[Trinta anos após amanhecer]

A velha casinha vermelha estava muito maior do que ela se lembrava, tinha perdido a conta dos dias, dos anos em que esteve por ali. Seus primeiros dez anos de vida foram por ali, escondida junto a seus pais na casinha encantada, como costumava se referi a primeira casa dos pais, no meio da floresta. Ela não existia mais, uma tempestade a dez anos havia sido o seu fim ao derrubar árvores centenárias por cima dela. Mas, à casinha vermelha estava de pé, mesmo com as alterações feitas pelo novo dono, ainda assim guardava suas boas memórias da infância. Os cheiros ao redor estavam diferentes de suas memórias, mas seus pais haviam lhe alertado que a realidade podia ser diferente das memórias, costumamos guardar apenas a parte boa das coisas que aprendemos a amar.

Ela pode ver o movimento das cortinas marrons, os olhos que a encaravam eram negros como a noite e cheios de saudades. Ela suspirou pesadamente, sustentar aquele olhar era impossível. Era como levar um soco no estômago.

Nenhum dos dois soube quanto tempo se passou desde que os olhares se encontraram, e tudo foi interrompido pela voz feminina e nada amigável daquela a quem pertencia o titulo de senhora Black a quinze anos.

— O que faz aqui, Cullen? – Leah quase rosnou ao abrir a porta da frente de sua casa. Seu marido não teve coragem de sair e enfrentar a ruiva. Ela tinha medo da presença da híbrida, do que aconteceria com o seu casamento.

— Acabo de voltar do hospital, fui visitar Charlie. Tive saudades desse lugar. – esclareceu, desceu seus olhos para o ventre avantajado da ex-loba e sorriu, sentindo-se feliz. No fim, tudo havia dado certo pra ele também, ao menos essa culpa ela não carregaria mais. – Deve estar próximo a ter o bebê, é um menino ou menina?

— Menino, seu nome será Harry William– Leah passou a mão pela barriga – Estou com oito meses, todos estão ansiosos para o nascimento do futuro alfa.

— Que Harry William venha com saúde, sei que amor ele já está recebendo aos montes.

— Obrigada.

Enquanto aquelas duas conversavam fingindo civilidade lá fora, Jacob puxou as cortinas as fechando. Procurou pelos fones de ouvido e os ligou no máximo na tentativa de bloquear a voz dela, da mulher escolhida para ele que o rejeitou. Sentou-se na poltrona em frente a TV, fechou os olhos e deixou sua mente o levar para o momento em que ela disse que não o amava.

Flashback on

— É uma linda pintura – a voz rouca tão familiar novamente a elogiava. Renesmee agora com dez anos, porem com aparência de dezoito, estava aproveitando o clima bom e a boa iluminação para pintar do lado de fora da casa. Pintar e tocar piano eram o seu passatempo favorito naquela floresta, onde vivia com o pai e a mãe.

Todos os outros Cullen viviam como nômades em pares pelo mundo, eles precisavam de um tempo, um tempo para que todos os conhecidos se esquecessem deles e não houvesse riscos para então se estabelecerem em qualquer lugar como a família que eram. No entanto, Edward e Bella ficaram. Ficaram por Charlie, ficaram por Renesmee. Ficaram por Jacob, ele não podia deixar a reserva dado a sua posição, e ele também não poderia viver sem Renesmee.

Bella não queria causar nenhum tipo de dor ao amigo que sempre foi tão fiel a ela e ajudou a proteger sua filha quando ela mais precisou.

Ao contrário do que sempre acontecia, Jacob novamente percebeu que ela não estava mais tão feliz com a presença dele. Renesmee, sua Nessie, estava cada vez mais distante, havia algo naqueles lindos olhos cor de chocolate que ele não sabia decifrar, mas tinha quase a certeza que não era algo bom, ao menos não para ele. Ele também estranhou ao não sentir o cheiro presente dos pais dela, pela primeira vez em dez anos eles a deixaram sozinha ali.

— Oi Jacob

Jacob ? O que aconteceu com o Jay? Ou Jakey?

Ela olhava em todas as direções, menos para o moreno desconfiado a sua frente.

— Eu descobri sobre o imprinting- ela foi direto ao ponto – eu vi que o Seth sofreu com a bebê do Jared e da Kim, então eu entendi tudo. Eu sou o seu imprinting não é? Por isso sempre está presente? Foi igual pro Quil e pra Claire não é?

— Sim, você é o meu imprinting pequena. O quanto você está informada sobre isso?

— O suficiente para entender que não é algo que você tenha escolhido, é automático ao ver a pessoa, e é eterno. O suficiente para saber que você faria qualquer coisa se fosse para me ver feliz.

— Sim, qualquer coisa. – ela baixou os olhos, olhando para os próprios pés. Incapaz de olhar par ao lobo que tanto amava, como amigo é claro.

-Estamos indo embora Jacob, eu já não vou sofrer nenhuma alteração, serei assim pela eternidade. Chegou a hora de finalmente conhecer o mundo com os meus pais, eles foram comprar as passagens agora. Meu primeiro destino será os países da América do Sul.

— Bom, espero que me deem alguns dias para poder deixar tudo em ordem com o Sam, ele deve assumir a minha matilha também.

— Você não vai com a gente Jacob.

— Como assim eu não vou? Não pode fazer isso! Se o seu pai estiver pensando...não, a Bella não vai deixar ele me afastar de você!

— Meu pai não tem nada haver com isso e nem a minha mãe! Sou eu! Eu decidi ir, decidi te deixar para trás. Eu quero que seja feliz Jacob, quero que tenha escolha. Não quero que se prenda a mim ou a minha família de vampiros que você detesta.

— Nessie, não faz isso, por favor – ele tenta implorar, se ajoelhando aos pés da híbrida. – Eu não vou resistir longe de você, não me deixa.

— Me escuta, eu só vou poder ser feliz se você for feliz, se você puder fazer as próprias escolhas. Eu estou te liberando de qualquer compromisso que o imprinting tenha te obrigado, eu quero que seja livre dessa magia absurda, eu quero que o meu amigo encontre o amor no método tradicional, alguém que combine mais com ele – Renesmee tocou o rosto banhado por lágrimas do moreno – Você pode fazer isso? Pode buscar sua felicidade se for isso o que vai me deixar feliz?

Flash Black off

O ex-lobo sentiu que era observado, mesmo não tendo mais os genes de lobo ativo ele ainda tinha o sangue de transfigurador, o sangue do primeiro lobo então foi fácil saber sem abrir os olhos que a híbrida o observava. Leah se colocou atrás da poltrona do marido e calmamente retirou os fones de ouvido que ele usava.

— Você envelheceu bem meu amigo – foram as primeiras palavras da híbrida que ele ouvia a mais de duas décadas. Devagar ele abriu os olhos e ela estava bem a sua frente, muito mais mulher do que ele se lembrava, muito mais madura.

Os cabelos dela antes compridos agora estavam cortados muito curtos, assim como os de sua tia Alice. Ela usava um vestido de alça reguláveis que ia até o seu calcanhar, usava um tênis branco também, estava um pouco sujo já que ela havia chegado até ali após correr pela floresta após uma noite inteira de chuva intensas naquela região.

— Você também não me parece mais a mesma. – ele ainda era incapaz, de falar com grosseria com ela. Como se para se lembrar que era casado e tinha um filho a caminho ele segurou na mão de Leah e a guiou até que ela se sentasse em suas pernas. – O que veio fazer na reserva?

— Posso me sentar? – o questionou e ele assentiu. – Alice previu que Charlie precisaria da família, como minha mãe não pode frequentar o hospital eles me mandaram, eu nunca fui apresentada a nenhum humano com exceção dos que sabem o nosso segredo. Eu ficarei um tempo em Forks.

— Por que ? Vocês tem poder e recursos o suficiente para levar ele para qualquer lugar! – Leah questionou, ela sabia que a mãe não aprovaria aqu8lo mas estava com medo do que a presença da híbrida podia fazer com seu marido. Ela entendia e confiava no amor de Jacob, mas também conhecia o poder do imprinting.

Assim como Renesmee pediu para que ele fosse feliz longe e ele cumpriu o desejo dela, ela poderia querer ele de volta e Leah sabia que ela o teria se quisesse.

— Não há motivos para se preocupar Leah, eu não estou aqui pelo Jacob acredite. – ela ergueu a mão esquerda e exibiu a aliança. – Eu me casei a dois anos, Nahuel está organizando nossa casa na cidade nesse momento. Apenas estou aqui para avisar da nossa chegada, para ver velhos amigos e conferir que realmente estão felizes.

— Estamos. – respondeu Jacob sem emoção alguma – Você tinha razão, devíamos mesmo procurar a felicidade além do imprinting, não teria como dar certo entre a gente. Não como um casal.

— Fico feliz em saber. – ela voltou a sorrir verdadeiramente para o casal a sua frente – Mesmo quando eu era muito pequena, eu via vocês dois juntos e achavam que formavam um lindo casal. Fico feliz em saber que também não estava errada nessa parte.

— Obrigada – respondeu Leah – Seth, Quil e Embry devem ficar felizes com o seu retorno, depois do Jacob eles eram os que mais te adoravam por aqui.

O celular da híbrida vibrou em sua bolsa, ela a abriu e visualizou o nome de Nahuel na tela inicial. Ela estava demorando e ele já se preocupava com ela, houveram muitos incidentes com vampiros depois que ela deixou a cidade com os pais. Renesmee quase foi morta uma dezena de vezes, e isso só parou quando os Cullen se uniram a outros híbridos, incluindo Nahuel e as irmãs. Foi isso o que aproximou o casal.

— Preciso ir agora. Espero que ao menos possamos ser amigos agora que estou de volta. – ela olhava para Leah como se pedisse permissão dela. Renesmee não queria que Leah visse nela uma ameaça ao casamento.

— Não vejo problema algum nisso – ela responde por fim, sentindo uma mão de Jacob subir e descer pelo seu braço. – Estou feliz que minha mãe vai ter alguém para a ajudar com Charlie.

Na despedida, ela abraçou Jacob. Ele inalou o cheiro dela de toa perto e sentiu-se diferente. Não como alguém que era atraído para ela, era como felicidade. Sim, felicidade por saber que ela estava bem, que ela também encontrou um alguém como ela para amar.

[Trezentos anos após Amanhecer]

— Sabia que te encontraria aqui – Bella parou bem ao lado da filha no cemitério de Forks. A garota ruiva estava sobre os joelhos, de frente a uma lápide muito, muito antiga. As lágrimas corriam soltas pelo seu rosto. – É hoje não? Hoje é o aniversário de morte de Jacob.

A ruiva balançou a cabeça de cima para baixo, incapaz de olhar par a mulher que lhe deu a vida.

— Eu passei pela reserva antes de vir. Eu vi um dos descendentes dele e da Leah, ele é igualzinho ao meu Jake. Eu nunca vou esquecer dele mãe, nem daqui a mil anos.

— Querida se não te faz bem, não deveria ficar voltando aqui. Nahuel mesmo não gosta de estar por perto quando você passa por aqui, ele diz que fica muito sensível e não aguenta te ver assim. Sue marido sabe que você ainda ama o Jacob.

— Eu o amei. O amei até o último suspiro de sua vida. Eu ainda o amo. E foi por amor que abri mão dele. Não podia permitir que ele entrasse naquela guerra. Não podia permitir que as visões de Alice se concretizasse, que os lobos fosse destruídos, que o povo Quileute fosse aniquilado por minha causa.

Bella desceu os olhos para as inúmeras cicatrizes nos braços da filha, ela tinha muitas outras em vários pontos do corpo. Cicatrizes de todas as vezes em que precisou lutar pela própria vida. Cicatrizes de batalhas entre vampiros e híbridos que Jacob nunca soube que aconteceram.

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