One Plus One
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ela entra no quarto da irmã, um sorriso largo no rosto e um presente enorme embaixo dos braços, para encontra-la tomando chá com a nova empregada. O que a faz estancar na porta e perder o sorriso, é o fato da dita empregada estar usando um dos melhores vestidos de Paulina – e joias também.
— Eu tenho a sensação de que vou me arrepender de perguntar, mas: O que está acontecendo aqui?
A empregada sai do quarto com a cabeça baixa, pedindo desculpas sem respirar e o mais rápido possível. Paola consegue sentir a falsidade emanando da garota como um perfume barato.
Paulina faz com que ela sente na cama, o presente esquecido, e, após algumas voltas ao redor do assunto, ela finalmente lhe conta o que a vem atormentando. E somente porque Paola é sua gêmea. Paola sorri. Paulina confia demais nas pessoas para o seu próprio bem.
Paulina conta sobre os desmaios, o médico, a sentença de seis meses de vida e sobre seu plano – idiota, inconsequente, inocente e idiota – de deixar a empregadinha vista mais cedo em seu lugar como a senhora Bracho.
Paola ri, do fundo da garganta, e Paulina a observa de olhos arregalados e mareados. Sinceramente, por que ela precisava chorar tanto?
— Em primeiro lugar. – Paola começa. – Se alguém seria a senhora Bracho no seu lugar, esse alguém seria eu. Paola Bracho. Soava muito bem. Paola Montagner? Nem tanto. – Aquilo quase arranca um sorriso de Paulina, mas aquele não era o seu objetivo. Seu objetivo era retirar o véu de drama que parecia estar permanentemente sobre os olhos de sua gêmea. – Em segundo lugar: Você é idiota?
— O que? – Paulina está em choque.
— Então você sente uns desmaios, o médico diz que você tem seis meses de vida e você simplesmente aceita assim?
— O que mais eu poderia fazer?
— Procurar outros médicos, logicamente. Nunca ouviu falar em segunda opinião? E preparar a empregadinha para ficar no seu lugar? Por favor, Paulina! Você mais do que ninguém deveria saber que isso nunca sai como planejado. E Carlos Daniel é idiota, mas não tanto. Ele é um garoto crescido, pode escolher sua esposa como bem quiser. Claro, não será necessário, porque você não está morrendo.
— Mas o doutor disse...
— Para o inferno o doutor e o que ele disse!
Paola deve ter ficado com a toda a inteligência, então por pena de Paulina, ela pegou a gêmea pelo braço e a arrastou para fora da casa. Os meninos gritaram por ela, mas Paulina só pode acenar e dizer que voltava logo.
Quando elas saíram do terceiro médico, que concordava com o segundo – ambos discordavam da doença terminal -, Paulina está em completo choque, olhando para frente enquanto Paola dirigia – dentro do limite da velocidade, ela já sofrera acidentes o suficiente, muito obrigada.
— É inacreditável. A incompetência de algumas pessoas. Não conseguem enxergar o que está bem na frente deles. E você! Você nem pensou em procurar outro médico. Simplesmente aceitou a morte. Você é inacreditável! Meio lenta também. Nem dá pra acreditar que somos parentes. Acho que você deveria procurar ajuda profissional, um psiquiatra, essa sua falta de vontade de viver não pode ser normal. Mas antes você vai chamar um bom advogado e mandar aquele médico de araque para a cadeia. E não me diga que seria cruel. Uma pessoa que não consegue diferenciar uma gravidez de uma doença terminal claramente não deveria estar exercendo a profissão de médico. E quanto aquela garota, ah, você pode deixar ela comigo. Eu vou acabar com aquela sonsa. Sinceramente! Doença terminal... era o que me faltava. Onde ele conseguiu aquele diploma?
Ela olha para o lado rapidamente, onde Paulina continua em estado de choque.
— Paulina? Paulina!
Paulina a olha e, devagar, um sorriso surgindo em seu rosto. Lágrimas brotam logo em seguida, mas Paola já estava começando a desenvolver um sistema que simplesmente as ignorava.
— Eu vou ter um filho.
— Sim, graças a mim agora nós sabemos disso. Apesar de que no final dos seis meses, eu estava esperando, realmente desejando, que você percebesse isso. Mas com você nunca se sabe. Você poderia achar que era algum tipo de tumor.
Paulina ri. Aquela risada melodiosa que era infinitas vezes mais leve que a risada de Paola.
— Eu vou ter um filho.
— É, eu sei.
Então ela começa a falar sem parar. Paola não consegue prestar atenção em metade do que ela diz, como sempre.
Ela recebe as crianças com abraços, beijos, lágrimas e sorrisos. Paola fica satisfeita em olhar de longe. Vovó Piedade e Adelina chegam em seguida, atraídas pela movimentação. Paulina conta a novidade e todas riem a se abraçam como se fosse grande coisa. Paola revira os olhos e dá algumas palmadinhas na cabeça de Lizete, que anda ao redor dela. A garota lhe adora por algum motivo inexplicável.
A garota aparece eventualmente, um sorriso sonso no rosto, tentando fingir que a saúde impecável da senhora Bracho lhe trazia alguma alegria. Aquela empregadinha estava pronta para ver o fim de Paulina. Nem que ela mesma tivesse que fazer isso. Por isso que Paola chama sua atenção e disse:
— Você. É, você mesma, sua sonsa. Está demitida.
— Paola. – Paulina começa, mas ela apenas levanta uma mão para que sua gêmea ficasse quieta. Paola podia suportar a ingenuidade de Paulina apenas até certo ponto.
— É melhor sair daqui antes que eu mesma faça isso. E se eu for fazer isso, queridinha, não será nem um pouco bonito. Eu conheço os tipos como você. Você não me engana e logo, logo, não vai enganar mais ninguém aqui. Então é melhor você pegar suas coisas e sumir no mundo. E não deixe que eu te encontre. Eu sei que minha irmã gêmea é ingênua ao extremo, mas eu não sou ela. Eu sou Paola Montagner e na próxima vez que eu te ver, você vai sair do nosso encontro tão zonza que nem vai lembrar seu nome. Se você conseguir sair dele inteira.
A garota lhe lança um olhar fumegante. Tenta manter a pose de boa moça, mas logo desiste. Solta o ar com força e sai da casa dos Bracho pisando pesado. É melhor assim.
— Paola. – Paulina a chama, a voz cheia de recriminação, como se ela fosse uma das crianças e precisasse de um puxão de orelha.
— Eu sei, eu sei. — Ela diz despreocupada, arrumando os cabelos. — De nada.
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