One of many zeros
1 1º dia de visita
Notas iniciais
Bom dia, amor. Quer dizer, vou tentar não te chamar de amor e essas coisas por agora. Deve ser estranho pra ti, né? Prosseguindo... Seu nome é Ulquiorra Schiffer. Você tem 17 anos. Eu sou Grimmjow Jaegerjaquez, tenho 18. Como eu te disse ontem, a gente namora. Resolvi te contar porque quem sabe você se lembra... E mesmo sem se lembrar, é bom que você saiba. A culpa é minha por você estar no hospital sem saber quem é, não tenho nem palavras nem ações suficientes pra pedir desculpas. Espero que você possa sentir o meu pedido silencioso, não consigo olhar nos seus olhos e dizer.
Então, vamos pra história. Eu já estudava há um tempo naquela escola pública. Um dia no 1º ano você chegou, a gente te chamava de novato emo, porque apesar de você não seguir o estilo, tem muita cara mesmo de emo. Acredite, a gente pegou muito leve, se quer saber. Porque assim que eu te vi, sei lá, deu alguma coisa aqui dentro *fechou a mão em punho em cima do próprio coração*. Você é tão lindo. É engraçado ser o valentão do colégio, todo mundo te temer, ser bem experiente com esse lance de sedução, cercado de gurias... Aí você vê um menino esguio, do cabelo preto de vaca lambida, olhões verdes que parecem que vão sugar sua alma, e você simplesmente para de respirar, seu coração bate forte, você esquece do mundo ao seu redor. Caraca, isso foi muito gay. Mas se você pensar, somos dois homens.
Estava eu e meus amigos no corredor dos armários. Tudo o que a gente fazia nos horários vagos era observar as pessoas no corredor, vulgo achar alvos pra zoar, ou ficar no telhado fumando ou... Ah, eu não vou te falar certas besteiras, eu fico sem graça. Outro fato interessante, porque eu era completamente sem vergonha antes de você. Quer dizer, só com você mesmo. Droga, você sempre disse que eu divago demais. Depois que eu aprendi o que isso significa, posso assumir que é verdade. ENFIM, você parou do nosso lado e pediu licensa porque estávamos bloqueando seu armário. Meus amigos olharam pra mim esperando que eu te zoasse. Mas eu fiquei daquele jeito lá, parecendo um bobão. Pra um novato você parecia bem firme, pra alguém tão pequeno você parecia bem destemido. Você me encarou por mais algum tempo até que eu saí da frente sem dizer nada. Todo mundo achou estranho.
Fiquei com você na cabeça o tempo inteiro, Ulquiorra. Claro que não só porque você é lindo e tudo mais. Sua atitude me impressionou também. Ou seja, fiquei bobão o dia inteiro. Nnoitra, um dos amigos, tentou me encher o saco mas nem liguei. Mais tarde, descobri que você estava na minha aula de química. É meio idiota mas agradeci por reprovar ter valido a pena. Se você soubesse antes, me bateria.
Sentei do seu lado. De todos os lugares vagos da sala, sentei lá na frente, do seu lado. O professor estranhou eu estar na frente, claro, mas não pegou no meu pé. Ele achou que esse ano eu tentaria ser um bom aluno.
Tinha apenas dois novatos, você e o Byakuya. O professor fez vocês se apresentarem lá na frente, nem olhei para o Byakuya, só prestei atenção em você. Foi assim que eu conheci seu nome. Você disse que se mudou de escola porque se mudou de cidade e só tinha vaga nessa. Você nunca nem quis estudar lá, eu sei. E ainda tive que fazer sua estadia ser pior que o necessário.
Enfim, não tentei puxar assunto nem nada. Porque eu ainda tava meio besta, tinha medo de te assustar e você também era meio intimidante. Essa palavra existe? Mas você era. Passei uma semana só te observando que nem um mongol. Se você tiver percebido, aí sim que deve ter ficado com medo de mim. Quero dizer, eu meio que te seguia com os olhos onde a gente se encontrava. Mas demonstrar não demonstrava. Você é bem durão, sabia? Fazia de tudo pra esconder as coisas, então eu nunca sabia ao certo o que você estava pensando ou sentindo.
Na outra semana teve trabalho em dupla de química. Algo dentro de mim fez virar pra você e pedir dupla imediatamente, indo contra tudo que eu pensei nessa semana. Tipo, um garoto como você nunca iria querer nada comigo, nem que fosse apenas contato, sabe? Eu sou líder de uma gangue ainda por cima. Então tinha decidido nunca tentar falar com você. Deveria ter cumprido, né? Enfim, você pareceu surpreso por um segundo e depois fez cara de feia. Fiquei meio inseguro.
— Você está me chamando só pra eu fazer o trabalho todo pra ti? você disse.
— Não! Claro que não, eu faço minha parte.
— Se for assim, tudo bem.
Não acreditei que você aceitou. Fiquei com um sorrisão o resto do dia inteiro. Até perceber que iria só me envergonhar, já que não manjo nem um pouco de química. Reprovei né?
No refeitório, você não ligou se eu estava numa mesa cheia de amigos, sentou do meu lado e disse:
— Eu estava conversando com o professor e sei que você não é dos melhores alunos, e nem aparenta portanto eu já sabia. O fato é que ele disse que vai pegar leve contigo se você se esforçar de verdade.
Nnoitra babacão, não ficou muito feliz com a sua ousadia de sentar na nossa mesa:
— Quem você pensa que é pra sentar aqui e mais, falar assim com Grimmjow?
— Você é quem deve pensar que é alguém pra tentar me dizer o que fazer. Enfim, Jaegerjaquez, você pode vir pra biblioteca a tarde pra fazermos o trabalho?
Nnoitra ficou sem palavras, todo mundo da mesa começou a zoar ele. Mas só não deu treta porque todo mundo gosta de zoar ele, se fosse outra pessoa talvez você apanhasse, meu jovem.
— Claro – não consegui dizer mais nada.
— Ok, então duas e meia já estarei lá, é só me procurar nas mesinhas. Com licensa – levantou e saiu.
— Que porra foi essa, Grimmjow? – Nnoitra ficou exaltadinho.
— Ele é minha dupla de química.
— Desde quando você liga?
— Desde que ele é minha dupla de química. Agora cuida da tua vida.
Depois tudo voltou ao normal. Na hora marcada fui à biblioteca. Você estava no cantinho da última mesa lendo algum livro. Podia observar você por horas sem ficar entediado. Diz se isso não é medonho, até eu admito. Mas tive que parar, vai que você brigaria se eu não chegasse no horário.
— Oi – eu disse, não sabia como falar com você. Ficava parecendo uma menininha ao seu redor.
— Oi, você trouxe o livro?
— Uh... Eu não tenho.
— Tudo bem, senta aí. Você pode olhar no meu, já li minha parte. Vou resumir, você faz isso também. Depois eu leio o que você fez e tento te ajudar.
Passamos a tarde inteira estudando e você tão sério até riu das minhas perguntas idiotas. Quando terminamos já estava escurecendo, me ofereci pra te levar em casa e você aceitou. Fiquei o percurso inteirinho pensando em como dar em cima de você sem te irritar.
— É aquela com portão branco apontou pra casa 4.
— Oh... Você é meu vizinho. Eu moro na 6. Se, sei lá, você quiser, quem sabe, umas carona pra ir pra escola...
— Caronas. Aceito sim, boa noite – me deu um beijo no rosto e desceu do carro. Woaaaah. Eu fiquei meia hora lá dentro do carro ainda pensando nisso.
Agora eu tenho que ir. Sei que você ainda não consegue falar mas não precisa, também. Amanhã eu volto, ok? Nunca vou te deixar sozinho de novo.
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