One for the Road
1 Shake, rattle and roll - Único
Notas iniciais
Saí do carro. Apesar de saber que iria beber, era eu quem dirigia. Se conseguisse ligar para meu irmão e balbuciar algo, pediria para ele mesmo ir de táxi até a festa e dirigir de volta para casa, quando acabasse. Coloquei as chaves dentro do bolso da jaqueta, mesmo com medo de tirá-la. Era isso. Tudo o que eu fazia tinha consequências e eu sabia perfeitamente delas. Mas quem dá a mínima? Eu acabei de fazer vinte e um. O mundo é um lugar sem limites para mim agora.
Bati, inseguro, à porta. Ela foi quem atendeu. Aquela mulher tinha uma beleza estonteante e eu nunca tinha reparado naquilo. Os cabelos louros ondulados lhe recaíam perfeitamente; pareciam ser sob medida. E ainda havia seus olhos. Duas singelas e pequeninas esmeraldas brilhantes. Os lábios, rosadinhos e finos, sorriam para mim. Parecia uma princesa. Uma princesa que gostava de festinhas regadas a sexo, drogas e bebida no apartamento. Fumava ela mesma um Parliament, e vi que ela soltou a fumaça assim que me viu.
— É, oi. Eu estava esperando você. — Um sorriso amarelo surgiu em seus lábios. — Entra.
Eu simplesmente o fiz. Sem maior cerimônia. A garota não era conhecida por esperar.
Dentro daquele apartamento, aquele lugar onde eu nunca estive — mas conhecia pelos relatos dela —, estava uma bagunça. Adolescentes sentados no chão trocando apalpadas nos peitinhos, beijos contra a parede, uma bela de uma mesa cheia de bebida, um grupinho de pessoas fumando, e tudo isso sob a luz escassa de uma sala grande. Puxei um maço de cigarros do bolso da calça e acendi um. Então, ela sentou no chão. Fiz o mesmo.
— Essa é a hora onde você me pede um tour de reconhecimento, amorzinho? — debochou. Eu ri.
— Não precisa. Nem sei, mas eu sinto que já estive por aqui — respondi. Era verdade, vou confessar.
— Em uma vida passada? Eu tenho uns amigos que mexem com essas coisas. Vou perguntar sobre seu caso.
— Cínica. Olha essas coisas aí no teto. Isso não te dá agonia, não? — De fato, rachaduras na persiana da janelinha para o mundo exterior deixavam o teto daquela sala insana de um jeito louco. Era quase um padrão.
— Cê tá louco? Eu tô bem. Só um cigarro é capaz de confundir assim a sua cabeça?
— Meu Deus, não. Eita, ainda são seis horas da tarde? Achava que estava escuro.
— Caralho! Cê é noiado, hein? É meia-noite, agora, para sua informação. — E se levantou, rindo de mim. Colocou um rockzinho dos anos 90 no micro system. E deixou tocar.
Eu viajava ouvindo Kravitz, e ela sabia. Maldita.
Peguei um drink da mesa cheia e o virei rápido. Larguei o copo em algum canto da vida e voltei ao meu posto. Não senti nada de mais, mas ela não teve a mesma reação. Tentou seguir meu exemplo e quase deu com a cabeça na parede. Ela parecia ter apagado antes de cair no chão, mas eu ouvi sua curta respiração enquanto a música ainda explodia no aparelho a seu lado. A trilha sonora ideal para o desastre, pensei.
Abracei os ombros dela e a levei a meu lado. Estranho que ninguém no ambiente percebeu. Concentrados demais nas suas atividades, talvez. Enquanto isso, eu arrastava uma garota semiconsciente pelo chão. Que tinha acabado de colocar Lenny Kravitz para me provocar; que tinha acabado de debochar de mim. Mas quem ligava para qualquer coisa que ela tinha feito até então? Ela dava festas regadas a bebida, e era extremamente frágil em relação a elas. Eu não conseguia acreditar.
Minha amiga batia no meu rosto como se este fosse um mar no qual tentava nadar. Eu, desesperado, dizia:
— Bella! Bella! Por favor, fica. Por mim. Não se deixa levar por essa água maldita. E meu rosto não é um bom lugar para se nadar — ri, de nervoso.
Ô, merda. Claro que isso não funcionou.
Deixei ela ali se debatendo enquanto corria para procurar alguma coisa. Qualquer coisa que a tirasse daquele efeito maníaco do álcool no qual ficou depois de beber um simples copo de algo. Eu sabia que não tinha como ela ter virado aquilo com só um. A vadia deveria ter bebido a mesa inteira antes do pessoal chegar.
E não havia nada. Ela não tomava nada. Só havia antibiótico atrás de antibiótico.
Ela não queria acordar da sua loucura quando eu voltei, mas eu pelo menos tentei. Descobri uma aspirina no bolso, por um milagre louco, e dei para ela. A seco. Ela já salivava demais e não havia nada sem álcool a não ser a água da torneira; foi a única alternativa que tive.
É claro que, desde que isto não é fantasia, ela não acordou instantaneamente com o remedinho. (Ele também não fazia nada além de agir como analgésico, mas era minha última alternativa.) Demorou um certo tempo, mas ela acabou acordando; não sei se foi o remédio ou algum outro fator, como o começo de uma ressaca. Ela foi parando de se debater. Respirava de um jeito mais... natural.
— Como você se sente? — perguntei, quando ela acordou. Antes, expliquei o que aconteceu enquanto ela estava apagada.
— Porra, você faz essa pergunta pra todo mundo que acaba de desmaiar? Caralho, se é o que você acabou de dizer para mim, eu acabei de ter uma convulsão. Você vai mesmo perguntar como alguém que acabou de ter o caralho de uma convulsão está se sentindo?! Francamente. — Ela suspirou e foi "dar uma volta" pela sala, cambaleando e se agarrando às paredes.
Eu observei sua sombra hesitante sair, pensando em como eu era burro. Como não pude pensar na possibilidade dela ser epiléptica? Se bem que não tinha remédios para isso no armário. Talvez ela tinha desenvolvido só agora, o que era bastante preocupante.
Apesar da bronquinha dela, depois de um tempo, ela mandou todos irem embora, mas sussurrou “exceto você, Alex”. E me deu um sorriso fraco. Eu aproveitei para tomar alguns copos daquela mesma bebida que a fez cair (ou ao menos eu achava que tinha sido a bebida até alguns minutos), e que, graças a Deus, não surtiu efeito nenhum em mim, já que não era eu o carinha com epilepsia. Não sentia que iria para casa tão cedo.
E estava certo.
— E agora, Bella? A última — provoquei.
— Não me chama de Bella, porra. E você diz a saideira? — ela rebateu.
— Esse nome é ridículo.
— Mas é o nome.
— Você me irrita, Arabella. OK, vai, a saideira — eu disse, do jeito dela.
Arabella sorriu e foi lá atrás da bebida. Mas não me deixou dar o fora tão cedo.
Quando vi, estávamos de conchinha no quartinho dela. Eu não esperava por isso, mas foi o que ela se propôs a fazer.
— Tenho mais uma pergunta — disse, enquanto estava entrelaçado a ela.
— Diga — ela sussurrou, num tom um tanto quanto condescendente.
— Em que lugar do seu coração estou, agora?
— Se continuar com essas perguntas estúpidas, vai para a zona de rebaixamento. — Ela riu, baixinho. — Sou sua.
— Vai ser amanhã? Ou só hoje à noite?
— Alex, você sabe a resposta, seu retardado. Eu não disse que "sou"? Então eu sou. Até você se cansar de mim.
Eu ri também. Ela me abraçou por trás.
— Também não esperava por isso. Aliás, Arabella, não esperava por você na minha vida. Não acredito em destino, mas acho que ele foi quem cruzou as nossas vidas.
— Não quer mesmo que eu fale com aqueles amigos?
— Cínica.
— Que você adora.
— Talvez.
— Caralho, estamos parecendo namoradinho e namoradinha. Não fique com essa ideia fixa por ter simplesmente me ajudado quando eu tive praticamente uma porra de uma convulsão, que você confundiu com a vez que você mesmo caiu na rua depois de uma festinha, que eu vi. E o seu remédio nem fez nada.
— Essa é a Arabella que eu conheço. Agora sim! — aplaudi.
— Meu Deus, me dá licença. Acho que vou vomitar. — Ela saiu em disparada para o banheiro.
— Mas eu só tava brincand... — Engraçado que efetivamente ela vomitou no vaso. Por um segundo, esqueci que ela estava na ressaca.
— MERDA! — ouvi Arabella gritar. — Esse é... o preço... que eu pago... por ser viciada. — Ela arquejava um tanto alto demais por entre as palavras, e falava com uma voz um tanto rouca porque, ei, ela tinha acabado de vomitar.
Deus, essa garota. Sabe quebrar um clima romântico da melhor forma.
E tudo isso depois de um apagão dela. É a vida, Alex. É a vida.
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