One- Shot Our Last hope
1 Our Last Hope
Notas iniciais
Todos sabíamos que mais cedo ou mais tarde a humanidade iria sofrer na pele as consequências da consequente destruição que estávamos causando ao planeta. No pouco tempo que parei para pensar nesta hipótese, sempre achei que fosse algo relacionado à poluição ou aquecimento global. Mas nunca pensei que o nosso destino fosse encarar algo tão surreal como o vírus HVP.
Assisti a inúmeros filmes de Zumbis na minha adolescência mas nunca sequer cogitei a hipótese de um dia ver meus amigos, familiares e conhecidos se transformarem em criaturas monstruosas. Nem em meus piores pesadelos imaginei sequer que minha ex-mulher tentasse literalmente comer minhas tripas.
Vi coisas realmente terríveis nos últimos 10 anos. Mas pior do que tudo o que já vi, são as coisas que tive de fazer para sobreviver…
–Edward! Odeio quando você faz isso! Sempre fica olhando para o vazio e me ignorando. – passei as mãos pelo cabelo ignorando os resmungos de Carlie.
–Você é uma peste, criança. Me lembre de novo porque ainda não matei você? – passei a ponta de meus dedos pela minha Glock que estava bem segura no coldre. Carlie bufou sacudindo seus longos cabelos castanhos.
–Porque eu sou a ultima esperança da humanidade. E lá no fundo, bem no fundo, você até que gosta de mim. – alguém que me explique como uma coisinha tão pequena podia ser tão pouco modesta e topetuda? Revirei os olhos e olhei para meus pés sujos de terra e sangue seco.
A pestinha ao meu lado saltitava pela floresta se encantando com cada pedra e flor, completamente alheia ao fato de termos quase morrido há menos de 3 horas.
Era tão surreal o fato de Carlie ficar encantada com uma simples flor. No entanto era compreensivo, ela havia vivido toda a vida em um campo de refugiados. Carlie nunca conheceu o mundo de há 12 anos atrás, tudo o que esta criança tagarela e irritante conhece é este mundo em que vivemos. Carlie tinha apenas 2 anos quando o vírus começou a se alastrar pelo mundo e infectar as pessoas.
–Uma vez vi em um livro que existiam ratos voadores que bebiam o sangue das pessoas. Você alguma vez viu um rato voador? – suspirei continuando a andar pela floresta querendo chegar à cidade e encontrar um abrigo antes de escurecer.
–Não eram ratos voadores, eram morcegos. E eles não bebia sangue, eles comia insetos.
–Na imagem que vi parecia um rato com asas. – Carlie ergueu o queixo e acelerou o passo me dando as costas.
–Você é simplesmente irritante! Eu estava louco quando aceitei levar você até os Vagalumes! – Carlie parou subitamente e me encarou com seus profundos olhos verdes.
–O que você acha que os Vagalumes vão fazer comigo? Acha que vão ter de me arrancar algum braço para descobrir porque eu não fiquei infectada quando fui mordida? – suspirei tentando não pensar muito no assunto. Nunca pensei que fosse me aliar aos Vagalumes. Sempre achei que era uma causa perdida, afinal era loucura ainda ter esperança de encontrar uma cura depois de tantos anos e de tantas vidas perdias em nome dessa causa.
–Não sei. Eles devem tirar apenas um pouco de sangue para descobrir o motivo de você não ter ficado infectada. Os Vagalumes sao idiotas sonhadores, mas ainda são médicos e cientistas. Eles devem ter alguma merda de ética que define que não podem machucar as pessoas, não precisa ficar preocupada. – Carlie apenas concordou com a cabeça mas fez uma careta.
–Já fui vacinada contra a gripe no campo de refugiados, e não gostei. Não gosto de agulhas… — comecei a caminhar mais depressa conseguindo já ver os prédios mais altos do que um dia havia sido a cidade de Washington. Senti um nó se formar em minha garganta me lembrando da vida e das pessoas que perdi há 12 anos. O sol parecia estar no seu ponto mais alto, batendo certo com o estômago roncando de Carlie.
–É incrível! Como é que uma coisa tão pequena come tanto?! – Carlie chutou minha canela me fazendo pular de dor.
–Você que come tudo seu babaca! Passamos o dia inteiro correndo e matando infectados! É perfeitamente normal eu ter fome!
–Nunca mais me chute sua peste! Eu podia arrancar seus olhos por causa disto. – Carlie me mostrou língua. Calma, Edward calma, é apenas uma criança. Respirei fundo controlando minha ira.
–Sim, você podia. Mas não vai fazer isso já que eu sou a ultima esperança da humanidade. Lembra? Ou morremos os dois ou morre só você. Os Vagalumes iriam cortar suas bolas e dar de comer aos infectados se você me machucasse.
–Você se acha demais fedelha. Agora cala a porra dessa boca e vamos procurar algum lugar para acampar. – meu coração estava se apertando a cada passo que dava pelas ruas de Washington. As recordações estavam se apoderando de minha mente. Eu tinha recordações tão felizes destes lugares, mas infelizmente também tinha as mais tristes. O homem que eu havia sido um dia já não existia. Eu era um homem feliz, sempre sorrindo para a vida. Eu era, um pai… E agora já não o sou mais.
–Edward? Você está bem? – Carlie me olhava preocupada e logo tratei de desviar o olhar, não queria que a fedelha percebesse que eu estava ponto de chorar.
–Estou ótimo! Apenas preocupado. Estamos ficando sem munições e sem recursos. Só tenho 12 balas na minha Glock, e a espingarda também só tem mais 10 balas, além de que só tenho 2 facas improvisadas e uma bomba de fumo. Precisamos entrar em alguma delegacia para achar munições, e em um supermercado para procurar se sobrou alguma comida. Na pior das hipóteses teremos de arrombar algumas casas… — essa era a pior parte. Entrar nas casas agora desabitadas nos deparando com os piores cenários possíveis.
–Podemos começar pelo super-mercado? Estou a morrer de fome. – suspirei reprimindo as memórias que estavam pairando em minha mente.
–Claro. Há um WallMart no final da rua. Caroline sempre queria ir lá para… — senti meu sangue gelar percebendo o meu deslize.
–Quem é Caroline? – senti meu coração se dilacerar com o nome de minha filha. Não queria falar sobre o assunto. Mordi o lábio tentando não ser muito rude com Carlie. Afinal ela era apenas uma criança e havia sido um deslize meu.
–O que falámos sobre as minhas 3 regras? – Carlie revirou os olhos e bufou.
–Sim, sim eu sei. Às vezes você me irrita sabia? – ignorei Carlie e caminhei em silêncio até ao Wallmart. Eu tinha 4 regras para sobreviver. A primeira regra : Nunca olhar para trás. Regra número 2, não confiar em estranhos. Regra numero 3, nunca jamais, em momento algum falar sobre o passado. Eu ainda tenho uma quarta regra, mas ocultei essa da pirralha. A quarta regra é, não criar laços afetivos com ninguém. Certa vez li em um livro que são as coisas que mais amamos que nos destroem. E eu comprovei isso há 12 anos. Perder as pessoas que eu amava me destruíram, nunca mais serei o homem que um dia fui. Sou apenas um homem quebrado em uma humanidade perdida.
A cidade estava assustadoramente silenciosa. Ainda não havia avistado nenhum infectado e aquilo estava me deixando seriamente preocupado. Algo não estava certo.
Chegámos ao Wallmart que estava parcialmente destruído e coberto de vegetação. Abrimos caminho passando por cima de antigos carrinhos de super-mercado completamente destruídos. Logo corri para as parteleiras mas estavam completamente vazias como já era de se prever. Talvez haja alguma coisa no armazém…
–Você acredita que nunca havia entrado em um lugar destes? Os mais velhos no campo de refugiados sempre falavam que tinham saudades de chocolate. Alguma vez você comeu chocolate? Tem sabor de quê? Acha que vamos achar chocolate aqui? – estava prestes a mandar Carlie calar a porra da boca quando escutei o barulho de algo caindo. Carlie logo ficou alerta e sacou de sua pequena faca. Saquei minha Glock ficando alerta. Caminhei silenciosamente pelo armazém encostado na parede tentando ser o mais silencioso possível. Avistei o primeiro infectado que estava debruçado sobre o cadáver de um homem. Guardei a minha Glock e caminhei sorrateiramente para junto do infectado segurando uma das minhas facas improvisadas em seu pescoço o matando de imediato. Bastava cortar a jugular de um infectdo para o matar. As facas acabam sendo mais eficientes do que as balas, a única desvantagem é a proximidade o que aumenta consideravelmente o risco de ser mordido.
–Edward? Acha que não há mais? – Carlie estava alerta e com um olhar frio. Aquilo de certa forma despertava o meu lado mais humano. Uma criança de 14 anos não deveria ter aquele olhar. Não devia estar pronta para matar alguém mesmo que esse alguém já não fosse tecnicamente humano.
–Não sei, mas… — escutámos os gritos característicos dos infectados e começamos a correr por instinto pelos corredores. Do nada começaram a surgir infectados. Muitos já não tinham cara, por conta da rapidez com que o vírus se havia espalhado. A cara dos infectados parecia uma espécie de fungo que os estava comendo por dentro. Saquei da minha Glock e disparei o primeiro tiro acertando em cheio na cabeça de um que estava demasiado próximo. Continuámos a correr pelo armazém tentando achar algum jeito de sair. Meu coração batia descompassadamente, o medo era algo completamente proibido. Avistei uma porta ao fundo do armazém, e corremos o mais rápido possível. Os infectados continuavam se arrastando e correndo na nossa direção completamente sedentos e famintos.
Tentei abrir a porta mas aquela merda precisava de cartão eletrónico.
–FODA-SE! EDWARD!? – estávamos encurralados. Não teríamos como fugir. Teríamos de lutar. Eu não conseguiria proteger Carlie e lutar sozinho com os infectados. Eu não tinha outra opção… Entreguei minha Glock para Carlie e peguei na caçadeira.
–VOCÊ TEM APENAS 12 BALAS. TENTE ACERTAR NA CABEÇA DELES E ACONTEÇA O QUE ACONTECER NÃO A APONTE PARA MIM. – Carlie aceitou a arma prontamente e longo matou o primeiro infectado que se aproximou. Fiz pontaria com a espingarda e abati 3. Eles estavam se aproximando rápido demais, tinha de afastar da pirralha. Me aproximei dos infectados e bati na boca de um com ocano da espingarda com toda a força do meu corpo, estourando a cabeça da criatura. Na medida em que os fungo vai corroendo o corpo dos infectados eles vão apodrecendo, o que os torna mais vulneráveis mas também mais infeciosos a nível fúngico.
Carlie continuava disparar mas logo ficou sem balas. Merda. Dei o último tiro com a espingarda, havia mais cinco infectados. Agarrei um deles e cravei a minha ultima faca em seu pescoço. Logo um se jogou em meu pescoço tentando me morder. Acabei caindo de costas afastando a boca dele tentando não ser mordido. Bastava uma mordida, e era o fim. Carlie enfiou um vidro quebrado no pescoço do infectado fazendo sair de cima de mim, mas logo outro se jogou em cima dela.
–SAI DAQUI! FOGE PORRA! – Carlie se levantou enquanto eu tentava matar mais um infectado enquanto tentava desviar um outro que já não tinha pernas e estava se arrastando até mim.
–MAS E VOCÊ?! – soquei o infectado que estava sobre mim, sentindo o sangue viscoso e acastanhado do mesmo escorrer pelos meus braços.
–VAI EMBORA FODA-SE! – mais dois infectados se jogaram para cima de mim tentando me morder, e pela primeira vez em anos me permiti ter medo. Soquei e chutei os infectados para longe tentando evitar as mordidas mas mais estavam chegando.
– EDWARD NÃO! – assim que mais dois infectados se jogaram em cima de dos outros 3 que já estavam tentando me morder eu sabia que era o fim. Mas o mundo tem destas coisas estranhas e uma flecha atingiu um dos infectados e de seguida os outros quatro. Em menos de 10 segundos os 5 infectados estavam mortos com flechas cravadas em seus corpos.
Me ergui a custo limpando o sangue daquelas coisas.Vivo… Foda-se eu era osso duro de roer.
–EDWARD! – Carlie se jogou em meus braços me abraçando.
–Ahmmm… — eu estava sem jeito. Carlie estava me abraçando chorosa. Aquela era a primeira vez que via a pirralha topetuda e sem um pingo de modéstia chorado se comportar como uma criancinha assustada.
–Eu achava que você ia morrer. – Carlie logo pareceu perceber o meu desconforto e se afastou limpando as lágrimas.
–Seu idiota! – revirei os olhos e olhei para os corpos dos infectados. Agora que a adrenalina estava acalmando em meu corpo percebi que não sabia quem havia sido autor daquelas mortes.
–Quem está aí? – olhei desconfiado para o canto do armazém e me aproximei lentamente. Eu não sabia o que passou pela minha cabeça, mas nada me preparou para ver uma mulher com um arco e flecha apontado para mim. A mulher não era muito alta mas também não era baixa. Tinha longos cabelos cor de mogno preso em um rabo de cavalo e seus olhos estavam fixos em mim. Confesso que há alguns anos que não via uma mulher que me atraísse, até porque não havia sequer tempo para pensar nesse tipo de coisas. Não sei se eram as curvas, ou os seios fartos que eram bem visíveis através do decote da sua camiseta cinzenta ou talvez tenha sido o seu olhar duro e misterioso… Mas eu estava sentindo um magnetismo estranho, era como se uma força invisível estivesse me atraindo na direção dela.
–PARADO, OU EU NÃO HESITO EM EFIAR UMA FLECHA EM SEUS MIOLOS! – a mulher estava com uma voz dura e ameaçadora me fazendo parar e levantar os braços.
–Calma… Eu não ia fazer nada… — a mulher olhou de mim para Carlie parecendo pensar por um momento.
–Você foi mordido? – despi minha jaqueta e desabotoei os botões da minha camisa, lhe dando uma visão de meu tronco, pescoço e braços.
–Eu não fui mordido juro. Se tivesse sido já teria pedido para você enfiar uma flecha em minha cabeça. Prefiro morrer do que me transformar em uma daquelas coisas.
–Estou me fodendo para o que você prefere. Só não estou a fim de matar alguém que não esteja infectado. – a mulher baixou o arco e a flecha se aproximando de mim cautelosamente.
–Olha só Edward ela é mais boca suja do que eu eu você juntos. – a mulher buffou mas seu olhar duro sumiu assim que Carlie se aproximou.
–O que está fazer aqui com uma criança?! Ela devia estar em algum campo de refugiados! – a mulher me lançou de novo um olhar duro. Agora que ela estava mais próxima conseguia enxergar melhor seu rosto. Puta que pariu… Ela era linda.
–É uma longa história…
–Uma longa história?! Você é burro ou o quê? Você não pode passear com uma criança por aí! Ainda para mais sendo incompetente como é! – vesti minha camisa lentamente percebendo que a mulher me analisava de cima a baixo. Sempre havia causado um impacto positivo nas mulheres, mas com o passar dos anos e dadas as circunstâncias e o temperamento e géneo forte desta mulher misteriosa, eu estava desconfiado de que meu “charme” não ira ter efeito nenhum.
–Eu não sou incompetente ok? Fiquei sem munições. Não é fácil conseguir balas. – a mulher revirou os olhos e sorriu de um jeito arrogante.
–Claro, você é idiota obviamente. Se fosse minimamente inteligente usaria um arco e flechas.
–Eu sinceramente não sei quem você pensa que é para falar comigo desse jeito. Você não sabe nada a meu respeito. E sim, eu sou tão incompetente que consegui sobreviver sozinho por 12 anos. – a mulher ergueu uma sobrancelha me olhando com um olhar desafiador.
–Se não fosse eu você estaria morto.
–Edward teria arrumado um jeito. Ele sempre consegue. – Carlie partiu em minha defesa, e a mulher pareceu de novo se amolecer.
–É melhor sairmos daqui. Há mais infectados por estes lados. Podemos ir para o meu refugio. – a mulher virou de costas e começou a correr pelo armazém. Carlie olhou para mim me perguntando silenciosamente de deveríamos ou não seguir a mulher. Nunca, em momento algum eu confiei na boa vontade de alguém. Eu já havia deparado com todo o tipo de marginais, até de canibais, que tentavam oferecer ajuda às pessoas e ofereciam até mesmo comida… Mal as pessoas sabiam que eles seriam a refeição… Mas este não parecia o caso desta mulher. Primeiro porque ela nos havia nos salvo de uma morte eminente, e segundo… Bom, o segundo motivo é que meus instintos diziam que eu deveria confiar nela. Pela primeira vez eu estava quebrando a minha regra número dois, de nunca confiar em ninguém.
Segui a mulher e Carlie me seguiu. Assim que chegámos ao exterior, corremos por cerca de 4 km pela cidade. Já estávamos acostumados a longas corridas, sendo que nem eu nem Carlie nos queixamos. Chegámos a um enorme prédio e subimos alguns lances de escadas até ao último piso. Entrámos em um dos apartamentos que apesar de tudo estava em ótimo estado. A mulher trancou a porta e arrasto um enorme armário na frente da porta. A mulher se aproximou de mim e apontou para o teto.
–Puxe esse cordão. Não estou a fim de subir na escada. – olhei para o teto e vi um cordão, o puxei com força e uma escada surgiu. Brilhante… Era uma daquelas entradas para os sótãos. Era impossível um infectado entrar ali.
–UAU. ISSO É MUITO LEGAL! – Carlie parecia empolgada e pela primeira vez vislumbrei um pequeno sorriso no rosto da mulher que começou a subir as escadas. Carlie logo a seguiu saltitante pelas escadas.
–UAU! Edward você tem de ver isto! Isto é tão legal! – subi as escadas cuidadosamente para cima assim que cheguei ao sótão. Carlie estava certa. Aquilo era realmente incrível. O sótão não correspondia ao prédio inteiro. Era moderno e aconchegante, tinha uma pequena cozinha com alguns eletrodomésticos no canto, uma mesa pequena mesa de jantar que ainda tinha um prato sujo sobre ela. Havia uma pequena televisão com um leitor de DVD e uma enorme prateleira cheia de livros, DVD’s, CD’s um pequeno som. Mas o mais incrível era o piano que estava no canto do sótão, perto de uma cama de casal. Havia uma pequena porta do lado esquerdo o que certamente devia ser o banheiro.
–Bom, bem vindos ao meu pequeno refúgio. – a mulher me analisou cuidadosamente antes de pousar o arco e a flecha.
–Não se engane. Eu posso não estar com o meu arco. Mas se eu quiser mato você em um piscar de olhos. – os atraentes olhos castanhos cor de chocolate estavam banhados de confiança. Apenas assenti acreditando cegamente que ela realmente seria capaz de fazer aquilo.
–Bom, sei que começamos com o pé errado… Mas quero agradecer você por nos ter dado uma, hmmm… pequena ajuda. – tossi fracamente não querendo admitir que ela literalmente salvou minha vida.
–Você está brincando? Ed você estava no chão velho. Você estaria mortinho se ela não tivesse aparecido.- senti meu rosto esquentar e uma vontade incrível de esganar aquela criatura irritante.
–Eu não sou velho fedelha! Tenha mais respeito sua peste!- Carlie folgada como era correu até ao sofá se jogando nele e ligando a Tv… Calma aí… A TV?!
–Você tem eletricidade?! – a mulher sorriu presunçosamente.
–Claro que tenho. Nunca ouviu falar em painéis solares? Até tenho água quente. – assim que a mulher falou em água quente Carlie pulou do sofá e entrou pela porta que eu supus ser o banheiro.
–Fedelha mal educada. Desculpe por isso. Ela é meio folgada. – a mulher gargalhou e seu olhar se suavizou.
–Não tem problema. Apesar de tudo, ela é apenas uma criança. – a mulher sorriu olhando para a porta onde Carlie havia sumido.
–Bom… Você já deve ter percebido que me chamo Edward… E você? — a mulher me analisou.
–Isabella Swan. Mas todo mundo me chamava de Bella. Então, pode me chamar de Bella. – a mulher me estendeu a mão que eu prontamente aceitei. Senti uma corrente elétrica percorrer cada centímetro do meu corpo. Sua mão era suave e quente. Eu estava sentindo algo estranho e isso não era um bom sinal.
–Edward Cullen. – continuámos o nosso aperto de mãos com os olhos fixos um no outro.
–Bom Edward… Apesar das circunstâncias eu imagino que você não esta aqui com aquela garota apenas por acaso. Me conte tudo. – senti meu coração disparar com os nervos. Eu estava a atravessar um dilema complicado. Não sabia qual seria a reação de Bella quando descobrisse que Carlie estava infetada. Normalmente as pessoas não acreditam que seja possível uma pessoa ser mordida e consiga sobreviver.
–Eu…
–EDWARD! OLHA ELA ATÉ TEM SABONETE! – Carlie correu para fora do banheiro apenas vestindo sua camiseta de manga curta, deixando a sua mordida visível. Fodeu… Bella logo percebeu a marca de dentes no braço de Carlie e se exaltou.
–A GAROTA ESTÁ INFECTADA! – Bella correu até seu arco e apontou para Carlie mas logo corri para a frente da pirralha a protegendo com o meu corpo.
–Bella, calma! Por favor, me deixe explicar! Não é o que parece! – abri meus braços tapando completamente Carlie.
–Como não?! Ela foi mordida! Está infectada! – Bella segurava firmemente seu arco com a flecha apontada na nossa direção.
–Não está! Ela foi mordida há mais de dois meses! Eu juro que é verdade. Pode chegar mais perto e ver… A mordida até já está cicatrizanda. Eu juro por tudo... Eu só a estou levando até aos Vagalumes para eles acharem uma cura. Carlie é especial… Ela tem a resposta para uma possível vacina! Ela é a nossa ultima esperança.
Bella segurava seu arco firmemente pronta a disparar e eu temia pelo pior. Carlie me empurrou e caminhou calmamente até Bella que recuou alguns passos.
–Eu juro que não estou infectada. Pode olhar para meu braço. Minha pele criou apenas algumas bolhas ao redor da mordida. – Carlie estendeu seu braço na direção de Bella lhe mostrando sua cicatriz. Bella olhou para o braço da pirralha e baixou o arco. O rosto de Bella não transmitia qualquer emoção, ela caminhou para junto da escada a descendo.
–Podem usar o banheiro e tenho comida na geladeira. Volto depois. – Bella estava com a voz trémula enquanto descia as escadas, nos deixando sozinhos.
Isabella Swan era um autentico mistério para mim. E não sei ao certo se aquilo é algo bom ou ruim.
–OH MEU DEUS! ELA TEM BACON! – Carlie pegou duas fatias de bacon que estavam na geladeira e as cheirou. Meu Deus, que criança sem educação.
–Deixa isso sua pirralha! – falei ainda olhando para a escada ainda pensando em Bella.
–Deixa de ser um velho chato Edward. Ela falou que podíamos nos servir. Eu nunca nem provei bacon. Só vi em um jornal que o bacon estava em promoção. Opaaa tem um cheiro tão gostoso. – Carlie começou a comer o bacon e suspirei tentando me controlar.
Onde raios Bella havia achado aquele bacon? Fosse como fosse, há anos que eu não sentia sequer o cheiro de bacon. Ensinei Carlie a preparar o bacon, apesar daquela pestinha já ter praticamente devorado metade.
–O bacon frito é muito mais gostoso. Fica crocante e muito melhor. – preparei bacon com ovos mexidos sentindo água na boca. Nunca pensei voltar a sentir o cheiro de bacon.
Carlie comeu com os olhos brilhando de emoção completamente satisfeita e encantada com o sabor. Confesso que estava a ficar seriamente preocupado com a garota. Não sei como conseguiu comer tanto sem explodir.
Carlie arrotou satisfeita e correu até ao banheiro para tomar banho. Arrumei a cozinha de certa forma me sentindo estranho. Lavar a louça parecia algo tão banal. Quando foi que imaginei que iria ficar feliz por voltar a fazer algo tão banal como lavar a louça após uma refeição?
–Ed! Olha só o que achei velhote! É um saco fofinho! – olhei para Carlie que segurava um saco de dormir.
–Isso é um saco de dormir. É para uma pessoa dormir no chão quando faz campismo.
–Que legal! Eu posso dormir aqui né? Você dorme no sofá então. A Bella não deve querer com partilhar a cama com você seu mal cheiroso. – franzi a testa e dei um cascudo na pirralha.
–Você é insuportável! – Carlie riu divertida e se aconchegou no saco.
–É verdade, Você podia tomar banho velhote! Quem sabe não acabe dando uns pegas na Bella.- abri e fechei a boca em choque.
–O quê? Sua maldita pirralha! Você tem a certeza que tem apenas 14 anos? – Carlie bocejou sorridente.
–Haham… agora vai tomar banho e me deixa dormir velhote. – bufei e olhei para as minhas roupas. Talvez eu precisasse mesmo de um banho. Fazia quanto tempo que eu não tomava um banho de chuveiro? 10 anos? Não consigo nem me lembrar. Normalmente tomava banho em um rio que achasse, ou na pior das hipóteses com a água da chuva.
–Eu não sou velho sua pirralha! Tenho apenas 37 anos então tenha respeito!
–Hahahhhammm… — suspirei deixando a pirralha dormir. Assim que Carlie adormeceu a peguei cuidadosamente em meus braços e a deitei no sofá. Afaguei suavemente seus cabelos me xingando internamente. Foco Edwrad. Ela não é Caroline… Ela não é minha filha…
Fiquei ali analisando a pequena peste por muito tempo e me permiti chorar um pouco me lembrando da vida que perdi. Nunca iria superar a perda da minha pequena Caroline. Nunca.
Peguei uma camisa que tinha na minha mochila e o meu segundo par de jeans. Tinha apenas dois pares de roupa, algo que era tudo menos agradável uma vez que é quase impossível retirar manchas de sangue sem ajuda de um detergente, coisa que não podia desperdiçar. Os detergentes têm alguns químicos que quando corretamente misturados podem criar uma bomba eficiente para afastar os infectados.
Me despi e antes de tomar banho lavei as minhas roupas franzindo o nariz não querendo sentir o cheiro a sangue.
Deixei as minhas roupas a secar perto da pequena janela e entrei no chuveiro. Meu Deus Bella tinha sabão! Assim que senti a água quente a escorrer por meu corpo senti uma vontade inacreditável com vontade de chorar que nem uma mulherzinha. Várias foram as vezes que apontei a minha Glock à minha cabeça tentando por um fim ao meu tormento. Mas algo me impedia. Nunca consegui levar aquilo adiante, e isso me fazia sentir um covade.
Esfreguei meu corpo com força me deliciando com a sensação, sair do box me sequei me sentindo realmente limpo e satisfeito por não estar coberto de sangue encrostado. Limpei o espelho que estava meio embasado pelo vapor da água quente e analisei o meu reflexo. Eu estava magro, apesar de ter músculos pelo constante exercício. Meu corpo estava coberto de cicatrizes, que não era nada mais do que uma recordação de cada luta.
Me vesti e saí do banheiro. Percebi que já havia escurecido e que Bella ainda não havia voltado. Aquilo estava me deixando preocupado, coisa que não devia acontecer.
A escada foi puxada para baixo e Bella subiu. Percebi que seus olhos estavam vermelhos. Ela havia chorado…
–Você já devia estar dormino, foi um dia longo… — apenas dei de ombros me aproximando lentamente dela.
–Nós comemos o seu bacon, espero que não se importe. – Bella deu de ombros pousando seu arco. Percebi que sua mão estava com os nódulos dos dedos da mão direita com sangue.
–Você está machucada. – peguei a mão de Bella delicadamente a analisando. Senti uma corrente elétrica percorrer todo meu corpo. Bella deve ter sentido o mesmo uma vez que fixou seus olhos castanhos chocolate nos meus.
–Não é nada. – Bella falou aquilo mas não se afastou.
–O que aconteceu? – Bella suspirou tristemente.
–Soquei uma parede… — franzi a testa.
–E, porque você socou uma parede? – Bella se afastou me dando as costas.
–Não sou do tipo sentimental Edward. – me aproximei não sabendo ao certo o que estava fazedo. Abracei Bella pelas costas esperando ser jogado no chão e espancado, mas não foi isso que aconteceu. Bella começou a chorar.
–Eu…Eu não sou assim… Eu.. eu a iria matar… Eu estou me transformando em um monstro. Eu adoro crianças…Mas eu estava disposta a matar Carlie… — beijei o topo da cabeça de Bella. De onde eu havia tirado aquelas intimidades?
Um alarme disparou em minha mente. Eu estava quebrando todas as minhas regras. Não haviam nem passado 24 que eu conhecia esta mulher e já estava aqui consolando. Eu estava com partilhando algo que não fazia há anos… Afeto… Eu estava mantendo um contando físico sem ser com a intenção de matar. Senti o cheiro a morangos vindo dos cabelos de Bella e meu coração disparou.
–É natural, eu mesmo tive essa reação. Não é fácil acreditar que seja possível alguém ser mordido e não ficar infectado.- bella se desenvencilhou de meus braços.
–Entendo, mass e agora o que você pretende fazer? – Bella me olhou determinada. Era como se ela nem tivesse chorado há apenas alguns segundos.
–Eu vou levar ela para a Califórnia onde existe um laboratório dos Vagalumes. Eles irão conseguir através de Carlie achar uma cura. – Bella me olhou ceticamente me analisando dos pés à cabeça.
–Você, pretende atravessar metade do país sozinho com uma criança? Cara, você quase morreu se eu não tivesse aparecido. Como pretende atravessar metade do país? -abri a boca para me defender mas Bella me virou as costas.
–Eu vou com você. Não vou deixar que arruíne a única hipótese de manter a raça humana. Se esta menina é a cura eu a levarei com você até lá. Agora vá dormir que amanhã falamos melhor sobre assunto. – Bella sacudiu o cabelo e entrou no banheiro. Aquela maldita mulher era tão ou mais topetudo que Carlie! Eu estava destinado a lidar com mulheres loucas.
Me deitei no chão junto do sofá me cobrindo com um cobertor que achei.
Aquela seria uma nova etapa. Talvez ter ajuda de Bella não fosse algo ruim. Ela era boa com o arco e flecha e isso é bem útil com a falta de munições. Minha linha de pensamentos foi quebrada quando escutei a água cair de dentro do banheiro e me contorci imaginando Bella nua. Merda.
Eu estava com sérios problemas.
Eu já havia quebrado todas as minhas regras… Peguei o meu pequeno bloco de notas e a minha caneta da minha mochila e abri na pagina onde anotava as minhas “Regras para sobreviver”
1-Nunca olhar para trás
2-Não confiar em estranhos
3-Nunca jamais em momento algum falar sobre o passado.
4- Não criar laços afetivos com ninguém.
Peguei na caneta e comecei a acrescentar algumas regras.
5-Se focar sempre no objetivo.
6- Não se deixar levar por desejos.
Fechei o pequeno bloco de notas mas logo o voltei a abrir olhando seriamente paras as folhas. Suspirei pesadamente olhando para a porta do banheiro me lembrando daquela misteriosa mulher e comecei a escrever meio trémulo.
7- Não se apaixonar por Isabella Swan.
Arrumei meu bloco de notas no fundo de minha mochila não querendo correr o risco de alguém o achar. Deitei minha cabeça sobre a mochila a usando como travesseiro. Não sei quanto tempo passou, apenas conseguia distinguir os passos suaves de Bella ecoando pelo sótão até que escutei o som de sua cama rangendo.
Carlie roncava suavemente com um pequeno sorriso nos seus lábios. Era incrível como a garota conseguia aguentar um dia inteiro recheado de correrias, e quase experiências de morte e ainda assim dormir com um sorriso no rosto.
O sótão estava completamente escuro e silencioso. Apenas conseguia escutar os passos e gritos dos infetados que estavam vagueando pelas ruas de Washington.
–Edward? – abri os olhos bruscamente me deparando com os olhos castanhos de Bella fixando os meus.
–Ham. Sim? – me sentei sentindo uma pontada nas costas pela dor de estar deitado no chão.
–Você não vai dormir bem aí. E eu não estou a fim de ter de lutar amanhã sozinha com infetados. Você precisa de recarregar suas forças. Pode vir para a minha cama. – eu estava em choque com as palavras de Bella. Abri e fechei minha boca sem saber aos certo o que pensar sobre aquilo.
–Não fique pensando baixaria. É uma questão de racionalidade. Já concluímos que o bom senso não é um dos seus fortes. Me ergui não me fazendo de rogado. O chão era tudo menos confortável. Bella caminhou até sua cama e se deitou em uma das pontas da cama deixando um enorme espaço para mim. Afastei os cobertores e me deitei na pequena cama sentindo o pequeno corpo de Bella encostado ao meu. Me virei e fiquei de costas para Bella não querendo pegar nenhum mico. Fechei os olhos com força tentando ignorar o barulho que os infetados faziam pelas ruas. Senti Bella se mover na cama e seus braços enlaçarem timidamente minha cintura fazendo meu coração disparar.
–Você se importa? É que o barulho me incomoda…
–Não tem problema…- Bella pousou seu rosto no vão do meu pescoço. Aquilo era tão estranho. Nós eramos dois estranhos. Nunca baixei a minha guarda daquele jeito. Nunca. Nem com Carlie eu me permitia ter aquele tipo d intimidades.
–Boa noite Edward. – Bella sussurrou por fim já com a voz sonolenta.
–Boa noite Bella.
Naquele momento eu percebi o sentido da expressão “As regras foram feitas para serem quebradas”. Sim, porque eu estava correndo o sério risco de quebrar cada uma delas. E a culpada?
Isabella Swan.
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