One Shot - Be afraid of the dark.
1 Be afraid of the dark.
Notas iniciais
Existem rumores. Rumores e mais rumores, que em seguida se ligam a gritos apavorados e deliciosos; a lágrimas e soluços, que aos meus ouvidos são mais do que música. São, por ironia, os pequenos anjos do Céu jogando energia pura em minhas veias secas e sedentas.
Mas os anjos não conspiram ao meu favor.
Anjos não conspiram a favor de demônios.
Existem livros sobre mim. Livros infantis, creio eu. Ilustrados com uma pequena criança em cima de sua cama, cobrindo o rosto com o cobertor enquanto a escuridão a cerca. As vezes uma mão aparece por debaixo da cama, ameaçando a puxar pelos pés e devorá-la sem piedade.
Minha fama é um tanto errada, devo dizer. Visto apenas como o vilão que é sempre derrotado; inexistente. Os mortais sempre esquecem os melhores detalhes.
Não tenho forma. Sou tão maleável quanto Éter e tão fácil de desaparecer quanto o vento. Invisível na escuridão, adaptado ao mundo atual.
A forma humana que todos os demônios são capazes de adotar é incomoda. Pesa demais os ombros e limita minhas ilimitadas curvas. Mas é fácil respirar. Fácil de enxergar. Fácil de farejar. Porque é assim que eu trabalho. Farejando.
Farejando, apenas?, você pode perguntar. Não, meu doce pesadelo. Farejando medo.
É noite; como sempre. Não existe melhor hora para viver. Meus pés se arrastam por uma rua deserta da Filadélfia, onde prédios de paredes escuras e sacadas gradeadas cercam toda a rua, aparecendo até onde a vista alcança e as luzes queimadas e fracas iluminam o caminho. Um bairro pobre, sim. Vez ou outra, apenas o rabo de uma ratazana faminta é aparente, deixando no ar o guinchar enervante de tais animais. De qualquer forma, todas as casas são repletas de medos, inseguranças. Consigo diferenciar cada uma deles. Cada uma. Diferentes, mas iguais na essência. Todos tão extremamente fortes.
É simples escolher um dos prédios. Poderia avançar por todas elas, se assim quisesse. Mas não quero. Quero apenas o suficiente, porque sei que no dia seguinte, a mesma hora, meu corpo será tomado pelo vácuo, a mente dominada pelo instinto e a vontade de mais. É um vício, um eterno ciclo. Nunca é suficiente.
Depois de eras e eras de afobação, se aprende a ser paciente.
Meus lábios já vermelhos como sangue deixam escapar um suspiro de prazer assim que a carapaça humana se desfaz com um assobiar inaudível do vento e todo meu corpo se liberta. Disforme, como dito. Negro, com partes que sibilam como cobras, pernas finas e peludas de aranhas, mãos de ferro, rosto de sorriso crescente, cabelos que se arrastam e se enroscam pelas garras. Todos os medos do mundo, todos os imagináveis formando minha matéria. Mudando a cada segundo.
Consigo subir as paredes de tijolos com facilidade, me agarrando a ela e subindo tão rápido quanto seria se me esforçasse. A janela não precisa ser aberta. A atravesso sem nenhum barulho, adentrando um quarto pequeno e apertado, precariamente iluminado pela luz do banheira a frente, acessa para deixar o caminho claro para o quarto a frente. Um quarto de criança.
Filmes de humanos, livros e séries já demonstraram o quanto uma criança pode ser poderosa. O quanto um grito de uma criança pode ser forte. Porque ainda é um ser tão puro, que apenas o prazer de corrompê-lo já é satisfatório.
Apenas pensar no assunto faz minha garganta arder em desejo, então sem mais delongas, passo por cima da cama, arranhando meu corpo contra o do homem deitado e lhe arrancando com um respirar mais fundo, uma névoa negra e fina, que penetra em minhas narinas e flui por meu corpo inteiro. Prazeroso. Mas não o suficiente. Rápido demais para mudar seus sonhos ou afetar seu emocional. Apenas uma casquinha da superfície.
Continuo o caminho até a cama onde a criança de traços doces e pequenos dorme, e a observo com o olhar melancólico de quem não deseja fazer o que deve.
Sempre fui um mentiroso. Eu quero.
Com os dedos finos e gelados; pontudos até certo ponto, lhe acaricio a face macia e avermelhada, fazendo com que meus olhos agora negros e concretos brilhem com uma animação perversa que a toda noite me preenche.
Consigo sentir. Consigo ver. O negro tinge sua mente aberta e colorida, e logo, logo, um biquinho tão doce quanto uma maçã surge no rosto da menina. Os sonhos que banhavam sua mente repousada são espremidos contra as paredes mais profundas e frias, esmagados até que desapareçam por completo, como se nunca houvessem existido. Seu queixo delicado treme pelo choro que se aproxima a cada instante, e ainda mais assim que percebe que não está sozinha. Porque ela pode sentir isso. Ah, ela pode.
Meus dedos se estendem por seus sonhos, e descem por seu corpo, envolvendo seus pensamentos com névoa espiralada e gélida, suas pernas e mãos por ferro firme e quente. Minhas pernas longas deslizam para debaixo da cama, assim como parte do corpo, deixando apenas a mente da pequena criança ligada a minha.
É fascinante. Minhas veias queimam de vida, como se irrigadas por sangue que a muito não sentem. Minha mente se transforma naquele mesmo pesadelo da pequena, seu medo e sua respiração ofegante banham meu corpo, suas lágrimas cristalinas e puras se infiltram em minha pele escamosa. Depois de vasculhar sua mente por um curto período de tempo e obter total controle, pude usar de arma seu medo por sangue. É o suficiente. Seu próprio sangue mancha suas mãos, lhe desce o rosto e a sufoca a garganta. A mancha de vermelho e a faz balançar em uma onda interminável de coloração quase preta e que se transforma aos poucos em sua própria gaiola e a prende a mim.
É um momento bom, mas que dura pouco demais comparado a forma como me agrada. Interrompido assim que a criança começa a chorar mais alto, e a se debater na cama depois de alguns segundos prazerosos onde apenas choramingou, aumentando o êxtase em minha alma, se é que ainda me existe uma. Apesar de o choro mais forte me lançar em um estado de completo ânimo, significa que é hora de não estragar minha reputação.
Por fim, o pai acorda. Se levanta sonolento e a acolhe nos braços, fazendo meu corpo se encolher debaixo da cama, mas estou tão embriagado de satisfação, que nem ao menos me importo.
Antes de me dissolver de volta às profundezas do Inferno, ouço apenas a voz rouca de sono do homem:
- Pronto, minha querida. Pronto, pronto. Foi só um sonho ruim. Bicho-Papão já foi embora.
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