Onde o Sol e a Sombra se Encontram
3 Capítulo 3: A Memória da Pele
A chuva começou a tamborilar no telhado de pedra do posto avançado, criando uma redoma de isolamento entre eles e o resto do mundo. Dentro da cabana, o calor do chakra de Naruto era a única fonte de luz constante. Sasuke estava sentado, as costas apoiadas na parede fria, enquanto Naruto terminava de enfaixar seu ombro com uma delicadeza que contrastava com a força bruta que usara horas antes.
Quando o último nó foi feito, Naruto não se afastou. Suas mãos permaneceram sobre os ombros de Sasuke, os dedos sentindo a textura da pele pálida sob a luz alaranjada. O silêncio não era mais carregado de fúria, mas de uma expectativa que fazia o ar parecer denso, difícil de respirar.
— Você sempre foi tão quente — sussurrou Sasuke, a voz quase sumindo no barulho da chuva. Ele inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos quando sentiu os dedos de Naruto subirem para sua nuca, acariciando os fios escuros de seu cabelo.
Naruto se aproximou, eliminando o espaço que restava. Não houve hesitação desta vez. O primeiro toque dos lábios foi exploratório, um reconhecimento de território que ambos conheciam de cor, mas que nunca haviam se permitido reivindicar. Tinha gosto de sal e de anos de saudade acumulada.
A sensualidade daquela noite não estava na pressa, mas no descobrimento. Naruto mapeou cada cicatriz do corpo de Sasuke com as pontas dos dedos e com beijos suaves, como se pedisse desculpas por cada batalha que não puderam lutar lado a lado. Sasuke, por sua vez, perdeu-se na imensidão azul do olhar de Naruto, que agora não o olhava como o Hokage ou como o herói, mas como o garoto que nunca desistiu dele.
Eles se amaram sob o som da tempestade, uma dança de sombras e toques que curavam feridas muito mais profundas que as da pele. Foi um encontro de almas que, por algumas horas, não pertenciam a nenhum clã ou nação. Pertenciam apenas um ao outro.
Quando os primeiros raios de sol atravessaram as frestas da porta de madeira, a realidade voltou como um balde de água fria. Naruto se vestia em silêncio, sentindo o peso da aliança de ouro na mesa ao lado — ele a retirara durante a noite e agora relutava em colocá-la de volta.
Sasuke permanecia deitado, observando-o com uma calma melancólica.
— Você precisa ir — disse o Uchiha. — O Sétimo não pode sumir por uma noite inteira sem dar explicações.
Naruto assentiu, sentindo um aperto no coração ao ver Sasuke naquele esconderijo, sozinho novamente.
— Eu volto. Eu prometo. Fique aqui, se recupere.
Ao cruzar os portões de Konoha, Naruto já tinha a máscara no lugar. Seus olhos estavam vermelhos pelo cansaço, o que ajudava na sua mentira. Shikamaru e um esquadrão de elite o interceptaram logo na entrada.
— Naruto! Onde você estava? — Shikamaru perguntou, a expressão severa escondendo a preocupação. — Você saiu sem escolta, sem aviso...
— Eu senti uma oscilação de chakra estranha perto da fronteira — Naruto mentiu, a voz firme e profissional, embora sua alma gritasse o contrário. — Achei que fosse um resquício de algum jutsu de espaço-tempo inimigo. Fui verificar pessoalmente para não causar pânico desnecessário. Não era nada, apenas uma flutuação natural da barreira.
Shikamaru o estudou por um longo segundo, os olhos estreitos. Ele sabia que Naruto estava escondendo algo, mas o cansaço no rosto do amigo era real o suficiente para que ele recuasse, por enquanto.
— Vá para casa, Naruto. Hinata está acordada desde as quatro da manhã esperando por notícias.
Naruto caminhou pelas ruas da vila que ele jurou proteger, mas cada sorriso que recebia dos aldeões parecia uma pontada de culpa. Ele estava de volta ao teatro, mas agora, ele conhecia o sabor da verdade.
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