One Shot - Insano
1 Capítulo Único - Enlouqueça!
Notas iniciais
“Seu nome é tão lindo quanto a cor.
Seu nome é tão lindo quanto a flor.
Seu nome é tão lindo quanto você.”
1
QUANDO VIOLETA ABRIU OS OLHOS, viu que estava cercada de desconhecidos. Quem eram eles? Na verdade, ela pouco sabia a respeito da sua conjuntura atual. Como viera parar ali? Quem diabo eram aquelas pessoas?
Ela forçou a memória, buscando saber o que acontecera com ela. Lembrou-se de estar indo para a casa de uma amiga, onde iria fazer o maldito trabalho de história que o professor passara. “Vocês devem digitar e não somente copiar e colar.” Ninguém gostava muito daquele carequinha. Primeiro, por ele ser tremendamente chato e, segundo, por tornar a aula mais enfadonha do que já era.
Mas isso não importava mais. Pelo menos, por enquanto. Quando resgatou as lembranças, Violeta notou que, antes de ter chegado à casa de Júlia, sua querida melhor amiga, ela havia sido levada — claro, depois de ser amordaçada — para um carro preto. As recordações sufocantes fizeram o corpo de a garota estremecer, e, como se tivesse avisado de que ela ainda possuía nervos e que estes ainda sentiam coisas, ela notou o piso gelado. As palmas das mãos estavam contra o assoalho que reluzia à luz do lustre de aspecto pomposo.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou alguém, por fim. Violeta fitou os cenhos das outras pessoas que estavam ao seu redor. Abatidos e confusos. Era quase como se tivessem com um monte de interrogações pairando sobre a sala. — O que está acontecendo aqui? — repetiu a mesma pessoa, percebendo que a pergunta não alcançara o objetivo. Era um homem alto, de cabelos cortados em estilo militar, com um porte físico invejável. Os olhos cerrados denunciavam o temperamento e pavio curto.
Violeta olhou em volta, tentando absorver o turbilhão de informações que deveriam estar por ali. As paredes brancas e lustrosas alegavam um ambiente sofisticado, assim como os móveis de uma madeira luzidia e sólida. Ao longo do local, diversas portas postavam-se ordenadamente, com números de um a dez. As maçanetas, assim como tudo ali, cintilavam. Ainda havia algumas estátuas gregas que ornavam o recinto, trazendo uma sensação de um lugar para pessoas cultas. Logo, isso não era para ela.
— Sinceramente, não sei — respondeu uma senhora de cabelos grisalhos, com um rosto marcado pelo tempo. Os débeis fios caíam com dificuldade, encaracolando-se no decorrer do percurso. As mãos pareciam frágeis demais, como se o ato de bater palmas pudesse quebrá-las. — Estava indo para o mercado comprar trigo, quando simplesmente... — Ela encolheu-se. Parecia ser afligida pelas lembranças. — Me lembro de ser agarrada por um brutamontes e jogada num carro.
Os outros pareciam concordar com aquilo. Invariavelmente, a história da velhinha também era parecida com a sua. Violeta franziu as sobrancelhas e contou as cabeças que se movimentavam conforme a conversa fluía. Nove pessoas. Não, dez. Havia uma pequena garota encolhida em um canto. Devia estar muito amedrontada.
Violeta aproximou-se dela ligeiramente e, embora não fosse boa com consolos, tentaria ajudá-la da melhor maneira possível.
— Fique calma.
— O que está acontecendo? — perguntou ela, deixando seus joelhos soltos e aproximando-se naturalmente de Violeta. Ela percebeu que a garotinha tinha um aparelho no ouvido. Provavelmente devia ter algum problema auditivo.
— Eu não sei...
Violeta volveu seu olhar para o pequeno círculo que começava a se formar em torno do homem que trajava roupas leves e de malha fina.
— Então é isso: todos se lembram de terem sido levados por alguns homens e jogados num carro preto. A partir daí, tudo que sabemos é que estamos, agora, aqui. — A conclusão do homem não parecia ter sido muito difícil de inferir a partir das informações inúteis.
— Será que é algum tipo de sequestro para prostituição? — perguntou uma voz feminina e doce. Vinha de uma garota na casa dos vinte e cinco anos, com curvas voluptuosas e seios fartos. Usava um vestido colado no corpo, de um vermelho espalhafatoso. A longa cabeleira loira era lisa e muito brilhante.
— Vamos sair daqui — sugeriu outra voz. Dessa vez, era vibrante e objetiva. Violeta olhou para a origem e descobriu um jovem, provavelmente na idade do ensino superior. Ele era muito bonito, como os meninos das revistas que ela lia. Os cabelos negros, com fios naturalmente insurgentes, contrastavam com o olhar portado. As pernas cobertas pelo jeans surrado eram firmes e, possivelmente, rijas.
— Não adianta — afirmou alguém. A voz dissonava naquele ambiente de clima tépido. O dono da dissonância era um homem de aparência duvidosa, com um rosto mal encarado e adornado com piercings e tatuagens. As roupas pretas e com pentagramas não eram nada convidativas. — Estão trancadas. — Antes que pudessem fazer alguma indagação, ele prosseguiu: — Todas elas. Parecem ter travas digitais ou algo do tipo. — Violeta se perguntou como ele sabia daquilo, mas ignorou a vontade de questionar.
Vendo todas aquelas dez pessoas, de idades variadas e estilos idem, ela notou que nada fazia sentido. Qual era o objetivo do sequestrador? Pessoas aleatórias? Mas por quê? Para quê? As perguntas não paravam de cutucar a mente jovial daquela garota de cabelos dourados e olhos amendoados. Mas do que adiantaria ter trilhões de perguntas sendo que nenhuma tinha resposta?
— O que podemos fazer? — Um homem, que havia se mantido quieto desde o início, manifestou-se abruptamente. Os olhos calmos sugeriam contraste com a tensão que se formava aos poucos. Com uma postura ereta, ele se sobressaía ao lado de uma jovem garota de cabelos negros e mechas alaranjadas, como a fruta cítrica.
O militar olhou para ele, franzindo a testa com desdém.
— Sentar e esperar. Isso é a única coisa que podemos fazer.
Quando tudo parecia incerto, uma voz metálica soou. Violeta sobressaltou-se com o som. De onde vinha? De quem vinha? Procurou pela sala, sentada no sofá ao lado da garotinha de nome Ana, algo que pudesse responder-lhe. Por fim, encontrou algo que não notara desde o início: um microfone cravado na parte superior esquerda da parede a sua frente.
— Calma, pessoal. Vocês saberão de tudo.
2
VIOLETA CERROU OS PUNHOS, com raiva da placidez daquela voz.
— Me chamo Agenor. Provavelmente, devem estar se perguntando o motivo de como vieram parar aqui. É simples, na verdade. Acho que sempre fui um pouco louco por filmes com matança múltipla. Mas sempre tive a curiosidade para saber se tudo isso poderia realmente acontecer. — Todos olhavam para o aparelho de olhos arregalados. Não conseguiam acreditar no que ouviam. — Então, vocês provarão para mim se isso pode acontecer. Gostaram da ideia? — O vazio se fez ouvir. — Eu adorei e acho...
— Então acho que as coisas são mais simples ainda, Agenor — interrompeu outro homem. Devia estar na casa dos trinta, com a cabeça raspada e de pele morena, que rutilava solenemente. — Acredito que nenhum de nós vai querer participar desse jogo macabro. — Ele olhou para os colegas, esperando respostas. Céleres aquiescências porejaram. — Portanto, acho melhor tirar seu cavalinho da chuva.
— Eu imaginei que algo do tipo viesse a acontecer. Mas, como acontece na ficção, sempre há um motivo para a matança. — Todos estavam com vontade de perguntar e saber qual seria a razão deste, mas hesitaram. — Como meu caro Leonardo disse, é simples. O único que restar vivo poderá sair. Em alguns casos, há a regra de que se não houver mortes, todos morrem. Não concordo muito com isso. Fico forçado demais. — Novamente, Violeta sentiu-se enjoada com a calmaria com que ele verbalizava aquelas palavras mórbidas. — De qualquer forma, enquanto não restar somente um, vocês nunca sairão daqui. Por mim, podem viver o tempo que quiserem. Na verdade, será bem pouco, pois não fornecerei água e nem alimento. Para todos os efeitos, estão sem seus telefones e pertences do tipo. O jogo começará em apenas alguns minutos. Tomei a liberdade para pesquisar o nome de cada um. Da esquerda pra direita ao lado da estátua cinza. — Violeta instintivamente volveu seu rosto para a descrição. — Leonardo, Belchior, Vanessa, Lúcia. Sentados no sofá estão Ana, Violeta, Dona Mirian e Henrique. Em pé ao lado da mesa, Victor e Tadeu.
Violeta relacionou os nomes às aparências e personalidades. Leonardo era o moreno que falara o discurso moralista; Belchior era o homem de calma exacerbada; Vanessa era a jovem que estava ao seu lado, com as mechas laranja; Lúcia era a mulher de vestido caro e ostentoso. Ana era a pequena com quem fizera amizade e Dona Mirian a mais velha do lugar. Victor era o militar e Tadeu, o mal encarado. Nomes perfeitos para um jogo perfeito.
Os poucos minutos arrastaram-se lentamente. A tensão parecia ter peso próprio, coagindo Violeta a respirar com dificuldade. Ela suava e sentia seus cabelos louros perdendo luminosidade, se é que isso era possível. Tadeu permanecia-se impassível, assim como Belchior e Victor. Lúcia estava aflita, tal como Dona Mirian e Leonardo. Por incrível que pareça, Ana estava bem, sem esboçar nenhuma lágrima ou esgar de medo ou súplica. Vanessa, com uma postura arrogante sobre a mesa, fitava Henrique do outro lado. Este estava com os braços cruzados, como se quisesse que as coisas se apressassem.
Por fim, a voz metalina soou de novo.
— O jogo vai começar. Tomei a liberdade e defini a posição que cada um irá ficar. Por ordem crescente de idade, Ana ficará com a primeira porta, Violeta com a segunda, Vanessa com a terceira e assim por diante. — Ele secou a garganta, após pigarrear. — Pela ordem fica: Ana, Violeta, Vanessa, Henrique, Lúcia, Victor, Tadeu, Leonardo, Belchior e Mirian. — Possivelmente percebendo que não iriam se levantar, ele avisou: — Tomem suas posições! Precisarão sair dessa sala, pois, caso contrário, serão mortos por inalação de veneno.
Após alguns momentos de hesitação, todos levantaram.
— Vocês estão entendo o espírito da coisa! — exclamou ele, enfaticamente, como se divertisse com a cena que deveria estar vendo por alguma câmera minúscula. — Antes de vocês saírem, saibam que não existem regras. Pelo menos, a princípio. Se eu quiser mudar algo, avisarei. Fiquem atentos, então, ao maravilhoso som da minha voz.
Violeta sentiu suas entranhas revirarem. Sentia vontade de vomitar com o entusiasmo daquele homem.
— Vocês têm trinta segundos para sair antes que o veneno se espalhe por essa sala. Ela ficará fechada pelas primeiras horas, mas será reaberta em breve. — Ele pausou as palavras que saíam deliberadamente de sua boca. — Ah, já ia me esquecendo. — O barulho que soou era semelhante ao som de quando se bate a mão na testa. — Há armas espalhadas pelo local. Basta encontrá-las. — Ele emendou uma frase com a outra, como se o tempo fosse curto. Retomando fôlego, finalizou: — Podem ir, meus queridos jogadores!
3
A PRIMEIRA COISA QUE VIOLETA VIU foi Ana correndo ao seu lado. A sala circular permitia visão, caso estivesse de frente, para todo o recinto. Violeta imaginou que a garotinha estivesse com medo, mas notou-se fazendo o mesmo. Na verdade, ela foi uma das últimas a fazê-lo. Seus colegas de jogo pareciam estar veementemente com vontade de sair daquele lugar. E não era para menos.
Tomara que ninguém leve esse jogo a sério. Espera aí, será que alguém vai levar isso a sério? Violeta começou a analisar os — de certa forma — concorrentes. Exceto Tadeu, nenhum deles parecia ter o feitio de sair por aí matando pessoas que se encontrassem a frente. Ela poderia estar julgando-o mal, mas tinha o costume de fazer isso. Ademais, a aparência do homem não ajudava em nada caso quisesse provar o contrário. Tenho que tomar cuidado com ele.
Enquanto seguia pelo corredor bem iluminado, no espaço estreito, Violeta começou a pensar. Os passos ecoavam e o barulho rescendia pela cavidade. Ninguém seria louco de participar desse jogo insano, seria? Claro, ela ainda teria de tomar cuidado com Tadeu, mas o que faria se o encontrasse? O que ela faria se encontrasse qualquer um deles? Ela não precisava ter medo; claro que não. Ela iria iniciar uma conversa e iriam chegar a uma conclusão plausível.
Violeta olhou em volta e viu-se num grande saguão. A mansão — provavelmente era uma, pois tudo era muito refinado e grande para uma casa comum — devia cobrir um boa zona do local onde se encontravam. Mas onde eles se encontravam? Deixando o pensamento de lado, a garota começou a andar mais calmamente. Como era claustrofóbica, estar naquele beco fora uma sensação extremamente desgastante. Agora ela sentia-se melhor, pois o ambiente amplo — e repleto de móveis brilhantes que variavam entre estantes, estátuas, mesas de bilhar e que circundam bares, sofás e outras dezenas de itens — lhe dava uma falsa sensação de liberdade.
Sim, falsa. Eu estou presa numa mansão chiquérrima sendo monitorada por um maníaco. Pensar assim a fez sacudir levemente a cabeça. Se tudo continuasse nesse ritmo, será que Violeta chegaria a ver novamente os pais? Será que nunca mais iria ler o poema — cujas pequenas frases já decorara — que sua mãe escrevera?
“Seu nome é tão lindo quanto a cor.
Seu nome é tão lindo quanto a flor.
Seu nome é tão lindo quanto você.”
Ah, mãe...
Ela decidiu sentar-se. Mesmo conjecturando a hipótese de que ninguém iria tentar matá-la, ela achou melhor se esconder. Assim, sentou-se atrás do sofá de cor creme, de frente para uma longa escada. Notou que havia uma grande janela em cima. Aquilo iria ajudá-la a saber o tamanho do lugar. Levantando-se novamente, ela subiu os degraus, os passos suaves para não atrair atenção. Os pés tocaram o assoalho de alguma material que Violeta desconhecia. Ela olhou para os lados, certificando-se de estar sozinha.
— Espero que ninguém me ataque enquanto contemplo essa bela...
Essa horrenda visão!, corrigiu-se ela, de súbito. Lá em baixo, próximo a uma piscina, estavam duas pessoas se atracando. Ela assistiu àquilo tudo, abismada. Então eles iriam levar mesmo o jogo a sério? Não, isso não podia ser real. Violeta iria tomar um susto grande e iria acordar. Tudo não passaria de um sonho.
Mas não era um sonho. Era real.
4
LÚCIA ESTAVA ESCONDIDA NO SEGUNDO ANDAR. Quando saíra de sua porta — a número cinco —, se deparara com um corredor e, no fim, uma escada que a levara para um quarto grande e luxuoso. Havia um banheiro, mas, obcecada pelo presente, nem teve vontade de explorá-lo. A cama era macia e a vista, impecável. Dali, viu que o que circundava o local era uma possível floresta, pois somente uma massa densa e verde dava o ar da graça.
Na cama onde estava, com o frigobar ao seu lado — vazio, claro —, ela sentiu-se uma princesa. Sempre sonhara em morar em uma casa assim e, por isso, sempre vivia vagando em festas chiques em busca de algum homem que pudesse sustentá-la. Era representava perfeitamente aquele estereótipo de novela das oito. Entretanto, nem se importava. O que era inerente à sua vida independia do pensamento alheio. Que deixassem falar do quanto ela era falsa — referiam ao seus seios e bunda siliconados — e do quanto ela era uma puta. Recalque bate no meu cabelo glamoroso e volta para seu cabelo ruim. Talvez assim ele adquira um pouco do resplendor que o meu tem... Ela começou a rir em voz alta. A voz imponente e lasciva inundou o quarto. Os quadros pareciam retinir, assim como as cômodas e o espelho que reverberava sua linda imagem.
— Lúcia, que bom que te encontrei — afirmou aquele homem cheio de piercings do qual ela não se lembrava o nome. Ele adentrou o quarto sem a mínima discrição. — Achei que não encontraria ninguém. Cheguei a pensar se já estavam mortos.
— Não diga isso — repreendeu a mulher, recuperando sua postura. O vestido justo e o salto agulha atrapalharam todo o seu percurso e, agora, o primeiro atraía olhares indesejados por parte do homem.
Tadeu começou a olhar maliciosamente para as pernas torneadas de Lúcia. Ela sentiu-se constrangida.
— Que tal se nós, bem, tivéssemos um pouco de sexo — sugeriu ele, casualmente. — Conheço o seu tipinho. É daqueles que adoram uma boa transa. — Ele se aproximava lentamente, à medida que Lúcia recuava. — Vamos, não se faça de difícil. Nós dois sabemos que você não é.
— Tarado! — exclamou ela, fingindo estar ofendida. — Eu nunca iria pra cama com alguém feito você.
— Ah, é? E por que não? — perguntou ele, enquanto se aconchegava folgadamente sobre a cama de casal. — Acha que não sou bom pra você? — Lúcia assentiu. Estava agora sentada sobre o parapeito da janela. Ela conseguia ver infimamente uma parte da piscina. Mal sabia ela que, durante esse momento, alguns acontecimentos se desdobravam por lá. — É uma pena informar — disse ele, após levantar-se e ir até a porta, fechando logo em seguida. Lúcia perguntou-se por que não tinha feito isso antes. Ah, claro, ela ficara ocupada demais se deslumbrando do seu quarto dos sonhos —, mas você terá de fazer isso. E sabe por quê? Por que, se não fizer, você morre. — Ele retirou das costas uma pequena pistola. Ele a havia achado em dos diversos quartos que havia no segundo andar. — Pra mim, tanto faz. Já matei pessoas antes. — Ele olhou pra ela de forma indulgente. — Vamos. Não precisa ser desse jeito. — Ele jogou-se novamente no móvel, retirando a blusa e deixando à mostra uma barriga saliente e repleta de tatuagens e ínfimos pelos. — Vem logo, sua puta. Ah, e não me leve a mal, é que, durante o sexo, gosto de xingar os meus parceiros.
Lúcia precisava ganhar tempo para bolar algum jeito de escapar. Poderia se jogar daquela janela e, com um pouco de sorte, cairia na piscina. Mas ela não deveria contar com a sorte; não mesmo.
— Parceiros? — começou ela. — Por que não usou a palavra no feminino?
— Já fiz com os dois sexos. Tanto faz pra mim. Mas, claro, prefiro uma boceta. É bem melhor, sabe.
— Claro que sei — confirmou ela, enquanto se aproximava da cama, como se fingisse participar do joguinho. — Já que você sabe como eu sou, quero que a transa seja do meu jeito.
— Adoro isso... — Ele lambeu os lábios. Lúcia notou seu excitamento por debaixo da calça preta com correntes de latão. — O que você quer que eu faça?
— Deite no chão.
Ele obedeceu. Indiscretamente, apertava a mão na região íntima.
— Sabe, eu fico muito excitada quando o homem se mostra submisso a mim... — A palavra excitada soou de uma forma tão dissoluta que Tadeu imaginou se iria gozar antes de poder terminar as coisas. — Feche os olhos agora. Vai. Não vale roubar.
Lúcia fitou a arma que ele deixara em cima da cabeceira. Ela precisava pegá-la. Tadeu devia estar com a mente enevoada quando cometeu esse pequeno e insignificante erro. Mesmo assim, a arma estava longe, ela não teria tempo de alcançá-la antes que o homem fizesse algo. Ele poderia perceber a movimentação e ir agarrá-la. Numa luta, com certeza ela perderia. Mas esse risco valeria a pena. Tinha que valer.
— O que você vai fazer comigo? — perguntou ele, de olhos fechados. As palmas da mão tocavam o tapete de lã.
— Tudo que eu quiser... — Novamente, a frase ressonou de forma tão concupiscente, que Tadeu sentiu muito prazer.
Lúcia mirou o rapaz estirado no chão Ver aquele homem jogado aos seus pés fez ela se sentir uma rainha. Estava mais alta que o comum com aquele salto. Ela já era alta e...
O salto!
Ela não tinha tempo para alcançar a arma de imediato, mas se ele tivesse incapacitado, ela conseguiria chegar a ela sem maiores complicações.
— Abra seus olhos, querido — proferiu ela com a mesma voz de sempre. — Não quero que você perca essa parte...
— Pode deixar comigo.
Ele abriu. Seu olho esquerdo viu — a última visão por parte deste olho — algo descendo em sua direção. O que veio a seguir deixou-o atordoado. O salto penetrara seu olho, esmagando tudo que estivesse dentro dele. A dor lancinante correu pela face, distribuindo avisos por todo o corpo. “Estamos sendo atacados! Estamos sendo atacados!”
A dor era grande demais. Ele começou a gritar. Lúcia tirou — com dificuldade — o salto do lugar alvejado. Ouviu o barulho gosmento durante a retirada, e sentiu-se enojada. Com o sapato direito sujo de sangue e um homem que agonizava ao lado, a mulher jogou-se em cima da cama e, após alcançar a arma, disse:
— Eu disse que nunca iria pra cama com você, baby.
Ela atirou.
5
DONA MIRIAN SAIU COM DIFICULDADE. Ela estava na porta dez. O número deveria estar incrustado em ouro, pois brilhavam pomposamente, como quase tudo ali.
Seus olhos frágeis agradeceram quando ela adentrou o corredor, que tinha uma luminosidade relativamente mais baixa do que ali, onde a luz perene e incessante a coagia a ter de vislumbrar os rostos exauridos e tensos das outras pessoas.
Com seus quase setenta anos, ela já estava muito cansada para aquela correria desvairada. Com toda certeza, perderia caso os outros competidores quisesse realmente jogar. Dona Mirian suspirou, angustiada. As palavras “competidores” e “jogar” tornavam tudo aquilo muito surreal, como se matar fosse algo simples e sem maiores complicações. Como se tudo algo trivial e banal.
A senhora permitiu-se recostar-se sobre a parede. Ao lado direito, viu a porta que ligava o início daquilo tudo à sua atual posição. Ela já estava fechada. Como Tadeu dissera, devia ser algo tecnológico. De qualquer forma, ela não queria entender como funcionava aquela coisa. Nunca gostara de tecnologia. Achava que a vida verdadeira estava nos campos, na família, longe da virtualidade e da sua consequente individualidade.
Após ter deitado por tempo, ergueu-se, percebendo o quão fraca já estava. Andou a passou curtos até o fim daquele corredor gélido. Ao contrário da primeira sala, o clima mudara exponencialmente. Talvez fosse a tensão em excesso que causara o clima morno. Ao chegar ao fim, Mirian fitou a piscina. Ao seu lado esquerdo, havia uma churrasqueira. Palmilhou até o lugar e, ao ver uma faca para cortar carnes, perguntou-se se era a esse tipo de coisa a que Agenor se referia. Provavelmente era. Aquele doido adora enfeitar as coisas.
Ela agarrou a faca, hesitante. Estava com raiva de si mesma por ter que estar fazendo isso. Eu, uma avó de três netos, duvidando da pureza das pessoas... Entretanto, ela já presenciara muitas coisas ao longo de sua vida. Ela vira o mundo virar de cabeça para baixo aos poucos. Os valores começavam a se inverter. O que era errado passara a ser certo, e vice-versa. Ela nunca entendera essas modernidades e não tinha a menor vontade de fazê-lo. Como, por exemplo, nesse jogo. Recusava-se a aceitar o fato de que vidas poderiam ser ceifadas por causa de um capricho de um psicopata. Todavia, ela teria de assentir sobre isso e encarar a realidade que, por vezes, fora boa com ela. Seus três filhos já tinham emprego e estavam bem de vida; e isso era tudo que ela poderia pedir a Deus.
Apossando-se da faca, ela a sopesou, por fim percebendo que não saberia — ou teria coragem de — usar aquele instrumento mortífero. Prefiro morrer a matar alguém. Isso não é certo. E nunca será. Por mais que as coisas mudassem vertiginosamente no mundo moderno, ela tinha a total veemência de que isso sempre seria parte da moralidade humana. Quer dizer, se isso realmente existisse.
Os momentos no qual ficara em pé fora suficiente para deixá-la exausta. Ela costumava ficar sentada — desde a sua aposentadoria do cargo de professora — no sofá da sua casinha. Tricotava, enquanto contava casos para a vizinha que sempre ia visitá-la. Eram bons os momentos que passavam com Neuza... Principalmente quando seus três filhos — João, Rafael e Mateus — vinham e faziam uma visita surpresa. Era tudo tão bom!
— Mirian? — chamou alguém. A mente débil da idosa não a deixava mais relacionar as vozes sem antes conhecer profundamente a pessoa.
A senhora se levantou. Enquanto as vibrações ainda seguiam pelo ar, Mirian notou a aflição que portava naquele som. A pessoa devia estar muito tensa.
— Victor? — perguntou ela.
— Não, senhora. Sou eu, Leonardo. — Ele andou mais um pouco, colocando o tronco a mostra, no campo de visão da mulher. — Eu estava... O que é isso na sua mão? — perguntou ele, elevando o tom de voz subitamente. Mirian olhou para sua mão e fitou a faca. — Você ia me matar, sua velha miserável? Você ia, não ia?
— Não, claro que não. Eu...
A continuidade da frase foi decepada. Assim como as palavras, Mirian também sentiu a dor de ser vitimada por algo. Ao mesmo tempo em que a mulher portava uma faca, o homem também tinha uma. Era maior e mais imponente, com um desenho de um boi e seus respectivos nomes de carne.
Mirian sentiu a faca afundando na sua pele flácida da barriga. Mirian nem percebera a aproximação leviana do homem. Nem percebera, pois seus olhos custavam acompanhar uma movimentação muito rápida. Mas agora não adiantava mais. Era o fim daquela senhora.
O corpo flébil da senhora curvou-se para frente. Leonardo puxou a faca com certa facilidade, mas sabia que aquela vida já fora cortada. Mirian sentiu o baque no seu rosto. Sentiu suas puídas roupas compradas na feira junto de Neuza serem molhadas pelo vívido vermelho do sangue. Ela sentiu sua vida esvair-se. Mas não importava. Como pensara, preferia morrer a matar alguém.
6
EMBORA LEONARDO CONSTANTEMENTE discutisse sobre moral e coisas do gênero — era professor de sociologia e filosofia numa escola particular do município onde morava —, sabia que nenhum humano possuía isso. Ele sabia, desde o início, que aquele jogo iria seguir. Sabia que acabariam se matando mutuamente. Afinal, a própria vida deles estavam em jogo.
Essa palavra estava empregada em seu vocabulário como algo bom. Adorava jogar com os amigos no campo de futebol que ficava na praça. Sentia o vento ameno no seu rosto, o frescor de correr livre e ter as bolas cravadas no ângulo do gol...
Agora um espeto era cravado em suas costas. Enquanto estava aturdido demais para pensar, não notou que alguém se aproximava dele. A sangue frio, Leonardo fora morto.
“Você deve ser forte. Sempre seja. Não se aflija com a dor alheia. Eles são mentirosos. Hipócritas. Sempre fique calma. Seja fria. Seja você, Ana.”
7
O TIRO DISSONOU E ATRAIU A ATENÇÃO DE VANESSA. Ela estava atrás bar, no saguão. Ela nunca se imaginara numa situação dessas. Ela até já sonhara com algo parecido, onde o assassino de seu pai — sim, ela tinha perdido o pai durante um acerto de contas — viera e tentara trucidá-la a sangue frio. Em vão, claro. No sonho, Vanessa — que fazia judô — imobilizou-o e tomou a arma — um revólver comum — e, enquanto o mantinha apontado para o homem, ligou para a polícia. Ela havia acordado feliz.
Mas agora ela não estava feliz. Claro que não. Quem ficaria feliz numa situação dessas? Quem gostaria de estar preso numa mansão, cujo dono era um maníaco? Ninguém, claro. Ela bufou. Estava com medo. E se não voltasse a ver mais seu irmão? E seu namorado? Quem cuidaria de sua mãe agora que seu pai tinha morrido e que seus nervos estavam a flor da pele? Quem cuidaria da Pitanga, sua cadela de estimação? Ela precisava sobreviver. Precisava ser forte e, por mais que suas atitudes não coincidissem com a ética, iria lutar por sua vida.
Essa utopia, essa força de vontade que a moveu e lhe deu esperanças para continuar dissipou-se como num passe de mágica. Ela fora atingida por um machado. Não conseguiu ver o rosto do assassino. A cabeça, quase completamente dividida ao meio, caiu junto ao corpo, os olhos vítreos fitando o assassino.
8
ELE TINHA ENLOUQUECIDO. Claro que tinha. Ninguém mataria uma pessoa a machadadas. Ninguém. Somente uma pessoa louca, certo? Então ele era louco. Claro que era. Ele tinha matado aquela garota — Valquíria? Esse era o nome dela? Ou era Valesca, como a popozuda? —. Ele não estava conseguindo raciocinar direito. Dos poucos filmes que tinha visto sobre o tema, sabia que todos acabariam matando uns aos outros. Não teria escapatória. Então, do ponto de vista constitucional, ele só trucidara alguém em legítima defesa. Sim, ele não seria preso; afinal, quem mata em legítima defesa não é preso. E ele fizera isso.
Agora, ele tinha que se livrar daquela arma. Alguém poderia vê-lo e acharia que ele era um assassino louco. Mas ele não era. Claro que não. Mas espera: ele não acabara de dizer que tinha enlouquecido? Então por que agora ele tinha mudado de opinião? Por que seus pensamentos estavam embaralhados? Por que ele não tinha ganhado aquele jogo de truco com sua família? Ah, porque haviam roubado. É claro que ele ia ganhar. Ele era implacável no truco. Mas por que ele estava pensando em truco mesmo?
Porque ele deveria ter matado os caras que roubaram. Mas esses caras que roubaram não eram de sua família? Não! Ele não tinha que matá-los. Claro que não. Ele estava confundindo as coisas. Não tinha que matar ninguém sem razão. Devia matar as pessoas que estivessem ameaçando a sua vida. E, nesse caso, todos naquela mansão estavam. Precisavam morrer. Assim como aquelas formigas que ele destruíra quando era quase adolescente, junto com seu amigo que desejava ser militar. Bobeira. Você pode arrumar um emprego que pague melhor, cara.
Mais outro motivo para ele viver. Tinha que ver qual seria o futuro de seu amigo? Mas ele já tinha se formado? As lembranças pareciam estar tão longe... Mas aquele machado não estava. Ele pegou o machado novamente. Na verdade, viu que perto corpo daquela garota — Valéria, certo? Sim, Valéria. Ela se chamava assim! É bom que eu tenha me lembrado. Achei que tinha enlouquecido. — havia uma faca. Talvez fosse dela. Puta! Estava tentando matá-lo. Ele pegou a faca. Sopesou-a e se deu conta de que reconhecia o objeto. Essa faca foi a que eu trouxe, não? Ah, foi, sim. Foi a que eu achei no corredor. Mas então por que estava com a Valéria? Ela tinha roubado! Além de assassina era ladra! Merecia morrer. Claro que merecia.
Todos os outros também.
9
JÁ HAVIA PASSADO ALGUMAS HORAS desde o início do jogo. O barulho do tiro fizera Violeta correr do segundo andar e se esgueirar até a saída do saguão, onde acabou encontrando Ana — e dois cadáveres: Mirian e Leonardo. — Violeta não ficara sabendo de como isso ocorrera, mas achou melhor ficar lá fora, pois havia ouvido tiros, enquanto ali, a causa da morte provavelmente era por arma branca, o que dificultava uma tentativa de avanço contra ela. Mas, pensando bem, acho que é melhor morrer por arma de fogo do que por arma branca. Deve doer menos...
Violeta estremeceu com o pensamento. Ela já estava convicta de que morreria. Agora estava somente pensando em como seria a forma de menos dor. Ela achava, a princípio, que ninguém faria nada — somente Tadeu. Falando nisso, cadê ele? Será que ele é o assassino de Mirian e Leonardo? —, mas sua concepção mudou drasticamente. A tensão provavelmente fora o estopim para tudo aquilo. Contudo, nada disso importava mais. Contanto que ela e Ana ficassem seguras e escondidas, alguém — do lado de fora da mansão — notaria a falta delas e começaria uma busca incessante. Tudo que precisava, então, eram de se manter vivas. Mas talvez isso fosse difícil demais...
— Você não está com medo, Ana? — sussurrou Violeta, dentro de um buraco grande que abrigava as máquinas relacionadas à piscina. A garota perguntou-se se Ana tinha ouvido. Será que o problema dela era grave?
“Forme vínculos, Ana. Prove que você consegue adquirir a confiança de alguém. Teste. Experimente. Desenvolva.”
— Um pouco. Mas me sinto mais segura estando perto de alguém. Quando fiquei só, estava com mais medo.
— Mas agora você não está só. Você tem a mim, que sou sua amiga agora.
“Muito bom, Ana.”
De repente, uma luz invadiu o ambiente escuro. Alguém havia descoberto o esconderijo delas. Agora elas estavam mortas. Ninguém poderia salvá-las. Elas estavam mortas. Estavam somente com um espeto de assar carne — segundo Ana, ele estava sujo de sangue, pois ela cutucara o objetivo nos cadáveres, verificando se ainda estava vivos. Ela não quis entrar em detalhes —, e, logicamente, isso não ajudaria contra uma possível arma de fogo.
— Por favor, não nos mate! — gritou Violeta, com os olhos fechados. Ela não queria ver quem estava ali.
— Calma — disse um jovem bonito, com fios negros aparatosos sobre o rosto. — Está tudo bem. Ouvi vocês conversando e acabei te encontrando. Sorte a nossa, não?
10
BELCHIOR E VICTOR ESTAVAM ISOLADOS dos demais. Haviam se encontrado há alguns minutos. O militar estava com uma faca que encontrara na área de serviço, enquanto o primeiro estava com uma tesoura, que havia encontrado na cozinha. Agora eles estavam lá, saboreando o único enlatado que encontraram. Não estavam vencidos, mas, mesmo assim, o gosto era pungente.
— Devíamos procurar pelos outros — sugeriu Belchior, enquanto, com o dedo, pegava um pouco da pasta de amendoim.
— Acho que não... Eles podem ter enlouquecido... Nunca se sabe.
— Duvido muito — contrapôs o outro. — Ainda acredito nas pessoas.
— Queria ser assim.
— Vou ao banheiro.
Belchior, que já estava apertado desde o início daquela confusão toda, andou até o banheiro que havia ali. Ao contrário de todos os outros cômodos, aquele era mais simples, provavelmente destinado a algum serviçal. Será que moravam pessoas aqui? Quem deseja morar aqui que levante a mão? É, como imaginei, ninguém.
Após se aliviar, lavou as mãos. Enquanto se fitava no espelho — lábios carnudos, nariz aquilino e protuberante, cabelos ralos e sem vida, olhos cansados e afligidos pela tensão —, ele notou o perfil de alguém mais no reflexo. Era Victor, com seu cabelo militar, olhos grandes e negros e a faca.
— Você pode ainda acreditar nas pessoas, Belchior, mas eu, não. Sinto muito por isso.
Porém, antes que o Victor pudesse avançar contra o mais velho, este foi mais rápido. Sabia que poderia acontecer. Ainda acreditava nas pessoas, mas era realista. Principalmente diante daquele contexto. A ponta afiada da tesoura — Nunca pensei que um material escolar pudesse ser tão mortífero... — penetrou a carne do jovem militar. Belchior sentiu os batimentos diminuírem lentamente, enquanto os músculos enrijeceram. Teve de afundar mais ainda o objeto, pois não seria suficiente para tirar a vida do homem rapidamente.
— Você planejou isso o tempo inteiro... Mas eu te matei.
Neste momento, Belchior enxergou Lúcia. Ela trazia uma arma e mirava para ele.
11
LÚCIA HAVIA DESCIDO AS ESCADAS, ignorado a saída para a área da piscina e, após passar pela área de serviço, chegara à cozinha. A cena que viu não foi muito animadora.
— ...Mas eu te matei.
Então Belchior, com toda aquela calma aparente, era um assassino. Ela até entendia que Tadeu fizesse tudo aquilo. Mas Belchior? Ela duvidava. Mas as aparências enganam. Sim, ele devia estar se fazendo de bonzinho, plácido, somente para apunhalar seus inimigos pelas costas. Como uma cobra venenosa. Maldito sejam todas as cobras venenosas!
Ela engatilhou a arma e atirou novamente. Ela havia feito dois disparos. Nestes, causara duas mortes.
12
— HENRIQUE?!
Violeta ficou feliz por ver aquele rosto sereno e bonito. Ele é como um jovem modelo. Parece que nem existe... Ah...
— Vem. — Ele estendeu a mão e ajudou as duas garotas a subirem sem muita dificuldade. — O que passaram até aqui?
“Ana, distancie-se dele. Ele é perigoso. Saia de perto.”
Ana começou a correr. Violeta sobressaltou-se com a ação, mas viu as perninhas curtas em movimento. Ela, ao chegar perto da churrasqueira — onde colocou o espeto próximo aos outros, como se quisesse descansar a mão de tanto carregá-lo —, parou. De longe, vislumbrou tudo que ocorria. Com uma faca que sibilava, Henrique havia empalado Violeta. A garota caiu de bruços, com a boca levemente aberta. Ao seu redor, uma poça vermelha se formou, o estigma escarlate da própria mão da jovem no assoalho.
“Seu nome é tão lindo quanto a cor.
Seu nome é tão lindo quanto a flor.
Seu nome é tão lindo quanto você.”
É uma pena que este poema não combine com o desfecho de Violeta.
O trágico desfecho da cor violeta.
O trágico desfecho da flor violeta.
O trágico desfecho de Violeta.
O trágico e vermelho desfecho de Violeta.
13
— O QUE EU FAÇO? O QUE EU FAÇO?
Ana não conseguia pensar direito. A adrenalina corria nas veias. Seus olhos fitavam o elegante rapaz correndo em sua direção.
“Corra, Ana. Corra para a cozinha.”
14
HENRIQUE MATARA VIOLETA SEM UM PINGO de piedade. Matara porque devia. Porque era seu dever trucidar todas as pessoas que queriam tomar-lhe a vida. Ele precisava ficar vivo até o fim. Precisava, pois, segundo sua mente insana, ainda tinha que voltar e ganhar aquele truco. Por que mesmo ele tinha perdido? Por que mesmo ele tinha que ver seu amigo de infância que queria se tornar militar? Por quê? Matar. Por quê? Matar. Por quê? Correr atrás da garotinha.
— Você nunca vai me matar, Ana! Nunca! Eu te matarei primeiro!
Truco. Matar. Correr. Truco. Roubo. Por quê? Matar. Correr atrás da garotinha. Loucura. Matar garotinha. Ganhar. Sobreviver. Por quê? Sobreviver. Ganhar. Matar. Loucura. Truco. Formigas. Amigo. Roubo. Baralho. Cartas. Matar. Assassinar. Ser eu, o temível e imortal Henrique.
— Corra enquanto é tempo, Ana. Corra antes que você enlouqueça!
Henrique continuou no encalço da pequena garota com o aparelho auditivo.
15
LÚCIA ESTAVA SENTADA QUANDO ouviu os gritos de socorro. Ela terminava a pasta de amendoim. Não gostaria de ter que comer algo que já passara em — possivelmente — duas bocas. Duas bocas cadavéricas.
Ela levantou-se repentinamente, e após esgueirar-se até o cômodo que ligava a área de serviço e o saguão, enxergou uma pequena massa correndo. Era aquela garotinha. Como ela anda estava viva? E, como estava, quem estaria correndo atrás dela? Mais loucos psicopatas? Mais caras como Tadeu e Belchior? Claro que sim. O jogo endoidara todos. De praxe, ela ainda não fora afetada. Sabia perfeitamente discernir quando alguém matava a sangue frio — como Belchior fizera — de quando alguém mata em legítima defesa — como ela fizera —. Ana chegou e a abraçou.
— O que está acontecendo?
— Ele está tentando me matar... Lúcia! Ele quer me matar!
— Quem?
— O Henrique! Eu acho que ele enlouqueceu.
— Já estou acostumada com isso. — Lúcia apertou a pistola contra o peito. Teria de matar outra pessoa.
16
— ELE ESTÁ TENTANDO ME MATAR...
“Lembre-se do nome, Ana. Chamar pelo nome é o primeiro passo para a confiança.”
Qual era o nome dela? Como ela se chamava?
Merda! Esqueci!
“Lúcia. O nome dela é Lúcia.”
— ...Lúcia! Ele quer me matar!
17
MATAR! GAROTINHA QUE CORRE. MATAR! Loucura. O que é isso? Truco? Ganhar? Sobreviver e ganhar o truco. Ser o sobrevivente e matar os que roubaram. Formigas. Destruir formigas pelos militares. Matar... Ela? Quem é ela? Não consigo me lembrar... Luciana? Lúcia? Lucíola?
Lucíola!
Sorte que ele se lembrou do nome dela. Poderia estar endoidando... Mas ele não estava!
Isso bastava.
18
LÚCIA REPETIU A MESMA AÇÃO PELA terceira vez em sua vida. Engatilhou a arma, mirou e atirou. A bala traçou uma linha e atingiu o peito do rapaz.
Três disparos. Três vítimas.
— Obrigada por me salvar, Lúcia... — agradeceu Ana.
— De nada.
— Me dê a arma, agora. Por favor.
Lúcia entregou, confusa, a mente zonza, os ouvidos zumbindo, os pensamentos retinindo.
— Você vai me matar, não vai?
— Claro que vou. Afinal, alguém tem que ganhar, certo?
Ela já sabia disso. Todos haviam enlouquecido no jogo. Talvez tivesse sido burrice entregar a arma. Mas não importava; Lúcia não tinha endoidado. Ela estava sã.
E morreu sã, pois Ana atirou.
19
— PARABÉNS. VOCÊ FOI ÓTIMA — elogiou Agenor, tocando os ombros pequenos da garota.
— Obrigada, papai — replicou ela, solene. — Agora já posso fazer o meu joguinho?
— Claro que sim — respondeu ele, alegre. — É só escolher as pessoas.
— Qualquer uma?
Agenor meneou a cabeça positivamente.
— Sim, afinal, eu sou multibilionário. E pessoas assim podem fazer qualquer coisa, inclusive colocar pessoas num jogo macabro.
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