Notas iniciais
Hey! Muito obrigada pela recomendação, Mel weasley. Capítulo dedicado a você ;) Boa leitura!

O tempo, o futuro. São estes belas incógnitas. Tão desconhecidos e imprevisíveis que por vezes tornam-se irritantes. Por vezes também não, é só imaginar receber um spoiler do seu futuro. Não haveria tanta graça em viver tendo prévio conhecimento do que estaria por vir. A alegria reside na imprevisibilidade. Infelizmente, a tristeza também.

Às vezes seria bom ter apenas um pequeno vislumbre do futuro, só para poder se prevenir de um dia ruim, criar tempo para construir uma barreira emocional que impediria os sentimentos de tornarem-se dolorosos, mesmo que bem pouco. Independente da quantidade, 1 g ou 1 kg de ouro, o ouro continua sendo ouro. Intensa ou leve, a dor continua sendo dor.

Já fazia três semanas que Lucy estava residindo em Magnólia. O tempo passara tão rápido que até assustou-se ao perceber o quanto já se passara. Tudo estava perfeito em sua vida. Tinha um namorado que amava como nunca amara nenhum homem antes, talvez nem mesmo seu pai, que veio a falecer logo quando estava criando uma afeição maior por ele, um forte amor paterno; tinha seus amigos todos perto de si; um trabalho que adorava. Não havia como estar mais feliz.

Em uma tarde, faltando poucas horas para o voo que levaria ela e Natsu até Nagoya para o evento empresarial do qual, como sócia majoritária, tinha a obrigação de participar, percebeu que seu shampoo estava acabando e precisava ir até a farmácia comprar um novo frasco. Parecia tarefa tão simples, mas desejou muito que algo ou alguém tivesse dito para que ela não saísse de casa naquele dia. Sua vida era assim, afinal, como um gráfico cheio de picos. Hora tudo estava perfeito, pouco depois caía drasticamente.

Estava em frente a uma das prateleiras, já localizando o produto e erguendo o braço para pegá-lo, quando aquela voz fez seu corpo congelar. Gelou dos pés à cabeça; sentiu seu coração disparar, mas não de maneira positiva, como acontecia quando estava perto de Natsu. Era uma aceleração causada por medo, por vontade de sair daquele lugar o mais rápido possível. Aquela voz... nunca a esqueceria, afinal, seu dono lhe causara sofrimento demais para simplesmente ser esquecida.

― Ainda usa shampoo com aroma de morango, Lucy? ― perguntou, a voz grave que alguns anos antes a deixaria em êxtase agora a enojava. ― Eu adorava aquele cheiro, o dos seus cabelos.

Lucy respirou profundamente, tentando não tremer de raiva. Qualquer vestígio anterior de sorriso dera lugar a uma expressão séria, e era assim que queria parecer, não mais como aquela menina inocente facilmente enganável. Pegou o frasco sem pressa, evitando a todo custo deixar que seu olhar, mesmo que de soslaio, se virasse para ele.

― O que está fazendo aqui? ― indagou. Não iria ignorá-lo simplesmente, fingir que não estava ali. Não se foge do passado, mas o encara. Mesmo que ela não quisesse literalmente fazê-lo.

― Não vai nem me dizer um oi?

― Você não merece uma palavra minha que seja. Considere muita coisa eu estar respondendo.

― Não seja tão fria, Lucy. Faz tanto tempo que não nos vemos. ― insistiu, inclinando a cabeça a fim de tentá-la a olhá-lo. De fato, olhou. Ryan continuava praticamente igual há anos antes. Os mesmos cabelos negros bagunçados, o mesmo olhar azul penetrante, as vestes no mesmo estilo, camisa preta, calça jeans escura e o colar prateado.

Já Lucy, ela sim havia mudado, e muito. Os cabelos estavam maiores, o rosto com uma expressão mais madura. Crescera muito nos últimos anos, interior e exteriormente.

― E eu poderia continuar assim pelo resto da minha vida, se quer saber ― o olhar que lhe deu foi rápido e minucioso, encarando-o dos pés à cabeça com as sobrancelhas arqueadas, antes de tentar voltar a andar em direção ao caixa. Fato que teria se concretizado se não fosse por Ryan ter segurado seu punho. ― Não encoste em mim!

Ryan imediatamente se afastou ao grito da loira, erguendo as mãos em sinal de rendição. Não fora a força empenhada, mas sim o ato em si, que tanto a irritou. Sem perceber deixara seu disfarce de “forte” cair, revelando o quanto ele a afetava, deixando transbordar a raiva que sentia em suas mãos que tremiam e em sua respiração acelerada.

― Calma, estamos em um estabelecimento público. Só não quis te deixar ir embora sem pelo menos ter a chance conversar com você. ― defendeu-se.

Mentalmente, Lucy agradeceu pela farmácia estar vazia naquele horário e a única pessoa que poderia tê-los ouvido ser a recepcionista. A loira respirou fundo, tentando acalmar-se, antes de voltar a dizer qualquer coisa.

― Por que acha que eu iria querer conversar com você depois de tudo o que fez?

― Eu não acho que queira, mas estou torcendo para que contrarie sua vontade e me deixe tentar ― Lucy cruzou os braços. Tudo bem, o deixaria falar, mas apenas para que ele nunca pudesse dizer que ela não lhe deu uma chance. ― Não parei de pensar em você nesses anos todos. Foi um erro ter te tratado como tratei. Deveria ter ficado ao seu lado ao invés de te abandonar.

― É, claro. A propósito, esqueci de te contar que na verdade sou a Tinker Bell e vim para o mundo dos humanos ― satirizou. A falsidade presente naquelas palavras chegava a ser quase palpável para ela.

― É sério, ok? Me perdoe pelo que eu fiz. Fui um completo idiota ― naquele momento a raiva de Lucy voltou a elevar-se. Aquele título já pertencia a alguém: Natsu. Ryan utilizá-lo referindo-se a si próprio chegava a ser repugnante. Apenas Natsu, apenas “seu idiota”, podia tê-lo. ― Não pode esquecer o passado e me dar uma chance de provar que eu mudei?

― Esquecer o que? Que me iludiu? Que fez com que me apaixonasse por você apenas para poder fingir depois que nada nunca aconteceu, que não passou de um joguinho seu, só para se divertir, matar o tempo, quem sabe? Ou esquecer que me abandonou grávida e que quase morri por sua causa? Não, desculpe, acho que não é tão fácil assim.

Ryan não tentou esconder que não tinha conhecimento da gravidez de Lucy. Era óbvio demais que sabia para fingir que não. Na época, ela enchera sua secretária eletrônica de mensagens praticamente implorando para que ele assumisse a paternidade, mas ele nunca lhe respondeu.

― O que aconteceu com a criança? ― perguntou com ar de preocupado. ― Escute, não estou dizendo que é fácil, só pedindo para tentar.

A loira riu secamente.

― Você é muito descarado. O bebê morreu no parto, e eu tive sorte de sobreviver. Mas não que isso fosse interessar muito a você, não é? ― Lucy suspirou antes de continuar. ― Não, eu não vou te dar chance alguma. Você é um passado e é assim que continuará a ser para sempre. Já tenho alguém que quero que seja meu futuro.

Daquela vez, foi Ryan que riu. Muito mais para si mesmo, fitando o chão.

― Natsu Dragneel, se eu não me engano, não é?

Lucy arregalou os olhos, seu coração disparando por medo. Preferia que quanto menos ele soubesse de sua vida, melhor. Mas como poderia saber sobre Natsu?

― O que... Está me perseguindo? Você é doente! ― sem perceber, havia voltado a gritar, apenas querendo sair daquele lugar.

― Não, eu não sou. Foi só uma coincidência. Vim para Magnólia sim para te procurar e pedir perdão, mas ter te encontrado de forma tão repentina nas duas vezes foi pura coincidência. Ou talvez o destino nos colocando frente a frente de novo, se acreditar. O cara tinha perdido a carteira, eu encontrei e devolvi para ele. Depois vi vocês juntos e tirei minhas conclusões agora.

― Sei ― a loira respondeu com ironia.

― Você acredita se quiser. É o que aconteceu. Lucy, eu sinto muito. Queria poder voltar no tempo, mas não posso. E se tiver uma chance de consertar o passado no presente, vou aproveitá-la. Você mudou, muito. Amadureceu. Não é como a garota que eu encontrei chorando no meio da noite em uma rua vazia, aquela garota frágil que eu deveria ter protegido. Mas uma coisa eu tenho certeza que não mudou. Mesmo que bem no fundo, eu sei que um pedaço do seu coração ainda sente algo por mim.

Tão egocêntrico e egoísta que fez Lucy rir. Não um riso fingido, mas rir realmente por achar graça no que ele falava.

― É, continue acreditando nisso.

A loira por fim virou-se em direção ao caixa, sem interrupção daquela vez. Ryan a deixou ir, teria que esperar o tempo necessário. Seus objetivos iriam lentamente se cumprir, sempre conseguia o que queria, bastava ter paciência.

No caixa, Lucy aproveitou para pegar um comprimido para dor de cabeça. O rápido encontro estava fazendo sua mente praticamente explodir.

― Ex-namorado? ― a atendente perguntou enquanto colocava os produtos em uma sacola.

― Um pouco mais complicado que isso.

***

Nunca foi tão bom chegar em casa. Sentia-se um pouco mais segura outra vez, naquele lugar pequeno e aconchegante no qual estava morando já há três semanas. Seus pensamentos, porém, não colaboravam muito. Passara anos pensando que havia se livrado de um dos maiores problemas que já enfrentara e em uma simples tarde ele reaparecera.

Caminhou até a pia, encheu um copo com água, pegou o comprimido e o engoliu com a ajuda do líquido. Depois, encostou o corpo na parede e o deixou deslizar até o chão. Nunca desejou tanto estar com Natsu, envolvida pelos braços dele, confortável em seu peito. O reencontro de positivo só teve o fato de que estava mais do que convicta de que amava seu idiota muito mais do que um dia amara aquele que só lhe fez sofrer. Mas, para sua infelicidade, ainda faltava meia hora para o idiota em questão chegar em casa.

Levantou-se e foi até o quarto. Abriu o guarda-roupa, procurando em sua caixa de joias uma segunda caixa, pequena e preta. Não demorou muito a encontrá-la, e lá estava, dentro dela, o colar que ganhara de Ryan em seu aniversário de dezesseis anos. Guardava-a consigo para lembrar-se do passado e garantir que não cometeria o mesmo erro outra vez, mas não queria mais mantê-la, e já sabia bem o que fazer. Venderia o colar e doaria o dinheiro para alguma instituição. A lembrança do que um dia a feriu poderia assim, mesmo que humildemente, ajudar alguém. Era o melhor a ser feito. Mas deixaria a tarefa para outro dia, pois não tinha muito tempo sobrando e não queria sair de casa sozinha naquele momento.

A meia hora restante passou sentada na cama, revivendo em sua mente seu momentos do passado, a noite em que fugira de casa e encontrara aquele homem no meio da rua, um completo estranho que a abraçara enquanto chorava; quando esse mesmo estranho lhe dissera que tudo fora um jogo para ele; o dia em que seu pai lhe contara que tivera que escolher entre a vida da filha e a do neto, e escolhera a da filha; todos os seus momentos ao lado de Natsu.

Veio à sua mente a introdução da música “I knew you were trouble”, da cantora norte-americana Taylor Swift, algumas partes encaixando-se muito bem em sua própria situação, no seu passado, o qual queria esquecer. Mas como esquecer quando ele batia bem à sua porta? “Eu acho que quando acaba tudo só volta em flashes, sabe? Como um caleidoscópio de memórias, em que tudo apenas volta [...] Acho que parte de mim sabia que no segundo em que o vi isso iria acontecer [...] Eu sabia que o mundo dele se movia muito rápido, e queimava intensivamente, mas eu pensei “Como pode o diabo estar te puxando para alguém que parece um anjo quando sorri para você?” [...] Eu acho que a pior parte não foi perdê-lo, foi me perder.”.

A loira apenas despertou de seus devaneios quando ouviu a porta da casa se abrindo. Imediatamente saltou da cama e andou o mais rápido que podia até a sala, mal dando tempo a Natsu para fechá-la outra vez antes de beijá-lo, pegando-o desprevenido.

― Oi pra você também ― disse quando teve chance.

― Oi ― respondeu antes de voltar a beijá-lo e puxá-lo para si.

― Adorei a recepção. Podia fazer isso sempre. Eu não ia reclamar, juro ― sem separar-se dela, retirou a mochila das costas e a jogou no sofá. Era uma recepção um tanto quanto rara, afinal, não era sempre que recebia um beijo antes mesmo de colocar o pé dentro de casa. Fosse lá o que tivesse acontecido, estava adorando. Ao menos até então. ― O que aconteceu, Lucy?

Antes de responder, a loira levantou a camiseta que ele vestia e o livrou dela.

― Nada, só quero você. Seus beijos, seus abraços, seu amor. Só isso.

E novamente o beijou, deixando-o que os guiassem até o quarto, onde sentou-se na cama com Lucy a sua frente. Levou a mão até o rosto da loira, foi quando sentiu que havia sim algo errado, porque não havia como seu rosto estar molhado por lágrimas devido a nada.

Afastou seus lábios dos dela e a olhou nos olhos, preocupado.

― O que foi?

Lucy tentou disfarçar, enxugando as lágrimas e sorrindo, mas ele já as havia visto, não adiantaria muita coisa.

― Nada, Natsu. Não é nada ― ele lhe deu um beijo na testa, ajudando a acalmar seu coração. ― Posso te fazer uma pergunta?

― Claro ― prontamente respondeu.

― Se a garota que você conheceu no passado, naquela festa, não fosse eu, e ela decidisse voltar a aparecer na sua vida agora, quem você escolheria? Eu ou ela?

Natsu afastou-se alguns centímetros, sem compreender o motivo daquela pergunta. A resposta, para ele, era mais que óbvia. Imaginava que também fosse para Lucy.

― Você, com certeza. Quando me apaixonei por você, não sabia que era a garota daquela festa, pensava que fosse outra pessoa. Se o que eu senti por você sem saber que era aquela garota sobrepunha meus sentimentos antigos, os que surgiram naquela festa, então os novos eram mais fortes, os que eu sentia por você, senão não teriam vencido os antigos. ― Era confuso, mas fazia sentido para ele. Natsu era assim, de qualquer forma, meio confuso às vezes. Lucy sorriu, já sem derramar lágrimas. ― Agora pode me dizer o que houve? Me deixou preocupado.

A loira hesitou. Não queria falar sobre o episódio acometido naquela tarde, mas era Natsu, não sentia vontade de esconder as coisas dele.

― Você se lembra de quando te contei sobre meu passado, sobre o cara que me abandonou? ― Natsu assentiu. ― Bom, ao que parece ele está em Magnólia.

― Como assim? Você o viu?

― Foi um pouco mais do que isso. Ele veio falar comigo. Eu senti tanta, mas tanta raiva, Natsu.

― O que ele queria com você?

― Pedir perdão, dizer que mudou. Besteiras como isso. Aparentemente, você o conheceu. Segundo ele, foi ele quem encontrou sua carteira no shopping, lembra?

Aquele cara. Sabia que havia algo de errado com ele. O modo minucioso que o olhava, tudo parecia suspeito demais. O garoto enrijeceu. Estava receoso, claro. Não que duvidasse do amor que Lucy sentia por ele e achasse que ela correria para os braços do ex, sabia que ela nunca faria isso e que qualquer amor que sentisse antigamente deveria ter sumido após as desilusões. Só não confiava era no tal Ryan. Lucy era frágil demais e tinha medo que ela acabasse se ferindo outra vez por causa daquele cara.

― E você? Está bem?

Lucy acenou positivamente.

― Foi só muito ruim vê-lo outra vez. Foi como reviver todos aqueles momentos ruins pelos quais passei.

Natsu deitou-se na cama e a puxou pela cintura, deixando-a muito perto de si.

― Mas agora você tem a mim para te proteger. Não precisa se preocupar ― a loira sorriu bobamente, de forma apaixonada, observando os olhos ônix daquele garoto em forma de homem.

― É. Você é tão bom para mim.

Natsu e Ryan. Ryan e Natsu. Os dois eram semelhantes e completamente opostos. Um no passado costumava lhe proporcionar segurança, mas no fim foi seu pior pesadelo. O outro começou como uma pedra em seu caminho, e agora não conseguia mais imaginar sua vida sem ele.

O que o destino lhe guardava... ? Jurava que gostaria de saber, mas não fazia ideia. Apenas desejava que seu futuro fosse o oposto de seu passado, tal como Natsu era o oposto de Ryan.

Notas finais
Então, como eu sabia que andava enrolando demais, decidi dar uma adiantada nas coisas. Tomara que tenham gostado do capítulo : ) Gente, eu ando muito empolgada com o enredo da segunda temporada, espero que venham a se empolgar tanto quanto eu :D Tenho tudo planejado, e se soubessem de tudo que irá acontecer... Bom, vocês vão saber, mas vai ser lentamente, kkkkk. Deixem suas opiniões nos comentários, porque elas valem ouro pra mim :3 E uma última coisa: Por acaso haverá algum leitor meu na bienal do livro de São Paulo no dia 28? :) Só isso, pessoal, até o próximo o/