One for you
3 III. O que você faria?
Como um amante dos gatos, Shinsou não pôde deixar de notar um pequeno filhote que parecia preso em um galho da árvore ao abrir a janela naquela manhã, ainda mais quando ele miava de forma tão insistente que o havia acordado – não que ele dormisse muito. Trocou o pijama cuja estampa eram patas de felinos em diversas cores e tamanhos, e desceu para o térreo se encaminhando para a árvore em questão sem nem mesmo tomar café.
Percebeu o problema assim que se aproximou, o galho que o animal se encontrava era muito alto para que alcançasse apenas saltando. Detestava admitir, mas não era um bom escalador, principalmente se tratando de árvores, poderia voltar ao quarto e pegar suas faixas para subir até lá, mas, pelo nível de agitação do filhote, teve medo que este pisasse em falso e caísse.
— Gatinho, gatinho, está tudo bem. – Estendeu as mãos para o alto, flexionando os dedos o chamando. — Tudo bem, pule aqui que eu te pego.
— Ele não vai te obedecer se pedir assim. Gatos são donos de si, nunca obedeceriam um simples humano. – Shinsou desviou o olhar do felino no galho para encarar Midoriya que se aproximava acenando. O suor escorria pelo rosto, o casaco da roupa de corrida se encontrava amarrado na cintura e a blusa preta amarrotada. Haviam folhas grudadas no cabelo verde e as sardas pareciam ainda mais nítidas nas bochechas vermelhas pelo esforço. — Bom dia! Acordou cedo também? – Então, antes que ele pudesse responder, tudo aconteceu em um instante, a pata do gato deslizou na beirada do galho e ele caiu bem na sua cabeça, miando em desespero e o arranhando.
— Então é assim que faz seu cabelo ficar em pé e despenteado. Estou surpreso, apostei com as meninas que você usava o secador ou gel para isso. – Midoriya riu ao vê-lo lutar contra o animal em uma tentativa de acalmá-lo e o retirar de sua cabeça. Mas, quando conseguiu, o estrago já estava feito. O cabelo estava pontando em todas as direções e o couro cabeludo ardia com os arranhões que recebera.
— E por que diabos vocês apostaram sobre o meu cabelo? – Shinsou perguntou, descrente, segurando o filhote nos braços, agora já mais calmo, e o acariciando.
— Pesquisa! Nunca se sabe, não é mesmo? – Ele sorriu e Shinsou precisou desviar o olhar, nem mesmo o sol nascente deveria ter aquele brilho todo. Uma mancha acima do protetor que ele usava para cobrir a cicatriz lhe chamou a atenção.
— Você está machucado? – Perguntou apontando. O sorriso vacilou e o Hitoshi assistiu enquanto ele desamarrava o casaco e voltava a vesti-lo.
— Foi só um arranhão, nem está doendo nem nada. – Os olhos fugiram dos seus e caíram para o bichano em seus braços. — Então, o que vai fazer com ele?
— Não sei, é uma pena não permitirem animais nos dormitórios. – Olhou o filhote, pensativo. Tinha a forte impressão que ele lhe lembrava alguém.
— Não acha que ele parece com o Aizawa-sensei? – De fato, era muito parecido. O pelo escuro e até mesmo a cicatriz abaixo do olho direito. — O que acha de Catzawa? – O som engasgado que saiu de sua boca foi algo entre a surpresa e uma risada.
— Realmente, Midoriya, você não existe. – Riu com gosto, sem admitir que havia gostado do nome.
— O que eu fiz? – O rosto corou de vergonha, mas, antes que o Hitoshi pudesse responder, a expressão dele mudou para algo repleto de curiosidade. — Shinsou, agora eu estou curioso. – Os olhos verdes o encararam e o brilho faminto no olhar lhe deu calafrios. – O que aconteceria se usasse se usasse sua individualidade em um animal? –Recuou, surpreso com a pergunta súbita.
— Não sei, nunca pensei nisso, só a usei contra pessoas até agora.
— Então, acha que um miado contaria como uma reposta a uma de suas perguntas?
Os dois se entreolharam por alguns segundos, antes de se voltarem para o gatinho que saltou dos braços de Shinsou e tratou de se afastar discretamente como se pressentisse o problema. Midoriya já estava com o caderno aberto e um lápis na mão vindos de sabe-se lá onde e o Hitoshi apenas sorria para o animal.
— Vem cá, gatinho, vem cá. – Os olhos afiados do felino se fixaram nos dois e ele flexionou as patas traseiras antes de fugir em disparada.
— Vamos! O que está esperando? Ele está fugindo! – E assim, os dois correram atrás do gato perseguindo-o por todo o dormitório da U.A. até que, enfim, o encurralaram no telhado dos dormitórios e dispararam todo tipo de pergunta, algumas sugeridas por Izuku – “Você realmente cai em pé?” e “Você tem mesmo 7 vidas?” – cujo lápis corria pelas páginas em branco preenchendo-as com palavras apressadas. Shinsou teve a impressão que ele se divertia com aquilo, como ele próprio se sentia. Não se lembrava de ter rido tanto há muito tempo.
Quando se cansaram e ficou comprovado o fato que um miado não contava como resposta, deitaram ali mesmo observando as nuvens passarem pelo céu. O filhote deitou entre os dois e permitiu que Shinsou o acariciasse entre as orelhas, resignado ao fato de que não fugiria daqueles dois lunáticos.
— É uma pena. – Midoriya disse por fim. — Mas o que vai fazer com ele agora?
— Tem um abrigo aqui perto, vou levá-lo para lá. O dono é um amigo e eu poderia ir visita-lo sempre que pudesse. – Virou a cabeça para o encarar antes de prosseguir. — Você também poderia é claro. – Os olhos verdes encontraram os seus e sentiu a mão dele tocar a sua a acariciar o gato.
— Você será um grande herói um dia, acredite em mim.
— Nós seremos. – O corrigiu, franzindo as sobrancelhas para a afirmação estranha.
— É. – ele concordou, voltando a olhar para as nuvens, mas o gesto lhe pareceu tão triste que sentiu o peito se apertar. — Nós seremos.
Foi arrancado do sonho de forma brusca, o pescoço dolorido pela posição que havia dormido, ali mesmo escorado na madeira fria da porta. Observou o quarto, as paredes roxas que havia pintado meses atrás com a ajuda de Midoriya e os pôsteres de gatos e de Eraserhead que cobriam cada centímetro da parede direita, cada um tinha uma história própria, uma lembrança que agora ele não desejava acessar.
Ouviu o barulho de uma explosão e foi trazido de volta a realidade. Suspirou. Pelo visto, Bakugou havia sido informado e não ficara nenhum pouco satisfeito. Não entendia a amizade de Izuku com a cria barulhenta que era Bakugou. Achava que nem mesmo eles entendiam que tipo de laço tinham. Eram como dois gatos e rua, rosnam um para o outro e então partiam para a briga, para ao fim cada qual ajudar a lamber as feridas infligidas enquanto conversavam como se nada houvesse acontecido.
Outra explosão. Rezou para que os dormitórios aguentarem as explosões daquele cabeça quente antes de se levantar do chão e seguir para a área comum onde todos os outros estavam reunidos.
Chegou na sala a tempo de ver Todoroki atracado com o loiro e um círculo de colegas ao redor, as expressões variando de preocupadas a lágrimas e choque, mas todos estavam prontos para intervir caso isso viesse a se tornar algo mais. Viu Kirishima colocar uma mão no ombro do Katsuki e sussurrar algo em seu ouvido, recebendo uma espécie de rosnado – no qual ele já era especializado – mas soltando Shouto do agarre.
— Você sabe como ele era! Não pode culpar ninguém por não ter percebido. – O Todoroki gritou antes de se afastar, os punhos firmemente fechas como se contivessem as chamas que imploravam para serem extravasadas.
— Claro que posso. Afinal ele sabia que algo estava errado e mesmo assim insistiu em fazê-lo sair naquele dia– O dedo do loiro foi apontado para si e Shinsou recuou.
O choque das palavras o atingiu, retirando todo o ar de seus pulmões. Todo o resto parecia trivial. Era sua culpa, sabia disso. Sua culpa. Mas ouvir as palavras ditas em voz alta apenas tornava tudo pior. Sua falta de resposta irritou o loiro. Mal sentiu a gola ser agarrada por um explosivo Bakugou e os gritos tentando contê-lo que se seguiram.
Kaminari veio em seu socorro e tentou afastar Bakugou. Os três rolaram no chão, membros se misturando, até que uma onda de choque se espalhou por todos os presentes, fazendo os corpos tremerem, mesmo com a baixa voltagem usada. Kaminari se afastou dos colegas, a cara em um meio caminho abobada, mas lúcido o suficiente para falar com a voz embolada.
— Parem de brigar. Se Midoriya estivesse aqui ele não iria querer isso!
Bakugou lançou uma expressão mortal para o Denki e largou a frente da roupa de Shinsou com um ranger de dentes.
— Espero que esteja satisfeito por tê-lo convencido a ir naquele encontro. – Foi tudo o que disse, antes de se afastar para o seu quarto seguido por um Kirishima irritado.
— Bakugou! Isso não foi nada másculo! – E lançou um olhar de quem se desculpa para o Hitoshi ainda largado no chão.
Mas ele estava certo, tinha razão em acusá-lo de ser o culpado. Era o culpado. Se ao menos não tivesse insistido tanto naquele encontro. Via toda vez que fechava os olhos o enorme edifício desabando e o choro de uma criança que havia ficado presa em seu interior. Podia ver sua mão estendida na direção de Midoriya que pulara para o interior tão rápido que mal pôde acompanhar. E de que adiantaria? Sua individualidade seria inútil naquela situação. E então o prédio inteiro veio abaixo e ele foi estupidamente atingido por um estilhaço e desmaiara, para então acordar e vê-lo naquele estado. Sua culpa. Tudo sua culpa.
Nunca devia tê-lo convidado. Tudo por causa de um ciúme bobo. Até a noite passada, tudo não passava de um pesadelo. Não podia ser real. Mas agora, sentia, em cada fibra do seu corpo, ele não estava mais ali. Percebeu o quão tolo era o seu ciúme pelo modo que o Todoroki olhava para Midoriya. Agora o permitiria seguir adiante e confessar seus sentimentos, desde que o tivesse aqui. Desde que ele permanecesse ao seu lado. Desde que pudesse ver o seu sorriso a iluminar seus dias e a insistência em arrastá-lo para o meio de seus amigos, mesmo Shinsou sendo arredio.
— Se você soubesse que pode morrer a qualquer momento... o que você faria?
A pergunta voltou a seu cérebro, insistente e dolorosa. Shinsou suspeitara. Sabia que algo estava errado. Afinal, quem lançava uma pergunta dessas no meio de uma conversa se não houvesse pensado bem no assunto?
Fechou os olhos e voltou a mergulhar na memória daquele dia, vendo diante de si o refeitório da escola, a bandeja de comida a sua frente e a risada de Midoriya enquanto eles comentavam sobre as fantasias e a festa de Halloween que haviam organizado.
De repente, o sorriso morreu em seus lábios e Shinsou sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Midoriya nunca parava um sorriso. Ainda mais para trocá-lo por aquela expressão séria e meio melancólica. Algo estava definitivamente errado.
— O que você está insinuando? – Havia perguntado, estreitando os olhos e pausando a mordida dada no sanduíche. — Você vai morrer?
— Ah, não, realmente eu não irei morrer! – Seu gesto nervoso não sanou por completo as dúvidas, mas ele prosseguiu como se houvesse notado. — É apenas uma suposição, algo para refletir, sabe?
— Suposição?
— Sim! Por exemplo se.… de repente, você não conseguisse mais sentir o gosto das coisas e não pudesse ingerir nada mais do que líquidos... – Shinsou foi preso pelos seus gestos, ilustrando tudo o que havia falado. — Sua visão de repente escurecesse sem aviso prévio e você escutasse um zunido nos ouvidos que não te deixa dormir à noite, além de que, os piores ataques de náuseas não lhe são mais estranhos... – seu olhar caiu para a garrafa que segurava antes de continuar. — E te dissessem que era muito tarde para o tratamento, o que você faria?
— Isso é... – Shinsou engoliu em seco, e a atenção de Midoriya se voltou para ele, um olhar perdido que não lhe era costumeiro. — Realmente apenas uma suposição?
— Sim. – O sorriso triste que ganhou com a afirmação fazia seu coração doer, como se as paredes do peito o estivessem espremendo, comprimindo-o. As palavras e a preocupação entalaram em sua garganta e tudo que saiu foi o nome dele dito em uma forma sussurrada.
— Midoriya...
— Não foi nada, Shinsou. Esqueça o que eu perguntei, tudo bem?
E ele havia empurrado o assunto até o fundo de sua mente, forçando-o ao esquecimento, encobrindo-se de certeza e do consolo que ele lhe dava. Até que este ressurgisse como um tapa de realidade na sua cara. Se ao menos houvesse dado mais atenção antes, ficado mais atento, teria visto que todos os sinais estavam ali.
Abriu os olhos e viu os amigos o encararem preocupados, mas foram as mãos fofas de Uraraka quem o levantaram e o seu apoio o conduziu de volta ao quarto. Foi ela quem ficou ao seu lado enquanto a realidade enfim caia sobre si e ele derramava as lágrimas amargas de arrependimento, de dor, de tristeza.
— Você o amava também, não é? – Perguntou, por fim, recuperado o suficiente.
— Sim. – Uraraka não o encarou, fixou o olhar no pedaço de céu visível pela janela e, ao fazer isso, as olheiras dela – tais quais as suas próprias – se tornaram mais evidentes. — E como você eu me culpo por isso. Devia ter percebido, vi como ele estava agindo estranho, como parecia esconder algo. Mas agora é tarde para lamentar. Tudo o que podemos fazer é rezar por um milagre.
— Se ele não estivesse lá comigo, não teria se machucado e não estaria em coma agora...
— Não importa quem fosse ou quanto ele estivesse mal na hora, alguém precisava de ajuda e o Deku não era o tipo de pessoa que ignoraria isso. Não devia se culpar tanto, se ele foi, até mesmo se saltou para o prédio desabando, foi porque tinha a certeza que era a coisa certa a se fazer. – Uma lágrima escorreu pela bochecha. — Não podemos desonrar o que ele fez se culpando assim.
Os dois permaneceram em silêncio após isso, mas Uraraka não se retirou, pelo contrário, continuou ao seu lado por boa parte da manhã, vigiando o sono agitado que ele caíra após chorar. E quando a presença dela saiu, ele apareceu.
Os mesmos cabelos bagunçados, o mesmo sorriso como se não houvesse nada acontecendo. E, ao invés de correr para os seus braços e o puxar para si até sentisse que ele estava totalmente protegido, Shinsou gritou.
— Você mentiu para mim! Disse que estava tudo bem quando na verdade estava sofrendo. – As palavras se acumularam, a confiança não retornada, a impotência, a dor de vê-lo naquele estado, preso aquela cama, longe de ser a pessoa que havia conhecido e passado a amar, o fazia continuar gritando. — Devia ter contado! Talvez algo pudesse ter sido feito, todos poderiam ter ajudado, eu poderia ter ajudado.
— Sinto muito, eu apenas queria ser herói o máximo que conseguisse. Se eu tivesse contado, teriam me impedido, me trancado em um quarto e eu seria obrigado a ver o sonho se distanciar. – Os olhos verdes marejaram, a expressão chorosa e sofrida o calou.
— Não devia ter aceitado sair comigo. Talvez assim você ainda estivesse aqui. Foi tudo minha culpa, eu o convenci. – As palavras que torturavam sua mente e a culpa que sentia saíram sem permissão.
— Ah, Shinsou. – Midoriya o alcançou e seus braços o envolveram. Era quente, terno e perfeitamente confortável, como voltar para casa após um longo dia de trabalho. Sentiu as lágrimas dele caírem em sua roupa e seus braços se ergueram para retribuir o abraço, as mãos enfiadas nos cabelos bagunçados, os dedos entrelaçados nos cachos, os dois corações batendo em sintonia. — Eu sabia que iria ficar se culpando. Por isso precisei vir aqui antes de ir.
— Mas.... Ir? Ir para onde? – Ele apenas balançou a cabeça, como se não houvesse ouvido a pergunta.
— Pode ser tarde demais para mim agora, mas não é para você. Escute o que eu digo, não foi sua culpa, nada do que aconteceu foi sua culpa. Todas as decisões que tomei, tudo que mantive escondido, foi apenas minha própria vontade, meu egoísmo falando mais alto. E quanto ao encontro, bom... – as bochechas se avermelharam. — Eu fico feliz de ter conseguido um beijo antes de tudo. – Shinsou correu as mãos pelas bochechas, acariciando cada sarda ali presente, gravando na memória o rosto dele. — Torne-se o grande herói que eu sempre soube que você seria. – As mãos seguraram o seu rosto e os lábios encostaram de forma suave em sua testa, uma benção, uma despedida. — Você vai ficar bem, Shinsou. Apesar de que eu gostaria de estar lá para ver. – ele o soltou e começou a se afastar em direção a uma forte luz branca.
— Não. Não. NÃO! Não pode ir agora! Por favor! – Por mais que se esforçasse, por mais que gritasse e estendesse as mãos para alcançá-lo, Midoriya parecia cada vez mais e mais longe. Até que por fim, tornou-se apenas uma sombra indistinguível contra a luz e já não podia mais ser alcançado.
Shinsou acordou do pesadelo trêmulo e suado. Levou as mãos ao rosto surpreso por encontrar lágrimas caindo dos olhos e molhando as bochechas. A respiração estava acelerada e a pele quente, como se ainda pudesse sentir o toque dele nos sonhos, o carinho de despedida que lhe dera.
Despedida. Paralisou ao perceber seus próprios pensamentos. Não. Não podia acontecer. Não podia ser real.
Apressou-se para fora da cama, pouco se importando com as roupas amarrotadas ou o cabelo bagunçado e rumou para fora do quarto, espiando os arredores com interesse e, ao confirmar que não havia ninguém lá para impedi-lo, voltou para dentro e saltou pela janela, usando as faixas como havia aprendido em seu treinamento com Aizawa. Fugiu do dormitório e correu o máximo que podia para o hospital.
Podia sentir o chamado no peito, a sensação de alerta que o avisava para ir mais rápido e não pensou em desobedecê-la nem por um momento.
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