One and Only
7 Chapter Seven
Notas iniciais
Dia 53 – Rachel Berry
É a última semana de Outubro e o clima está bem mais frio. Carrego casaquinhos sobressalentes para todos os lugares, em especial para dentro do Editorial, que parece que sempre está abaixo dos 0ºC. O Outono este ano está parecendo mais rigoroso. Mas não tem problema. Com as últimas compras que fiz, Santana não para de dizer “o quanto eu vou arrasar” com elas. E parece que ela tem razão quando diz que vermelho enlouquece os caras, porque com esse vestido vermelho que vai até os meus joelhos e que tem mangas parece que muitos caras que eu sequer sabia da existência já deu uma olhadinha para mim deste que saí do quarto.
Eu e Quinn estamos, juntamente com Tina, Paul e Tammy tentando finalizar a primeira pesquisa de Metodologia na biblioteca. Paul ainda não fez as suas entrevistas padronizadas, enquanto Tammy não fez a sua padronizada. Somente eu, Tina e Quinn temos todas as etapas preparadas. É meio frustrante, porque temos de entregar daqui a pouco este trabalho. E, certamente, a nota do grupo será prejudicada. Ainda bem que existe a nota individual, pelo menos eu me salvei de me sair tão mal.
– E se eu fosse perguntar algo para o pessoal de Relações Públicas? – Tammy pergunta, meio desesperada.
– Ah, fala sério – Quinn rola os olhos; está impaciente porque não podemos entrar com bebidas nem comidas aqui dentro e ela precisa demais de uma dose extra de cafeína. Ela teria tido sua dose, se tivesse levantado no momento no qual eu lhe disse para fazê-lo, mas ela preferiu me ignorar e sair correndo no último minuto – Não vai dar tempo! É isso, desista. Estamos ferrados.
Quinn se larga na cadeira, de braços cruzados e fecha os olhos. Ela já reclamou de dor de cabeça três vezes nessa última meia-hora. Ainda são sete e meia, e parece que ela já está acabada. Não sei por quê. Mentira. Sei, sim. É porque na noite passada ela ficou jogando Verdade ou Desafio no quarto de Puck, juntamente com Santana e Brittany. Eu perguntei se houve bebidas, mas ela negou. Claramente, havia bebidas, porque ela aparenta estar sofrendo de ressaca.
Mas vejo que ela está certa. É tarde demais para correr atrás de tudo na última hora. Não temos tempo de acertar a irresponsabilidade dos nossos colegas, e isso vai ficar registrado no B menos que vamos receber. Metodologia é no segundo tempo (antes, eu e Tina temos Inglês Aplicado) e não dá tempo de arranjar alguém que concedesse uma entrevista relativamente longa sobre fidelidade de clientes e transcrevê-la.
Bem, a culpa não é minha.
Eu meio que lidero o grupo e tinha especificado cada etapa do trabalho para todos e estipulado as datas da finalização. Eu fiz a minha parte. A Quinn fez a parte dela (eu é que arranjei o seu entrevistado para a entrevista despadronizada). E Tina fez a parte dela (eu a ajudei com as dez entrevistas padronizadas; essas entrevistas são um saco, e dá totalmente para burlar o sistema fazendo as nossas próprias marcações).
– Ok, a Quinn tem razão – eu digo.
– Diga-me algo que eu já não saiba – ela retruca, ainda com os olhos fechados. Acho que a luz branca está incomodando seus olhos – Podemos ir embora?
É o que devemos mesmo fazer. Até parece que há algo que possamos fazer.
Quinn se levanta com suas entrevistas e gráficos. Todo o restante também. Paul promete que terá as cinco entrevistas padronizadas prontas a tempo (afinal, ele somente tem que abordar cinco pessoas pelo campus que concordem em perder três minutos da vida delas para responder dez perguntas do tipo: Você usa a internet para conferir as novidades da sua loja preferida, sim ou não?). Tammy parece ainda mais desesperada, mas sabe que a culpa é apenas dela. Saímos da sala reservada, entregamos a chave ao balconista e descemos as escadas rolantes.
– Você acha que seremos muito prejudicados por essa falta? – Tina me inquere assim que saímos do prédio.
– É uma falta considerável, afinal todo mundo tinha três passos: entrevistas padronizadas, despadronizadas e a computação dos gráficos para a conclusão da pesquisa – respondo. Olho para Quinn, que se assemelha a um robô ao meu lado. Ela está silenciosa e meio que caminha de olhos fechados – Você precisa de um café – digo a ela, abraçando seus ombros para que ela não caia no meio da alameda – Vamos ao bistrô, ok? Só mais alguns passos.
Acho que elegi o bistrô do prédio 8 o meu preferido justamente porque ele fica situado à poucos metros da biblioteca. É tão fácil fazer o trajeto que o faço automaticamente já. Separamo-nos de Tina, pois ela vai em direção aos dormitórios (acho que acordar Mike), e seguimos até o prédio 8.
– Eu definitivamente deveria ter dado na cara da Santana quando ela me desafiou a beber metade da garrafa de uísque – Quinn meio que geme enquanto fala, por causa da sua dor de cabeça. Ao menos, ela dormiu umas quatro horas antes de se levantar. É claro que não dá pra recuperar uma dose alta de bebida, ainda mais uísque, mas é uma vantagem. Não é? De qualquer modo, eu não entendo nada disso.
– E é por isso que eu nunca me junto às brincadeiras de vocês – eu digo, e com razão. Sou disciplinada demais para ficar bêbada em dia de semana. Nem sei como Quinn estará operante para exercer suas funções de editora-chefe, à tarde.
Faço com que ela se sente numa das mesas de canto e faço nosso pedido no balcão. Vendo-a da fila, parece que adormeceu por sobre os braços. Ela vestiu qualquer coisa e saiu do quarto, é por isso que a sua saia estilo hippie está esquisita demais no conjunto todo. Eu nem sabia que ela tinha uma saia hippie! Dois minutos depois, com nossos pedidos já nas mãos, percebo que eu deveria é tê-la feito retornar ao dormitório para dormir um pouco mais. É claro que ela precisa de um pouco de café, mas eu poderia ter comprado o copo depois. Deposito os dois copos de isopor – o meu, é claro, é cappuccino; o dela é café puro com três gotas de adoçante –, sento-me na cadeira defronte a ela e a cutuco levemente.
– Quinn.
É, ela meio que dormiu.
Não posso culpá-la, aqui é bem agradável. Apesar do barulho todo das outras mesas. Todo mundo está desfrutando de um café da manhã que inclui lanches recheados com ovos, ou bacon. Menos eu, é claro. Eu prefiro a minha torta fria de legumes. Por isso, eu a como sem presa alguma. Ainda tenho vinte minutos para a primeira aula e deixo que Quinn reponha seu sono.
Quando consigo despertá-la, seu café já está meio frio, mas ela o engole mesmo assim, sem pronunciar uma só palavra. Ela estala o pescoço diversas vezes como se estivesse sofrendo de artrite e depois suspira.
– E aí? Melhor? – pergunto.
– Ok, da próxima vez, eu fico lendo Anne Frank – ela responde.
Eu acabo rindo, porque Quinn não é do tipo que lê – ao menos, nunca a vi com um livro, além dos que eu pego para ela por conta dos nossos trabalhos. Duvido que ela leria Diário de Anne Frank.
Quinn não tem o primeiro tempo livre, pois tem Jornalismo Especializado, mas mesmo assim volta para os dormitórios. Eu finjo que não quero contestá-la, afinal eu sou a parte responsável da nossa amizade, e prometo acordá-la quando sair do Inglês Aplicado; é uma bênção que a professora sempre nos solte quinze minutos antes, assim dá tempo de Quinn acordar de verdade e caminhar até o nosso prédio de aulas.
Inglês Aplicado termina, e eu ligo para ela.
– Só cinco minutos – ela reclama.
– Temos de entregar a pesquisa, lembra? Vou tentar ajudar o Paul com as entrevistas padronizadas dele até o sinal tocar e quero te ver na sala quando eu chegar lá, ok?
– Eu realmente não me sinto bem para sair da cama...
– Pense na sua falta. Você não rodou no primeiro semestre por causa das faltas?
Foi exatamente isso que aconteceu, eu sei bem. Além de ela ter se dado muito mal na prova.
Quinn meio que resmunga do outro lado da ligação e a desliga.
– Quinn? – pergunto. Só ouço aquele som de fim de ligação – Quinn! – exclamo, agora ficando sem paciência. Olho no relógio. Ok, tenho vinte e cinco minutos, contando com os quinze minutos do intervalo. Se eu for rapidinho até ela e fazê-la levantar, ainda dá tempo de ajudar o Paul. Ao menos, espero que sim.
Faço isso, ando até os dormitórios, do outro lado do campus, com passos pesados e firmes. Minhas batatas das pernas reclamam pelo esforço, mas não ouso parar. Quase sete minutos depois, estou passando pela portaria e, dois minutos depois, estou entrando em nosso quarto. Ela continua com a mesma roupa, mas retirou a jaqueta jeans, e continua dormindo. Suspiro alto. Por que sempre preciso ficar com essa parte? Sento-me no colchão dela e a balanço. Uma, duas, três vezes.
– Sai pra lá! – ela diz, sem abrir os olhos.
Ah, que ótimo, agora só tenho quinze minutos. E precisava demais tomar outro cappuccino... Quem sabe, se eu conseguir arrastar a Quinn até o bistrô... Isso se ela acordar, é claro, e conseguir sair da cama.
– Quinn! – ralho com ela – Agora é sério! Você não vai querer perder Metodologia de novo, né? Por favor, levanta!
– Desde quando você se tornou a minha mãe? – ela pergunta.
– Desde quando você não me deixa alternativas. Vamos lá, levante. Por que não toma um banho rápido?
– Não.
Meu celular começa a tocar. É uma droga mesmo, tudo acontece ao mesmo tempo, que inferno! Por que não posso ter um pouquinho de paz?
Ah. É Finn. Não sei se quero atender, mas por via das dúvidas acabo dizendo:
– Oi.
Eu sei, sou uma vergonha. Porque na noite passada, enquanto Quinn estava se divertindo, eu e ele estávamos tendo uma discussão acerca das nossas vidas e que rumo queremos dar a elas. Chegue à conclusão de que estamos em estágios completamente diferentes. Não estamos mais andando juntos como antigamente.
– Hey, tem um tempo?
Se eu tenho um tempo? Será que devo mentir e me afundar em mais uma discussão? Hmm, passo.
– Estou no meio de uma missão, não posso agora – digo a verdade. Afinal, acordar a Quinn nunca me pareceu ser uma tarefa muito fácil. Balanço-a mais um pouco, e ela reclama.
– Tudo bem – há algo na voz dele, algo que está se quebrando, que me faz pensar que é nosso fim. Mas então ele diz – Posso te ligar de tarde? Quero realmente conversar contigo.
Ele quer acertar as coisas, é claro. Todas essas brigas estão produzindo efeitos totalmente negativos em ambos. É claro que ele quer consertar as coisas, porque está percebendo que estou meio distante. E ele me ama.
– Me liga no almoço, depois da uma, ok? – peço. Estou meio feliz. Quero ficar bem com ele de novo.
– Ok. Boa aula, beijos.
– Você também. Eu amo você – adiciono por necessidade.
– Hmm. Eu também – ele pontua, mas não deixo de perceber que há uma hesitação. Tiro isso da cabeça assim que olho para Quinn. Que desastre!
Dez minutos.
Preciso sair daqui agora para chegar a tempo para a chamada.
– Ok, você venceu – eu digo alto, embora saiba que estou falando sozinha – Estou indo para a aula. Vê se acorda a tempo para o Editorial, ok?
Ela não me responde, é claro. Vou até a nossa mesa e pego a sua parte do trabalho antes de sair dali.
Caminho apressada até o prédio. Peço desculpas a Paul, quando o encontro ainda no corredor, por não tê-lo auxiliado nas entrevistas, mas ele diz que está tudo certo. Suspiro, aliviada.
A entrega do trabalho ocorre tranquila. Não dá para pedir mais prazo, mas ok. Essa missão acabou. A professora nos passa um pouco mais de matéria e a vida segue. Não consigo deixar de pensar em Quinn, afinal ela deveria estar aqui para não perder mais um dia de aula. Mas acho que ela não se importa. Bem típico dela, na verdade. Anoto tudo com esmero, porque pretendo repassar a matéria com Quinn para que não fique atrasada.
A manhã passa tranquila, apesar de eu ser chamada pelo Carrasco para responder umas perguntas do texto que deveríamos ter lido para a aula. Mas não tem problema, porque, no fundo, eu sei que o Carrasco é um cara legal. Acho que ele só está esperando o Natal chegar para começar a distribuir balinhas, ou algo assim.
Almoço com Tina e Sam, porque não sei onde os outros estão. Sam parece interessado em Quinn, por isso pergunta sobre ela.
– Dormindo – respondo.
Ele me especula com os olhos. Ai, meu Deus. Isso é tão legal! Por que Quinn não deixa pra lá a sua teoria de que novatos são um pé no saco e sai com ele? É apenas uma chance...
– Coisas do Puckerman – eu explico.
Sam assente.
– Então, eles estão juntos?
Tina começa a rir primeiro, porque ela está totalmente entendendo as intenções de Sam, exatamente como eu. Estou dizendo: isso é tão legal! E ele é bastante querido, apesar de não ser tão responsável. Apesar de termos Metodologia juntos, ele se juntou a outro grupo, pois o nosso já estava completo. Eu consigo ver o modo meio abobalhado que ele olha para ela. É o tipo de coisa que eu fazia quando estava apaixonada. Quer dizer, não que eu ainda não esteja. É claro que estou, mas não é mais aquela coisa sonhadora. Agora eu sei dos prós e contras, das qualidades e dos defeitos. É muito mais real, agora.
– Não – eu digo, mas não sei se é a melhor resposta. Como dizer a ele que eles são amigos com benefícios? Olho para Tina, tentando procurar outra resposta, uma mais verdadeira – Não muito.
Acabamos rindo, porque ninguém sabe muito que rola entre Quinn e Puck.
– “Não muito”?
É mesmo uma resposta esquisita.
Mas não é outra melhor. Não é como se eu pudesse explicar com todas as letras...
– Sugiro que pergunte a ela – é o que digo. Não posso dizer outra coisa.
Se Quinn fosse mais receptiva com Sam, quem sabe, esse seria um recomeço. Talvez, com ele, ela fosse aprender sobre o amor. Seria ótimo.
Fico no bistrô, lendo, até a hora de ter de ir para o Editorial. Gosto de ficar sozinha. Gosto da companhia de Quinn, mas me sinto mais eu mesma quando estou sozinha, no meu bistrô preferido lendo.
A solidão é malvista por muitos. Eu a aprecio, pois ela me faz me encontrar. Ela diz muito sobre mim, e significa muito: ela delineia momentos somente meus, daqueles que não tenho a obrigação de compartilhar com ninguém. A solidão é uma forma de dizer que me importo comigo, que gosto de mim. Que não há empecilhos contra mim mesma. A solidão me dá liberdade. E a liberdade me dá autonomia.
É claro que pessoas como Quinn nunca poderiam me entender. Ela achou que tinha sido horrível experimentar aqueles dias no quarto individual; entretanto, foi uma das experiências mais libertadoras que já tinha conquistado: estar sozinha lhe concede uma organização só sua, por exemplo. Você tem o seu tempo; você faz o seu tempo. Não depende de ninguém. Não precisa dizer que está saindo, ou que voltará tal hora. Nada disso importa na solidão.
Na solidão, a única coisa que importa é você mesmo. O seu bem-estar. O seu bom-humor.
A solidão permite o presente. Ela deixa de fora o seu passado e, muito certamente, não está se importando com o seu futuro. O presente, o agora, o hoje... São essas coisas que importam.
Quinn, quando me adentro no Editorial, está conversando com Sr. Schue, numa mesinha afastada, lá no fundo da sala. Não sei se estão falando sobre alguma pauta, ou sobre seu estado de espírito (que, no momento, parece muito debilitado ainda). Deixo minha bolsa em ima da mesa e me sento na cadeira. Meu lugar é à frente de Quinn, na outra fileira. Espero que sua reunião com Sr. Schue termine para que eu fale com ela.
– Melhor?
Sua maquiagem está renovada, mas ela ainda expressa cansaço. Está com outras vestimentas, ao menos. Está usando um vestido azul anil de alcinhas que revelam um pouco do seu sutiã, mas ela não parece se importar nem um pouco.
– Defina “melhor” – ela graceja, colocando-se em seu lugar.
– Precisa de uma Aspirina?
– Srta. Holliday já me deu, obrigada.
A reunião geral ainda não começou, por isso abro o whatsapp. E, imediatamente, me recordo de Finn. Ele não me ligou no almoço. Será que esqueceu? Não importa, na verdade. Planejo telefonar para ele no intervalo.
É claro que isso não acontece. Bem, não que seja tão evidente assim. Mas como eu já tinha me programado, fico surpresa quando meu telefone começa a soar no meio da reunião. Pelo menos não é a reunião de pauta da minha plataforma. Nessa reunião geral eu nem preciso falar. Por isso, meio sem jeito, finjo que é importante, pedindo licença e saindo da sala.
O corredor está vazio e meio que dá eco, e não quero falar aqui. Por isso, passo pela catraca e me vejo no saguão apinhado de gente tomando café e conversando no jardim.
Meu coração está sobressaltado. É Finn.
– Rachel? – ele pergunta.
Tem alguma coisa errada. Não sei o que me faz pensar isso, mas penso que, se ele não ligou no momento em que disse que ligaria, não é porque não conseguiu se livrar a tempo de uma prova, ou de coisas outra coisa que faça ligação com a faculdade.
– O-oi! – odeio gaguejar, e não sei por que estou gaguejando agora – O que aconteceu? – tenho essa necessidade de lhe inquirir. Porque aconteceu alguma coisa. Ou está prestes a acontecer. E não é nada relacionado a qualquer vontade dele de me visitar em NY – Está tudo bem?
Minha respiração se assemelha a um corredor, ou algo assim. Parece que fiz muito esforço para chegar até aqui.
– Hmm. É, tudo bem – ele parece hesitante, e isso me breca log de cara.
Tem algo errado. Eu senti isso da primeira vez que me telefonou mais cedo.
– Eu preciso conversar com você. Tem um tempo? Pode ser que leve alguns minutos.
– Estava no meio de uma reunião – respondo. O que estou fazendo? Não posso adiar todos os meus problemas, apenas porque sou fracote demais!
– Eu realmente preciso levar essa conversa contigo – ele afirma. Há convicção demais.
Olho para os lados, procurando uma mesa vaga. Não acho nenhuma, por isso vou me abrigar debaixo de uma árvore, num banco de concreto decorado com lajotas coloridas.
– Pode falar.
– Obrigado – ele suspira. Há um pouco de alívio na voz dele, e fico me perguntando o porquê – Olha, isso não vai ser legal, ou fácil de fazer, especialmente porque eu achei que nunca precisaria fazer isso. Desde que te conheci no McKinley eu meio que achava que passaríamos bons e longos momentos juntos, sabe? – ele pergunta; eu assinto, sentindo meu coração acelerado. Não pode vir coisa boa. Por que está me dizendo isso? Justamente isso, como se fosse uma recapitulação da nossa adolescência?
Há um “mas” nessa história.
– Entendi. Mas?
Meu coração está apertado.
E, dois segundos depois, percebo o porquê: ele vai terminar comigo.
Ele vai terminar comigo numa ligação. Porque não tem coragem de falar nada disso face a face. Meio covarde, se quer saber.
– Mas desde que nos separamos, e você mesma me disse isso esses dias, nós estamos seguindo rumos diferentes na vida. Por isso, eu acho que é uma boa ideia nós darmos um tempo.
Dar um tempo não é, necessariamente, terminar com alguém. É?
– Acho que precisamos de um tempo para entender se ainda pertencemos um ao outro – ele completa.
– Não pertencemos mais – minha voz está fraca – Você tem outra, acertei? – retomei o fôlego e balancei a cabeça para mim mesma; fui muito burra – Está claro demais para mim. Você está dizendo tudo isso, porque não pretende mais gastar seu tempo comigo. Você tem outra – repito.
Ele fica quieto do outro lado da linha.
Ah. Ah, meu Deus.
– Se você quer colocar as coisas assim, então... – depois ele me diz.
– É como as coisas estão – devolvo.
– Eu preciso ir.
– Tudo bem. Pode ir, até parece que...
Quero dizer-lhe algo doloroso, mas não sou capaz, porque parece que estou sufocando. Fecho a boca, me contendo.
– Rachel, eu nunca menti para você, ok? Não há ninguém, eu realmente preciso de um tempo e achei que você também. Sei como as coisas em Nova York são bastante mais aceleradas...
– Tanto faz! Você não tinha o direito de tomar essa decisão!
– Você prefere que briguemos toda semana?
É claro não, meu Deus. Mas pelo menos, assim, eu tenho alguém ao meu... Esquece. Faz tempo que não o tenho ao meu lado. Pode ser que um tempo possa ser a resposta. Certo? Preciso de um tempo, sei que sim.
Ainda assim... Ainda assim parece um pouco cruel. Eu ainda gosto muito de Finn. Ele foi o meu primeiro amor. Não há como esquecer-se disso. Não há como eu fingir que posso encontrar outro amor parecido. Não quando NY parece tão assustadora.
– Finn... E claro que não, mas... Não precisava ser assim.
– Você ainda será uma das minhas melhores amigas.
– Não quero ser sua amiga.
– Você nunca quis – ele ri. É verdade. Eu nunca aceitei ser apenas amiga dele – Agora, eu realmente preciso voltar ao trabalho. Consegui uma turma, te falei? São pirralhos horríveis, mas acho que tenho bastante paciência.
– Que ótimo. Isso é realmente ótimo.
– Obrigado. A gente se fala outro dia, ok? Eu te ligo.
– Certo. Tudo bem. Cuide-se.
– Você também.
A ligação termina, e eu fico ali, sozinha, naquela parte do jardim. Folhas caem sobre mim, mas eu não me movo.
Nunca achei que ser abandonada doesse tanto.
~*~
Dia 53 – Quinn Fabray
Não vejo Rachel desde a reunião geral do Editorial. Ela saiu de repente, mas voltou minutos depois, levando sua bolsa. Não esperou a reunião de pauta do Impresso, ou qualquer outra coisa.
Não disse uma sequer palavra a mim.
A princípio, achei que alguém tinha morrido. Mas ela não estava chorando quando se adentrou na sala novamente – embora expressasse alguma coisa bem diferente do habitual; com certeza era algo pelo de uma tristeza.
– Você acha que ela vai voltar? – pergunto para Santana. Estamos conversando sobre isso.
– São quase sete. Se quisesse voltar, já estaria aqui. Ou seja, não.
– Será que eu devo...?
– Não – ela responde.
– Mas...
– Você nem sabe para onde ela foi. Pode ter acontecido qualquer coisa. Você não sabe.
É, eu não sei. Mas estou tentando descobrir. E seria de ótima ajuda se Santana tivesse algo bom para me dizer. Pelo visto, ela está nem aí para tudo. Especialmente para Rachel.
Mas eu me preocupo. Como não fazê-lo? Sempre tem algo esquisito acontecendo com ela, e se aconteceu algo horrível? Como vou saber?
– Vou ligar para ela.
– De novo?
– É a última vez – respondo.
O telefone dela cai na caixa postal, mais uma vez. Não, não, não! Não faça isso comigo! Não desligue essa porcaria!
– Hm, oi. Cadê você?
É a terceira mensagem de voz exatamente idêntica que digo. Não sei o que falar. Apenas quero encontrá-la.
– Esquece, Quinn – Santana me diz. Olho-a, mal-humorada. Será que ela não sente nadinha?
Até o último minuto penso nela. Não sei se isso é bom ou ruim, mas não consigo de desvencilhar disso.
Pode ser que algo sério tenha acontecido. Alguém pode ter morrido. Será?
Quando a hora enfim termina, recolho minhas coisas e tento outra ligação.
Caixa postal.
Por quê? Por que ela está fazendo isso comigo? Por que não quer ser encontrada?
– Aconteceu alguma coisa – digo para Santana; ela rola os olhos.
– Certamente. Agora eu realmente preciso de um banho.
– Não, por favor, me ajude a encontrá-la.
– Não. Não sou eu que fico dando chilique só porque ela fugiu, ou sei lá. Ela já fez isso antes, por que se preocupa agora?
– Antes eu não era amiga dela – meu tom é duro demais.
– Eu realmente não tenho tempo, Quinn – Santana diz.
– E se fosse a sua novata?
– É completamente diferente.
– É claro que sim, mas...
– Mas nada. Tchau, estou indo – ela responde, se despedindo do Sr. Schue.
Despeço-me dele também e tento andar mais rápido para alcançá-la, mas ela passa pela catraca antes de mim.
– Santana! – eu berro, quando ela já está chegando perto dos jardins.
– Cuide bem da sua novata! – ela me diz, sem nem mesmo se dar ao trabalho de me olhar. Somente continua a caminhar pela alameda, sob a iluminação dos postes de luz.
– Nada da Rachel, não é mesmo? – Sr. Schue se emparelha comigo em frente á porta de vidro. Faço que não com a cabeça. Não sei por que ele se importa, na verdade. Os coordenadores nunca foram de controlar os estagiários, nunca foram atrás deles perguntando-lhes o porquê de suas faltas – Bem, diga a ela que, se é algo relacionado ao Editorial, que venha me comunicar. Sei que é a terceira pauta dela que cai, acho que isso não deixa ninguém feliz.
Mas eu não tenho certeza. Rachel abandonou sua tarde depois daquela ligação, no meio da reunião geral. Se fosse por conta de suas pautas que nunca vingam direito, ela teria me dito. Temos dividido muita coisa sobre o estágio. Sei que ela se sente um pouco inutilizada quando passa as tardes apenas ali na redação, mas não é sobre isso. Rachel não fugiu por causa do estágio. Normalmente, ela não tem muito que reclamar da redação.
– Boa noite, Quinn – ele me diz, logo em seguida, e sobe para a sala dos professores, ou qualquer lugar assim.
Fico sozinha ali no lobby, sem saber o que fazer.
Estou cansada, por isso resolvo que também preciso de um banho. Seja lá onde Rachel esteja, é melhor ir encontrá-la depois de uma ducha relaxante. Atravesso o campus, me alongando pelo caminho. A verdade é que o cansaço dói. E fere a alma também.
Quando abro a porta do quarto, ele está inundado na escuridão. A janela está fechada e aqui dentro parece abafado. Quando aciono o interruptor, alguém, numa voz muito baixa, reclama:
– Não faça isso.
Levo um susto, é claro.
É... Rachel?
Pisco meus olhos, ainda com a luz acesa só por mais alguns segundos, para conseguir entrever quem está na cama.
– Não acredito! – eu digo, meio enfurecida – Eu te liguei a tarde toda! Qual é o seu problema?!
– Apague a luz? – ela pede, naquela mesma vozinha baixa. Ela está debaixo da coberta, mesmo que não esteja menos de 20 graus lá fora.
Apago a luz imediatamente, mas deixo a porta aberta, devido à iluminação do corredor.
– Desembucha. Por que saiu de lá sem dizer nenhuma satisfação? Até mesmo o Sr. Schue perguntou de você! O que aconteceu? Quem te ligou? – estou falando rápido demais, num tom acalorado. Imagino que isso não seja, exatamente, o que Rachel quer ouvir agora, mas não posso me refrear. Estou mesmo meio irritada com ela! Por que não me disse que passaria o restante da tarde dormindo?
– Pare com isso – ela diz.
Então ela não vai responder as minhas perguntas?! A mim, que me preocupei a tarde inteira com ela? Isso não parece muito amigo!
– Somente me deixe em paz – ela emenda.
Como?!
Pressiono meus lábios, irritada. E então me sento na cama dela, no vão que há entre ela e a o fim do colchão.
– Diga-me – peço. A luz que penetra por nosso quarto permite que eu analise sua expressão: ela está calma, de olhos fechados. Não há nada de mais. Pode ser que tenha pegado um gripo transitória, qualquer coisa assim. Mas isso, é claro, não justifica a sua saída repentina do Editorial – Alguém... Morreu? – essa palavra é meio horrível, por isso hesito em dizê-la. Mas Rachel não reage, permanece quieta – O que te disseram ao telefone? É algo com seus pais? Com Finn?
– Ai, meu Deus – ela diz imediatamente – Não diga o nome dele.
Pisco. A luz do corredor se apaga, e nós duas ficamos no breu. De repente, sinto um pânico esquisito crescendo em mim. É bobo, eu sei, mas não posso afastá-lo.
– O que houve com Finn?
– Apenas não posso falar sobre isso agora.
– Ok. Então que tal se eu pedir comida chinesa e conversarmos sobre isso durante o jantar?
– Ainda não vou querer falar sobre isso – ela responde.
Eu sei o que houve.
De repente, eu sei totalmente o que houve. Por isso, se ela quiser se pronunciar sobre isso, terá de ser no tempo dela. Um coração quebrado precisa de tempo.
– Tudo bem – digo, meio que desistindo. Afasto-me de sua cama, indo buscar meu celular para ligar para o restaurante chinês que há na redondeza. Quando finalizo o pedido e a ligação, mesmo ainda no escuro, olho para Rachel. Está na mesma posição, de olhos fechados.
Resolvo tomar meu banho há muito planejado, pois, se Rachel não quer ser ajudada, eu quero. E sei que a água vai levar embora tudo o que temo e que venho acumulando durante esses dias; todo o estresse, em especial.
Demoro o suficiente para ouvir Rachel dizendo que estão telefonando para o nosso ramal. É a comida chinesa. É, eles meio que são bem rapidinhos. Agradeço, pois estou esfomeada. Imagino que Rachel também esteja, caso tenha passado toda a sua tarde aqui dentro. Sei que as barras de chocolate que comprei já se foram todas, de modo que não há nada comestível no nosso quarto. Visto-me correndo para ir buscar nosso pedido.
– Então? – pergunto, distribuindo a nossa comida pela bancada.
– Não estou com fome – Rachel diz, de sua cama – Se você diz que nunca foi decepcionada pelo ninguém, te digo agora: ser chutada inibe todas as suas capacidades, mesmo a de sentir fome.
Olho para ela.
É, foi bem isso que imaginei. Finn disse que tem outra e a dispensou. É uma pena, porque Rachel é uma pessoa muito querida e gentil. Tenho ciência disso desde o primeiro dia.
– Então ele terminou com você? – pergunto, distribuindo um pouco do macarrão com vegetais em um prato vazio (porque eu sei que Rachel é vegetariana; então eu tive o cuidado de pedir algumas coisas que não contivessem carne). Ela, no entanto, não me responde; então tenho a confirmação. Continuo a preencher seu prato e, quando todos os pedidos sem carne se acabam, eu o passo para ela – Aqui, você vai querer comer.
– Eu realmente não sinto fome.
– Por favor.
Rachel senta-se na cama e me olha meio feio. Mas aceita o prato.
– Pode dizer, você sabe que eu estarei ao seu lado – minha voz está meio suave e, agora que a luz está acesa, posso visualizar bem o efeito dessas minhas palavras: isso meio que a debilita ainda mais. Arrependo-me quase no mesmo instante, no entanto completo – Sabe que sou contra essa coisa desde o início.
Alguns segundos se passam até que ela se digne a proferir algo.
– Ele disse que não há ninguém. Que vamos nos afastar, porque precisamos de um tempo para entender se ainda pertencemos um ao outro.
– Essa é a desculpa mais sem noção que já ouvi – não tenho vergonha de dizer – Ele realmente disse isso? – ela confirma com a cabeça, brincando com os alimentos com seu garfo; noto que não olha para mim, e isso é meio que ridículo, porque ela não precisa ter vergonha de mim: devo ser sua melhor amiga aqui! – Bem, isso só prova que o melhor a fazer é esquecê-lo – digo e noto que ela quer rebater algo, mas sou mais rápida que ela – Tudo bem, vocês ficaram dois anos juntos, mas e daí, se você tinha ciúmes dele o tempo todo? De que vale de um amor se você tem medo de perdê-lo? O amor não deveria ser assim. O amor deveria ser livre, ninguém deveria ter medo de entregar o seu coração para outro alguém.
– Você não entende. Ter medo de perder faz parte do amor.
Não respondo. Não sei o que dizer. Apenas sei que isso não pode ser verdade. Então eu deveria ter medo toda hora, ficar assustada toda hora? Isso não parece uma coisa boa e, se o amor é tão bom assim, por que deveria me sentir assim?
– Isso não parece certo – digo, depois de um tempo.
– Acho que nunca me senti tão mal na vida, além do meu primeiro dia de estágio aqui.
– Culpa minha, desculpa – sorrio meio sem jeito.
– Mas você fez questão de consertar o que fez de errado – Rachel logo refuta – Como Finn vai consertar o que fez comigo, mesmo que diga que não está dormindo com nenhuma outra garota?
Não sei. Eu realmente não sei.
Isso parece ser pesado demais para ser digerido com a comida.
– Estou cansada de me sentir inútil o tempo todo – Rachel diz, com a voz cansada. Ela deixa seu prato inacabado na bancada e vai para o banheiro escovar os dentes. Olho-a da minha cama, ainda terminando o meu jantar. A verdade é que também estou com o estômago embrulhado. Rachel volta ao quarto e se deita na cama. Olho-a, ainda. Não sei o que dizer. Não sei o que poderia dizer para confortá-la.
Termino minha janta e escovo os dentes também. Quando retorno, ela está de barriga para cima, olhando para o teto.
– O que mais dói? – minha voz sai sussurrada quando me aproximo dela.
Rachel me lança um olhar incógnito.
– Saber que isso iria acontecer e não poder fazer nada – ela responde.
– Você pode lutar, sempre podemos lutar. Não perdemos as pessoas sem lutar por elas.
– Não posso.
– Rachel – não posso acreditar que ela esteja convencida que o perdeu; não que isso não seja uma coisa boa, afinal dar uma segunda chance para alguém que te traiu nunca me pareceu ser uma solução inteligente –, apenas me responda uma coisa, ok? Você ainda o ama?
Rachel desvia os olhos de mim, voltando a mirar o teto.
– Achei que o amor fosse vencer a distância. Mas a verdade é que a distância apenas me fez enxergar que não sei nada sobre o amor. Não sei confiar nas pessoas.
– Não, você não soube confiar nele, pois não há nada que lhe aponte que ele é confiável.
– Ele era confiável.
– Você achava que ele era, pois estava próximo dele.
Ela segura lágrimas em seus olhos, e me vejo ficar surpresa por isso.
– Você não o ama mais. Está chateada por algo que nem mais te pertence! – digo.
– Você não está ajudando.
– Você estava brigando com ele mais do que deveria, não se sentia mais próxima dele. O que vocês tinham não era mais amor, era somente o medo de ficar na solidão.
Rachel faz que não com a cabeça, e vejo suas lágrimas caírem em seu travesseiro.
– Eu gosto da solidão.
– Ninguém se adapta à solidão, Rachel. Ninguém gosta de não ser amado – confirmo com a minha voz convicta.
Ela fica quieta.
– Você parece bem sozinha – ela diz, depois de muito tempo, sentando-se na cama, ficando quase que frente à frente comigo.
Ok.
Não posso contestar isso. Embora ela não saiba da minha vida inteira. É claro que não contei a ela cada detalhe da minha vida. Algumas coisas têm de ser guardadas.
Sinto-me uma fraca quando digo:
– Fui assim a minha vida inteira.
– Como conseguiu se habituar? – ela quer saber.
E se eu disser que nunca me habituei?
– Não podemos sentir falta de algo que nunca conhecemos.
– Você diz um amor? Isso é sério, você nunca se apaixonou?
– Nunca diga nunca – é a minha resposta. Não posso ir além disso. Sou incapaz.
– Então... – ela começa a dizer.
– Por que não tenta dormir um pouco? – atropelo-a, para que ela não termine sua frase. É doloroso. Não quero ser uma vaca com ela, mas não posso continuar com isso.
Rachel assim, quebrada, parece inofensiva por demais. Tenho vontade de abraçá-la, se confortá-la, se dizer que é incrível e que Finn é um babaca. Mas, quando percebo, é Rachel quem o faz. É ela quem, de repente, inclina seu corpo em cima de mim, depositando a sua cabeça no meu ombro. Coloco uma mão no topo dela e aspiro o odor suave de seu cabelo.
– Obrigada por estar aqui – ela diz.
Não sei o que dizer. Ninguém nunca pareceu estar grata por minha amizade, ou por minha presença. Abraço-a um pouco mais, tentando passar a ela qualquer tipo de energia boa, qualquer tipo de sentimento de superação. Ela não pode ficar triste para sempre. Mas sei que um coração quebrado não se recupera tão rapidamente assim. Por isso deixo estar, por enquanto. Esfrego minhas mãos na altura de suas omoplatas e digo:
– Vai ficar tudo bem.
Ela suspira.
– Não fique triste – peço, porque sou incapacitada de dizer qualquer outra coisa – Vai ficar tudo bem – repito, porque essa frase é ótima para qualquer situação. Você a usa e pronto: está fazendo a sua boa ação do dia. Mas nesse momento, eu a uso com sinceridade. Não quero que Rachel sofra por alguém que, muito provavelmente, não está sofrendo por ela.
Tenho uma ânsia de fazê-la sentir-se bem, mas não sei mais o que lhe dizer. Não sou muito boa em termos de consolo, nunca sei o que dizer. Faço com que ela se afaste de meu ombro e olho para seu rosto meio úmido devido às lágrimas. Ela parece tão bonita mesmo assim. Nunca tinha registrado o quanto ela é, realmente, muito bonita. Meus dedos tiram uma mecha de perto de seus olhos marejados, e ela funga.
– Estou sendo muito idiota – ela diz e, em seguida, tenta sair de perto de mim. Não deixo, entretanto. Eu agarro meus ombros, mantendo-a junto a mim. Ainda quero consolá-la.
– Não. Está tudo bem.
– Sinto que passei metade da minha vida me sentindo inútil – Rachel me diz, tocando sua testa no meu ombro.
Nesse exato momento, não há nada mais que eu possa dizer, pois me sinto do mesmo modo. Nem mesmo consolar a minha melhor amiga eu sei, vê só! Sou inútil até nisso!
– Rachel? – suspiro contra seu cabelo.
Ela retira a testa do meu ombro e me olha, está meio curiosa.
Fico piscando para ela, sem me mover. Ela também não se move.
Não sei o que fazer.
A única coisa que tenho ciência de que poderia fazer é uma contradição.
Porque aquela coisa de curar um antigo amor com um novo amor nunca dá certo. E duvido muito que dê certo agora.
Mas não posso evitar sentir essa necessidade de apenas me aproximar mais dela e confortá-la melhor.
– Feche os olhos. Não fique com medo – digo, apesar de estar apavorada. Ela cerra os olhos e aguarda.
Não posso acreditar nisso. Ela sabe o que pode acontecer e não está se esquivando da situação. E nem estamos bêbadas. Talvez nossos corações estejam tão machucados que nem mesmo a hipótese de eu ferrar com tudo seja assustadora.
E isso me faz pensar que Rachel quer que eu a beije.
– Não estou com medo – ela me garante – Por que ficaria?
Mordo os lábios antes de respondê-la:
– Porque... Eu vou beijar você.
– Ah – é tudo o que escapa dela. Não é um “Ah” surpreso, muito menos apavorado. É um “Ah” de confirmação. Ela soube desde o momento em que eu lhe pedi para fechar os olhos o que estaria por vir.
Mordo meus lábios de novo, ainda mais apavorada. Quando me movo para o vão entre nós, fecho os olhos, porque mesmo que você esteja beijando uma menina as coisas devem proceder desse jeito.
Nossos lábios se encontram; os dela estão meio úmidos e salgados. Meu nervosismo aumenta quando penso se devo ou não passar daquilo: de um selinho ao acaso. Quebro o “beijo” – porque não sei se um selinho é, realmente, um beijo arrebatador; não me sinto tão diferente assim –, mas enquanto estou me afastando vagarosa dela, Rachel suspira meu nome:
– Quinn.
Entro em pânico. Abro os olhos e, embora seus dedos estejam na minha blusa de dormir, tento me afastar dela o mais rápido possível.
– Desculpe! – murmuro rapidamente.
– Não, não se afaste de mim... – ela suspira de novo e, quando noto, seus dedos estão debaixo da minha blusa, bem em cima das minhas costelas. Não tenho tempo de dizer nada, pois estou em choque. Ainda mais quando ela me puxa de encontro a ela, e nós duas caímos com suavidade em seu colchão.
Ela procura minha boca de novo. Só posso dizer que estou experimentando o paraíso pela segunda vez, pois agora, seus lábios realmente me beijam – com direito a pressão e minutos de duração. Suspiro contra ela, incapaz de evitar que tudo isso esteja se desenrolando entre nós.
Fale com o autor