Onde as ondas não quebram
1 Capítulo 1
Era um dia qualquer quando minha prima mandou uma mensagem me convidando para viajar com ela. Fiquei pensando por algumas horas se deveria ou não ir. Não estava muito animada para nada nesses últimos meses, mas acabei aceitando. Tinha muita consideração pela Brenda e não eram cismas minhas que me impediriam de vê-la.
***
Poucos meses se passaram e já era a véspera da viagem. Tudo já estava combinado e pronto, inclusive minha mala. Íamos viajar para Itália.
Por alguma infeliz coincidência, tive insônia justamente nesse dia. O dia em que eu teria que acordar pelo menos às 6 horas da manhã. Eu realmente não estava conseguindo dormir.
Olhei para um lado e para o outro, deitei, levantei, fui beber água... Olhei para o lado de novo e consequentemente para minha pequena e velha estante. Resolvi ler algum livro qualquer.
Fiquei lendo até umas quatro da manhã quando finalmente tive sono.
***
Por algum motivo que eu desconheço, meu celular não carregou. Pode ser pelo fato do carregador ter custado 5 reais no camelô. Isso não seria tão preocupante se eu não precisasse do meu despertador ou até mesmo se meu celular não estivesse com 2% de bateria quando eu o pus para carregar antes de dormir.
Normalmente eu sou uma lerdeza pura de manhã, mas, como acordei no susto e já eram quase sete e meia, levantei correndo da cama e fui em direção ao banheiro. Tomei uma ducha rápida e gelada, me vesti e fui em direção à cozinha. Derramei um pouco de leite quando o peguei para colocar numa tigela com cereal. Engoli aquilo praticamente sem mastigar, o que me fez engasgar um pouco. Fui ao banheiro e escovei os dentes enquanto penteava meus cabelos castanhos. Peguei minhas malas e desci para pegar um Táxi, o que levou um certo tempo já que nenhum abençoado parou de me ignorar.
Desisti e resolvi pedir no aplicativo mesmo.
— Bom dia! — o taxista disse com um tom parcialmente alegre quando chegou
— Bom dia — Essa frase havia soado bem mais grosseira do que eu havia imaginado e logo me senti meio mal.
— Para onde vamos? — Ele perguntou iniciando uma longa conversa até o aeroporto.
O trânsito estava infernal, mas não pareceu demorar muito , já que eu estava distraída conversando com aquele motorista.
— Che-gamos — Ele disse mais alegre do que no seu primeiro cumprimento, antes da viagem.
— Quanto lhe dê-vo? —
— R$ 53,84 —
Paguei com R$ 55,00, desci do táxi e ele fez o mesmo para me ajudar a pegar minhas coisas no banco de trás. Antes que eu me dirigisse ao aeroporto ele disse alto: — O troco! -
Respondi no mesmo volume com um sorriso — Pode ficar! — E ele me retribuiu um sorriso fazendo um joinha na mão.
Depois que deixei minha mala na esteira comecei a caçar no aeroporto onde estavam todos quando ouvi uma voz me chamando.
— LUA! — E outra — LUA! AQUI! -
Corri os olhos pelo local e finalmente vi minha uma garota de cabelos curtos, um pouco mais claros que os meus. Apertei um pouco meus olhos e vi que realmente era minha prima. Assim que tive certeza corri até eles.
—Lua! — Brenda falou me dando um abraço bem apertado. Quando ela me soltou pude ver Ivan e Lucas ao lado dela.
— Luana! Boa tarde né?! — Disse Lucas brincando e fazendo uma cara sarcástica seguido de Ivan que quando me cumprimentou abriu um leve sorriso diferente de Lucas, o noivo de minha prima era tímido e reservado, mas não chegava a ser mal-educado ou antipático. Era alguém relativamente agradável, e também um bom ouvinte.
— Desculpe o atraso gente! -
— Não se preocupe! — Brenda disse com um sorriso amigável — Ainda estamos esperando um conhecido nosso. -
Não imaginava quem poderia ser. Talvez algum amigo de infância de Ivan, já, que por termos estudados na mesma escola, meus amigos, de Brenda e de Lucas eram praticamente os mesmos.
Esperamos uns longos minutos, impacientsmente e calados, só ouvindo os chamados para o nosso voo. Ninguém falava uma palavra sequer. Até que finalmente um garoto moreno de olhos esverdeados deu o ar da graça.
— Miguel! — Ivan disse o cumprimentando com um abraço amigável e um tapinha nas costas.
— Por favor me perdoem pelo atraso e obrigado pela paciência! — Ele disse com uma voz ofegante
Nesse exato momento ouvimos no microfone uma mulher falar: — Última chamada para o voo 165 com destino a Roma, Itália. Embarques no terminal 3, portão 325.
— Vamos?! — Brenda disse rapidamente – Já estamos MUITO atrasados. — Ela disse enaltecendo a palavra muito.
***
Assim que entramos não pude deixar de ouvir um diálogo que achei realmente fofo: — Estou tão anciosa! Mas estou nervosa também! — Disse uma garotinha ruiva para um homem com a mesma tonalidade nos fios.
— Fique tranquila! Andar de avião é de boa! — Ele disse sorrindo para ela — Você vai dormir e nem vai sentir o tempo passar -
Segui andando logo atrás de Miguel com o peste do Lucas atrás me perturbado: — Vai bicha! Meu deus, muito lerda!
Parei de andar imediatamente o que fez nós dois darmos uma risada
— Vai logo, gente! -
Lucas é meu melhor amigo. Nós sempre meio que fomos os excluídos da sala e menos com menos é mais né?
Nos acomodamos em nossas poltronas e senti uma aflição repentina, como se algo de ruim fosse acontecer. Alguma coisa me dizia para irmos embora, descermos daquele avião, e sei lá… Ir em alguma sessão de cinema. Mas já não dava mais para desistir. Estávamos lá. Com tudo pago e reservado. E jogar dinheiro fora é vacilo né? Estamos em uma baita crise! Além disso a porta já estava se fechando.
O avião começou a se locomover. Quanto mais nos afastávamos da terra, mais eu me desesperava. Óbvio que eu fingia estar bem, mas no fundo eu estava desesperadamente preocupada. Talvez eu não fingisse tão bem. Já que enquanto eu olhava tudo diminuir pela janela, Lucas disse enquanto lia um daqueles panfletos que sempre tem nos aviões:
— Tá tudo bem com você Lua?
— Sim, por que não estaria?
— Eu que te pergunto – Ele que estava virado para frente, quando virou-se para mim e disse: — Você já andou de avião né?
— Sim já andei! Só estou… — Fiquei com dificuldade de encontrar a palavra certa
— Aflita – Miguel, que estava sentado ao lado de Lucas, disse virando-se para nós – Também não curto muito aviões. — Ele disse se virando novamente para frente. — Vai que cai.
— Credo! Bate na madeira – Lucas falou para ele
— Aqui não tem madeira Lucas – Eu disse rindo
Ele revirou os olhos e voltou a ler o panfleto. Eu por minha vez, peguei meus fones e meu celular e coloquei uma música. Isso faria o tempo passar mais rápido acho. Ivan e Brenda estavam do outro lado do avião vendo alguma coisa no celular de Brena, rindo e conversando.
***
Não tenho certeza, mas acho que já haviam se passado umas 5 horas de voo. Cochilei algumas vezes.
Estava tudo bem até um balanço.
— O que foi isso? — Eu disse em tom de desespero olhando para os lados
— Estamos passando por uma turbulência. Afivelem os cintos e mantenham a calma. Pedimos que todos se mantenham sentados por favor. — Ouvi a aeromoça dizer
Olhei para minha prima sem imaginar que seria a última vez que a veria. Seus lábios diziam sem fazer qualquer som. “Calma Lua. Vai ficar tudo bem”. Ela deu um beijo em Ivan, enquanto eu, Lucas e até Miguel segurávamos as mãos uns dos outros.
Fechei os olhos e respirei fundo. Alguma vozinha na minha cabeça falava “Calma...calma...”, mas esse pensamento foi interrompido por gritos e mais gritos. Abri os olhos rapidamente. Coração acelerado. Gritos. Lágrimas. Desespero. Soluços, por conta do choro. Instruções que ninguém entendia. Mais gritos e lágrima. De repente… Escuridão.
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