Onde Tem Ódio Tem Amor
73 Tightrope
Notas iniciais
Por mais que estivesse envolvida pelo beijo, em sua mente vieram lembranças do fim da tarde do dia anterior, de sua conversa com Lisanna, das palavras que ela lhe dissera. Fora nelas que pensou enquanto beijava-o, imaginando todas as vezes em que a boca dele se envolveu com outras. De certa forma sem controlar seus atos, movida pelos sentimentos daquele momento, que envolviam raiva, saudade, desejo, entre outros, levou sua mão esquerda até a nuca de Natsu, fincando suas unhas na pele do rapaz, ouvindo-o murmurar algo incompreensível muito baixo, ao mesmo tempo em que mordeu seu lábio inferior, ambos os atos sem medir sua força.
Natsu interrompeu o beijo ao sentir o pequeno corte em seu lábio, contudo, a loira não permitiu que ele se afastasse. Ao contrário, olhou profundamente em seus olhos e disse, em tom autoritário:
— Nunca mais sequer pense em beijar ou tocar outra mulher, Natsu. Só eu tenho esse direito. Somente eu posso fazer o que bem entender com você. Ouviu?
A expressão de surpresa no rosto de Natsu era impagável. Jamais vira Lucy daquele jeito, tão dominadora e ríspida. Não sabia se deveria ficar com medo ou considerar aquilo sexy. Talvez o que sentia fosse uma mistura dos dois. Estava acostumado a ele ter o controle da situação, não o contrário. Contudo, aparentemente as coisas haviam mudado um pouco.
— Alto e claro.
— Ótimo — Lucy respondeu, arrancando sem o menor pudor a camiseta que ele vestia, voltando a beijá-lo, descendo suas mãos até o peito de Natsu.
Deixando-se levar por ele, fora guiada para trás, até sentir suas costas encostarem no vidro da janela. Sua mão havia descido até a cintura do rapaz, arranhando toda sua fronte. Ela parou o beijo, olhando de relance para a vista do lado de fora, os carros passando na rua, imaginando como seria se continuassem o que estavam fazendo ali, com a sensação de estar a tantos metros de altura, sendo impedida de cair apenas por um fino vidro. Exatamente como andava sua relação com Natsu. Mantida por uma tênue barreira de persistência, que poderia quebrar a qualquer instante e levá-los a cair.
— Você está mesmo com muita raiva de mim, não é? — ele perguntou, observando as linhas vermelhas que marcavam do seu peito ao abdômen. Lucy tornou a olhá-lo, deixando a resposta no ar, sem precisar de palavras para confirmar nada. — Tudo bem. Pode descontar o que está sentindo então. Descarregue toda sua raiva em mim, deixe tudo sair.
— Você não tem noção dos riscos contidos no que está pedindo.
— Bom, talvez eu goste do perigo.
— É? Dormiu com ele também? — Natsu riu.
— Não, mas pretendo dormir com você, o que neste momento pode ser bem próximo disso.
Ele a beijou outra vez, porém teve o controle apenas por poucos segundos. Lucy agarrou-se aos ombros de Natsu, sentindo as mãos dele descerem até a parte inferior de suas coxas, suspendendo-a. A levou até o quarto, colocando-a na chão próximos à parede e deixando-a entre a superfície sólida e seu corpo quente. Enquanto ele a estava carregando, Lucy confiou que ele não a deixaria cair, desejando poder confiar em Natsu não apenas naquele momento, mas em outros também.
O rapaz passou a beijar seu rosto, marcando a pele com seus lábios até a orelha de Lucy, sentindo as mãos dela desabotoarem sua calça.
— Indo direto ao ponto? Pensava que as partes que antecediam fossem suas favoritas — comentou, sussurrando no ouvido da loira.
— Talvez você não me conheça tão bem quanto pensa — respondeu, completando o serviço de livrar-se das roupas de Natsu.
— Conheço melhor do que isso.
— Você se superestima.
Ele se afastou, possibilitando olhá-la nos olhos.
— Bem o suficiente para saber que o motivo de estar agilizando as coisas é por querer acabar logo com isso. Tem certeza que é o que quer?
— Bom, não sou eu quem está hesitando, não é?
Lucy subiu suas mãos outra vez, tendo certeza de que no caminho elas deslizariam suavemente por partes muito íntimas de Natsu, fazendo-o arfar e sorrir, retribuindo a provocação.
— Ok — ele respondeu, tirando as peças de roupa inferiores de Lucy do caminho. — Vamos logo com isso então.
Segundos depois, ela sentiu o membro ereto dentro de seu corpo. Natsu continuou seu trabalho com movimentos ritmados, sentindo a cabeça de Lucy pendendo em seu ombro e seus braços contornando seu pescoço. Era bom senti-lo outra vez daquela forma. Mas apenas isso, apenas bom. Nada extraordinário, ou até mesmo ótimo. A tensão e o estresse impediam-na de relaxar e aproveitar o contato íntimo. Sentiu-se, de certa forma, frustrada. Gostaria que as coisas pudessem voltar a ser como eram antes, mas mesmo o sexo havia mudado e transformado-se em algo não tão prazeroso.
Após algum tempo sem mudanças, comentou, provocando-o.
— Provavelmente você está certo e Lisanna mentindo, porque não acho que consiga engravidar ninguém com isso. É tudo o que tem, Natsu? O que houve? Perdeu a prática? Bem, você nunca foi muito bom mesmo.
Natsu interrompeu o ato. Lucy havia cruzado um limite perigoso. Entendia que ela estava magoada e irritada, suas tentativas de irritá-lo não faziam efeito por ter conhecimento de suas reais intenções. Mas, negar seus talentos com relação ao que ele sabia fazer de melhor era um crime difícil de ignorar. Poderia ela ter se esquecido de todas as vezes em que gritou seu nome sob seu corpo, todas as vezes em que implorou para que não parasse? Bem, se ela havia se esquecido, ele faria questão de lembrá-la.
— Você não deveria ter dito isso, Heartfilia.
— Por quê? Ficou magoado? — a loira respondeu em tom baixo, próxima do ouvido de Natsu. Sabia que havia atingido o ponto fraco do rapaz, seu ego. Aquele estava se tornando um jogo interessante. — É só verdade. Já vi melhores.
— Você só foi pra cama com dois caras.
— Exatamente.
Natsu não respondeu. Não com palavras pelo menos, mas seu olhar estava em chamas. Uma coisa era questionar suas habilidades, outra era dizer que seu ex-namorado era melhor do que ele, principalmente após ter descoberto que ela ainda guardava recordações dele.
— Eu juro que vou fazer você retirar essas palavras, e você sabe que eu sempre cumpro minhas promessas. Lembra-se daquela vez em que o síndico veio reclamar sobre o barulho, quando você chegou? Bem, dessa vez ele provavelmente vai querer nos expulsar do prédio.
— Você também prometeu que nunca iria me magoar, então não acho que sua palavra seja tão confiável assim.
A última sentença não fazia parte de nenhuma tentativa de irritá-lo. Correspondia mais a um desabafo. Natsu sentiu a dor contida na fala de Lucy, porém não havia nada que pudesse fazer. Concentrou-se em literalmente rasgar a camiseta que ela vestia.
— Pelo menos agora eu sei que as roupas dessa loja tem uma qualidade muito baixa — a loira comentou. Dando o mesmo destino da camiseta, o garoto arrancou a última peça de roupa que cobria o corpo de Lucy.
— Vai colocar a culpa na loja do sutiã também?
— Não, esse já era velho.
Natsu sorriu de canto, sabendo que ela jamais admitiria qualquer coisa relacionada a ele naquele momento. Sem dar tempo para qualquer reação de Lucy, ele a jogou na cama e voltou a beijá-la intensamente. Percebeu que a loira tentara colocar suas mãos atrás de sua nuca, porém ele as segurou e prendeu acima da cabeça da loira.
Parou de beijá-la, porém ainda segurando-a, para procurar algo na gaveta do criado-mudo.
— O que está fazendo? — Lucy perguntou quando viu uma gravata nas mãos de Natsu. Ele respondeu sorrindo de canto, com o olhar parecido com o de uma criança prestes a aprontar.
Com a gravata, amarrou as mãos de Lucy uma na outra, dando um nó apertado.
— Assim fica mais fácil de te segurar.
— Por que precisa me segurar? Eu não vou fugir.
— Prefiro garantir que suas mãos fiquem onde eu possa ver.
— Tem medo do que elas podem fazer?
— Tenho medo do que elas podem fazer comigo depois do que eu vou fazer com você.
— E o que você vai fazer comigo?
— Te levar à loucura.
Lucy riu.
— Apenas tente, boy.
O garoto a beijou outra vez, com apenas uma de suas mãos sendo usadas para segurar as dela, as quais sentia querer sair do lugar, porém, ele era mais forte, tinha a vantagem. Sua outra mão deslizou pelo corpo de Lucy até chegar à sua intimidade, onde pôs em prática todas as vezes em que notou os pontos mais sensíveis da loira, tocando-a suavemente. Entre seus lábios, ele a sentia reprimindo os sons que insistiam em sair de sua boca.
Precisava de algo que a faria não conseguir mais se conter, e sabia qual seria sua solução. Com sua mão continuando o trabalho, desceu sua boca pelo corpo de Lucy, passando seus lábios quentes lentamente por entre os seios da loira, até chegar ao seu ponto mais fraco, sua barriga. Lucy sempre arquejava quando ele a beijava naquela região, e não foi diferente naquela vez, ainda mais combinando seus lábios aos movimentos de seus dedos habilidosos.
— Também fez isso com ela? — a loira perguntou ofegante quando ele voltou a olhá-la.
— Não, é um bônus exclusivo seu. Eu chamo de “The Lucy”.
— É bem fraco.
— É claro. Tanto que você está sem ar, não é? Tudo bem, se você quer algo mais forte, te darei.
Ele os ajeitou na cama previamente, antes de recomeçar o ato em si. Focou os olhos de Lucy, sentindo neles a provocação inabalável. Não havia dúvidas de que ela era sua fraqueza, física e emocionalmente. De forma metafórica e literal, ela ainda tiraria sua sanidade. Bem dizem que os inimigos escondem-se nas sombras das coisas que menos esperamos, enganando até mesmo a si próprios. Lucy não era sua inimiga, era o amor de sua vida, mas a facilidade com que poderia fazê-lo cair que o deixava aterrorizado.
Ignorando seus próprios pensamentos, voltou sua atenção outra vez ao que fazia, unindo-os da forma mais íntima possível, tornando-os ligados como um. Sentiu Lucy arquejar seu corpo no momento em que ele invadiu sua intimidade, apesar de invadir não ser exatamente a palavra certa, já que Natsu era “de casa”. O garoto iniciou movimentos ritmados, de início lentos, ganhando velocidade aos poucos. Não daria o máximo que tinha logo no começo, precisava cumprir a promessa que fizera a Lucy pouco antes.
Sem perceber, suas mãos foram parar na cintura da loira, apertando-a com força. Sem nada mais para conter as mãos de Lucy, elas deslizavam de forma nada gentil pelas costas de Natsu, arranhando-o e literalmente arrancando a pele em alguns pontos, tirando dele um gemido de dor que quase se confundiu aos de prazer, sem passarem despercebidos por Lucy.
Natsu sorriu zombeteiro. Guerra era guerra, independente do campo de batalha, e se a loira pensava que ele a deixaria vencer estava muito enganada. Ele aumentou o ritmo de seu corpo, ouvindo o som agudo e erótico saindo da boca de Lucy. Música para seus ouvidos por perceber que suas tentativas estavam surtindo efeito. O som se tornou mais e mais alto, sem que ela conseguisse mais contê-lo, misturando-se com o da cama que rangia. Antes Natsu brincava sobre a possibilidade de ser expulso do prédio, porém agora ela realmente o assustava.
Apesar disso, apenas parou quando seu corpo inteiro foi tomado por ondas de prazer, percebendo o mesmo em Lucy. A sensação o preencheu por um tempo que pareceu infinito. Ele apertando a cintura da loira e ela suas costas, deixando marcas que levariam dias para desaparecer, marcando o reencontro de suas paixões.
Quando aquele efeito passou, deixando seu corpo exausto, sua respiração ofegante e sua garganta seca devido aos gritos que expeliam o que não conseguia ser contido em seu interior, ele caiu na cama ao lado de Lucy. O estado da loira não era nada diferente, exceto que ela se encontrava de olhos fechados.
— Será que você pode...? — A loira perguntou, mostrando-lhe as mãos amarradas, seu peito subindo e descendo de forma rápida.
— Só um segundo — ele pediu, tentando recuperar a normalidade de sua respiração. Depois, sentou-se na cama e tentou desatar o nó que havia feito, com muita dificuldade.
— Também não conseguiu desamarrar as mãos de Lisanna quando transou com ela?
Natsu a encarou, sério. Havia cansado daquelas provocações envolvendo o que acontecera no passado.
— Quer parar com isso? — respondeu, finalmente conseguindo retirar a gravata, jogando-a longe. — Não importa o que aconteceu, se é que aconteceu. Eu nem sei, Lucy, então por que fica insistindo tanto nisso? Por que fica se torturando dessa forma?
— Porque toda vez que você me beija, toda vez que me toca, eu te imagino fazendo o mesmo com ela. E você não faz ideia do quanto isso dói — Natsu não respondeu, não tinha palavras para conseguir formular uma resposta. — Lisanna esteve aqui ontem — a loira comentou, cobrindo seu corpo com o lençol. Ainda que estivesse acostumada a estar nua na frente dele, não gostava da sensação de seu corpo exposto.
— O que ela queria?
— Fazer questão de descrever os detalhes da noite de vocês.
Natsu notou o tom de voz embargado que ela usava. Entendia agora o motivo de tanta mágoa. Definitivamente os detalhes de uma suposta traição era algo que não gostaria de ouvir.
— E você deu ouvidos a ela? Não deveria ter feito isso, Lucy.
— E o que eu poderia fazer, hein? Aquela mulher pode estar carregando um filho seu.
— Pode estar não significa que está.
Àquela altura, as lágrimas já desciam pelo rosto de Lucy, porém ela evitava olhar para ele.
— Você percebeu que isso não está dando certo, não é? Nós dois. Não está funcionando.
— Faz só uma semana, Lucy. Jamais esperaria que funcionasse em um período tão curto.
— Mesmo assim. Em uma semana tudo o que temos feito foi brigar.
Natsu permaneceu em silêncio por um segundo, com medo do que viria a seguir.
— Você também não tem facilitado, sabia? — desabafou. — Eu sei que não tenho muito o direito de dizer qualquer coisa nessa situação, mas todas as vezes em que tentei me aproximar você me repeliu. Eu não sei o que fazer ou como você quer que eu aja, então me diga o que quer que eu faça, Lucy, porque não faço a menor ideia do que você quer.
— Eu não quero te dizer como agir, Natsu — ela respondeu elevando seu tom de voz, movendo seu olhar para ele. — Não quero estar certa, porque se eu estiver... — precisou de um momento antes de completar a sentença. — Significa que nós dois não temos solução. No momento eu só vejo duas opções: Desistir de uma vez por todas e arranjar um jeito de te tirar da minha mente; ou continuar tentando de alguma forma.
Sinceramente, Natsu temia a resposta que ela lhe daria para sua próxima pergunta.
— E o que você pretende fazer?
A loira se levantou, caminhando até o banheiro. Precisava de um banho gelado imediatamente, esfriar a cabeça. Antes de sair da vista do garoto, respondeu:
— Eu não sei. Não sei de mais nada.
***
O relógio marcava seis da tarde. Quando saiu do banho, pela manhã, Natsu não estava no apartamento. Ficou com medo de que ele pudesse ter ido embora, correndo até o armário para checar se suas roupas ainda se encontravam lá, aliviada quando as encontrou no lugar. Dentro de uma das gavetas encontrou uma foto antiga, de quando ela e Natsu haviam se conhecido. Aquela foto lhe deu uma resposta. As coisas não eram fáceis naquela época e não seriam agora.
Sentada em frente ao computador, na sala, ela esperava que ele chegasse para lhe comunicar sua resposta definitiva. Seu coração acelerou quando a porta se abriu.
— Hey. Você saiu antes que pudéssemos terminar aquela conversa — Lucy comentou, mal dando-lhe tempo para jogar a mochila em algum canto.
— Pensei que já tivéssemos terminado.
— Não, não tínhamos — a loira se levantou, encarando-o. — Eu não quero desistir, Natsu. Não tendo tentado tão pouco, porque quando se trata de nós as coisas nunca são fáceis. Eu não acho que você esteja mentindo quando diz que me ama, porque só alguém muito burro insistiria tanto numa mentira, a ponto de desperdiçar mais de dois anos da sua vida nela; e eu sei que não conseguiria enganar a mim mesma achando que conseguiria te esquecer. Então, depois de pensar nisso tudo, tenho certeza: Eu não quero desistir de nós dois.
Num momento ele estava do outro lado da sala, no outro, estava apertando-a o máximo que podia em seus braços.
— Obrigado.
— Quero que as coisas voltem a ser como eram, Natsu — a loira comentou, contornando o pescoço do garoto com seus braços. — Só não sei como ou por onde começar.
— Estamos nisso juntos. Vamos dar um jeito.
Ela sentia estar numa corda bamba, a um deslize de cair. Porém, a sua vida inteira estivera. Já havia atravessado metade do caminho, tudo o que lhe restava era seguir em frente, sem olhar para baixo, sem olhar para a queda. Apenas andar, torcendo para não perder o equilíbrio, porque tinha certeza de que essa era sua única opção. Seguir em frente era o único caminho sempre havia enxergado, e continuaria percorrendo-o.
Sorrindo, ela comentou, próxima ao ouvido de Natsu.
— Já te contei que eu costumava ser uma ótima equilibrista quando criança?
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