One More Chance
10 Capítulo 10 - Encontre a luz
Notas iniciais
Ela ansiava por uma luz que nunca aparecia
Uma luz no meio da escuridão...
1411 — Romênia , Idade das Trevas.
Estava tudo nebuloso , um silêncio fleumático cercava os ouvidos de Lúzia . Ela podia ouvir algo, era sua própria respiração acelerada. Corria velozmente sem direção alguma , tropeçava volta e meia nos galhos mas logo se colocava a correr . Forçava-se a isso. Seu coração parecia que havia levado uma seta, uma flechada bem ao meio. Doía de uma forma descontrolada. Ela estava sem voz , com medo e sozinha. Fugia de algo, algo que ela desconhecia. O oculto se aproximava e cada vez mais ela sentia seu corpo pesar.
Parou de correr instantaneamente quando viu-se frente a frente com um penhasco abissal. A forte neblina impossibilitava sua visão , mas ela sabia que algo estava se aproximando. Conseguia sentir sua presença . Novamente sua respiração ficou ofegante. Ela não podia correr mais e o penhasco a deixava encurralada . Era hora de enfrentar o seu medo.
– Por que me assombras? — Gritou em direção a forte neblina que vinha de dentro da floresta. Não esperava resposta alguma , mas não tinha outra escolha.
De repente , ouviu :
– Nós não queremos lhe assombrar , Luz — Uma voz seca soou em sua mente.
– Me perseguir não é querer me assombrar? — Lúzia estava impaciente e coberta de adrenalina. A permutação em seu olhar era constante.
– Queremos algo dentro de você . E para isso precisamos desmembrá-la.
– Como é?
– A dor causada a você o fará sair.
– Me deixe em paz! Eu não quero estar envolvida nisso! — As lágrimas não paravam de cair perante sua face.
– Luz , estamos atrás de você .
"Lúzia "– Uma voz doce e agitada ecoou por toda a floresta - "Lúzia... Lúzia... "– A jovem garota sentiu seu corpo sendo puxado para cima , estava emergindo em algo que desconhecia seus sentidos haviam desaparecido . Abriu os olhos de maneira rápida e se deparou com uma mulher loira que parecia mais uma divindade sentada a poltrona em frente a sua cama . A fitava severamente . O vestido azul escuro ajudava a dar um contraste incrivelmente suave a bela mulher. Era a Necromante, Amalia.
Ela jogou um manto para Lúzia e indicou para a menina colocar as botas. Sem dizer uma palavra sequer.
Era cedo, o sol muito mal havia saído. Amalia parecia calma naquela manhã , porém as aparências enganam.
Sem dizer muita coisa , guiou Lúzia até o jardim do castelo. Lúzia ainda sentia-se atordoada , como se algo imensamente pesado tivesse caído sobre ela anteriormente. Ela não entendia o que Amalia queria com ela aquela manhã , mas já tinha uma ideia.
Pararam de caminhar quando chegaram perto de um incrível carvalho, era o ponto mais afastado do jardim. Frente ao carvalho havia um pequeno lago com cisnes agraciando as águas com sua bela presença. Era um belo lugar , calmo e suave. Lugar o qual Amalia mais gostava.
– Mais um pesadelo , Lúzia? Notei que você se debatia enquanto dormia — A fitou com um olhar superior , como era de se esperar.
– Sim, estou sempre os tendo. Noite após noite... — Lúzia parecia preocupada.
– Nesses dois anos você amadureceu muito , e logo será capaz de entender o mundo por si mesma . Sobre os sonhos , não tenho muito o que dizer . Apenas espere que as respostas virão — Por mais fortes que as palavras pudessem soar , Amalia fazia parecer tudo uma melodia inquieta — Hoje a noite seu irmão e noivo irá voltar, espero que ele não se importe com nossos treinos matinais.
– O conhecendo bem, acredito que ele também irá querer participar disso — Lúzia esbanjou um sorriso desajeitado.
– Todavia você sabe que ele não pode — Amalia revirou os olhos , parecia que procurava uma brecha para poder começar a falar sobre o que realmente a motivou a acordar Lúzia tão cedo. — Societas Draconistrarum , ainda lembra dela?
– A Ordem que luta contra as crianças amaldiçoadas? Não, eu não lembro.
– Não seja tola , pequeno cordeiro. Aqui , em uma das vilas existe uma menina que porta um demônio. E você sabe que possessão demoníaca de uma alma pura é completamente diferente do que já estamos acostumadas. Não podemos lidar com isso Lúzia. Possivelmente alguém da Ordem virá aqui para levar a pequena garota.
– Então nós não devemos nos envolver , certo? — O olhar tempestuoso de Lúzia demonstrava imensas dúvidas e aflições.
– Errou mais uma vez , como de costume. Vamos ajudar a pessoa que virá extrair o demônio do corpo da menina . Será seu último teste, e aí você estará pronta para fazer as coisas por si própria. Sem ter que depender tanto de mim.
– Essa pessoa virá quando? — Lúzia estava tentando lidar bem com a situação.
– O mais breve possível. Dentro de algumas semanas eu mesma o chamarei . O nome dele é Maximus , deve confiar sua vida a ele se possível. É um homem bondoso, jamais lhe fará algum mal — Amalia demonstrava pela primeira vez um brilho no olhar.
– Eu já ouvi você citando nome dele antes ... enquanto dormia! Mas vejam só, Amalia sempre esteve apaixonada.
– Cordeiros como você não devem se envolver em coisas de lobos.
– Sinto muito, mas você já me envolveu demais nisso. Entretanto tudo bem, me avise quando ele chegar. — Lúzia assentiu delicadamente com a cabeça , nem imaginava ela o que realmente estava por vir. — Vamos aos preparativos agora, o Mărţişor é hoje e meu irmão estará de volta a noite.
As duas seguiram para seus devidos quartos, caminhando graciosamente . Era como o fogo e o gelo .
Após adentrar no quarto, Lúzia ainda sentia um aperto estranho no coração e Amalia - em seu quarto– sentia uma imensa felicidade , ele logo viria atraído por algo tão raro .Não podia falhar agora,entregar a valiosa Lúzia era a missão central.
Aquela noite era muito importante pois depois do frio castigante , das árvores secas e sem vida , algo mágico ocorreria . Algo que acaba com o silêncio fleumático do inverno . Tudo ganha cor novamente e o branco que antes cobria as montanhas e que retirava a vida das plantas finalmente deixa seu posto e o calor suave da primavera assume o seu lugar . Era neste mesmo ambiente de transição que os aldeões mantinham-se alegres e fervorosos . A agitação e os preparativos para o Mărţişor estavam a todo o vapor naquele dia . Todavia todos estavam eufóricos por outro motivo. Depois de dois anos ele , Ricardo, finalmente voltaria. Seria coroado naquela noite , seu pai passaria todo o poder de uma imensa linhagem para suas mãos. Ricardo seria um grande Imperador aos olhos do povo . Nem sabiam o que realmente ocorrera esses dois anos com o jovem rapaz.
Elas também não estavam cientes do que ocorrera, a Necromante e a aprendiz. Apenas sabiam que ele voltaria naquele mesmo dia . Elas passaram praticando magias básicas os dois anos em que Ricardo esteve longe. Às vezes, saiam para efetuar um exorcismo , outras vezes purificavam um terreno dominado por uma entidade maligna , obviamente Amalia sempre oferecia o sangue de Lúzia para tais seres sobrenaturais . Lúzia estava quase aprendendo a controlar toda a sua energia , controlando-a , ela poderia lidar muito bem com o Salamandras , mesmo que não soubesse que portava algo tão terrível . Logo, ela poderia fazer vir a baixo a Societas Draconistrarum , bastava Maximus aceitar o plano da jovem Necromante. Para ela , controlar a mente de Lúzia era o mais fácil. Por isso a chamou para conversar naquela manhã. Ia começar desde já a fazer com que Lúzia a seguisse sem pensar duas vezes, e logo traria uma presença devastadora e alucinante que mataria a jovem aprendiz em instantes. Maximus.
2014 — Atual Romênia.
Um barulho grave soou nos ouvidos de Lorenzo, ele reconhecia aquele barulho . Certamente um dos guardas abrira a porta de sua cela para lhe entregar alguma refeição ou coisa do tipo.
Lorenzo sentiu a adrenalina deslizar por todo o seu corpo. Aquela era a hora. Já perdera um dia inteiro planejando sua fuga. Não estava disposto a perder mais tempo. Mantinha-se deitado , qualquer um pensaria que ele estava dormindo de verdade . Assim que ouviu os primeiros passos para dentro de sua cela, ficou ainda mais atento. Sua incrível calma lhe ajudaria no que estava por vir . Os passos ligeiros chegaram perto de sua cama , sem perder tempo, Lorenzo levantou-se em ligeira velocidade , viu o homem esguio a sua frente e deu-lhe um golpe de gancho de direita seguindo por um de esquerda , o homem atingido soltou um grunhido arrebatador caindo no chão em seguida. Levou a mão no nariz quebrado, assustado.
O sangue brotava de seu nariz e despencava no solo , estava imóvel no chão. O golpe havia sido brutal e certeiro. Lorenzo sabia que deixar o homem apenas caído ali seria uma péssima ideia. Chutou-lhe os tornozelos para que ele começasse a se mover. Mas o homem ainda estava atordoado pelos ganchos que levara. Lorenzo então o segurou pelos braços o imobilizando e o fazendo levantar. O sangue pingava no chão rapidamente, maculando o território pálido.
– Eu vou sair daqui e você vai me ajudar. Ou quebro-lhe todos os seus ossos , um por um — Lorenzo sussurrou para o homem imobilizado.
– Eu não pretendo lhe ajudar — O homem imobilizado surpreendeu-lhe com tal respostas. Era incrível que ainda conseguisse falar , nitidamente esforçando-se para não respirar o próprio sangue.
– E eu acho que você não está no direito de falar nada. Verme — Lorenzo se assimilava a um psicopata quando estava tomado pela adrenalina — Onde está Anna? Leonard, não é mesmo?
De fato era Leonard , o soldado que anteriormente perdera a calma com Lorenzo.
– Vim justamente por isso — O guarda falou bravamente enquanto sentia sua cabeça dar mil voltas. — Anna corre perigo. Precisamos que você a ajude. Só você pode ajudá-la.
– Está blefando — A voz de Lorenzo vacilou — Me diga onde está Anna agora mesmo .
Lorenzo sentiu uma presença peculiar o observando. Instintivamente olhou para trás , na direção da porta da cela branca e viu um homem um tanto familiar o encarando com um sorriso sarcástico no rosto. Ele usava uma roupa completamente negra e possuía olhos límpidos como o céu. Ele não se movia , estava assistindo a cena toda.
– Eu me chamo Ricardo. Por favor, acompanhe-me . Você não tem escolha.
Disse o homem por fim, um longo silêncio se sucedeu nos minutos seguintes. Aquele homem , Lorenzo o conhecia. Tinha certeza disso.
1411 — Romênia , Idade das Trevas.
Estava perto do crepúsculo, assim que o sol fosse coberto pelas montanhas o incrível festival começaria. E logo seu tão amado irmão estaria de volta à Romênia. Amalia havia desaparecido em meio a multidão de aldeões que adentravam no castelo . Lúzia estava trancada em seu quarto, seria a primeira vez que participaria do festival. Ela estava ansiosa. Ansiedade a qual ela não conseguia controlar. Sentia que uma imensa permutação de cogitações a estava dominando .
Desde aquela manhã seu coração estava apertado , como se algo fosse ocorrer aquela noite. E como Amalia a ensinou "nunca ignore um pressentimento". Estranhamente , ela desejava imensamente ir até o lago esverdeado e o contemplar pela última vez antes que o inverno fosse embora. Não era um desejo comum , era uma forte atração. Algo na floresta a estava chamando. Um desejo indomável.
Cansada de sentir tal aflição , juntou coragem e saiu de seu quarto. Desceu toda a escadaria banhada a prata que dava ao salão principal e passou em meio aos portões da entrada do castelo. Usava um manto negro que pertencia a Amalia . Acreditava que todos pensariam que ela era a Necromante. E seu plano deu certo, nenhum aldeão ou guarda a parou enquanto ela rumava à saída .
Ela conseguiu sair totalmente do castelo e adentrar velozmente pela floresta. Parou apenas quando avistou o lago imenso e esverdeado .
A essa altura o céu já estava negro, apenas iluminado pela lua e pelas estrelas. Lúzia não sentia medo, pelo contrário , sentia mais corajosa que nunca. Implacável. Seu dom era implacável. Aprendera nesses dois a não sentir medo , aprendera a se defender. Iria pulverizar até sobrar apenas a carcaça quem quer que tentasse algum mal a ela. Aquela era Lúzia, uma destemida aprendiz.
Retirou o manto e deixou os longos e ondulados cabelos voarem ao vento. Respirou fundo . Aquele lugar era mágico para ela, um lugar onde ela conseguia meditar tranquilamente. Seu lindo vestido creme fazia um contraste perfeito com sua pele delicada. Era uma beldade inocente, pura e oculta. Acreditava ela que a própria floresta a havia chamado para entregar-lhe forças. Sentia-se leve e tranquila.
Subitamente algo forte atingiu seu coração, seu fôlego rapidamente cessou . Muito mal conseguia manter-se equilibrada. Algo estava se aproximando, e seus instintos estavam alertando-a desesperadamente. Uma presença maligna se encontrava naquela floresta. E Lúzia não conseguia identificar de onde essa presença vinha. Parecia uma cena de seus sonhos , dos seus mais profundos e tormentosos sonhos.
De fato , ir até a floresta sozinha foi uma péssima ideia. Olhou para trás , na tentativa de avistar que presença avassalaradora era aquela . Não conseguia ver nada. Aquela sensação corroía sua alma. A deixava aflita.
De repente, não mais que de repente , avistou duas sombras negras vindo vagarosamente em sua direção . Notou a movimentação dos galhos das árvores da floresta que se encontravam próximos a ela . Cerrou os punhos . Algo ou alguém estava ali , caminhando ao seu encontro. Quando as sombras saíram da zona coberta pelas árvores e ficaram frente a frente com ela no espaço em forma de "U" que só terminava quando a terra se colidia com a água do lago esverdeado , Lúzia notou que eram duas pessoas com um capuz escuro. Pareciam dois homens. Um fez menção de retirar o capuz e assim o fez , demonstrando o rosto marcado por algumas cicatrizes leves que foram brevemente escondidas por uma barba mal feita, possuia um olhar incrivelmente azul e quieto. Lúzia não conteve a emoção, era ele. Ricardo. Finalmente voltara e estava tão diferente. Lágrimas brotaram no rosto pálido e rubicundo de Lúzia, ela foi ao encontro do irmão em um abraço imensamente caloroso ignorando por completo a segunda presença no local.
Ricardo a abraçou forte. Não parecia mais um garoto, era um homem. Lúzia ainda emocionada o olhou nos olhos e notou que toda a ternura que ele sentia ainda estava presente.
– Ricardo... — Ela começou a falar.
– Como vai, Lúzia ? — Ricardo a interrompeu , esbanjando um sorriso doce — Não seja tão indelicada minha queria , cumprimente meu grande amigo. Maximus.
O homem ao lado de Ricardo retirou o capuz , os cabelos negros decaíram até os ombros fazendo um contraste perfeito com a barba também mal feita . Seu olhar azul escuro era frio e feroz , lembrava de um leão faminto . Era incrivelmente belo e tinha a postura de um verdadeiro rei. Lúzia o julgou ser um anjo caído, e talvez ele fosse mesmo. O homem por sua vez parecia estar em um completo transe , fitava Lúzia de maneira abrupta . Era inquietante.
– Seja bem-vindo, Maximus! — Lúzia mostrou sua feição mais alegre e convidativa. Um sorriso tão inocente e alegre. Um terrível leão estava frente a frente com ela e ela nem tinha noção disso.
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