Notas iniciais
Bem-vindos! ♥ Há muito eu penso em escrever algo como um pequeno conto para o Halloween, e estou muito feliz por finalmente estar tendo essa oportunidade! Nunca escrevi nada assim e embora esteja um pouco nervosa com as impressões que podem vir dessa história, estou contente com ela por enquanto e espero que os agrade igualmente! ^^ Deixe-me a sua opinião nos comentários abaixo! No mais, boa leitura! ♥ ♥

KYLE Drake odeia o Halloween. Mas não pelos mesmos motivos que algumas pessoas odeiam; como pirralhos melequentos em fantasias caseiras batendo ás portas da vizinhança esmolando doces como fazem mendigos por trocados na sarjeta. Farras barulhentas reverberando até o amanhecer e perturbando o descanso noturno dos mais velhos.

Quisera Kyle odiar o feriado apenas por razões irritantes e fúteis como essas, pois pensava que se assim fosse, talvez significasse que ele era tão normal quanto a maioria das pessoas. E para um garoto com dons sobrenaturais, "normal" era o maior dos elogios.

Poltergeists, espectros, almas nômades, entidades malignas e mais um infinidade de monstros perambulavam até onde a vista alcançava. Por isso Kyle odiava o Halloween. Era como se alguém tivesse aberto os portões do inferno na Terra e esquecido as chaves em qualquer lugar.

Era no mínimo reconfortante para Kyle que só precisasse lidar com as bestas demoníacas uma única vez ao ano. A infestação paranormal só acontecia todo dia 31 de Outubro, por motivos tão desconhecidos a Kyle quanto os de seus pais para terem abandoná-lo quando criança. O orfanato Elias Dawson tem sido seu lar desde quando conseguia se lembrar. Mas aos 16 anos, idade em que ser adotado era tão estranho quanto improvável, Kyle duvidada seriamente que lhe restasse qualquer chance de algum dia ter uma casa que não fosse o muquifo sombrio no subúrbio da Geórgia, Estados Unidos.

E embora desgostosamente contentado com um futuro tão deprimente quanto seu presente, isso não tornava mais fácil aceitá-lo. A fuga ainda era uma lancinante tentação, e não havia um único dia que Kyle se deitasse sem pensar em como a executaria. Mas as probabilidades de escape não eram muito animadoras. Dawson estava mais para uma prisão do que para um orfanato; e Kyle já ouvira histórias de tentativas de fuga que terminaram com cadáveres torrados, pendurados de cabeça para baixo na grade elétrica que cerca a propriedade. Porém, o fracasso de alguns desafortunados ainda não foi o suficiente para fazer Kyle desistir completamente da ideia de deixar Dawson para sempre. Fugiria, ou tal como os órfãos eletrocutados, morreria tentando; pois sabia que a morte seria infinitamente melhor que a vida em Dawson.

Kyle matutava sua ambição secreta enquanto assistia pela janela do dormitório masculino, um grupo de crianças fantasmas brincarem de pique-esconde na calçada da mansão. Um demônio fazia-lhe companhia em silêncio no cômodo cinzento, arranhando debilmente o forro rasgado da parede com as garras compridas. O som irritava Kyle, mas àquele ponto já cansara de mandar a besta parar quando ela só fazia ignorá-lo.

Kyle teve seu estado absorto interrompido por passos apressados aproximando-se da porta deixada aberta. Virou-se a tempo de ver Dennis Campbell parar todo sorrisos ao batente. O menino tinha as roupas manchadas de tinta guache e trazia nas mãos uma cabeça de abóbora com sorriso e olhos mal feitos.

— Vamos decorar o jardim dos fundos, Kyle? — convidou empolgado, balançando inquieto as perninhas gorduchas.

Dennis era o único garoto no Dawson que não parecia ter medo de falar com Kyle, por razões que nem o próprio compreendia. Não se lembrava ao certo como ou quando se tornaram amigos, mas era fato que o pequeno de 12 anos, surpreendentemente para Kyle, parecia mesmo gostar dele. Venerava-o como a um irmão mais velho, e Kyle de alguma forma acostumara-se ao carinho incomum.

Kyle deu um sorrisinho quase imperceptível de tão sutil e consentiu com a cabeça, sabendo que ou cedia, ou Dennis o encheria até que o fizesse. O menino deu pulinhos de alegria e disparou pelo corredor com Kyle no seu encalço.

A atividade paranormal continuava intensa pelo resto da mansão. Kyle foi atravessado por fantasmas barulhentos esbarrando uns nos outros a caminho das escadas para o piso térreo; súcubos desfilavam nuas pelo salão principal, lançando sorrisinhos maliciosos e gestos obscenos ao passarem por Kyle. Demônios alados se enroscavam nalguma espécie de brincadeira no lustre ornamentado do teto, grunhindo estridentemente. Já do lado de fora do casarão em ruínas, lobisomens perseguiam esqueletos andantes pelo gramado raso.

Era uma algazarra infernal aonde quer que olhasse.

Kyle abaixou os olhos para Dennis correndo animado à sua frente, e invejou-o de todo o coração. Diferentemente dele, nem Dennis nem qualquer outro em Dawson (ou no mundo) tinham olhos amaldiçoados como os seus. O pandemônio só era visto por Kyle... ou assim achava. Afinal, os enfermeiros do orfanato o drogavam tanto diariamente que Kyle não se surpreenderia se as criaturas sobrenaturais rodopiando ao redor fossem apenas alucinações. Na maior parte do tempo, o garoto preferia esta opção.

Dennis e Kyle sentaram-se lado a lado numa das mesas de madeira apodrecida espalhadas pelo vasto jardim morto atrás da mansão, e recortaram morcegos de papel seda preto.

Dennis tagarelava aos ventos sobre suas ideias para a fantasia do baile de Halloween daquela noite quando Kyle avistou, isolada do restante dos órfãos circulando pelo jardim, seu único sinônimo de alegria naquela espelunca esquecida por Deus. Anne-Marie Bailey desenhava numa sulfite amassada enquanto cantarolava alguma cantiga infantil. A bela garota esquizofrênica contrastava gritantemente com o cenário mórbido do Dawson. Parecia saída de um filme de romance de época: branca feito leite; rosto sardento de traços graciosos; grandes olhos negros e cabelo loiro pálido, aparado na altura do queixo redondinho.

Se havia algo que Kyle sabia que nunca se cansaria de fazer, era admirar Anne-Marie. Gostava dela mesmo sem já terem trocado uma palavra. A garota nunca parecera notá-lo; mas na maior do tempo, não era como se prestasse muita atenção em qualquer coisa. E Kyle não se importava. Contentava-se com o amor platônico... por enquanto.

Anne-Marie gritou um resmungo quando Terry Carlson passou correndo e lhe arrancou a folha das mãos. Ela o perseguiu aos tropeços pelo jardim enquanto ele ria de seus esforços inúteis. Três garotos que assistiam de longe se juntaram a ele e a cercaram pelos lados. Eles a empurraram entre si até que Anne-Marie foi ao chão com um baque seco, espetando a perna desnuda num pedaço de galho pontudo. Ela arfou de dor e chorou baixinho, enquanto os moleques dobraram-se sobre os joelhos de tanto rir. Aproveitando-se covardemente da vulnerabilidade da menina, Terry ainda agachou-se sobre ela e enfiou os dedos pelo interior de sua saia, gargalhando perverso enquanto ela se agitava incomodada sob seu corpo imenso.

Kyle levantou-se num átimo, bufando de raiva. Tinha visto o bastante. Não o importou as consequências da atitude que estava prestes a tomar. Quer terminasse o dia na maca da enfermaria ou não, Terry e os outros não sairiam impunes. Eles fizeram Anne-Marie sangrar, e Kyle retribuiria da mesma forma.

Marchou furioso até o grupo amontoado sobre a garota e afastou Terry dela com um chute no peito. O valentão rolou para trás e os demais reagiram, ameaçando Kyle com os punhos cerrados. Pressentindo a briga, alguns órfãos formaram uma roda, incitando-os com gritos. Dennis espremia-se entre a multidão, pedindo sem fôlego a Kyle que parasse.

Apesar de sua desvantagem em relação ao grupo, Kyle resistiu quando eles o atacaram em conjunto. Acertaram-o no estômago, queixo, virilha, costas... de novo e de novo.

O jardim girava ao seu redor enquanto lutava para se manter sobre suas pernas trêmulas e ainda acertar algum dos garotos.

O bando de órfãos ao redor repentinamente se dispersou quando o diretor do orfanato surgiu, berrando qualquer coisa que Kyle estava fraco demais para ouvir. Assistentes em uniformes brancos separaram os meninos à força e os jogaram para direções opostas. Terry e os outros ainda lhe juraram ameaças ás suas costas conforme Kyle era levado, mas sua atenção estava em outro ponto do jardim. Viu uma dupla de enfermeiros erguer Anne-Marie bruscamente do chão e a arrastarem para dentro da mansão. O desenho dela jazia sujo e amarrotado na grama, e Kyle sentiu o peito apertar quando reconheceu seu próprio rosto no papel.

...

Eles não levaram Kyle para a enfermaria; sequer passaram perto. O garoto tinha sangue nas roupas, o rosto enorme de inchado e pelo menos dois membros descolados e mais um quebrado, mas o diretor o mandou direto para o que os órfãos do Dawson pejorativamente apelidaram de "A Caixa": um quadrado minúsculo e totalmente lacrado no subsolo da mansão.

Demônios invisíveis na escuridão caçoaram baixo quando Kyle foi empurrado para dentro e deu com a cara no concreto gelado fedendo a urina. Seu corpo todo doía tanto que queria gritar.

Alguns babacas arruaceiros machucaram sem motivo uma garota esquizofrênica, e Kyle que era mandado para o castigo quando só fez tentar defendê-la?

Mas a punição injusta ainda não o frustrava tanto quanto seu fracasso ridículo. Anne-Marie não teve sua honra vingada e Kyle acabou com o ego ferido e o nariz sangrando, enquanto que Terry e os outros só foram mandados para a cama sem jantar.

Kyle extravasou sua fúria esmurrando o chão úmido. Deixou-se de bruços ali até que ficou cansado demais para continuar acordado.

Kyle não soube quanto depois acordou, mas imaginou que não devia ser tão tarde pois ainda ouvia a festa de Halloween da mansão. Encostou-se num canto qualquer da cela escura, ignorando os vários pares de olhos vermelhos observando-o com interesse. Pensou em Dennis no salão acima e imaginou-o numa fantasia de tiranossauro improvisada com suéteres velhos, dançando desajeitado enquanto enchia a boca de doces.

Torceu para que Anne-Marie também estivesse bem, e que à essa altura já tivesse superado o episódio de hoje à tarde. Se não fosse por ele, talvez poderiam ter ido à festa juntos; Kyle teria gostado de dançar com ela... depois levado-a para os jardins escuros, onde a colocaria contra o tronco de uma árvore e beijaria sua boca pequena enquanto tocava os seios delicados e os sentia endurecer em suas mãos...

Sua fantasia foi abruptamente interrompida pelo som do que pareceu uma marreta contra a parede da Caixa, do lado de fora. Kyle esperou curioso, e pulou assustado quando um momento depois houve outra investida; e mais outra... e então outra... até que rachaduras começaram a se abrir no concreto.

Desacreditado de seus próprios olhos, Kyle assistiu num pânico mudo quando, com mais algumas marretadas, a parede foi arrombada numa explosão de poeira e lascas de pedra. Kyle protegeu os olhos com o braço e então os levantou, arregalados, para seu invasor.

Um morto-vivo num macacão de borracheiro todo esfarrapado e imundo, sorriu-lhe com dentes podres e arrastou consigo para dentro da Caixa uma marreta que tinha quase a sua altura.

— KYLE DRAKE! — gritou animado, como se Kyle fosse um amigo de longa data que ele há muito não vê. — Eis o filho da puta da vez...!

Notas finais
Créditos da capa: Gustavo Henrique Copetti (https://www.artstation.com/ghxd811) Edição: JadeRachid (https://www.spiritfanfiction.com/perfil/jadegenkai)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.