Onde Tudo Termina...
1 Capítulo 1
Como muitas coisas nessa vida, eu gostaria de esquecer essa. Era Setembro. Um Setembro chuvoso eu diria. O despertador insistia naquela velha canção que me fazia todos os dias levantar. Pela janela, observei a forte neblina que praticamente cobria o asfalto já desgastado da rua. Não havia uma única alma andando por aquela rua deserta naquela manhã. Levantei meu corpo e caminhei até o banheiro da minha suíte. Todos os objetos que ali havia em cima da pia, estavam estrategicamente colocados. Nunca gostei de ficar muito tempo procurando as coisas, então muitas vezes premedito meus atos. Vesti meu uniforme e peguei minha mochila, que teimava em ficar aberta.
Geralmente durmo aproximadamente cinco horas por dia, exceto em semanas de provas escolares. Essa era justamente uma dessas semanas. Não me lembro de exatamente de dormir nessa noite. Devo ter cochilado apenas alguns instantes. Deitado em minha cama, eu estudava química e geometria espacial arduamente. Essas são duas matérias que eu nunca consegui prestar muita atenção, então depois me via obrigado a estudar com mais disciplina para não ficar para recuperação de notas. Ao meu lado, algumas garrafas de cerveja importada. Sempre tive bom gosto para tudo. Roupas, sapatos, comida, mulheres.
Depois de dezesseis anos morando com meus pais, decidi ir morar sozinho. Eu disse que ele não precisaria se preocupar, mas meu pai insistiu em escolher um bom apartamento no centro da cidade e pagar o aluguel todos os meses. Sempre tive um bom relacionamento com meus eles. Afinal, é difícil ter qualquer tipo de discussão com pessoas que você vê uma vez na semana. Vivi basicamente toda minha vida em uma cidade pequena, então quando cheguei a “cidade grande” levei um grande choque. O caos urbano, a poluição, os carros buzinando freneticamente. Tudo aquilo era novo para mim. Tudo novo e absurdamente fascinante.
Quando abri a porta de meu apartamento, o gelado vento veio de encontro a mim. Algo que realmente me surpreendeu nesta cidade foi o clima inconstante. Talvez seja um reflexo da já caótica rotina de São Paulo. Acidentalmente, esbarrei em um senhor já de idade que ia passando pelo hall do prédio.
Vestia um longo casaco negro e um chapéu que deveria ter se perdido no museu. Quando for pedir desculpas ao senhor, não havia mais senhor. Como se fosse mágica, toda a extensão do hall ficou um tanto escura, sem vida. Estranho. Esfreguei os olhos para ver se realmente estava acordado e segui para a escola. Eu deveria parar de ficar estudando até tarde. O caminho para a escola foi tranqüilo, pois não necessito de ônibus algum para chegar até ela. Alguns de meus amigos estavam esperando o portão principal ser aberto. Aproximei-me para conversar com eles, mas percebi que fui seguido todo o caminho por um vistoso carro vermelho. Pelo que meus olhos puderam detectar, era um Mustang 2009. Acelerei meu passo e logo fui de encontro a meus amigos.
O portão de entrada logo foi aberto por uma das funcionarias da escola. O estranho carro vermelho havia desaparecido. Afinal, o que estava acontecendo? Entrei sem demora, seguido de meus amigos e uma enxurrada de alunos. Minha escola leciona apenas para o ensino médio e alguns cursos de ensino superior, mas alguns alunos pareciam pertencer à pré-escola. Empurrando uns aos outros, brigando e reclamando como bebês chorões. Aquilo me irritava todos os dias, mas em especial esse. Um desses idiotas tropeçou em mim e nós dois saímos rolando escada abaixo. Usei o próprio corpo dele como amortecedor, porém meu braço foi ferido durante a queda. Alguns alunos vieram apartar uma iminente briga que ali estava sendo formada. Apenas dei as costas e segui para minha sala de aula, onde o professor já ministrava a matéria. O aluno ainda me insultava no momento em que entrei na sala.
Parte de meu braço sangrava. Nada muito grave, apenas coloquei a jaqueta para disfarçar um curto filete de sangue que escorria. Eu sentava na segunda fileira, quarta carteira. Depois de alguns minutos, a sala já estava quase completa. A garota que sentava na carteira atrás de mim não estava lá. Eu não a conhecia muito bem, mas o pouco que eu sabia sobre ela já era suficiente. Uma menina estranha. Não se interessava tanto pelas aulas. Preferia ficar lendo um livro esquisito em latim e escrever uns diagramas no caderno. Os professores pareciam a ignorar na sala de aula, como se ela não existisse.
Enquanto o professor passava a matéria, a conversa rolava solta pela classe. “Pesquei” um comentário de uma aluna dizendo que alguma coisa tinha sido encontrada no banheiro abandonado da escola. Fiquei apreensivo com o comentário e tentei ouvir mais da conversa, mas o barulho aumentou e o professor ordenou silêncio. A inspetora de classes apareceu na porta chamando o professor e falando algo em seu ouvido, para que não escutássemos. O professor ordenou que ficássemos em silêncio e permanecêssemos dentro da sala de aula.
Mas aquele comentário estava me fazendo enlouquecer aos poucos. A voz de cada aluno ficava a cada segundo mais irritante. Levantei-me e com a desculpa de estar passando mal, mudei minha rota e sorrateiramente segui o professor. Era no banheiro feminino. Alguns outros professores estavam lá também, junto com oficiais de policia. De onde eu estava não pude ver com clareza, mas parecia que as paredes do banheiro estavam cobertas por algo vermelho... Sangue. Um policial interrogava um dos professores, seu rosto estava tenso. Mas fiquei me questionando o porquê daquele estardalhaço todo. Quase ninguém passava por ali, afinal era o banheiro desativado no 3° andar. Olhei novamente para o banheiro e percebi de relance um leve brilho prateado coberto por sangue perto da pia. Resolvi retornar ali mais tarde.
Voltei para a sala para não causar problemas. Minha cabeça latejava e eu não conseguia parar de pensar. Seria aquilo realmente sangue? Mas... Era muito sangue... Alguns de meus amigos dormiam, mas uma estava apenas rabiscando a carteira, por não ter nada melhor para fazer. Juliane era seu nome. Ela havia se matriculado no começo do ano como eu, mas parece que todos a tratavam diferente das outras garotas da escola. Talvez por sua beleza acima da média ou até por seus encantadores olhos, ela era cobiçada por toda a escola. Talvez também por destino, acabei unindo ela com um de meus melhores amigos, Vinicius. Em geral, um combinava com o outro. Ambos tinham influências e beleza acima da média. Vinicius roncava, com a cabeça abaixada em sua mesa, ao lado de Juliane. Sentei-me na carteira da frente e me virei para conversar. Ela sempre foi uma boa ouvinte e não importava a situação nem à hora, ela sempre gostava de conversar. Tive que chamá-la duas vezes, pois a primeira vez que a chamei não adiantou para tirá-la do transe de ficar rasurando a própria mesa.
– Ju... Juliane! Está acordada?! – Perguntei. Não gostava de fazer as pessoas pararem de fazer o que estavam fazendo para me ouvir, mas eu precisava conversar com alguém e ela não fazia nada de útil.
– Oi! Sim, claro que estou acordada! – Ela se fez de brava, mas depois viu minha expressão e fez questão de perguntar o que estava acontecendo – Aconteceu alguma coisa? Você está com uma cara estranha.
– Lembra-se que o professor saiu agora pouco da sala?
– Sim! Aquilo foi motivo pra começar a baderna aqui? – Disse ela, entediada – Mas e daí?
– Pois é... Eu fingi que estava passando mal e segui o professor até o banheiro desativado no terceiro andar. – Pausei por um instante, nervoso por lembrar daquilo tudo – Tinha policiais e outros professores... E as paredes do banheiro estavam...
– Estavam? Estavam? — Satirizou ela.
– Pára com isso! Estava tudo coberto de sangue...
– Que isso?! Você deve estar imaginando coisas! Andou bebendo de novo? – Disse ela, cheirando minha roupa.
– Não bebi nada sua doida! Se tá duvidando, vamos lá ver depois... – Eu não podia imaginar no tamanho da confusão em que eu estava me metendo. Mas o que eu não notei é que falei um pouco alto demais e acordei Vinicius.
– Noss... Cara, fala um pouco mais baixo aí! E você vai aonde? – Disse Vinicius, ainda um tanto sonolento. Juliane teve que explicar para ele duas vezes, para que a informação chegasse ao cérebro. Vinicius era um cara inteligente, mas não quando estava com sono.
Antes que o sinal do intervalo soasse, nós três já estávamos na escada, subindo cautelosamente. Vinicius ficou encarregado de ficar de olho para ver se ninguém aparecia. Tomei à dianteira e fui até perto da porta do banheiro. A mesma estava trancada e com aquelas fitas da polícia de “Não se aproxime, local do crime”. Tentei de todo jeito abrir, mas não tinha força o suficiente para arrombar a porta e também fiquei com medo de causar algum barulho. Ao ver isso, Juliane teve a idéia mais útil que ela deve ter tido na vida. Com um grampo de cabelo, ela começou a tentar abrir a porta. Vinicius se aproximava calmamente, certo de que ninguém iria nos ver. Quando ele viu Juliane, começou a caçoar da cena.
– Ju... Levanta daí vai! Desastrada do jeito que você é, vai acabar quebrando o grampo na fechadura. – Juliane olhou de canto para ele e disse calmamente, como alguém que está prestes a ter um colapso nervoso.
– Cala essa boca meu querido e me deixa fazer meu trabalho ou então vou enfiar esse grampo em você... – O sorriso no rosto de Vinicius não tardou a desaparecer quando Juliane disse aquilo.
Meu coração só se acalmou um pouco quando eu ouvi o “click” da porta se abrindo. Tiramos as fitas que atrapalhavam e entramos no velho banheiro. A polícia havia dado uma bela limpeza no local, mas ainda havia muito sangue nos empoeirados ladrilhos das paredes. Corri até a pia, ignorando os meus amigos curiosos que tentavam identificar se aquilo era realmente sangue. Me decepcionei quando vi que não havia mais nada em cima da pia. No velho espelho quebrado à minha frente, percebi algumas marcas de sangue em forma diferente das manchas irregulares que estavam na parede. Parecia que alguém havia tentado escrever algo, mas havia sido interrompido. Peguei meu celular e tirei várias fotos daquele espelho para depois analisar melhor. Quando estava voltando para conversar com meus amigos, escorreguei em alguma coisa e acabei caindo sobre uma poça de sangue. Ambos vieram ajudar-me a levantar e então eu fui ver o que havia causado minha queda. No chão, pude ver um pingente prateado brilhando e tive certeza que era o mesmo que estava em cima da pia. Com certeza algum policial idiota derrubou e nem se tocou. Recolhi o pingente e saímos correndo dali. Minha cabeça latejava de tal forma que eu não podia sequer olhar para trás enquanto corria. Fomos até o pátio para que eu pudesse limpar o sangue que estava em minha jaqueta.
E foi dessa forma que o mundo começou a morrer...
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