One Last Time
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu era uma mentirosa
Cedi ao fogo
Eu deveria ter enfrentado
Pelo menos estou sendo honesta
.
Viktor sentia o ar pesado quando respirava. Cinzas grudavam em seu cabelo claro, suas pernas doíam de tanto correr. Havia decidido, junto com Yura, seguir a pé até onde ficava a área médica e já não via mais o caminhão em que viera na vasta fila de carros engarrafados nas ruas de São Petersburgo.
Eu fodi tudo— Pensava, enquanto forçava suas pernas a correrem mais do que suportavam. Por que aquela maldita farda pesava tanto?
Ele sabia que não seria uma operação pequena, sabia que demoraria semanas, quem sabe meses para voltar para casa, e também sabia que se Yuuri gritara com ele daquele jeito, era porque ele não era o único a saber de tudo isso. Seu namorado estava preocupado e tinha total razão.
O mundo estava um caos, por algum motivo que a astronomia mundial desconhecia, a Terra estava sendo atingida por meteoros, bolas de fogo enormes caindo do céu e destruindo cidades inteiras. A área onde morava era tida como segura e estava sendo usada como refúgio e base para hospitais improvisados para cuidar dos feridos de outras áreas atingidas.
Mas tudo mudou naquele dia.
Pelo que parecia, graças aos meteoros, o eixo e a rotação da Terra tinham sido levemente alterados, mas isso fora o suficiente para fazer com que São Petersburgo entrasse no alvo dos corpos celestes.
Eu não deveria ter deixado o Yuuri lá, não deveria ter discutido com ele, deveria ter ficado ao seu lado e o exército que se fodesse— Sua cabeça pensava em mil coisas, principalmente em seu namorado que conhecera em uma de suas viagens ao Japão, quando o mundo ainda não era um completo caos de fogo, sangue e cinzas. Um tempo depois os dois se encontravam novamente e mais uns meses depois passavam a morar juntos na Rússia, quando Yuuri conseguira uma bolsa para terminar sua faculdade de Medicina e um trabalho fixo no país de Viktor. Infelizmente não podiam se casar, mas estar juntos era mais que o suficiente para os dois.
.
Me sinto um fracasso
Pois eu sei que falhei com você
Eu deveria ter te tratado melhor
Pois você não quer uma mentirosa
.
Yuuri Katsuki era um paramédico que estava escalado para trabalhar nos hospitais montados às pressas, não que ele tivesse opção, já que toda ajuda era praticamente obrigatória em momentos como aquele e ele não teria em paz se ficasse em casa. As coisas já não estavam boas, mas pioraram ainda mais quando Viktor fora chamado para liderar um batalhão em uma área de risco. O homem de cabelos claros era um oficial do exército russo e tinha prestígio suficiente para pedir transferência e ficar em São Petersburgo, mas se não fosse ele, mais ninguém aceitaria aquela tarefa.
Por isso eles discutiram naquele dia.
.
— Você pode ficar aqui em São Petersburgo, Viktor! Por que infernos vai pra uma área de risco? – Yuuri gesticulava e tremia, os olhos enchendo de lágrimas.
— Yuuri, eu sei que está preocupada, mas se eu não for, quem vai?
— Que se foda quem vai! Eu não me importo!
— O Yura está lá.
— Então mandaram ele pra lá? – A notícia de que seu vizinho mais novo que era soldado tinha ido para uma área de risco, fez com que Yuuri ficasse chocado o suficiente para parar de falar e pensar um pouco.
— Sim.
— E você não pode tirar ele de lá? Não sei, ir e depois voltar com ele?
— Eu não sei, Yuuri – Viktor se virou para o espelho, fazendo os últimos ajustes em sua farda.
— Você sabe... por isso não está me encarando, você sabe! Você não pode, não é? Isso é uma porra de uma missão suicida!
— Eu não tenho escolha!
— MENTIRA! VOCÊ TEM! MAS VOCÊ NÃO ESTÁ ME ESCOLHENDO! – As lagrimas já escorriam pelo rosto do moreno – Você nunca me escolheria.
— Yuuri... Não é bem assim...
— Se você quer ir, ENTÃO VÁ!
Antes que Viktor pudesse responder, o outro saíra andando para o quarto, batendo fortemente a porta atrás de si. Quando finalmente voltou a abrir, o russo já não estava mais em casa.
.
Agora Viktor lembrava amargamente daquela discussão, mas ele não estava com tempo para lembrar daquilo no momento.
.
Então, uma última vez
Eu preciso ser
Aquela que te leva para casa
Mais uma vez
Prometo que depois dessa, te deixo partir
.
O russo pegara o primeiro caminhão do exército que levava feridos para São Petersburgo e junto com Yura, um rapaz loiro mais novo e menor que ele, seguiu em direção à cidade da qual nunca deveria ter saído. O mais absurdo era uma parte do exército ter ficado sabendo que São Petersburgo havia virado uma área de risco, mas o resto da população não fazia a menor ideia. A prova disso era que não paravam de chegar carros, ônibus, caminhões com mais e mais pessoas para ficarem ali, na esperança de estarem seguras.
Aquela situação era injusta, mas segundo suas fontes, eles realmente não teriam tempo para evacuar todos os feridos.
Mas ele não estava interessado nisso, ele só pensava em chegar a Yuuri o mais rápido possível.
.
***
.
O moreno esticou as costas quando levantou, tirando as luvas. Elas estavam acabando, mas ele não poderia correr o risco de ter uma pessoa infectada com uma doença e ela se espalhar por causa de um erro de falta de higiene dele. Ao seu lado, Otabek chegava com uma mulher nos braços, colocando numa maca vazia. Otabek nem era médico ou enfermeiro, ou qualquer coisa do tipo, era um professor que decidiu ajudar a cuidar das outras pessoas, já que não havia possibilidade alguma das escolas abrirem com tudo aquilo acontecendo.
Yuuri ia perguntar se ele já tinha comido alguma coisa, quando viu uma figura loira aparecer correndo e pular em seus braços, chorando copiosamente, antes de beijá-lo. Foi então que ouviu alguém gritar seu nome, antes das sirenes começarem a soar.
.
Eu não mereço
Sei que não mereço
Mas fique comigo por um minuto
Juro que farei valer a pena
.
— Viktor? O que faz aqui? O que você e Yura fazem aqui? – Yuuri, como todos naquele lugar, pareciam extremamente confusos com as sirenes, era para aquela área ser um ponto seguro.
— Yuuri... – Viktor se aproximou a passos largos, envolvendo o outro em seus braços, sem se importar com o fato de que ele estava totalmente coberto de sangue de várias pessoas que salvara, ou pelo menos tentara salvar – Me perdoe, eu nunca deveria ter saído do seu lado.
.
Por que você não me perdoa
Pelo menos, temporariamente
Eu sei que foi culpa minha
Deveria ter sido mais cuidadosa
.
— O que está acontecendo? – O japonês parecia realmente confuso com toda aquela situação.
— Aqui virou uma área que vai ser atingida.
— O quê?! Temos que evacuar todo mundo, tirar os feridos, as crianças...
— Não dá tempo – Viktor envolveu o rosto do amado em suas mãos e apoiou sua testa na dele – Eu não sabia nem se daria tempo de chegar aqui.
— Por que raios você voltou se sabia que aqui seria atingido? – Yuuri estava gritando, ou sua voz não daria para ser ouvida com o barulho das pessoas desesperadas e as sirenes.
— Porque eu não sei o que eu faria sem você. Se não for para viver com você, prefiro nem continuar vivo.
.
E eu sei, eu sei, e eu sei
Que você tem tudo
Mas eu tenho nada sem você aqui
.
— Por que você tem que ser tão idiota? E suicida? – As lágrimas de Yuuri corriam pelo seu rosto.
— Por que eu amo você.
— Você acabou de assinar sua sentença de morte vindo pra cá.
— Eu acabei de encontrar o amor da minha vida, vindo aqui.
Yuuri tirou os óculos rachados e passou a mão no rosto para se livrar das lágrimas, antes de Viktor se aproximar e beijá-lo. Tinha gosto de suor, lágrimas e cinzas, mas naquele momento o mundo parecia se resumir a eles e só isso que importava.
Eles teriam agradecido por estarem de olhos fechados quando um meteoro devastou São Petersburgo.
Eu sei que não deveria lutar
Pelo menos estou sendo honesta
Só fique comigo por um minuto
Juro que farei valer a pena
Pois eu não quero ficar sem você
Fale com o autor