One for you
2 II. Linha contínua
— Não estou aqui para fazer amigos. – Foi sua declaração para a turma que o encarava surpresa. Devolveu os olhares com confiança, não se intimidando com a expressão mortal que o loiro vencedor do Festival lhe lançava. Ao mesmo tempo, evitou encarar por muito tempo a face radiante que Midoriya detinha. O sorriso animado e confiante, a pura e simples felicidade por vê-lo ali lhe atingia mais fundo do que os olhares de desconfiança. Mexeu nas faixas e aguardou Aizawa terminar de apresentá-lo.
Sentiu um olhar se fixar sobre si e moveu os olhos para encarar de volta, franzindo a testa ao notar o filho do novo herói número 1 lhe encarar com os lábios levemente erguidos, como se uma risada estivesse presa em seu interior e aquele mísero canto da boca erguido fosse o seu modo de expressá-la. Surpreendeu-se anda mais quando ele veio lhe falar.
— Lamento, mas a amizade vai te alcançar como um taco de baseball na nuca quando menos esperar. É inevitável.
E quando o Hitoshi olhou para trás podia jurar que conseguia ver o brilho sedento dos olhares iluminados por um objetivo em comum.
— Oh.
Naquele momento ele se arrependeu amargamente de sua escolha de palavras. Havia lançado um desafio e aquela classe, ao que parecia, estava sedenta para vencê-lo.
A luta entre as classes era o exercício do dia, aquele que determinaria ou não sua entrada na tão sonhada classe de heróis. Sua primeira participação correu bem e classe A que o acolhia venceu a partida, mas era pela última luta que ele estava ansioso, o sonho de uma nova tentativa, de uma revanche contra aquele que o derrotara ardia firme e resoluto em si. Queria lutar contra Midoriya mais uma vez. Queria lutar...
E quando a luta aconteceu, as coisas deram errado. Num instante estavam cara a cara, ele em meio a um salto no ar, a mão erguida preparando um disparo; no seguinte, tentáculos negros saiam de suas luvas e a expressão de dor era evidente. Nervosismo tomou conta de seu sistema e o paralisou, até que o grito lançado por Uraraka que saltara sobre ele em uma tentativa de contê-lo lhe alcançou:
— Fale com ele!
Os segundos congelaram enquanto ele buscava as palavras adequadas, mas todas lhe fugiam. Qual seria a frase que deveria dizer para que ele respondesse e assim ativasse sua individualidade? O que dizer quando tudo o que gritava em seu interior era a chance de enfrentá-lo mais uma vez?
Tinha de ser isso, nada poderia soar tão verdadeiro. Iria gritar com tudo o que tinha e, conhecendo-o o pouco que conhecia, ele certamente o responderia.
— Midoriya! Vamos lutar novamente?
A reposta pareceu engasgada, difícil de ser dita, mas quando saiu foi tal qual havia esperado:
— Sim!
E então tudo acabou, tão rápido quanto havia começado, e logo eles se enfrentavam mais uma vez focados na tarefa diante de si. O controle das faixas ainda não estava tão bom quanto desejava, mas foi o suficiente para puxar os canos derrubando-os sobre ele. E então aconteceu, os mesmos tentáculos negros de minutos atrás reapareceram e logo Midoriya estava sobre si.
Capturado. Derrotado mais uma vez. Logo quando planejava mostrar o quanto havia crescido, o quanto havia evoluído. E, mesmo assim, ele parecia estar ainda mais longe, todos eles continuavam seguindo em frente sem nunca parar. “Eu ainda sou muito fraco.” Havia falhado e sabia que aquele teste era o fator determinante para sua entrada na classe de heróis. E havia falhado.
Por isso, qual não foi sua surpresa ao ouvir que iria ser transferido, que havia conseguido! Iria para a classe de herói que tanto desejava! Os professores haviam se afastado para discutir algum outro assunto e logo viu Midoriya vindo em sua direção.
— Eu sabia que conseguiria. – Shinsou se perguntou se ele tinha algum tipo de problema no rosto. Não era possível que alguém sorrisse assim o tempo inteiro.
— Pelo menos alguém sabia. – Suspirou, alívio e felicidade o preenchiam embora nenhuma dessas emoções pudesse ser vista por fora. Encarou confuso a mão que ele lhe estendia.
— Vamos lutar novamente algum dia, certo? Dessa vez da forma certa, sem interrupções ou poderes descontrolados.
— O que foi aquilo? – Os olhos dele desviaram dos seus e o sorriso murchou para uma expressão pensativa e preocupada.
— Apenas um lapso de controle, mas não se preocupe, não foi nada demais.
Ao entrar no quarto do dormitório após chegar do hospital, Shinsou se viu relembrando esse dia há muito esquecido. Naquele momento, ele devia ter percebido, foram os primeiros sinais de que algo não estava certo. Naquele momento, ele devia ter insistido. Se ao menos soubesse o que estava por vir, teria se intrometido mais, e, quem sabe, poderia tê-lo salvo. “Eu devia ter prestado mais atenção! Poderia tê-lo salvo! ” as palavras que rondavam sua mente eram o único som que ouvia, abafaram até o choque de seus joelhos ao cederem sobre o chão.
A coluna se dobrou para a frente e a cabeça encostou no carpete, os braços com as mãos bem apertadas nas laterais, enquanto a boca se abria e o grito de impotência que vinha guardando dentro de si enfim se libertava.
◊◊◊
A porta estava entreaberta. Toshinori aproximou-se, o peito mais pesado do que se estivesse afundando submetido a uma pressão altíssima do fundo do oceano. O coração sangrava ao ver seu protegido passar por aquela situação. O corpo deitado naquela cama não podia pertencer aquele garoto animado e decidido, que se dedicava com tanto afinco a se tornar um herói, aquele a quem confiara o poder e a responsabilidade de ser o próximo Símbolo da paz.
A culpa o corroía ao imaginar que durante todo aquele tempo ele estivera sofrendo. E nem ao menos o havia avisado. A distância que mantivera havia sido justificada como ocupação pelo estágio e os estudos. E Toshinori nem ao menos desconfiou que poderia haver algo mais. Confiou cegamente na certeza que o pupilo correria até si e contaria tudo que estivesse acontecendo. Era uma falha como professor.
— Ele entrou em coma e sua condição está se deteriorando muito rápido. – A voz flutuou pela brecha da porta e o homem estancou, apenas escutando. — Eu lamento, mas devem se preparar para o pior. – O médico deu a palavra final, um tom triste na voz, mas ainda assim distante o suficiente para que a mãe arrasada se voltasse contra ele. All Might, ouvindo os ruídos de dor, adentrou rapidamente o quarto a tempo de ver Inko Midoriya lançando-se contra o médico e o atacando com a própria prancheta.
A cena poderia ser engraçada – uma mulher baixinha atacando o homem alto e forte – se não fosse trágica. Se não fossem as lágrimas que escorriam pelo rosto de aparência cansada e a força quase inexistentes dos golpes. Era como ver uma represa desmoronar, um furo após o outro até que a água contida vazasse por completo. Toshinori adentrou o quarto segurou os punhos dela, impedindo-a de continuar.
— Já chega, Sra. Midoriya. Socar o médico não vai fazer nada mudar. – o doutor assentiu para as palavras e com um aceno para Toshinori, retirou-se. Em suas mãos, Inko tremia, uma tentativa vã de conter os soluços que lhe tomavam a voz.
— Tem razão... – os olhos dela se fixaram sobre si e os punhos voltaram a se fechar, forçando para fora do aperto. — Eu devia socar você! Afinal, isso foi tudo culpa sua! – As palavras atingiram exatamente os pensamentos que se acumulavam em sua mente. “Se eu não tivesse dado a ele o poder.... se eu não o tivesse arrastado para tudo isso... ele ainda estaria aqui, sorrindo como sempre fazia...” os punhos pequenos o acertaram no peito, mas ele não se afastou, muito menos fez quaisquer movimentos para impedi-la. Ela tinha esse direito e ele não podia revidar, embora cada palavra doesse mais do que as fracas pancadas.
— Você prometeu que cuidaria dele. Prometeu que cuidaria dele com a própria vida. Então me explique por que é meu filho que está ali naquela cama e não você?
— Eu não sabia. Não sabia que o One for All exigiria tanto do corpo dele. Não sabia que havia esse risco de começar a consumir o próprio corpo cada vez que ele aumentava a porcentagem que usava. – Ela não ouvia, apenas continuava o socando cegamente, chamando pelo filho que, deitado na cama, não esboçava reação. — Eu não sabia. Sinto tanto... – All Migth se deixou acertar, merecia aquilo.
Havia prejudicado a vida de uma criança, a retirado dos braços da mãe onde estava bem e segura e o jogado em um mundo feio de lutas e sacrifícios. E como se isso não fosse o suficiente, a certeza que tinha que o corpo dele logo seria o suficiente havia sido quebrada. E como consequência, o One for All havia consumido o próprio corpo, gerando aquelas feridas na pele, o emagrecimento e, por fim, o coma. Inko agarrou-se a sua camisa e os dois escorregaram para o chão em um abraço sem jeito, mas compreensível. Sob as lágrimas que caíam mais uma vez, voltou os olhos para a figura pequena e pediu de todo coração.
— Por favor, Jovem Midoriya não me deixe assim. Resista. Não era você quem disse que iria salvar as pessoas com um sorriso? Como vamos sorrir sem você ali para nos incentivar?
E como se em resposta aos seus questionamentos, o monitor cardíaco disparou em uma frequência muito acima do normal e os dois presentes ergueram os rostos, uma centelha de esperança ameaçando pulsar em seu interior, apenas a tempo de observar os picos de elevação diminuírem para enfim se estabilizarem em uma única linha contínua.
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