Notas iniciais
"O senso de culpa é uma coisa horrível, afinal."


Era uma noite como tantas outras, e ela estava envolvida em meus braços, de costas pra mim. De novo. Aquela situação não era boa nem para mim nem para ela, mas a distância parecia insuportável sem seu toque quente ou seu doce perfume. Ah... Como eu amava aquele odor. Passei minha mão entre seus cabelos, e ouvi um soluço — mesmo se ela tentou com todas as forças escondê-lo de mim. Fingi não ter ouvido, e desci minha mão até sua cintura, abraçando-a. Ela estava chorando, e aquela não era a primeira vez, muito menos seria a última. O senso de culpa é uma coisa horrível, afinal. Mas parecia afetar muito mais ela do que eu.

Sete anos tinham se passaram desde a formatura. Eu já tinha começado minha carreira de político há quase dois anos, e por uma ironia do destino tive que fazer a base de minha companhia naquela cidade. Na cidade em que passei os melhores três anos de minha vida. Na cidade em que conheci minha atual esposa e a mulher da minha vida, que não são a mesma pessoa. E que jamais serão.

Ele tinha vencido. Tinha tirado Tohru de todos os outros, e principalmente de mim. Mas no final das contas, a culpa tinha sido minha. Eu estive tão perto de tê-la... E mesmo assim a deixei escapar; enganando-me com o fato que a considerava somente como uma mãe. Ah, quanto fui ingênuo... Achando que poderia ficar longe dela e esquecer. Realmente achei que seria fácil se Machi me ajudasse. Se eu realmente acreditasse que era perdidamente apaixonada por ela. Todavia, pensando melhor, ingênuo não é e nunca foi o adjetivo certo para mim. Talvez por um certo tempo foi para o Kyou, só que eu desde o começo nunca passei de um simples estúpido, preferindo esconder meus sentimentos — ou melhor, enterrá-los -, ao invéz de levantar a cabeça e enfrentar as consequências.

Porém foi exatamente aquilo que me fez apaixonar. Me fez amar de verdade, além da atração fisica que fingia ser o que nos ligava. Ela era tão pura, tão decidida, tão malditamente perfeita... Que somente fingir não dava mais.

Aquela desculpa de ‘mãe’ era bem patética, pensando agora. Tão patética que sinto vontade de rir de mim mesmo na forma mais irônica possível.

Logo na primeira semana, recebi uma chamada, aliás, um convite, da única pessoa que eu desejava não tivesse notado minha presença. Da primeira vez eu fingi que por um erro da minha secretária o recado não tivesse chegado. Na segunda dei a desculpa que não teria tempo aquela semana. Mas logo a terceira chegou, e eu tinha certeza que ela continuaria me chamando para visitá-la até que eu o fizesse. E assim aconteceu. Num sábado a tarde resolvi ir vê-los, pois do domingo teria mais um discurso para se fazer. A coragem me faltava. Rever Kyo, e principalmente Tohru... Seria doloroso demais. Desde o segundo que eu notei que gostava dela muito mais que como um simples parente.

Naquele dia o céu estava nublado, e eu ouvi algumas senhoras comentando que não iria demorar até começar chover. Deparei-me de frente para a casa deles, sem me espantar com o que via. Uma típica casa familiar, com alguns toques orientais. Lembrava-me muito a casa de Shigure, o qual nem sei por onde anda. Imaginava se estavam casados ou não, se tinham filhos... Algo que Machi não poderia me dar; uma família. Pegamos até a opção de uma adoção em consideração. Mas eu como político e ela como advogada não teríamos tempo o bastante para cuidar de uma criança. Naquela época ela estava em outra cidade, toda via poderíamos nos ver sempre que desse vontade. O que quase nunca acontecia comigo.

Apertei a campainha com receio, mas logo ela avisou pelo interfone que podia entrar. Escutar sua voz depois de cinco anos era aterrorizador, pois realmente não sabia o que iria encontrar. Abri o portão e entrei. A porta também estava aberta. Logo vi Kyo com aquele olhar ameaçador de sempre, mesmo se notavam-se sinais de amadurecimento, a partir do cabelos um pouco mais longos e da roupa menos despojada, mesmo se não vivesse trajado de terno e gravata como eu. Eu hesitei, mas a curiosidade era bem maior que meu medo de não reconhece-la. Meu olhou escorreu por um segundo, e então a vi. Era uma mulher. Seus seios eram bem mais fartos que eu me lembrava, e seus cabelos ligeiramente mais curtos, e sem aquela franja infantil. Usava um vestido branco de botões, somente com um bordado azul no lado direito. A mão do ruivo estava apoiada sobre sua cintura. Eles realmente formavam um belo casal, por mais que me seja difícil admitir.

- Honda-san... – eu sorri, escondendo o quanto estava desapontado com a felicidade deles. – ...Kyo! Que bom vê-los novamente.

Tohru me deu um leve sorriso, já Kyo virou o rosto, sem negar aquela personalidade irritante que sempre teve. Escorri meus olhos pelo chão da casa enquanto entrava e me aproximava dos dois.
- Ahm... eu achei que iria encontrar um lugar cheio de mini-kyos. – brinquei, ironicamente.

- Ah! – Tohru deu uma leve gargalhada, enquanto Kyo já apressava o passo para ir até a sala que ficava do lado daquele corredor – Ainda não começamos. Aliás, nem estamos casados.

- ...Ainda. – Kyo completou, assim que eu adentrei o cômodo.

- E por que não? — Disfarcei minha felicidade com uma pergunta meio sem sentido. Era óbvio que não tinham dinheiro suficiente. A diferença de mim, Kyo não recebeu nada da herança dos Sohma, e Tohru nunca teve nenhum recurso.
Logo eu me sentei no sofá, e a conversa continuou pacata, e meio incomoda, ao menos pra mim. Kyo tinha se tornado um repórter de um jornal local, e disse que conseguiu meu número para Tohru através de uns contatos que tinha, já Tohru era uma simples garçonete em uma lanchonete ali perto.

De repente, o celular de meu primo tocou, e em menos de alguns minutos já tinha deixado aquela casa. Disse que a redação lhe havia mandado para uma cidade que ficava ali perto, e que teria que passar o resto do final de semana fora. A pobre Tohru simplesmente assentiu com um falso sorriso sobre o rosto, como se aquilo acontece frequentemente. Como se ele a deixasse sozinha todas às vezes.

- Honda-san. – eu disse, quebrando o gelo que ali pairava. Estávamos um de frente para o outro, em sofás diferentes. Antes ao seu lado estava seu noivo, e eu ainda podia ver o formato de seu corpo na poltrona. Levantei-me, como se nem soubesse o que estava fazendo, tomando o lugar de Kyo. Tohru se assustou, obviamente.

- O que houve, Yuki? – perguntou espantada, virando-se para o meu lado.

- Eu estava com saudades. – sussurrei.

- Eu fiquei pensando em você desde que te vi na TV duas semanas atrás... — Ela se contraiu por um momento, e sua respiração se fez mais forte. – Yuki... O que está acontecendo comigo?

Fiquei sem respostas para aquela pergunta. Realmente tinha me pego desprevenido. Aquela expressão confusa a deixava ainda mais linda, e eu não conseguia parar de apreciá-la, por razões que até hoje não entendo. Passei minha mão sobre seu rosto, e ele estava gelado.

- Suas mãos são quentes... – ela comentou tímida.

Eu me limitei a concordar. – Mas dizem que quem tem as mãos quentes, possui o coração frio.

- Um mero ditado, Yuki! – ela riu mais uma vez – Ah... Desculpe-me, mas eu tenho que ir pro trabalho! – falou, levantando-se meio desajeitada. Parecia ter olhado pro relógio pendurado na parede.

- Eu te levo, estou de carro. – falei, também me levantando. – E não aceito um ‘não’ como resposta. – E não aceitaria mesmo.

Ela concordou, mesmo se se podia ler o receio sobre sua frágil face. Pegou seu casaco e saímos. Lá fora os primeiros pingos de chuva já estavam caindo, e ela me agradeceu pela carona assim que entrou.

O caminho não era longo, mas o trânsito era muito.

- Você está contente com este trabalho? – Ela me disse, mas eu não tirei os olhos da estrada. – Quero dizer... Sempre achei que se tornaria um médico ou algo assim...

- O que é isso, Honda-san! Eu sempre quis comandar e mudar as coisas. Por isto quero ser presidente de uma cidade pequena como essa, para depois passar pra uma maior e quem sabe virar senador.

- Entendo... Ainda bem que você escolheu esta cidade... – A última frase foi baixa, mas não o bastante para que eu não pudesse ouvi-la. – É aqui. – Ela disse, apontando para uma lanchonete 24h que ficava perto de um aeroporto. – Obrigada, Yuki. – Estava por sair, quando segurei seu braço.

- Honda-san. – ela demorou a responder. Fez uma expressão de desgosto, como se não gostasse do próprio nome. – Tome meu endereço. – Continuei, pegando um meu cartão pessoal de dentro do bolso do palitò. Ela pegou, porém aquele olhar persistia. – Algum problema? – insisti.

- Nada... – ela sinceramente não sabia mentir.

- Realmente?

- Sim. – ela olhou para o lado, segurando a maçaneta da porta. – Eu estou indo, sim, Yuki? Obrigada. Da próxima vez eu te pago a carona!

- E por que não paga logo? – Uma coragem que eu realmente não sei de onde saiu me fez puxar seu braço e beija-la. Achei que fosse recusar, mas não aconteceu. Explorei sua boca com prazer, e ela deixava, por mais que possa parecer inusitado. Até que ela se separou de mim, com o rosto todo vermelho. Sem mais palavras, ela correu pra fora do automóvel, sem nem ao menos se despedir ou fechar a porta.

Assim que cheguei em casa naquela noite, a chuva começou a aumentar, e os raios caiam constantemente. Toda via nada daquilo atrapalhava a minha felicidade. Joguei-me sobre a cama, massageando meus lábios com os dedos. Parecia mais um adolescente que deu seu primeiro beijo. Ria de mim mesmo ao lembrar da cena. Sem querer me adormeci com a lembrança do cheiro de Tohru. Doce, mas ao menos tempo provocante. O primeiro beijo teve um gosto irresistível.

Acordei no meio da noite, com a campainha que tocava desesperada e repetitivamente. Pulei da cama e notei que ainda estava de gravata e camisa social, além das calças que tinha usado o dia inteiro. Abri a porta ainda sonolento, e me deparei com a figura molhada e sem fôlego de Tohru escorada na porta, como se tivesse corrido desde seu trabalho até minha casa, sem sossego.

- Honda-san, o que houve? – perguntei preocupado.

- Honda, Honda, Honda! – gritou a mulher, dando um passo para frente. O chão se molhou automaticamente, e eu percebi que ela realmente tinha feito todo o caminho a pé. – Até quando vai me tratar assim? – Se aproximou mais um pouco, segurando meus ombros. – Vamos Yuki, chame pelo meu nome! – seus olhos me fixaram, e eu não tive escolha.

- T-Tohru... – O choque ainda era grande, mas vê-la molhada sem querer me excitava. Pensando agora, aquele meu jeito de chamá-la era bem antiquado. Tohru com o tempo aprendeu a desacompanhar o sufixo ‘kun’ de meu nome, e eu ainda continuava tratando-a como uma estranha. Ela com certeza tinha amadurecido muito mais do que eu naqueles anos.

- Repita... – Ela se jogou contra meu peito, e eu sentia o calor de suas lágrimas se misturarem com as gotas frias da chuva. Eu me limitei a abraçá-la e obedeces-lha.

- Tohru... – Aquela cena se repetiu mais duas vezes, até que eu tomei seus lábios em um impulso.

A beijei. A beijei como jamais tinha feito antes. De novo. Outra vez. Quase que por impulso nos encontramos no chão. Minha mão deslizou por sua perna, e ao voltar os botões do vestido quase se abriam sozinhos. Sua pele era macia, quente, tentadora. Ela não fazia objeção alguma enquanto eu o fazia, então prossegui sem medo. E, principalmente, sem remorso.

Em nossa primeira vez, fizemos sexo no chão com a porta aberta e com o vento da chuva entrando para fazer com que precisássemos ainda mais do calor um do outro.

Mas aquele foi somente inicio. Depois da primeira, vieram outras centena de vezes. Víamos-nos uma, duas, ou até três vezes por semana. Durante três anos. Todas às vezes ela dizia que seria a última, mas na semana seguinte sempre me procurava ou ia até minha casa. Não demorei muito para ser eleito e meu trabalho aumentava, porém aquela nossa relação extraconjugal parecia ser alheia aos meus empenhos e seus horários extravagantes. Com tudo, não se baseava somente no desejo carnal, por mais que nós dois fingíssemos que aquele fosse o motivo real.

Numa noite, eu a estava esperando na frente de seu trabalho. Pelo telefone Tohru havia dito que queria ir para um lugar fora da cidade, pois tinha contado pra Kyo que iria para a casa de uma amiga doente. Tão clichê como desculpa, mas mesmo assim infalível. Ela até mesmo pensou em não deixar nenhum número da casa da suposta amiga, falando que qualquer problema era só chamar seu celular. Era algo realmente errado, mas só fazia com que nosso desejo aumentasse. Aquela nossa paixão parecia ser eterna.

Eram duas da manhã, e eu para não dormir resolvi acender um cigarro. Não era um fumante, mas gostava de quebrar a rotina às vezes com um pouco de fumo, preferivelmente com pouca nicotina. Poucos minutos depois a vi saindo. Usava uma calça jeans e uma blusa vermelha um pouco curta. Aquele corpo parecia ter sido desenhado pelos deuses. Notei que em seus cabelos estavam duas fitas amarelas bem familiares. Disse pra mim mesmo que aquilo era impossível, pois se tinham passado mais de oito anos desde quando lhe tinha dado aquele presente.

Sai do carro e peguei sua mão, levando-a para o outro lado de meu carro, e abrindo a porta para que pudesse entrar. Parecia ficar contente com aqueles pequenos gestos – como abrir uma porta ou puxar uma cadeira -, por isso eu sempre tentava ser o mais cavalheiro o possível.

- Onde devo levá-la hoje, madame? – brinquei, entrando pelo outro lado.

- Eu quero ir para um mirante que tem há 20 km daqui, chofer. – ela respondeu, tirando um panfleto de dentro do bolso da calça. Era primavera, mas as noites eram bem quentes. — Certo. – respondi ligando o carro, enquanto dava uma leve olhada no papel ao meu lado. Após o quinto minuto sentada, Tohru já havia adormecido. Ela parecia trabalhar demais para ajudar Kyo. Se bem que a pobre Honda nunca me contava sobre como era dentro de casa, e eu não suportava o fato de ter que dividi-la. Se bem que era Kyo quem a dividia comigo, e aquilo doía muito mais do que olhar Machi e ver Tohru. Imaginava se também era o mesmo para ela, se sentia ciúmes, se sem querer alguma vez confundiu nossos nomes como já havia acontecido comigo. Porém Machi naquela noite com certeza fingiu não escutar. Era sempre assim. Para ela só me ter bastava, independente das condições. A advogada sabe e sempre soube que meu coração jamais lhe pertencerá.

Parei o carro de frente pro mirante. Ainda nem eram as Três da manhã e eu já tinha perdido o sono. Saí do automóvel me espreguiçando, e me sentei na grama. A vista era linda, iluminada somente pela lua minguante que pairava no céu. Instantes depois ouvi a porta se abrindo, mas fiz de conta não escutar. Tohru caminhou até mim, se abaixou e me abraçou por trás.

- Não é lindo? – ela disse, com uma voz suave.

- Não mais do que você. – respondi, puxando seu braço e fazendo-a cair sobre meu colo. – Tohru, eu te amo. – falei, alisando seu rosto pálido e meio cansado, o qual se entreteceu com aquelas palavras. Ela o fazia todas as vezes, e meu limite estava chegando. Fiz com que ela saísse de cima de mim, e me levantei. Andei até meu carro, tirando um cigarro de dentro do bolso e acendendo-o. Apoiei-me no veículo preto e suspirei segurando minha cabeça, que doía com toda aquela confusão de pensamentos. Eu sabia que ela me amava, pois era eu quem ela chamava enquanto dormia. Era eu que ela procurava quando estava triste, e de novo eu quando estava feliz. Mas então... por que? Qual a razão?

- Yuki, o que foi? – Ela disse, avançando de alguns passos.

- Você me pergunta o que foi, Tohru?! – gritei, jogando o cigarro ainda aceso no chão, e apagando-o com um pé. Me virei e vi aquele olhar triste de novo, que tanto me deixa louco. – Por que você nunca responde? – caminhei até ela, com a voz ainda muito alta.

- Yuki, eu... – Ela tentava se explicar, mas não sabia como. Qual era o segredo? Só precisava dizer “eu também”! – Eu... Já disse que não posso te amar... Você sabe que isto é somente algo carnal...

Aquelas palavras ressoaram em meus ouvidos, fazendo com que eu perdesse o pouco de paciência que ainda tinha. Segurei seus braços a e empurrei até a frente do carro, jogando-me sobre ela.

- Minta de novo, Tohru! – Eu disse, pressionando meu corpo ao dela, segurando seu braço direito contra o veículo atrás dela. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas eu já não agüentava ser aceito e rejeitado todas as vezes. – Diga que não me ama, se tem coragem!

- Y-Yuki-kun... – Ela pressionava suas pálpebras tentando não me ver, enquanto virava o rosto. – Esse... Não é o ‘você’ que eu conheço...!

Eu ignorei aquelas palavras, puxando seu rosto e beijando-a. Naquela madrugada, eu a tive com a força. E quando acordei, Tohru já não estava lá. Só tinha sobrado seu cheiro misturado ao de tabaco, o que não conseguia compensar meu remorso.

Aquele realmente não era o ‘eu’ que ela conhecia. Era desconhecido até pra mim mesmo. Aquela pessoa era somente um louco apaixonado. Aquele indivíduo só passava de alguém tentando ter o que não lhe pertencia.

Voltei para casa acabado. O relógio marcava às sete da manhã. Naquele dia a tarde deveria encontrar com minha noiva, porém não estava com vontade. Na semana seguinte tentei ligar para minha amante, mas ela tinha trocado seu número. Sentia-me cada vez mais em culpa, e às vezes sentia vontade de ir visitá-la, mas tinha medo de encontrar Kyo e não conseguir me controlar, beijando-a em sua frente. Mas qual seria o problema? Por que não se separava daquele ser idiota e ficava comigo? A razão me é desconhecida até hoje. Os minutos se transformavam em horas, as horas em dias, ou dias em semanas, até que se passou um mês desde que a tinha visto. Quando, numa sexta-feira à tarde, vi um convite de casamento em cima da mesa da sala. Machi comentou que Kyo me tinha convidado para ser seu padrinho, e que o casamento seria na próxima semana, numa quarta de noite. Me apressei para ligar pro meu primo, perguntando-lhe se era verdade. Ele riu me chamando de idiota, e confirmando o acontecido. Meu coração se partiu em milhares de pedaços. Também pedi sobre a noiva, e ele disse que estaria provando seu vestido em casa, pois ele ainda estava no escritório.


Gato idiota. Deveria ter mentido, assim hoje em dia não carregaria este peso da consciência, tão grande a ponto de eu ter que tomar remédios de noite para cair no sono.

Não demorei em chegar à sua casa, sem dizer nada nem para a própria Machi, tanto era meu desespero. O portão e porta estavam suspeitamente abertos, como se já esperassem algum tipo de visita. Subi as escadas apressado, e a encontrei olhando para o espelho que ficava de frente para a porta, olhando seu vestido branco. Eu podia ler o ressentimento naquele rosto refletido pelo metal.

- Que sortudo, o Kyo. – A abracei por trás, mas ela nem mesmo respondeu ao abraço, logo se separando de mim.

- Eu sabia que viria. – respondeu, e eu vi suas lágrimas se encravarem nos castanhos orbes. – Yuki, tudo foi um erro. Você sempre foi um erro em minha vida!

- Pois eu não penso o mesmo de você. – sorri. – Não chore, Tohru. Irá estragar este lindo rosto.

- Pare com isso. – a noiva disse, tampando com as mãos sua face. Minha única reação foi me aproximar para que ela não o fizesse.

- Tohru, eu quero lhe fazer uma proposta. – Fechei meus olhos, derrotado. Kyo tinha vencido pela segunda vez, e aquilo ardia em meu peito. Sabia que aquelas palavras iriam ferir muito mais eu do que ela, mas era preciso. – Seja minha mais uma vez, e eu prometo que nunca mais iria interferir na sua vida e de seu marido. Meu mandato está quase acabando, e ano que vem vou tentar ir o mais longe possível.


Ela hesitou por um momento, mas gentil como era, acabou aceitando. A deitei sobre sua casa, e comecei a tirar seu vestido. Enquanto tirava seu vestido, sentia como se ela pertencesse mais a mim que a Kyou. Como se aquela fosse a nossa lua de mel.

Um sorriso pairava em seu rosto, e um comentário fez com que eu a desejasse ainda mais.


- Senti saudades de suas mãos quentes. – sussurrou, enquanto eu explorava seu corpo com as mesmas. Aquela pode ter sido a última vez, mas com certeza foi a melhor. Seus gritos vinham abafados somente pela chuva que caia do lado de fora de forma torrencial, e o suor de nossos corpos de misturava, como se tivéssemos nos tornado um só.
Naquela tarde, eu me declarei pela milésima vez, sem resposta.

Quando acabamos eu fingi estar dormindo. Ela se levantou, recolheu seu vestido de noiva e vestiu algumas peças do dia-a-dia que pegou dentro do armário. Voltou e selou meus lábios suavemente, sussurrando algo quase incompreensível, e deixo um papel no criado-mudo no lado direito da cama. Segundos depois ouvi a porta batendo, e consequentemente minhas lágrimas descendo, ao ver naquela caligrafia trêmula as palavras que provavelmente tinha me sussurrado segundos depois.

Até o dia da cerimônia, não tive coragem de falar nem com ela nem com meu primo. Sentia que poderia começar a chorar se a visse de novo, e eu tinha certa dificuldade em cumprir minha promessa.
No dia tão esperado por muitos, eu estava com um termo branco e de detalhes negros, enquanto Kyo trajava um com as cores contrárias. Eu podia ver o suor descer de seu rosto. Logo uma canção nupcial começou a tocar, e eu pude experimentar a dor de sentir os pedaços de meu coração ainda destruído se queimarem. Tohru apareceu na porta da igreja, e estava linda. Não consegui evitar com que uma lágrima escapasse de dentro de meus olhos. A noiva deu dois passos, então parou. Olhou para Kyo, depois me fitou. Fazia um sinal negativo com a cabeça, e todos estavam confusos... Menos eu.

A mulher virou para trás, e começou a correr. Toda a platéia virou os olhos para acompanha-la, até que ouvimos um barulho de freio, e outro de algo caindo sobre a terra fortemente. Todos os convidados saíram correndo para ver o que havia acontecido. Eu e Kyo fomos os últimos a chegar. Alguns se desesperavam, outros choravam e alguns sequer queriam olhar. O caminho se abriu para nós dois, e ao chegarmos lá vimos um sapato perto da escada, um carro parado, sangue por todo os lados. Meu cérebro demorou a processar todas aquelas informações. Logo vi o corpo da minha amada que jazia no chão, coberto pelo próprio prole. Caí de joelhos no chão, tirando de dentro do bolso aquele maldito papel em que ela pôs suas últimas três palavras; “eu te amo.”

Toda via em minha mente... eu só me culpo de ter lhe dito “Só mais uma vez”.

Notas finais
Gostaram? x3
Eu acho que vou fazer a versão da Tohru dessa Fic, porque ficou meio vago os motivos dela e panz.
Claro, isso se alguém ler e se interessar. XD
Reviews, onegai!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!