Notas iniciais
Um pequeno-grande prólogo

Fevereiro, 1943

Querida Nelly,

Espero que esta carta a encontre bem e em boa saúde.

Não é a primeira vez que reúno os materiais para lhe redigir uma missiva neste inverno; não é sequer a primeira vez que lhe escrevo na última semana. Contudo, a julgar pela ausência de uma resposta sua, posso apenas assumir que as missivas anteriores tenham se perdido nas águas do Atlântico.

Perdoe-me se a ofendi de alguma maneira na última vez que estivemos juntos. Para mim, é difícil conceber a mera possibilidade de tê-la magoado (é deveras mais conveniente pensar que este nosso problema de comunicação seja fruto de um simples extravio de correspondência; não é uma situação para lá de extraordinária ao considerarmos a distância que nos separa, que fica maior quando somada a estes terríveis conflitos que assolam o globo), mas se o fiz, rogo-lhe, perdoe o velho arrependido que lhe escreve.

No momento, encontro-me no meu escritório, de pé à lareira, ouvindo o crepitar do fogo enquanto desfruto de um delicioso chá de cravo e canela (seu favorito) e a pena trabalha em compor-lhe esta carta segundo minhas instruções.

Phillip está aqui, tomando todo o espaço do divã, soltando comentários ácidos sobre Deus e o mundo (como de costume). Sujeitinho de temperamento volátil, o Phillip. Mais cedo, atesto-lhe que ele gozava de um bom humor sem igual — cumprimentou-me com um “bom dia” pela manhã e informou-me que a neve parou de despencar do céu há três dias; certamente soou bastante otimista ao alegar que já consegue sentir o perfume das maçãs no ar. Pessoalmente, asseguro-lhe que só sinto o perfume cortante do frio.

A propósito, Phillip vem me infernizando sobre os detalhes da sua expedição à Amazônia. Não nego que também estou curioso, mas ele está ficando insuportável.

Estou bem, se lhe interessar saber. Fisicamente bem, ao menos. Os joelhos pararam de doer depois que comecei a aplicar as compressas quentes e a fazer a rotina de exercícios que o seu amigo nova-iorquino, o Curandeiro Howard Harkiss, prescreveu-me naquela noite. Um tratamento simples, mas eficaz. Preciso passar no St. Mungus para agradecê-lo pessoalmente um dia desses. Sinto como se minha coluna fosse novinha em folha, o que, imagino eu, seja uma consequência direta dos exercícios regulares.

Entretanto, sinto a necessidade de lhe confessar que me encontro em grande conflito; preocupações borbulham na minha cabeça nos últimos tempos como uma mistura instável em um caldeirão.

Comecei a ouvir rumores em dezembro.

Conversas abafadas aqui e ali. Um ou outro comentário; sussurros sobre supostos ataques a alunos nascidos-trouxas (crianças nascidas de pais não-mágicos) ocorrendo nos corredores da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Inquietei-me. Perguntei a mim mesmo, “Será que pode ser verdade?” e a mera dúvida me deixou estarrecido. Hogwarts é um dos lugares mais seguros do mundo; foi construída para ser um refúgio, uma fortaleza (e foi quando me ocorreu: Tróia foi julgada impenetrável, e queimou, não queimou?)

Você me conhece, minha cara. Fiquei angustiado na hora, e minha angústia foi tamanha que decidi cobrar um favor.

Obtive, através de uma fonte confiável no Departamento de Educação, a confirmação de que os ataques não são apenas boatos: não se sabe quem ou por quais meios este individuo vem causando a petrificação de estudantes nascidos-trouxas, mas o agressor deixou uma mensagem (escrita em sangue, não menos) na noite do primeiro ataque, que ocorreu no Solstício de Inverno. Na mensagem, o responsável pelos ataques se identificou como o Herdeiro de Slytherin e alegou que a Câmara Secreta foi aberta.

Pode imaginar a minha reação.

Mas não se preocupe, pretendo investigar estes eventos com minúcia. Não tema; não embarcarei nesta empreitada sozinho. Sou cego, não tolo.

Descerei sobre Little Hangleton (pergunto-me se a vila onde cresci continua a mesma da minha infância, ou se, como o restante do mundo, se tornou irreconhecível neste intervalo de cinquenta anos) com um grupo de homens da lei, pois receio que só exista um tipo de gente na Grã-Bretanha com tamanho delírio entranhado nas veias, e com a ambição e a frieza necessárias para colocar mesmo as fantasias mais cruéis em prática.

Falo, é claro, dos Gaunt.

Como as informações que recebi são sigilosas (um dia, o orgulho de certas instituições neste país também será a sua completa ruína) e não desejo expor meu contato no Departamento de Educação, obviamente não me atrevi a fazer menção à trama que se desenrola em Hogwarts quando procurei o Ministério. Dessa forma, optei por contar uma meia verdade às autoridades: a de que temo que meus parentes estejam envolvidos em negócios escusos relacionados às Artes das Trevas (o que deixou os Aurores em polvorosa, como pode imaginar; a sombra de Grindelwald cresce sobre nós, afinal).

Não nego que temo o confronto com meu passado, mas temo mais a covardia da inércia. Estou velho, e o futuro é a morte; não descansarei em paz se souber que permiti uma atrocidade dessa magnitude ficar impune.

Alastor Moody (um bruxo que se demonstra bastante promissor na luta contra as Artes das Trevas por aqui), Bob Ogden (que foi comandante do Esquadrão de Execução da Lei Mágica) e eu temos nos correspondido regularmente desde minha visita ao Ministério.

Descobri que um de meus irmãos mais velhos, Marvolo, e o filho dele, um sobrinho que não cheguei a conhecer, cumpriram pena por violarem o Estatuto Internacional de Sigilo. Atacaram um trouxa (um no-maj, como se diz aí na América) e tentaram resistir à prisão. O próprio Ogden deu a ordem, dezoito anos atrás, e disse-me que foi um encontro violento. Conhecendo-os, ou melhor, conhecendo meu irmão e as abobrinhas que nossos pais plantaram na cabeça dele, não tenho dúvidas de que tenha sido um confronto e tanto.

Aliás, foi o histórico manchado e a insistência de Ogden que convenceu o Departamento de Execução das Leis da Magia a averiguar minha denúncia.

Guarde minhas palavras, Nelly: se houver um dedo da minha família neste ultraje, um só, os arrastarei diante da Suprema Corte e pedirei a penalidade máxima eu mesmo.

Se tudo correr conforme o planejado, creio que nos encontraremos muito em breve. Isto é, se o seu convite continuar de pé, é claro.

Já faz algum tempo que considero a proposta que fizeste a mim no verão passado, quando me convidou para conhecer a sua casa em Massachusetts, e para ser sincero, Nelly, estou cansado de viver aqui, no exílio, irrevogavelmente à sombra do legado do grande Salazar Slytherin. Ainda mais agora. Para mim, estes eventos em Hogwarts são a gota d’água; servem apenas para reforçar o que há muito sei ser verdadeiro: ainda que alguns de nós compartilhem o mesmo sangue, não compartilhamos o mesmo coração.

Lamento tê-la deprimido, se for este o caso. A última coisa que desejo é chatear uma amiga, especialmente você, que é a única que compreende o meu suplício.

Phillip e eu sentimos a sua falta.

Não esqueça de nos mandar lembranças,

Ominis.

Notas finais
Digam o que acharam nos comentários :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.