Parte Um

Existe, fora da literatura, aquela coisa de “falha fatal”, a nítida fenda escura que se estende e racha uma vida ao meio? Eu costumava achar que não. Agora acho que sim. E penso que a minha é assim: a ânsia mórbida pelo pitoresco, custe o que custar.

A moi. L’histoire d’une de mes folies.”

A História Secreta, Donna Tartt

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O salão comunal da Sonserina permanecera vazio por vários dias desde que Hermione havia chegado ao colégio.

Aquela era uma perspectiva diferente de Hogwarts. Hermione estava acostumada a estar sempre acompanhada dos amigos e quase sempre em lugares onde predominavam o vermelho e dourado da Grifinória, fosse por conta da decoração do salão principal ou das vestes de seus colegas. Aquelas cores a acompanharam por seis anos, sacabando por serem associadas ao calor da lareira e ao aconchego das poltronas.

O salão comunal da Sonserina evocava sensações completamente diferentes. Tudo era escuro e frio, iluminado por velas e pela luz fraca que conseguia atravessar o lago e os vitrais nas janelas, tingido o local em diferentes tons de verde que faziam parecer que Hermione estava outra vez na morada dos sereianos. E tudo estava vazio. Silencioso. O único barulho era o do gelo na superfície do lago, metros acima, estalando no meio da noite e emitindo sons quase fantasmagóricos.

A solidão, exacerbada pela provável falta de senso de conforto por parte Salazar Slytherin na construção do salão, se mostrou uma boa companhia para Hermione naqueles primeiros dias. Ela ainda não havia se acostumado com aquele tempo e sofria com dores de cabeça e insônia por conta da viagem. Os dias sozinha haviam sido essenciais para que ela revisasse as suas muitas opções de ação para que as coisas andassem mais rápido, além de, claro, superar o susto de ouvir o Chapéu Seletor anunciar a sua nova casa.

A ideia havia sido do professor Dumbledore. Era um segundo plano, algo para ser colocado em prática caso a missão de Harry se tornasse impossível, porém Hermione havia ficado afobada. Ela juntou todas as informações que poderiam ser úteis a Harry e Ron: sobre as horcruxes, sobre magia negra, sobre possíveis locais para se esconder, feitiços úteis, nomes falsos, tudo. Ela lhes forneceu todas as ferramentas que podia para a busca pelas horcruxes e então juntou as próprias coisas.

Agora, parada no meio do salão comunal da Sonserina, esperando pela volta dos alunos do feriado de fim do ano, Hermione se sentia tola. Se a busca pelas horcruxes era quase impossível, a sua missão não passava de uma ilusão ridícula. Viajar no tempo e impedir Voldemort de existir era uma ideia terrível e boba, realmente uma última opção, o desespero sendo colocado em prática. Foi o que Dumbledore havia lhe falado, mas ela havia decidido ignorar aquela parte das instruções e se jogar de cabeça naquela missão. O medo de não encontrar as horcruxes, de pensar em comensais da morte encontrando os seus pais e de imaginar os seus amigos sendo mortos a fez agir.

O silêncio dos últimos dias a fez pensar melhor no que havia feito e no que faria. As ordens de Dumbledore eram claras e a mandavam para a década de quarenta. Ir para Hogwarts parecia a melhor opção, afinal, era ali que o jovem Tom Riddle estudava. Havia várias formas de executar a tarefa do professor, algumas mais rápidas e outras mais dignas, mas Hermione havia decidido escolher o seu curso de ação uma vez que conhecesse a peça com a qual teria que trabalhar. De qualquer forma, ela teria que ganhar a confiança de Riddle, fosse para persuadi-lo a não ser uma pessoa horrível ou matá-lo.

Quando a porta da masmorra se abriu e os primeiros alunos entraram, Hermione endireitou as costas, sentando-se reta na poltrona ao lado da lareira. Ela acompanhou os grupos de sonserinos que entravam conversando sobre o feriado e lhe lançavam olhares confusos, não a reconhecendo de nenhum lugar. Tentou se lembrar de como se sentiu quando esperava pelos botes na beira do Lago Negro, ainda no primeiro ano, mas o frio na barriga que havia sentido naquela noite era completamente diferente do que sentia agora.

Uma garota fixou o olhar nela e sorriu, andando na sua direção como se a conhecesse. Hermione espalmou as mãos sobre as pernas para evitar de sentir o suor nas palmas. Quando a sonserina a alcançou, sorrindo e com as bochechas vermelhas por conta do tempo frio, ela falou:

“Você é a menina nova?”

Hermione concordou com a cabeça. A garota ergueu uma mão para tentar ajeitar os fios negros que escapavam de seu penteado, antes de empurrar o óculos de lentes grossas para cima do nariz.

“Sou Dorea Black,” ela falou e Hermione se levantou em uma tentativa de não parecer grosseira. Sem perceber, notou o quão bem feita era a capa que a sonserina usava e como o broche pendurado nesta parecia caro. Ela se vestia como uma Black, mas os olhos gentis e o jeito quase desajeitado não condiziam com o que a bruxa havia conhecido a partir de Sirius ou do retrato da Sra. Black. “O professor Slughorn nos avisou… Hermione, é isso?”

“Hermione Sergeant,” ela respondeu e estranhou o nome diferente que saiu de sua boca. “Você é monitora?”

“É um prazer, Hermione,” disse Dorea, segurando as mãos na frente do corpo e se virando rapidamente para olhar os alunos que chegavam. “Não, mas sou do sexto ano também. Vamos ficar no mesmo dormitório. Vai ser bom, estávamos com uma cama vazia de qualquer jeito-”

Black se interrompeu e ergueu a mão, acenando para alguém no meio dos alunos que se aglomeravam nos pés das escadas que levavam aos dormitórios. Dentre capas escuras e chapéus de inverno, outra garota apareceu, olhando na direção delas e usando os ombros para abrir espaço entre os colegas.

“Inclusive, tenho vários primos em Hogwarts, caso precise de ajuda para algo,” Dorea continuou falando, voltando-se para Hermione. “Walburga está no quinto ano e Orion, no quarto, mas Alphard é do nosso ano e também é o monitor da casa.”

A sonserina que havia sido chamada por Black conseguiu chegar aos sofás em frente a lareira. Perto das roupas de Dorea, o casaco e as luvas de lã que a garota usava pareciam ter saído direto de um livro de Charles Dickens. Ela não era mais alta que Hermione, porém mantinha uma postura tão reta que parecia ser maior do que realmente era. Os cabelos escuros estavam meio presos e os cachos não eram tão definidos ou brilhantes de laquê como os das outras meninas. O rosto era elegante e corado pelo frio, com um nariz longo e olhos tão claros que chegavam a ser incômodos no jeito intenso com que se fixavam em Hermione, fazendo com que ela desviasse o próprio olhar e se concentrasse nas mãos da garota, notando as unhas curtas e lascadas.

“Essa é Hermione,” disse Black, gesticulando na direção dela. “A aluna nova sobre a qual o professor Slughorn falou.”

“Ah.” A garota franziu a testa por um segundo, antes de relaxar e deixar um sorriso pequeno curvar os seus lábios. “Vinda do continente, certo?”

“Sim,” Hermione murmurou e forçou um sorriso fraco. “Hermione Sergeant.”

“Bom, Hermione, é um prazer conhecê-la.” A sonserina esticou a mão e apertou a dela. “Meu nome é Thomasin. Se precisar de qualquer coisa, pode falar comigo ou com Alphard, o monitor. Tem também os monitores-chefes, mas eles estão tão preocupados com os NIEMs que mal estão fazendo o serviço deles.”

“Riddle, vamos logo!”

Hermione soltou a mão da garota, sentindo a ponta dos dedos começarem a formigar ao mesmo tempo que uma sensação ruim lhe subiu pela garganta. Ela observou a sonserina se virar para olhar outra aluna que a chamava e a viu se despedir, mas não ouviu nada do que saiu da boca dela. O barulho das conversas aos poucos foi ficando distante e tudo o que Granger conseguia notar era a dificuldade de puxar o ar em cada respiração enquanto ainda mantinha a monitora sob o seu olhar, até esta desaparecer na escada em espiral que levava aos dormitórios.

Quando se deixou sentar na poltrona outra vez, ignorando seja lá o que Dorea estava falando, Hermione teve medo de passar pelo chão e nunca mais parar de cair.