One More Chance
1 Capítulo 1 - Rio de mortos
Notas iniciais
Foram assassinados ....
Banhava-se da sua própria fúria ...
Num vermelho lastimável e insolente.
1412- Romênia, Idade das Trevas
Aquele lago no sul da Romênia que costumava ter um tom esverdeado e puro, agora encontrava-se com uma imensa nódoa desagradável. O vermelho desagradável acabara completamente com o visual paradisíaco do local, o tom rubicundo estava presente em todos os lados daquela pequena floresta. Por mais assustador que possa parecer, não havia pessoas vivas naquele lugar. Todos haviam morrido, foram assassinados com uma brutalidade incomparável. Havia pessoas degoladas, faltando alguns membros, outras sem os próprios olhos e com as entranhas a amostra. Todos estavam mortos, porém havia sobrado uma garota, uma garota no meio de uma centena de mortos. Ela estava sob as águas, com seu vestido creme completamente manchado de vermelho pela água possuidora do sangue das outras vítimas. A jovem estava imóvel, paralisada de todas as formas . A dúvida assombrava todo o seu ser. Ela não sabia como havia parado ali, muito menos possuía lembranças anteriores. Tudo o que se lembrava era o seu nome, Lúzia.
Saiu das águas tremendo, não conseguia controlar seu próprio corpo mas conseguiu escorar em uma árvore. Algo estava preso em sua garganta, uma nostalgia deprimente a cercou, ela queria desesperadamente chorar. Toda aquela cena que estava ao seu redor a deixou ainda mais assombrada e desesperada. Queria forçar a induzir-se para fora daquele local o mais rápido possível. Porém seu corpo não conseguia acompanhar sua vontade. Estava desgastada. Assolada. E sem lembranças.
Seu olhar demonstrava um ceticismo inacreditável e uma imensa angústia. Decidira dar o máximo de si para sair daquele local sangrento e miserável. Pegou um galho forte que se encontrava caído no chão com uma imensa cautela, não queria de forma alguma encostar em um daqueles cadáveres. Apoio-se sobre o galho com muita dificuldade, notara que sua perna esquerda estava com um corte gigantesco e que o sangue não cessava. Seu corpo doía por completo, qualquer músculo que Lúzia mexia causava-lhe uma dor quase insuportável. Apoiada no galho, caminhou mancando e vagarosamente até uma trilha de terra que seguia de forma reta. Estava certa que aquela era a saída da floresta. Iria para longe dos mortos.
Cada passo que ela dava, era um passo a mais longe daquele caos. Hesitante e com muita dor, após caminhar por um longo tempo conseguiu chegar até um vilarejo mas a cena não foi muito agradável. Todas as casas estavam em uma corrosão lastimável, e o silêncio estava imperando em todo o vilarejo. Lúzia deduziu que algo ruim também havia ocorrido naquele local. Foi seguindo o caminho reto e único que lá apresentava. Todas as casas eram enfileiradas, na direita e na esquerda. A melancólica garota notou que haviam becos escuros ao lado das casas, posicionou o corpo de uma forma que não sentisse muita dor e inclinou para ver melhor um dos becos, e lá Lúzia viu outra cena macabra. Havia dez pessoas, todas mortas. Suas cabeças estavam espalhadas no chão, como se um animal as tivesse arrancado. Lúzia não conseguiu conter o vômito que se seguiu após tal cena.
Sabia que todos naquele local estavam mortos, e viu-se questionando sobre o que estava havendo ali. Colocou as mãos na cabeça e pôs-se a chorar, as lágrimas brotavam de forma descontrolada e os soluços eram fortes. A cena dava pena a qualquer um. Lúzia estava assustada e não conseguia entender o motivo de somente ela ter sobrado naquele alvorecer pacato e sombrio.
Parou de chorar assim que ouviu um grito abafado e agudo. Estava certa que havia outra pessoa ali. Forçou a se levantar e foi na direção do grito, mesmo que não suportasse a própria dor. Lúzia demonstrava ser uma pessoa destemida, apesar não conhecer a si própria. Ao chegar na entrada de um dos becos, o qual os gritos estavam se originando, notou um pequeno braço se movendo embaixo de um bocado de corpos. Entrou mancando sem hesitar no estreito e frio beco, puxou duas mulheres mortas pelo braço e encontrou uma pequena criança, com os cabelos da cor do carvão e olhos acinzentados envoltos de lágrimas desesperadoras. Lúzia tentou puxar a menina , a qual não parava de gritar. Os gritos ecoavam por todo o vilarejo fantasma. A menina estava em estado de pânico, e esse estado piorou ainda mais com a presença de Lúzia. Sem saber o que fazer, Lúzia a soltou porém ainda conseguiu ver que a perna da menina fora decepada. Talvez ela chorasse de dor, pensou Lúzia.
– Volte para onde você veio! Monstro! Bruxa! — A criança gritou sem conter o ódio que sentia direcionado a Lúzia. Lúzia a encarou incrédula. Ela não sabia do que a criança falava, porém estava certa que a garota havia chegado a insanidade. Todos morreram, e provavelmente as mulheres que estavam sob a menina eram suas familiares ou coisa do tipo. Lúzia não conteu as lágrimas que rolaram pelo seu rosto pálido, frágil e gélido.
Em seguida, a pobre criança começou a tossir e a tosse foi piorando até que ela começou a tossir o puro sangue . Seus pulmões foram danificados. Em questão de segundos ela estava morta. E Lúzia não conseguira fazer nada para ajudá-la. Tudo parecia tão assustador e doloroso, era como se Lúzia se enchesse vagarosamente de uma culpa quase indescritível. Uma dor imensa a cercava , mas não era somente a dor física, seu coração estava partido, a tristeza estava a sufocando, asfixiando-a.
Depois de uns segundos parada, ela voltou para a rua unitária a qual ventava muito. Lúzia se sentia vencida pela dor e pelo desespero. Aos poucos, sentiu uma forte pressão sobre o seu corpo fatigado. Veio ao chão de forma violenta, sua visão foi escurecendo e aos poucos sentiu o frio envolvendo seu corpo. Preferiu acreditar que o melhor a ser feito era aceitar a morte, não iria mais lutar.
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24/2/ 2014 — Machu Picchu , Peru
A jovem Annabelle Bingham acabara de chegar em Machu Picchu com seus melhores amigos, Brenda Streisand e Frederick Jones. Passara a noite anterior no hotel Swissotel Lima, no Peru. O clima estava agradável naquele verão, todavia chovia em demasia. Ouvia-se em todos os noticiários a respeito das fortes inundações que estavam ocorrendo em todo o mundo. Era uma verdadeira calamidade. As mortes eram incontáveis .
Annabelle ia completar 19 anos em dois dias e aquele era seu presente de aniversário, uma viagem para Machu Picchu com seus melhores amigos. Sempre fora apaixonada pela civilização antiga que lá vivia. Apenas o nome fazia suscitar um desejo forte de conhecer toda a história daquele lugar .
Não devia ser meio dia quando os três jovens começaram a explorar o perímetro. As ruínas encantam qualquer um que pise lá. O império Inca dominava toda aquela área há centenas de anos atrás. Boa parte de Machu Picchu fora reconstruída anos depois, mesmo assim ainda mantém a aparência que deveria ter antes do declínio de todo o império. Todo ano, milhares de turistas aventureiros vão as montanhas atrás de liberdade e contemplação.
A jovem Annabelle tinha planos para aquela viagem, um deles era fazer seus dois melhores amigos ficarem juntos de uma vez. Os três se conheciam desde os quatros anos de idade, e desde então criaram laços inabaláveis. Certa vez Frederick perguntou a Annabelle o que ela sentiria se ele dissesse que gostava dela. Obviamente ela respondeu que só o via como amigo. Frederick riu e disse que na verdade estava apaixonado por Brenda, mas a menina nunca iria se apaixonar por ele , já que ela o considerava como um irmão. Decidida a ajudar o amigo, a jovem Annabelle convidou os dois para essa tão almejada viagem. Os custos não seriam problemas para ela, pois seus pais eram donos de um dos restaurantes mais famosos da França, o Thé l'après-midi. O plano seguia de forma perfeita, ela só precisava dar um momento para os dois. O charme de Machu Picchu a ajudaria. Subiram em uma das grandes estruturas, estavam no topo.
– Hey! Passei a mão no meu bolso para ver se eu não tinha deixado nada cair. E vejam só, deixei justamente a chave do Hotel cair no chão- Disse Anna meio sem jeito pela mentira que havia criado.
– Você não tem jeito mesmo. Anda Brenda, vamos ajudá-la a procurar — Frederick olhou para Anna evitando as risadas. Ele sabia que a amiga era desastrada e a achava charmosa por isso. O vento soprava e o seu cabelo loiro caia em seus olhos firmes e verdes.
– Insisto que fiquem . Sei bem onde caiu, não foi muito longe. Eu pego e volto rapidamente- Anna ainda tentava disfarçar seu tremendo esforço. Passava a mão no cabelo castanho escuro as pressas tentando conter o nervosismo. Seus olhos azuis viravam de um lado para o outro.
– Nós va...
– Vamos ficar aqui te esperando Anna. Volte logo- Interrompeu Brenda. Ela tinha um sorriso lindo, seus cabelos loiros davam a ela um ar mais juvenil . Observou a outra jovem dar a volta e começar a descer de forma ligeira a trilha.
– Você sabia que ela estava mentindo quando disse aquilo, não sabia ?- Frederick repreendeu a amiga com um olhar severo.
– Ah, vamos dar um tempo a ela. De fato ela não sabe mentir.
– O que ela trama?
– Ora, seja paciente. Vamos esperar ela voltar- A amiga sentou no chão, e puxou Frederick para o seu lado. Provavelmente iria conversar sobre assuntos irrelevantes.
Anna sentia-se vitoriosa. Porém ela sabia que mentia muito mal, sempre tropeçava nas palavras e demonstrava o seu nervosismo. Estava caminhando pela trilha de forma vagarosa, nem sabia ela o que a esperava. O começo de toda a tragédia. Era inocente demais, jovem demais. Talvez pudesse ter evitado tudo o que estava por vir, mas esse era o seu destino. Nem vira o homem grande e pedante se aproximando pela trilha a sua frente, estava tão distraída em meios à cogitações banais. Apenas sentiu a forte apunhalada em sua nuca. Veio ao chão rapidamente. O homem grande que fedia a porco a pegou pelos braços e a jogou em uma pick-up que estava preparada justo para sequestrar alguém, e esse alguém infelizmente fora Anna.
25/2/2014 — Machu Picchu , Peru
Annabelle sentia o forte vento batendo sobre o seu corpo frágil, o frio a castigava de forma violenta. Não era cedo da noite quando a jovem começou a despertar de seu sono profundo, havia sonhado com uma calamidade. Sonhou com uma garota chamada Lúzia onde a própria havia acordado em um rio de sangue, havia pessoas que foram assassinadas de forma brutal. Notou que suas mãos estavam presas a algo que lhe parecia uma corda. Tentou movimentar os tornozelos , e esses também estavam presos de uma forma que a fazia sentir dor. Não podia abrir os olhos pois um pano grosso cobria-os juntamente com sua boca. Ela estava presa no compartimento traseiro de uma pick-up . A pobre garota não lembrava de como tinha ido parar ali. Ao movimentar-se na tentativa de se livrar das amarras, um homem grosseirão a segurou pelos pés.
– Dormiu bem Bela Adormecida? — Ele ria e debochava da indefesa garota. No arroubo do momento, puxou-a para si de forma violenta rasgando o vestido vermelho da moça. Arrancou a alça do vestido dela e ficou olhando-a deslumbrado. No instante em que ia começar a tocá-la brutalmente, Annabelle começou a chutá-lo, mesmo sem ver, ela sabia que deveria se defender o máximo que pudesse. Ela não compreendia muito a situação todavia sabia que algo estava muito errado, era nítido que fora vítima de um sequestro. O homem apenas ria — Menina tola, acha que...- Annabelle ouviu um estrondo e mais um, tudo fora muito rápido. Os estrondos pareciam rajadas, rajadas perturbadoras.
Um corpo pesado que fedia a porco caiu ao lado da jovem. Annabelle não sabia o que havia ocorrido. Em seguida, o carro bateu em algo e parou subitamente. A garota ouviu o motor de algo parecido a uma moto, o barulho logo cessou. Passos vagarosos agora estavam se aproximando da pick-up onde Annabelle se encontrava, a garota permanecia imóvel, poderia ser outro sequestrador e manter-se parada era uma forma astuta a se agir naquele situação.
A pessoa abriu a porta do compartimento traseiro onde a moça se encontrava . Retirou dela as cordas, e fez um barulho de desagrado quando viu o tornozelo ferido da garota. Tirou a mordaça de sua boca e a venda de seus olhos. Foi então que ela abriu os olhos cansados.
Annabelle se deparou com um homem que aparentava ter 30 anos, olhos acinzentados e cabelos dourados. Usava um terno negro e luvas brancas. Ele a fitava com um olhar receoso, talvez fosse por pena. Ela estava em uma estrada de terra onde a vegetação ao lado era alta, seguida de uma grande floresta de ambos os lados da via. A moça estava fisicamente e emocionalmente acabada depois de tudo o que houve. E principalmente por não recordar como havia sido sequestrada. Tudo o que lembrava era de estar com seus amigos visitando à Machu Picchu.
– Qual o seu nome, señorita? — O homem começou a perguntar. Enquanto observava Annabelle sair desajeitada da pick-up. Ele possuía um sotaque estranha, talvez fosse inglês pensou a jovem pois o "señorita" havia saído de forma vagarosa e leve.
– Me chamo Annabelle- A garota respondeu de forma seca, não conseguia suportar a dor em seus tornozelos . Colocou de volta alça do vestido — Annabelle Bingham.
– Pois bem Annabelle, como foi parar em tal situação? — O homem parecia sarcástico, como se aquilo tudo fosse algo tedioso e ele quisera implantar graça na situação.
– Não sei.
– Como não sabe?
– Não me lembro de nada, acho que bati a cabeça . Apenas lembro que desci uma trilha nas montanhas de Machu Picchu sozinha. E depois disso acordei naquele carro onde aquele monstro tentou me tocar. — Ao terminar a frase, a jovem Annabelle começou a sentir uma forte pontada na cabeça, sentiu tudo a sua volta girar. Um nome veio em seus pensamentos e esse veio acompanhado a uma frase, frase a tal ela não hesitou em falar em voz alta.- Eu preciso achar o General Maximus- Em seguida correu para dentro da floresta de forma ligeira, queria fugir daquele local o mais rápido possível, estava certa que aquele homem não era um policial local. Estava assustada demais para pensar em algo, e a frase não saia de sua cabeça. Ela nem ao menos sabia porque havia pronunciado em voz alta. O homem por sua vez ficou parado, incrédulo no que acabara de ouvir. Rapidamente a silhueta da garota perdeu-se em meio a floresta. Ele permitiu que ela "fugisse".
– Mas vejam só, esses porcos traidores me trouxeram até a pessoa certa. A queriam só para vocês? — O homem olhou para o motorista morto e o homem que tentara abusar da jovem. Em seguida, puxou do bolso um telefone celular e discou apressadamente os números.
– Chefe? — Perguntou a voz atrás da linha.
– Os miseráveis estavam com a garota certa, Robert. — O homem de cabelos dourados parecia ansioso.
–Como sabe, meu senhor?
– Ela citou o nome do General de 600 anos atrás.
– Maximus, O Grande. O Pérfido- Robert parecia imensamente surpreso — Não pensei que eles estavam sendo verdadeiros quando nos avisaram que acharam a garota.
– Exatamente. Estamos dilapidando tempo. A garota parece muito assustada, sabe-se lá o que os porcos fizeram com ela na noite passada. Ao lembrar do nome do General traidor e dizê-lo em voz alta, ela fugiu .
– Deixou ela escapar? — A voz Robert demonstrava uma grande aflição.
– Claro que não. Ela nos levará até a outra peça, mesmo que não saiba disso. É impossível fugir do próprio destino.
– Você é prova disso, Chefe Mason . Não teria achado a moça se um dos traidores não fosse o seu próprio irmão mais novo. — Robert não escondia o orgulho que sentia do chefe.
– Ensine sua família as regras, caso ela não aprenda a elimine com as próprias mãos– Citou de forma amargurada — Avise a todos para ficarem na cola da moça de cabelos castanhos e vestido vermelho rasgado. Não permitam que algo de ruim ocorra a ela. Mas também não a atrapalhem. A situação é de máxima importância. — Mason agora ria de uma forma descontrolada. Encerrou a ligação sem receber respostas e foi até o corpo do homem pedante e grande que tentara violentar Annabelle, passou a mão pelos olhos do homem. — Descanse em paz, hermano.- Seguiu até sua moto, colocou o capacete e acelerou, seguindo a estrada.
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