One Last Kiss

Quando eu cheguei em casa depois de um dia conturbado conversando com pais e mães de alunos sobre os problemas dos filhos deles o colégio, eu pensei que iria descansar. Não imaginei que assumir a direção de uma escola iria me render tanto trabalho, mas a troca de milhões de páginas de provas para corrigir e atividades a elaborar foi feita por problemas com pais, alunos, cheques... o trabalho era mil vezes pior. As responsabilidades além de serem outras podem me levar a cadeia na menor bobeira.

Sentei no sofá e ela apareceu na porta do quarto. Eu lhe dei um sorriso cansado, mas não era difícil sorrir quando eu voltava para ela. Era brilhante, linda, carinhosa ao mesmo tempo fogosa. Ela me preenchia e me deixou apaixonada na primeira vez que a vi em uma festa de um amigo em comum.

Nossa primeira noite de amor aconteceu no segundo encontro depois de trocarmos telefones e combinarmos ir ao cinema. O cinema não rolou e ficamos em casa, na minha, que posteriormente seria a nossa e fizemos sexo de tantas maneiras até o dia amanhecer. Foi bom já que o outro dia era um feriado. Foi o melhor feriadão da minha vida.

Ela me olhou séria. Não costumava fazer isso e quando fazia eu tinha medo. Viria bomba, eu fizera alguma besteira e ela me encostaria na parede. Seus olhos estavam firmes e quase sem querer meus olhos perceberam a mala em sua mão. Uma pequena sacola de roupas que costumávamos usar quando passávamos o fim de semana fora.

“Estou indo embora” ela disse e atravessou a sala sem olhar para mim. Em segundos, como se em câmera lenta, vi a porta bater e ela desaparecer atrás.

Fiquei atônita com a cena. Não conseguir entender. Não brigamos. Não nos desentendemos por motivo algum, não que eu lembrasse, por que ela havia decidido ir embora? Não me amava mais? Tinha outra pessoa em seu coração? Estava me traindo?

Obvio que eu só pensei besteira. Não conseguia concentração suficiente para me lembrar dos últimos acontecimentos, das últimas brigas e das últimas palavras, pela manhã tudo estava tão normal. Dissemos bom dia e nos beijamos tão apaixonadamente quanto nos últimos seis anos.

Estava enlouquecendo, pois me percebi que a estava perdendo.

Não sei quanto tempo depois me dei conta do que ela havia falado e de que ela havia partido... talvez para sempre. Só sei que me levantei, gritando o nome dela e corri atrás, descendo desesperadamente as escadas do sétimo andar ao térreo, mas não havia mais sinal dela em lugar algum.

Quando cheguei a portaria as lágrimas já dominavam meus olhos e escorriam sem pudores por meu rosto. Eu não mais via a rua claramente e caí no chão chorando desesperada. Perguntava-me se ela tinha realmente desaparecido de minha vida.

Enquanto o porteiro do prédio vinha até mim eu o expulsava desesperadamente bem como aos outros que tentavam se aproximar. Somente depois eu reuni forças suficientes para conseguir levantar e voltar para meu apartamento, longe da curiosidade e da falsa solidariedade de tantos.

Subi as escadas, devagar, me arrastando e desejando ser tragada por cada degrau. Desejava não encontrar ninguém no caminho, massabia que aquela hora raramente as escadas eram utilizadas.

Eu sentei no mesmo sofá do qual assisti-la sair de casa, mas dessa vez deitei e continuei minha sessão de choro incontrolável. Gritava às paredes perguntando o porquê, o que eu fizera para merecer aquilo, mas lógico que as paredes nada poderiam me responder.

Dormi sem me dar conta, cansada. Acordei com o barulho da televisão e levantei com um susto, olhando para o local em que ela costumava sentar, esperando que tudo não tivesse passado de um grande pesadelo, mas no mesmo instante me lembrei que a TV era programada para ligar sempre no mesmo horário, no programa preferido dela. Eu pessoalmente não gostava daquele programa, mas às vezes me deitava em seu colo, enquanto ela assistia quase sem piscar aquela mulher na TV falar e entrevistar pessoas que eu nunca soube quem eram ou foram. Eu gostava de ler ou ouvir música no fone de ouvido enquanto ela afagava carinhosamente meus cabelos.

Aquela era realmente a primeira vez que eu parava para prestar atenção naquilo. Meu choro parara e minha cabeça doía um pouco. Durante o programa eu não pisquei e sem perceber a dor de cabeça havia passado. Quando o programa terminou parecia que era meu botão de choro que havia ligado e eu voltava a chorar e gritar com a almofada na boca por achar que os vizinhos não iriam querer ouvir minhas queixas.

Dormi de cansaço novamente e quando o celular despertou me avisando do novo dia de trabalho eu liguei para a escola avisando que não iria por estar muito doente. Não era de todo mentira, minha cabeça explodia de dor, a menstruação havia chegado e eu estava morrendo com as cólicas. Não iria mesmo conseguir trabalhar.

O dia se passou como um raio e eu fiquei o tempo inteiro no sofá comendo como uma adolescente na fossa e assistindo besteira na televisão, mas era verdade que eu não conseguia pensar em mais nada para fazer.

O horário do programa havia novamente chegado e o canal mudara sem aviso. Eu novamente assisti aquela chatice de quase uma hora e me joguei na cama novamente. Pensando bem, ver aquilo me dava uma sensação estranhamente familiar, era como se ela estivesse ali ou como se fosse aparecer a qualquer minuto, agoniada para ver o programa.

No dia seguinte me sentia melhor, fisicamente apenas, porque meu coração poderia ser catado com pinças, pois havia se quebrado em pedaços bem pequenos. Passei o dia com meu melhor falso sorriso para quem merecia e com mais aspereza do que de costume com quem me irritava.

Quando cheguei em casa estava cansada. Não havia desprogramado a TV ainda e ela ligou no horário de sempre. Sentei-me na frente enquanto tomava um café. O barulho produzido pela TV ecoava por todo o apartamento e aos poucos minha sensação familiar desaparecia como o eco da TV no apartamento em silêncio.

Novamente aquela abobrinha da apresentadora e de entrevistas bestas. Entretanto, nesse dia eu prestei uma pouco mais de atenção. A apresentadora lia mensagens no ar. Mensagens com comentários e com comprimentos para outros pessoas.

Minha mente retumbou. Uma ideia me ocorreu naquele instante e eu corri para pegar meu notebook. Meus dedos corriam ligeiro pelo teclado enquanto eu digitava a mensagem para em seguida roer as unhas de ansiedade.

A cada mensagem lida no ar, a cada intervalo que era dado minha ansiedade aumentava e eu já estava desistindo quando aquela mulher leu o nome de minha amada na TV:

“Diga que eu ainda estou completamente apaixonada por ela.

Diga-lhe que ela é meu grande amor e que não sei como viver sem ela.

Diga que se é isso que ela quer, irei aceitar, mas que em nome de tudo o que vivemos, diga-lhe, por favor, que quero apenas um último beijo.

A.”

A apresentadora havia lido minha mensagem. Ela comentou que era uma bela mensagem de amor desesperado, talvez pó isso, uma bela mensagem. Eu sentia as lágrimas quentes escorrerem por meu rosto. Estava feito. Só me restava esperar pelo que ela faria então.

Esperei telefone. Esperei e-mail. Esperei SMS. Esperei que tocasse a companhia. Esperei e esperei... em vão.

Nenhuma mensagem ou sinal de que ela vira ou se comovera com o meu desespero. Ela devia estar muito longe. Devia estar com raiva. Devia estar realmente magoada. Eu apenas não sabia mais como lidar com aquilo.

Uma semana depois eu já tinha desprogramado a TV e ignorado-a quase por completo. Às vezes apenas me pegava olhando para o sofá, lembrando de como ela pulava para lá quando o programa começava e parecia hipnotizada até seu fim.

Uma semana havia se passado e eu ainda sentia o vácuo que tentava me derrubar quando abria a porta e sabia que não havia ninguém lá dentro. Não sabia por quanto tempo mais me sentiria assim. Continuava com a leve esperança de que ela voltaria, mas não me iludia. Ela simplesmente se fora.

Uma semana havia se passado quando eu levantei para atender a porta.

Ela estava ali parada em minha frente. Não tive reação. Pensei mil coisas ao mesmo tempo, senti felicidade, mas algo em meu coração me dizia que ela não estava de volta.

Ela tocou meu rosto e beijou-me. Um beijo quente, doce e profundo. Em seguida virou-se e foi embora do mesmo jeito que antes.

Eu tivera meu desejo atendido e ela voltara para um último beijo.

Por um breve momento, não sabia se aquilo significava que ela ainda sentia algo por mim, ou se era apenas por consideração ao tempo que passamos juntos, mas sabia que aquelas dúvidas seriam somente minhas... para sempre.

Eu apenas entendi que ela me disse sem nada dizer que aquele era o verdadeiro fim. E que eu deveria seguir em frente... sem ela.

FIM

Notas finais
Obrigada por Ler!!

Reviews serão sempre bem vindas.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!