One last time
1 O beijo do Vampiro
O luar.
Em todos os anos em sua vã existência, o luar era algo que ele ainda apreciava. Muito embora os de agora sequer se comparavam aos de outrora, às eras de escuridão suprema, porcamente vencida por uma ou outra tocha incandescente.
Ainda assim o luar era uma das poucas coisas belas que restava, muito mais quando, como naquela noite, a lua era cheia. Do alto daquela construção de pedra batida ele ouvia, desde o sibilar dos ventos em açoites contra a copa das árvores, ao uivo. Aquele que faria sua pele eriçar, se o sangue ainda corresse nas veias. Mas conseguia arrancar-lhe um sorriso discreto, um umedecer de lábios pelo acúmulo de desejo que lhe fazia engolir em seco, enquanto preferiria mil vezes engolir o sangue da fera que corria solta em meio à floresta na lua cheia.
Shōto olhava lascivo ao contorno que agora se fazia visível em meio às árvores, a folhagem seca cobria parte do torso desnudo contra o luar, mas notava bem o contorno daqueles lábios que tremiam ante a precipitação de correr em sua direção, como ele sempre fazia ao notá-lo. Era o esperado, afinal, visto que eram inimigos marcados pelo tempo, pelas imposições de culturas que há muito se odiavam, se matavam e curiosamente — como visto entre os dois -, se desejavam.
Ele não correu, o lobisomem teria trabalho em escalar a muralha daquela construção antiga, teria que se esforçar em vencer o riacho que cortava o terreno e sobretudo à própria vontade quando se aproximasse o bastante. Shōto esperou paciente, como fazia por toda a vida, naquela interminável espera. Apenas notava melhor o contorno daquele corpanzil que mudava tanto em noites de lua cheia. As orelhas, as garras de um animal, os olhos vermelhos permaneciam os mesmo, visto que desde que fora marcado, Katsuki havia queimado de dentro pra fora.
Em Katsuki parecia transbordar o sangue que faltava em Shōto, a respiração resfolegante, o suor na pele recoberta por pelos. A transpiração trazia em Shōto o aroma das muitas árvores que ele sabia bem, o outro ter encostado em meio à corrida para marcar seu território.
— Como foi a corrida? — o tom era de total desinteresse, sabia que Katsuki não o responderia, não naquela forma. Já era muito que ele se controlasse para não avançar em sua direção em busca de estrangular o inimigo marcado por eras.
As presas faziam-se à mostra enquanto o rosnado baixo chegava aos tímpanos de Shōto. Era sempre um risco calculado quando cutucava a fera semi-irracional, mas sempre fazia, era o ápice de aventura que ainda tinha. O espaço entre os corpos era quase inexistente, Katsuki aproximava-se mais a cada instante. Era o lado irracional mandando-o atacar, torpe pelos sentidos elevados. Pelo cheiro característico de Shōto à sua frente. Por reconhecer o seu cheiro nele.
Grunhiu.
Era automático como Shōto sempre mostrava as presas, os incisivos laterais mais afiados, não tanto quanto os caninos que passavam o limite dos lábios.
Tudo entre eles era diferente. Agora em tamanho, algo quase grotesco de se ver quando um vampiro encarava de frente seu inimigo. Shōto muito bem vestido, algodão e seda da melhor qualidade enquanto Katsuki não incomodava-se com a nudez, ao menos não quando os pelos tomavam-lhe o corpo, dos pés à face. Não havia para onde recuar, não quando no alto daquela torre que quase não tinha estruturas para se manter de pé, quiçá paredes firmes a guardar os corpos que ali haviam. Não que ele quisesse fugir de Katsuki em sua versão lupina, ou da ereção que era facilmente notada ali. Shōto sabia que era o cheiro de Katsuki que havia impregnado em suas vestes, até em sua pele e cabelos. Era o modo racional do loiro para, quando em sua forma animal, não esquecesse quem ele era, e o que representava para ele. Grunhiu de novo, fazendo o cabelo de Shōto balançar ao vento que vinha com a respiração quente do outro.
A mão, muito mais parecida com a pata de um animal, apoiou-se ao ombro do vampiro, tão logo transmutando-se, aos poucos adquirindo a forma humana. Parte à parte, a começar com os pelos faciais, que sumiam aos poucos. O focinho que transformava-se em nariz, os olhos que adquiriam feições mais cientes de onde estava, olhando fixamente para o vampiro à sua frente, notando as presas e o olhar incisivo sobre seu corpo, e sua ereção.
Não saberia dizer, se era a fera ou o lado humano quem tomava partido ao trazer Shōto para mais perto. Mas os lábios eram humanos e as línguas conheciam bem o interior da boca alheia, as carícias eram voluptuosas porque a memória muscular permitia que fosse. Shōto ainda sentia os pelos contra as palmas de suas mãos, que claramente contornavam as costas de Katsuki em busca de mais contato, em busca de saciar também seu lado irracional que entregava-se àquela fera, ainda meio lobo, meio humano. Mas inteiramente empenhado em lhe rasgar as vestes. Mas não teria problemas ali, não quando ninguém mais chegava aos limites da floresta. Não quando ainda teria o riacho, e o antigo castelo em ruínas que se fazia de um enorme empecilho aos transeuntes. E muito menos quando a vergonha não os atingia há tempos, e sim o tesão. Ah, sem dúvida nenhuma era o sentimento que falava mais alto ali.
O contato afoito das mãos da fera na pele marmórea, quase imaculada de Shōto, a pressa em lhe virar para seu deleite enquanto instintivamente o lobisomem o cheirava. Deveria marcá-lo como seu, teria feito se Katsuki não tivesse recobrado parte de sua consciência quando a lua escondia-se para logo raiar o sol. Peça a peça. e nada mais restava no corpo do vampiro, nenhuma vestimenta encobria a ereção, ou as nádegas que eram apalpadas para que logo sentisse o pênis gotejante de encontro à seu corpo frio.
O choque do calor quase surreal, do sangue que corria às veias alheias, que fazia o lobo uivar em meio ao prazer de ser abrigado no corpo gélido do vampiro. As garras faziam marcas aos ombros alheios quando enterrava-se um pouco mais, abrindo espaço de modo quase brusco enquanto o deleite vinha com mais força ou ouvir Shōto gemer. Era seu lado humano que regozijava ao vê-lo entregue ao ato sexual, seu lado animal queria apenas fodê-lo, sem cuidados, sem medo. E fazia-o, porque o lado irracional falava muito mais alto quando o pênis invadia o corpo alheio, quando o atrito entre seu corpo peludo fazia-o arrepiar ao tocar aquele livre de qualquer pelo.
Shōto segurava-se, no que outrora fora uma parede firme, ficando à ruínas. Mas servia para se segurar e não sucumbir às investidas brutas do animal à suas costas. Sentia o calor proveniente do atrito, do roçar daquele pênis o invadindo, dos fluidos corporais que aos poucos preenchia-o. O olhar fixava-se no horizonte, os caninos cresciam conforme o céu tornava-se um pouco mais escuro, como de praxe antes do amanhecer. A entrega era tamanha, de ambas as partes, sentiu o ápice do desejo quando Katsuki gozou, abundante, marcando-o como seu. Como fazia há tantos e tantos anos.
E embora ele respirasse de modo calmo, um resquício de seu convívio com humanos, Katsuki resfolegava cansado pelo exercício, suado e pouco a pouco tornando-se mais humano do que fera.
— Estou cansado.
A afirmação veio quando abaixou-se para pegar a capa e cobrir o corpo, mesmo que não precisasse, mesmo que Katsuki não fizesse o mesmo, pouco se lixando para a nudez, haviam acabado de foder, o que teriam a esconder ali?
— Eu sei.
Ele também estava. Há muito pensavam como seria mais fácil se a vida lhes cobrasse o mesmo tempo útil. Quando Katsuki conheceu Shōto, ele já estava vagando pela terra há muito mais tempo que ele. E agora, o lobo cansava-se, envelhecia bem aos poucos, mas claramente aparentava ser mais velho que o vampiro, que sequer havia envelhecido um dia.
Ainda teriam a coragem, a mordida final. Ainda tomariam um último fôlego juntos para se permitirem partir. E precisariam de nada mais que uma mordida.
A mesma que agora Shōto encenava no pescoço de Katsuki, desistindo quando viu a entrega complacente do outro quanto à morte iminente que os aguardava após o beijo do vampiro.
Ainda teriam uma última chance de uma boa transa em meio à ruínas, ainda teriam um último suspiro.
Notas finais
Gostou, fala. Não gostou, fala tbm!
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