Onde eu quero estar
1 Capítulo Único
As coisas andam monótonas demais, sempre faço a mesma coisa repetidas vezes... Perdi a noção de quando isso começou.
Levantei sonolento naquele dia, resmungando pela escuridão daquele quarto enquanto caminhava para o banheiro para fazer minha higiene pessoal. Em seguida voltando e trocando de roupa, vestindo a mesma roupa social de sempre antes de ir para a cozinha preparar o café da manhã. Fazia torradas com geleia e um bule cheio de café, como de costume, antes de calçar meus sapatos e sair de minha casa.
Sempre a mesma coisa. Muitos teriam surtado no meu lugar, no entanto, nem eu mesmo sei o motivo de ainda me levantar com o mínimo de motivação todos os dias, trabalhar duro em frente à tela do computador configurando sistemas de banco de dados e criando algoritmos.
Ao sair de casa, caminho pelas calçadas sempre movimentadas de Madureira, rumo ao ponto de ônibus mais próximo para esperar pela condução que me levaria ao Leblon. Esta que estaria provavelmente cheia por causa do conhecido horário do rush brasileiro, o que me obrigava a compartilhar sensações e odores nem um pouco agradáveis que apenas cooperavam para que meu mal humor matinal piorasse.
Felizmente o ônibus me deixava em frente ao edifício onde trabalhava. Lá, passava pela entrada com a minha expressão natural de poucos amigos e cumprimentando poucas pessoas, rumando para o elevador o mais rápido possível. Chegar na minha sala o quanto antes é uma sensação maravilhosa. No entanto, naquele dia fui parado no meio do caminho pelo meu chefe, Erwin Smith, que me perguntava sobre coisas banais enquanto caminhávamos rumo às nossas salas e nossas ocupações. Não que eu não gostasse de conversar com o loiro, mas naquele dia em específico não estava com tanta paciência para discutir sobre como andava a bolsa de valores ou em como iria me dirigir aos meus subordinados para lhes dar ordens daquela vez.
Assim que nos despedimos, entrei imediadamente na minha sala e me aconcheguei sobre minha espaçosa e confortável cadeira giratória, suspirei profundamente e liguei o computador. Enquanto esperava, chequei o celular, talvez tivesse recebido alguma mensagem no meio do caminho.
Quando o mesmo terminou de inicializar, rapidamente peguei sobre a gaveta de minha mesa o pendrive que geralmente usava para o trabalho, plugando-o antes de qualquer coisa. Em seguida, abrindo planilhas e mais planilhas sobre os devidos ajustes que deveria fazer no banco de dados da empresa, adicionando ou excluindo coisas. Até mesmo uma proposta de aperfeiçoamento do sistema estava programada naquelas planilhas, o que acabaria caindo sobre minhas costas, para meu azar.
No meio da manhã, comecei a receber pessoas que estariam interessadas nas três vagas de estagiário que Erwin havia aberto na semana anterior. O que, inicialmente, não foi um problema, visto que os primeiros candidatos respondiam e agiam bem durante a entrevista de emprego, tornando-a até agradável algumas vezes, como uma conversa simples entre dois amigos que se conheciam há muito tempo. O problema foi que, depois de cerca de onze candidatos, começou a entrar algumas pessoas extremamente estranhas, algumas que haviam até mesmo ultrapassado a idade para o estágio. O que se tornava uma verdadeira dor de cabeça para mim, visto que deveria explicar para cada uma delas todos os procedimentos para que possa vir a contratar um estagiário. Às vezes, era até mesmo obrigado a mostrar a cartilha do estagiário para que eles acreditassem em minhas palavras.
O horário de almoço, que imaginava que seria tranquilo, na verdade foi extremamente estressante. Fui ao andar onde ficava o refeitório, encontrando Hanji Zoe, uma colega de trabalho e amiga de infância, que tagarelava sem parar sobre assuntos indecentes e completamente inapropriados para o horário.
Após o almoço as entrevistas continuaram até o meio da tarde, onde precisei analisar cada currículo que me foi enviado e levar em consideração cada anotação que havia feito no decorrer de cada uma. Perdi as contas de quantos simplesmente amassei e joguei na lixeira ao meu lado, restando apenas três ou quatro intactos sobre a minha mesa. Gostaria muito de que aquilo terminasse ali, mas sabia que o resto de minha semana seria ocupada por candidatos àquelas vagas, o que me irritava profundamente.
Logo depois de guardar todos os currículos olhei para o relógio, vendo que ainda tinha tempo para adiantar o trabalho que estava pendente. Logo, abri as planilhas e comecei a adicionar ao sistema os itens que ali eram pedidos. Digitava com tanta rapidez que com certeza me arrependeria no final do dia, visto que provavelmente sentiria dores nos braços e na nuca, talvez. Em seguida, comecei a deletar do sistema os itens que também eram pedidos, mas não consegui terminar, pois ao olhar para o relógio do computador vi que meu turno havia finalmente terminado.
Salvei tudo o que havia feito antes de me retirar, passando direto pelas pessoas que também iriam para casa no mesmo horário que eu. A única coisa que eu queria naquele momento era voltar para casa. No entanto, sabia que mais trabalho estaria me esperando quando voltasse, por exemplo, a arrumação diária e o jantar, fora a louça que deveria lavar e a roupa que estava cumulando no cesto do banheiro. Apenas pensar nisso me deixava mais tenso do que já estava.
Peguei o ônibus do outro lado do quarteirão, aproveitando-me de minha estatura não privilegiada para me esgueirar pelas demais pessoas e conseguir um lugar totalmente desconfortável no fundo do ônibus, que era conduzido a uma velocidade rápida demais para que meus braços cansados conseguissem me segurar a cada curva brusca que o mesmo fazia, ocasionando em várias quedas sobre o chão e esbarrões em pessoas muito mais altas que eu.
Para completar, o motorista não ouvia o barulho da sineta que havia puxado, deixando-me em frente ao shopping de Madureira, dois pontos depois de onde deveria ter ficado, obrigando-me a caminhar uma longa distância até chegar no prédio onde morava, este que não possuía elevadores. Subi os degraus que precisava para chegar em casa aos poucos, sentindo dores nos pés pelo longo caminho até aquele local.
Quando finalmente cheguei e tentei abri a porta, estranhei o fato de estar aberta. Até mesmo olhei para os lados, franzindo ainda mais o cenho antes de a abrir e um cheiro extremamente convidativo vindo da cozinha atingir minhas narinas, seguido por uma voz que cantava uma música japonesa de uma banda antiga. Aquilo me fez suspirar profundamente antes de tirar os sapatos e caminhar na direção da mesma, afrouxando a gravata no meio do caminho.
A visão que tive não conseguiu me surpreender menos. Um adolescente vestindo um moletom azul estava cozinhando em meu fogão elétrico, completamente distraído do mundo ao seu redor enquanto cantarolava a música que ouvia nos fones de ouvido. As esmeraldinas estavam fixas no que fazia, ora concentradas na cebola que picava, ora ocupadas em checar de o feijão já estava no ponto.
Suspirei pesadamente, encostando-me sobre a parede e cruzando os braços enquanto me permitia fitá-lo por mais tempo. Para meu azar, não durou muito, visto que o garoto percebeu minha presença quando se virou para pegar um tempero qualquer, abrindo um belo sorriso na minha direção e tirando ambos os fones, puxando o celular do bolso do moletom e se aproximando de mim em passos rápidos.
- Levi! Não te vi chegando! — exclamou ainda com aquele sorriso que eu adorava. — Saí mais cedo do trabalho e você não 'tava em casa, fui fazendo a janta enquanto isso.
Voltei os olhos para o fogão atrás dele, vendo a quantidade de panelas ali em cima e imaginando a variedade de coisas que ele não havia feito. Aquilo de certa forma me deixava feliz.
- Deve ter saído muito cedo 'pra fazer isso tudo. — comentei, desabotoando os primeiros botões da minha camisa enquanto caminhava de volta para a sala para me sentar um pouco.
- Nem tanto. Sabe que gosto de cozinhar. — respondeu, voltando para o fogão e terminando de aprontar as coisas.
Aproveitei aquele momento para descansar um pouco antes de jantar. Sentando-me o mais confortável possível sobre meu sofá espaçoso, fechando os olhos e sentindo o peso do cansaço sobre o meu corpo.
- Vem jantar Levi! — O garoto chamou, mas não me levantei.
- Já vou... — respondi sem ânimo, crispando os lábios.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei assim, mas cerca de alguns minutos depois senti dois braços envolverem meu pescoço em um abraço. Abri os olhos com isso, recebendo um beijo do garoto no pescoço antes do mesmo apoiar o queixo sobre meu ombro direito.
- 'Tá cansado, né? — perguntou e não respondi. Acho que ele deve ter entendido mesmo assim, visto que se levantou e apoiou ambas as mãos sobre meus ombros, apertando-os levemente.
- O que você tá fazendo, Eren? — quis saber, abrindo os olhos e voltando-os para ele, que sorriu cordial para mim.
- Você 'tá tenso 'pra caramba! — disse, continuando a apertar meus músculos na região dos ombros e costas. Acabei fechando os olhos quando suas mãos tocaram em um local onde estava sentindo certo desconforto. — É bom relaxar um pouco.
Resolvi não contrariar e deixá-lo fazer isso, afinal, Eren estava conseguindo me deixar mais relaxado apenas com aquilo. Na verdade, havia me esquecido por completo do garoto por conta do constante estresse no trabalho.
Soltei um gemido involuntário quando suas mãos conseguiram desatar um outro nó de meus músculos, o que apenas fez com que apoiasse melhor as costas sobre o sofá e suspirasse mais relaxadamente. Não que ele fosse um excelente massagista, mas gostava quando me dava essa atenção especial. Nunca admitiria isso em voz alta, mas espero que consiga demonstrar o suficiente o quanto isso me agrada. Não apenas a massagem, mas todo o contexto em si. Saber que vou chegar em casa e ser recebido por uma pessoa em especial faz com que todo o resto do dia tenha valido a pena.
No entanto, sabia que essa era uma exceção apenas para aquele dia em que Eren havia sido liberado mais cedo. Mas, mesmo assim, era bom demais.
Levantei uma das mãos, acariciando seu braço até chegar próximo ao seu rosto. Ele pareceu ter entendido, já que abaixou o corpo até deixar o rosto próximo ao meu. Voltei-me para Eren com os olhos abertos, descendo a mão para acariciar-lhe a face antes de depositar um beijo sobre sua bochecha. Sorri de canto ao perceber como ficou ruborizado com aquilo.
Ah... No fim das contas, eu não queria voltar para casa. Queria voltar para os braços daquele garoto, que agora me abraçava e balançava meu corpo de um lado para o outro em um ritmo lento. É ali onde eu quero estar.
Notas finais
Essa foi uma ideia que surgiu de repente enquanto eu pensava se alguém já havia criado algo que retratasse o dia a dia de um técnico em informática. E como eu sou uma e entendo perfeitamente o quão estressante pode ser, resolvi criar essa oneshot rs'
Espero que tenham gostado.
Chibikissus =*
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