One More Chance
3 Capítulo 3 - Uma morte fria
Notas iniciais
"Deixe que o fogo consuma os ardilosos"
A jovem Bingham acreditava que tudo aquilo não passava de uma loucura insolente, entretanto toda a balbúrdia pela qual passara nos últimos dias a faziam questionar sua própria existência. Seus sonhos, seus mais profundos e assustadores sonhos talvez fossem as respostas que ela tanto procurava. Uma vez que sempre sentiu-se incompleta, vazia. Descobrir toda a verdade. Ser ajudada. Era tudo o que a jovem mais queria no momento. O homem jovem a sua frente demonstrava muita confiança mas Anna sabia que aquele homem escondia algo. Ele emanava um sentimento o qual a pobre garota julgava triste, lastimável misturado com uma ira indomável. Ela precisava saber o que estava ocorrendo ali, aceitar o que ele estava propondo não era a melhor escolha a se fazer.
– Desculpe-me pela pergunta mas qual é o seu nome? Onde estou? — Começou Anna com o seu interrogatório.
– Me chamo Ricardo Chevalier e você está na Romênia — Falou secamente.
– Eu estava em Machu Picchu. O que faço aqui?
– Já falei minha cara, você veio nos ajudar- Ricardo era de poucas palavras.
– Eu vim ajudar vocês ou vocês me trouxeram a força? — Ironizou Anna impaciente soltando uma risada leve.
– Não somos perfeitos, irmã .
– Ora! Não sou sua irmã, tenho certeza disso — Anna segurou forte na cadeira de rodas .
– Irás conceder ajuda a Ordem? — Ricardo parecia impaciente.
– Como assim Ordem? — Mais do que nunca Anna não compreendia a situação.
– Só terás mais respostas quando aceitar nos ajudar — Deu de ombros, com um sorriso um tanto forçado.
– Então a minha resposta é não. Leve-me até Lorenzo e nos tire daqui — Anna era decidida demais, teimosa demais , inocente demais . Ao terminar a frase.Anna encarou o homem esbelto a sua frente. Mas a visão não fora agradável. Ricardo demonstrava uma ira sem tamanho no olhar. Aproximou-se de Anna e a tomou nos braços bruscamente, ela tentou se debater pois estava no colo de um completo desconhecido o qual lhe transmitia sentimentos ruins, entretanto seus movimentos foram ficando cada vez mais pesados, rapidamente uma imensa fadiga dominou a jovem, o sono persuadia seus pensamentos. Era como se ele tivesse a envenenado, como se tivesse sugado toda a energia da garota. O homem forte a levou até o tecido que antes fora depositado no chão por uma das doze mulheres. Colocou-a delicadamente no chão, bem acima do tecido. Ela estava imóvel. A garota que se encontrava entorpecida, agora via tudo a seu redor girar, sua visão estava turva demais.
– Se não for por bem então será obrigada a fazer — Ricardo não parecia contente com o que estava havendo, parecia que algo penetrava seu coração de forma tão violenta que ele nem conseguia manter os pés firmes no chão. Tentou retomar o fôlego e voltou-se as mulheres — Façam o trabalho de vocês.
Duas das mulheres seguraram os braços da entorpecida Annabelle e outras duas seguravam seus tornozelos. Uma tomou para si a adaga que estava no chão e começou a proferir palavras que Anna não soube decifrar. A visão da pobre garota estava turva demais, ela não conseguia pensar direito, apenas sabia que estava correndo um imenso perigo mas estava imobilizada, não poderia tentar fugir. A mulher que segurava a adaga reluzente começou a gritar , estava possuída por uma imensa dor ao que parecia. Em seguida, ainda proferindo palavras -até então desconhecidas — a mulher levantou a adaga e em um movimento ligeiro a cravou bem firme no coração de Anna. As duas gritaram de dor. A magia afetara também quem a fazia, mesmo que fosse apenas um pouco da dor que a vítima sentia. Os brilho no olhar da jovem Annabelle estava esvaindo-se. E ela estava imóvel, respirava apressadamente. Estava morrendo sem sombra de dúvida.
Anna sentia seu peito arder. Ouvia milhares de barulhos, zumbidos. Sentia que estava aos poucos deixando o mundo. Algo a puxava para cima e a cada fração de segundos apenas piorava. Contestava se aquilo é o que acontecia após a morte. Encontrava-se mergulhada em um mar de emoções. Queria chorar desesperadamente. Haviam tirado a vida dela, haviam assassinado seus sonhos, seu futuro. Não conseguia mais lutar e aos poucos foi entregando o próprio corpo . Era como estar flutuando em um rio, um rio quente. A garota sentiu o corpo relaxando, sabia que não havia mais volta. Deixou ser puxada. Em minutos aquele corpo não possuía mais alma. Ela fora levada. Estava transitando, bailando em direção ao inexplicável.
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1409 — Romênia, Idade das Trevas
O sul da Valáquia era um lugar charmoso por suas amplitudes, ostentava imensos castelos lustrosos. Embora a época não fosse uma das melhores. Por toda a Europa, espalhou-se uma doença mortal, a Peste Negra. Inúmeras pessoas morriam todos os dias, era uma verdadeira calamidade. A Peste matava qualquer um que a possuísse de forma muito rápida, em questão de dias. Uns acreditavam que as temidas "bruxas" eram as verdadeiras causadoras desta praga. Era o período da Inquisição, onde se imperava o medo e as trevas.
Mesmo com os temores da terrível Peste, era dia do tão esperado Mărţişor, um grande festival romeno onde se celebra a chegada da primavera. As pessoas estavam abarrotadas de uma alegria sem tamanho, era o final do terrível frio. Uma época muito prazerosa estava por vir. Homens presenteavam suas companheiras e familiares com talismãs que segundo a tradição trazia força e saúde durante o ano inteiro. Os talismãs eram broches com linhas vermelhas e brancas entrelaçadas, todos as mulheres possuíam ao menos um. Era uma festa caloroso para a chegada de um tempo caloroso.
Aquele território no sul da Valáquia era governado por um Imperador rígido e frio. Ele tinha dois filhos, Ricardo e Lúzia Chevalier, eram descendentes de franceses. Sua esposa havia morrido vítima da terrível doença, havia contraído em uma de suas viagens à França. Ricardo não era filho do Imperador tampouco de sua falecida esposa. Desde que o Imperador Luíz o salvou de um ataque de lobos há sete anos atrás, cuidou do menino como se fosse filho dele. E agora Ricardo estava prestes a completar 16 anos, faltava apenas dois anos para substituir o pai adotivo.
O vento frio oscilava de direção rapidamente, um imenso lago incrivelmente esverdeado exibia sobre si o brilho do sol penetrante. A vegetação estava coberta por gelo, as árvores não possuíam mais folhagem, logo tudo ganharia vida novamente com a chegada do Mărţişor. Acima de uma montanha contemplando o lago, montada em um esplêndido Clydesdales, estava ela. Tão indomável quanto o oceano, tão bela como uma deusa, tão deprimida em um silêncio mortal. Chamava-se Lúzia, seu nome significa luz e luz era tudo o que ela mais ansiava. Notou que as lágrimas brotavam rapidamente e rolavam pesadas sobre o seu rosto pálido. Não conseguia esconder sua imensa tristeza, não quando estava sozinha. Seus cabelos castanhos quase negros voavam ao vento, seus olhos tão azuis quanto a um mar tempestuoso emitiam uma imensa solidão. Ela completaria dezesseis anos em breve, dois meses depois de Ricardo.
Lúzia sentia-se imemorável, sentia como se ninguém a amasse. Nunca teve um pai carinhoso, ele sempre a desprezou. Não somente ele como sua mãe também. A pobre menina desconhecia os motivos, mas todos a tratavam com uma frieza sem tamanho. Era como se não quisessem a presença dela. Passara a maior parte da infância trancada em seu quarto sob as ordens do Imperador, seu pai. Poucas foram as palavras que ela ouvira diretamente dele. A mãe por outro lado a criticava demais, dizia que a menina não ia sobreviver ao mundo por ser tão fraca. Cansada da prisão em que era mantida, encontrou sozinha um jeito de sair dali, mesmo que fosse por alguns minutos. Quase toda manhã ela fugia pela janela e montava no belo Clydesdales que possuía. O belo cavalo parecia uma rajada negra , e sempre ia em direção ao lago esverdeado. Lá, a menina contemplava o lugar paradisíaco. Sentia-se livre por um momento. Porém não sentia felicidade alguma.
O irmão mais velho, Ricardo, sempre fora taciturno. Ele era excelente em tudo o que fazia. Chegou ao castelo aos nove anos, completamente machucado pelas mordidas dos lobos. O Imperador Luíz que o trouxera, salvou sua vida. E desde então o tratou melhor do que a própria filha, Ricardo sim parecia amado. Somente com um ano morando no castelo que ele disse suas primeiras palavras à Lúzia.
"Deveria mostrar o seu valor"
A jovem nunca mais esquecera tal frase, foi o que deu forças a ela . Ele estava certo, ela deveria mostrar seu valor. Com esse pensamento, tornara-se assim a melhor arqueira da região, acertava o alvo até mesmo com os olhos vendados. A exatidão do seu disparo chegava a ser perfeita, a seta que saia do arco dificilmente errava o alvo. Entretanto ela estava apostando em algo em vão. Seu pai jamais dera a mínima importância para o que ela fazia ou deixava de fazer. Ela se sentia ignorada, desprezada e isso corroía seu coração de forma violenta.
A garota chorava exatamente por isso, por essa solidão que dilacerava mutuamente seu frágil coração. Ninguém estava do seu lado. Mesmo que seu irmão demonstrasse a cada dia mais um pouco de afeto. Lúzia sentia que não deveria acreditar nesse afeto. Ninguém ficaria ao lado dela. Ninguém se importaria se ela tirasse a vida ali mesmo, atirando-se da montanha. Caindo lago a abaixo. A morte seria lenta e dolorosa. O único problema é que ela não tinha forças para isso.
Notou que já era tarde e que deveria voltar logo para o castelo. Bateu o pé em seu Clydesdales e em seguida ele começou a cavalgar graciosamente, seu pelo castanho era belíssimo. Um animal digno de uma Princesa. Ele deslizava intensamente, como se estivesse correndo sobre as nuvens . Lúzia sentia o vento batendo em seu corpo e ao menos ali, naquele momento, ela sentia que estava livre. Mesmo que jamais fosse ser livre.
Após alguns minutos correndo contra o tempo, no caminho da entrada do castelo estilo gótico, Lúzia encontrou Ricardo em seu Frísio. O rapaz estava parado lá , parecia que estava naquela posição por bastante tempo. Estava impaciente e com um olhar preocupado. Lúzia não se importava que o irmão a tivesse visto chegando de uma de suas escapadas matinais. Pelo contrário, ele a apoiava ser livre. Ele desceu do cavalo e foi em direção a menina. Ela mantinha sua postura firme e decidida mas também desceu de seu cavalo puxando para baixo o seu lindo vestido creme. Quando estava a dez passos de Lúzia, Ricardo deu um lindo sorriso de lado e parou encarando-a. Não havia ninguém perto deles.
– São dez passos para um anjo — Ele começou a falar, quebrando o silêncio — Estava chorando novamente Lúzia?
– Estou longe de ser um anjo. Você me conhece muito bem. Eu não me senti muito bem depois de ontem. Quando você me deu a noticia que iria fazer uma longa viagem — Lúzia olhou para baixo, como se escondesse as lágrimas que ameaçavam cair.
– Lúzia, não será por muito tempo. Tenho que fazer isso, faz parte. — Ricardo deu um passo lento, aproximando-se um pouco mais da garota.
– Tu és o único que parece gostar de mim. Como não ficar triste? Isso tudo aqui ficará cada vez mais solitário sem você. — Nitidamente Lúzia também amava o irmão, mesmo que sentisse que o amor dele não fosse tão real.
– Irei te contar um segredo — A menina olhou curiosamente para o rapaz esbelto a sua frente. Ricardo era de tirar o fôlego de qualquer mulher, tinha os cabelos negros e os olhos mais azuis que um ser humano poderia ter e tinha um corpo atlético para a idade — Quando eu voltar dessa viagem para a França, irei fazer o possível para que você seja livre. Eu serei o novo rei como diz a tradição.
– Ricardo, mesmo que eu fosse livre, mesmo que eu anseie por isso. Ninguém da a mínima para mim. Estou fardada a essa vida solitária — A menina já não aguentava mais as lágrimas.
– Não chores Princesa, eu não aguento vê-la chorar. Não é necessário ter milhares de pessoas ao seu lado, uma só é o bastante. Porém essa uma tem que ser a melhor pessoa para você. Talvez eu não seja essa pessoa de confiança a qual você procura imensamente, mas eu farei de tudo para que você confie em mim.
– Isso é muito gentil irmão. Todavia você está falando essas coisas porque nós...
– Porque nós somos noivos? Não é só por isso irmã. Estou falando isso porque me importo com você. Eu voltarei dentro de dois anos. — Ele foi em direção a ela e a abraçou intensamente, depositando-lhe um beijo delicado na testa. Virou-se, caminhou até o cavalo, montou e saiu apressadamente dali.
De fato, os dois eram noivos. Os pais deles decidiram isso quando Ricardo chegou ao castelo. Os dois iriam se casar quando Lúzia completasse dezoito anos. A menina teve de conviver com isso a vida inteira, então achava que Ricardo não a amava de verdade. Mas deveria se acostumar a ela pois eles iriam se casar . Isso a deixava magoada pois ela gostava muito do irmão, o amava. Ricardo iria viajar à França para um treinamento, treinamento o qual ele não entrou em detalhes com Lúzia. Lúzia julgava ser perigoso demais por causa da temida doença. A Peste Negra.
Todos estavam comemorando o Mărţişor porém Lúzia perdera todo o festival, ficara trancada em seu quarto o tempo todo. Cabisbaixa. Imemorável. Ninguém dera falta de sua presença então ela não se importava. Passou a noite toda deprimida, estava se aproximando da hora de seu único amigo ir para longe, para a França.
Não devia ser meia noite quando ouviu fortes batidas na porta. Ela levantou de sua cama gigantesca entalhada a mão e foi em direção a imensa porta feita de carvalho. Quando abriu deu de cara com Ricardo, o qual estava usando vestes pesadas demais.
– Está na hora de ir? — Ela falou tristemente.
– Eu voltarei Lúzia. Prometo. Lembre-se dos dez passos para chegar em um anjo- Ele sorriu , mas com um sorriso um tanto frio.
– Lealdade, compaixão, fidelidade, amor, honestidade, humildade, fé, justiça, fortaleza e temperança. Dez passo até chegar a um anjo — Ela segurou a mão do irmão, puxando-o para si e o abraçando forte- Volte logo, irmão.
Ricardo a abraçou, despediu-se e saiu da entrada do quarto da menina. Juntara-se aos guardas. Pediu a bênção do pai e seguiu viagem com os 13 soldados. Rumo a França, ou talvez fosse somente o que Lúzia pensava.
Algo que Lúzia jamais poderia imaginar, algo que muitos jamais conseguiriam imaginar.
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