou, ausente daquela realidade, viajando em seus pensamentos. Imaginar era o hobbie de Galinda, e ela sabia fazê-lo perfeitamente.
Em meio a suas divagações, encontrou seus lábios unidos aos de Elphaba. Ela queria tanto tê-la em seus braços, mas jamais poderia realizar tal sonho... Por medo...
O medo, em si, é um sentimento covarde, injusto, que jamais jogará honestamente com Galinda ou qualquer outro ser. Ele invade o psicológico alheio afim de fazer as pessoas simplesmente sentir-o.
É um deleite ao medo ver sonhos e desejos sinceros dissiparem-se. Ele é covarde, simples e unicamente covarde, e aprecia ver os outros despencarem sobre seus próprios obstáculos.
"Fiyero. Encontro. Valentine's Day." Elphaba respondeu diretamente, jogando-se sobre a própria cama, exausta. "Como dizer à ele que não o amo sem ser rude?"
"Impossível." Disse Galinda. "Não sabes o quão doloroso é sofrer por alguém que jamais será capaz amar-te."
"Não quero desviar o assunto, mas agora que mencionastes, preciso perguntar-te: estás... amando?" Um sorriso brincalhão estampava a face de Elphaba. Uma pergunta naturalmente capciosa, feita somente com o intuito de caçoar da jovem Upland.
"Não é da sua conta, Miss Thropp." A loira resmungou.
"Não confias em mim? Não confias na sua Elphie?"
Ela inspirou profundamente, incrédula ao o que acabara de ouvir. "Sua". "Minha..." sussurrou baixinho, para si. Galinda sempre tomou uma posição de submissão, de passividade... Se pudesse optar entre atender os desejos alheios mais descarados ou lutar para obter liberdade, provavelmente escolheria a primeira opção, o que iria parecer-lhe menos complicado.
"Covarde" é um adjetivo exagerado se estamos a tratar de definir tal bruxa em poucas, únicas palavras. Mas coragem é algo que Galinda não tem, ou talvez ache melhor não usá-la.
Tratando-se de Galinda Upland, as palavras "malandra" e "descarada" encaixam-se perfeitamente. A sinceridade é algo do qual a loira usa sem consequências, sem hesitar. E por isso tal qualidade torna-se um defeito. Contraditório, talvez. Mas o que é normal no universo róseo de Galinda?
"Pertences a mim? És minha?" Questionou a menor, sem mais delongas. Após constatar o que havia dito, já era tarde. Elphaba tinha a resposta e não hesitou em dizê-la em tom firme:
"Sim. Teoricamente falando, sou sua. Este quarto é seu, afinal, portanto podes despejar-me quando quiser." Oh, aquilo estava sendo bom demais para os ouvidos da loira... "Estou em suas mãos, Glinda. Sou sua."
Galinda deixou escapar algumas risadas eufóricas e agudas. E Elphaba... Bem... Elphaba permitiu-se, pela primeira vez, talvez, enrubescer devido a timidez. A felicidade de Galinda apenas confirmou algo do qual duvidou por muito tempo: o amor de sua própria amiga em relação a ela.
"É Galinda, Elphie." Sussurrou, aproximando-se da morena cautelosamente. "Com GA. Quantas vezes terei que repetir?"
"Quantas vezes forem necessárias para que eu possa recordar-me do modo correto de pronunciar teu nome, suponho."
"Estás a cansar minha beleza, Elphaba Thropp. Estou a ponto de explodir." Disse, tentando parecer provocante, o que, convenhamos, tratando-se da loira, não é tão difícil.
"O que vais fazer, huh?" Elphaba perguntou, mantendo-se no mesmo lugar, sentindo a respiração de Galinda atingir-lhe a face. Ajeitou os óculos sobre o dorso afilado, tentando manter a postura. Sentiu a parede gélida alvejar-lhe as costas. Sequer teve tempo para arquitetar uma maneira de escapar dos lábios de Galinda.
"Você é covarde, previsível, passiva. Não me surpreende nem um pouco." Concluiu. Tentava a todo custo fugir dos lábios e toques da bruxa-boa, porém estava ciente de algo: do prazer que tais carícias proporcionavam-a, jamais conseguiria escapar.
"Pois então, hoje farei bom uso de minha autoridade sobre ti." Disse baixinho no ouvido da amada, acariciando-lhe os ombros desnudos.
***
Um pedaço de almaço jogado ao chão, tal como aqueles corpos sobre o colchão. "Lábios Thropp" jazia estampado, naquele bilhete de amor tão pequeno e delicado.
"Lábios fugitivos,
Que tratam-me com desdém,
Que negam os meus,
Mas ainda sim me querem bem.
Lábios fugitivos,
Tão verdes e macios
Deixem-me consolá-los,
Os fazer um carinho.
Lábios fugitivos,
Tão belos, tão seus...
Lábios que fogem dos meus
De um amor clandestino,
De um amor tão errado,
Mas um amor sincero
Que pelo destino foi selado.
Lábios Thropp
São estes que sonho possuir.
Lábios verdes,
Que são teus,
E quem dera fossem meus,
Pois são os quais desejo usufruir.
Lábios que quero,
Que amo,
Lábios que espero."
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