Onde Tem Ódio Tem Amor
82 Starlight
Notas iniciais
O salão estava cheio, as pessoas vestidas elegantemente, conversando enquanto tomavam suas bebidas. O pequeno observava absorto, pensando em como aqueles senhores aguentavam passar a noite inteira usando gravatas. Usava a sua há apenas alguns minutos — conseguira convencer seu pai a deixá-lo vesti-la somente quando estivessem próximos ao salão —, e já se sentia incomodado. Também não entendia por que pareciam tão entretidos enquanto conversavam com outros convidados e, quando lhes davam as costas, demonstravam estar entediados. Normalmente já achava adultos estranhos, mas aqueles eram ainda mais.
— Lembre-se que essa é uma festa de gala, então comporte-se, Natsu — seu pai comentou, repousando a mão sobre a cabeça do menino de seis anos. Igneel trabalhava para um dos clientes das corporações Heartfilia, sendo assim, fora convidado para a festa anual da empresa, representando o lugar onde trabalhava. Natsu não sabia de onde tivera a brilhante ideia de levar seu filho, mas a odiara. Mal havia chegado ao local e já estava entediado.
— Eu sempre me comporto.
Igneel riu com gosto, tentando, porém, não chamar a atenção dos outros convidados. Mal sabia que já o havia feito trazendo seu filho. Não havia muitas crianças ali, ainda mais uma com cabelo rosa.
— Eu sou seu pai. Acha que não te conheço, garoto? A primeira coisa que você sempre faz quando vamos a algum lugar é arranjar confusão.
— Mentira — Natsu respondeu, cruzando os pequenos braços e fingindo-se irritado. Para uma criança tão nova, era muito inteligente, isso o pai não podia negar. O problema era que ele sempre usava sua inteligência para travessuras.
— Você é que é o mentiroso aqui, moleque — falou, apertando as bochechas do garoto, provocando-o. — Finja que é uma criança fofa, vou te apresentar para alguns empresários.
Natsu bufou, seguindo seu pai. Justo quando pensou que aquilo não poderia ficar mais chato. Não havia nada ali com que brincar, nem outras crianças com quem se divertir, e ainda teria que ficar ouvindo as conversas entediantes dos adultos.
Talvez seu pai estivesse tentando deixá-lo de castigo pelo vaso que quebrara alguns dias antes. Se essa era a intenção, estava tendo êxito. Queria ao menos que sua mãe estivesse ali, ela sempre o entretinha quando ele ficava entediado, mas ela estava gripada e tivera que ficar de cama, em casa.
Mal prestava atenção nas conversas de seu pai, apenas sorria timidamente sempre que falavam alguma coisa para ele. A maior parte dos convidados insistia em puxar suas bochechas, deixando-as doloridas, ou colocar a mão em sua cabeça. Não sabia o motivo dessa mania, estavam fazendo-o sentir-se um bicho de estimação.
Talvez o único convidado ao qual se ateve foi o homem loiro, de olhos profundamente azuis, barbado e de cabelos arrumados e roupas impecáveis. Como era mesmo seu nome? Julius... Junio... Jude. Era isso, Jude Heartfilia. Seu pai havia comentado sobre ele com sua mãe e prestara atenção na conversa silenciosamente, como sempre fazia. Parecia um homem importante pelo que seu pai falara. Era o anfitrião, o dono das corporações Heartfilia. Ao lado dele estava sua esposa, Layla, se a memória de Natsu não falhava. Era uma mulher muito bonita, possuía longas madeixas loiras, presas em uma trança, e uma feição suave, além de um sorriso bondoso.
— Esse é seu filho, Dragneel? — O homem perguntou, apontando para Natsu com o copo de Whisky que trazia na mão.
— É sim, é meu pequeno pestinha — Igneel respondeu, apertando a bochecha do pequeno. Natsu esfregou o lugar dolorido pouco depois, lançando um olhar fuzilante para seu pai. Estava se cansando daquilo.
— Parece uma criança saudável.
O pequeno franziu a testa. Já ouvira pessoas dizendo que ele era fofo, bonitinho, até mesmo estranho, mas saudável era a primeira vez.
— Desculpe-me por trazê-lo sem avisar, senhor Heartfilia. Minha esposa está doente e não achei uma babá a tempo para cuidar do Natsu — oh, então era por isso que ele tinha sido arrastado até aquela festa. Bom, se era esse o motivo podia muito bem ter ficado com sua mãe. Não era como se ele fosse colocar fogo na casa ou coisa do tipo.
— Não se preocupe com isso, Dragneel. Desse modo você pode ensinar um pouco sobre o mundo dos negócios a ele. Minha filha me acompanha a todas as festas desde que aprendeu a se comportar. Eles devem aprender desde pequenos — aquele homem era estranho, Natsu concluiu. Ao seu lado, seu pai riu.
— Bem que eu gostaria que esse garoto aprendesse alguma coisa útil. Parece que usa todo seu talento para fazer travessuras — Igneel fez uma pausa, pensando sobre o que dissera. — Mas não se preocupe, o fiz prometer que não ia aprontar nada essa noite. Não é, Natsu?
O pai lançou-lhe aquele olhar que congelava seu sangue, fazendo-o tremer de medo. Ele assentiu. À sua frente, viu a senhora Heartfilia sorrir timidamente.
— É normal uma criança querer se divertir — comentara a mulher. Natsu sorriu. Já gostava dela. — Quem me dera Lucy se divertisse um pouco mais. Jude cobra tanto da nossa pequena que às vezes acho que está privando-a completamente de sua infância.
— Um dia ela será a herdeira do meu império. Não deve perder tempo com coisas fúteis — pelo olhar lançado por Layla, Natsu imaginou que aquela era uma discussão recorrente entre os dois. Ela, porém, não insistiu. Talvez já tivesse cansado de insistir. Ao invés disso, abaixou-se, ficando da mesma altura que o pequeno.
— Está com fome, Natsu? Essas festas chiques geralmente só têm bebidas alcoólicas, coisas para adultos. Crianças não são comuns em eventos assim, mas posso te levar até a mesa de petiscos.
Finalmente algo interessante. Comida!
— Sim, por favor — o pequeno respondeu, corando. Definitivamente gostava daquela senhora, a ponto de sentir-se envergonhado ao falar com ela, com medo de dizer algo errado.
Natsu aceitou a mão da senhora Heartfilia, deixando-a guiá-lo até a mesa.
— Comporte-se, garoto — ouviu seu pai falar atrás de si.
— Seu pai parece bem preocupado com a possibilidade de você sair por aí derrubando garçons ou coisas do tipo — Layla comentou, rindo.
— Meu pai é muito exagerado — falou, comendo uma torrada coberta por patê. Não sabia do que era o patê, mas achou gostoso. Layla arqueou a sobrancelha, surpresa por uma criança tão pequena saber palavras complicadas como “exagerado”. — Na minha escola tem crianças bem mais bagunceiras que eu.
A mulher novamente riu.
— Eu imagino. Até agora você parece um anjinho para mim.
— Você devia dizer isso pro meu pai — Natsu comentou, pegando outra torrada.
— Vou dizer, pode deixar — a senhora respondeu, bagunçando o cabelo do pequeno. Ele pela primeira vez naquela noite gostou quando alguém fez aquilo. — Tenho que voltar para lá. Comporte-se, ok?
Natsu assentiu, enchendo a boca com quadradinhos de queijo suíço. Por que todos lhe diziam aquilo? Ele não era tão bagunceiro assim. Ok, talvez durante sua curta vida tivesse quebrado alguns vasos, aparelhos eletrônicos, dentes — seus e de outros —, mas não era como se fosse a pior criança do mundo. Como sua mãe o definia, ele era um “pestinha adorável”.
A mesa de petiscos não tinha muitas opções, e logo se cansou de comer, depois de ter experimentado um pouco de tudo. Algumas daquelas coisas tinham um gosto horrível, outras nem tanto. Explorando o salão de festas, deparou-se com uma pequena garotinha sentada no peitoral da janela. Devia ter a mesma idade que ele. Balançava os pés incessantemente enquanto olhava as pessoas elegantemente vestidas com um olhar triste.
Natsu ficou curioso num primeiro momento. Não havia nenhuma outra criança por ali. Talvez aquela fosse a filha da senhora Heartfilia. Imaginou que, se a filha fosse parecida com a mãe, ele iria gostar muito dela. Então sentiu-se feliz. Teria alguém para brincar pelo menos.
Caminhou lentamente até ela, analisando-a conforme andava. Quando estava a alguns passos de distância, a garota notou sua presença, levantando seus olhos castanhos, como os da mãe, em direção a ele.
— Qual é o seu nome? — Natsu perguntou. Não dissera “oi” primeiro nem qualquer coisa do tipo. Como seu pai costumava dizer, ele era completamente “cara-de-pau”.
— Lucy — a garotinha respondeu, tímida.
— Eu sou o Natsu.
— Por que seu cabelo é rosa? — Ela perguntou de imediato. Natsu franziu a testa. Por que sempre lhe faziam aquela pergunta?
— Por que o seu é amarelo?
— Eu não sei.
— Eu também não sei por que o meu é rosa — o garoto inteligentemente respondeu, sentando-se ao lado da menina na janela. A primeira coisa que fez foi arrancar a gravata que estava vestindo. — Essa coisa está me incomodando desde que eu coloquei. Papai me obrigou a usar, mas aposto que ele também não gosta. Não sei por que temos que usar. — Lucy o observava, quieta, estudando o pequeno garoto sentado ao seu lado, que chegou de forma completamente repentina. Ele então levantou-se, estendendo a mão para ela, com as bochechas coradas. — Quer dançar? Papai disse que é falta de educação não convidar uma dama para dançar em uma festa.
— Tudo bem — a pequena aceitou, hesitante.
Natsu era desajeitado, muitas vezes acabava pisando no pé da pobre menina sem querer, mas se esforçava, tentava dar seu melhor. Era engraçado ver sua expressão concentrada enquanto tentava não errar os passos conforme se movia no ritmo da música.
Os adultos ao redor assistiam, achando adorável a cena dos pequenos dançando como se fossem gente grande.
— O que você está fazendo aqui? Nunca tem outras crianças nessas festas — Lucy perguntou, de repente.
— Meu pai me obrigou a vir — ah, outra coisa que ele o obrigara. Seu pai estava obrigando-o a fazer coisas demais ultimamente. Estava na hora de ter uma séria conversa com o velho. —Por que seu pai não deixa você convidar seus amigos? Você parece ir a muitas festas desse tipo. Deve ser tão chato.
A garota baixou o olhar, mirando tristemente seus sapatos cor de rosa.
— Eu não tenho amigos.
— Sério? Nenhum? — Natsu perguntou. Lucy ergueu o rosto outra vez, confirmando. — Eu também não tenho muitos amigos. As pessoas da minha escola não gostam muito de mim.
— Por que não? — A menina questionou, curiosa. Natsu sorriu timidamente e apontou para sua própria cabeça, abandonando a mão de Lucy por apenas um segundo.
— Meu cabelo. Eles me acham estranho. Alguns meninos viviam implicando comigo por causa disso, até que eu dei uma lição neles. Quebrei o dente deles bem aqui — disse, apontando para seu próprio dente. — Mamãe ficou brava comigo, disse que eu não devia brigar, mas funcionou.
A pequena garota deu um sorriso fraco. Natsu sentiu-se melhor. Odiava ver pessoas tristes.
— Eu não acho você estranho. É só diferente.
— Você é estranha — Lucy franziu a testa, sem compreender —, mas de um jeito legal. Você é estranha porque é a primeira criança que não me acha estranho.
— Primeira? Mas você não disse que tem amigos?
O garotinho bagunçou seu cabelo, levemente constrangido. Droga, não conseguia manter sua mão onde deveria ficar durante a dança. Era hiperativo demais, precisava exemplificar suas falas com gestos, e no meio de uma dança não era o melhor momento para isso.
— Bom, eu tenho um amigo. Meu gato. O nome dele é Happy, porque ele sempre parece feliz — de certa forma, era o oposto daquela garotinha.
— Papai não me deixa ter bichos de estimação — Lucy comentou. — Ele diz que um bicho iria me distrair.
— Seu pai é estranho, mas não de um jeito legal — Natsu pareceu repentinamente mais empolgado. — É isso!
— Isso o que? — A pequena perguntou.
— Eu vou ser seu amigo. E você minha amiga.
— Simples assim?
— Claro. Por que seria complicado? — O garoto questionou, confuso.
— Eu sempre achei que era mais difícil fazer amigos.
Natsu coçou a cabeça, entendendo o que Lucy queria dizer. De fato, fazia sentido.
— Hum, eu também. Mas não tem problema. O importante é que agora somos amigos, certo?
— Acho que sim. Natsu — o garoto voltou sua atenção completa para ela —, já que somos amigos, posso te mostrar uma coisa?
— Claro.
Ela parou de dançar, porém sem soltar a mão do garoto, guiando-os até uma varanda, bem de frente para o mar, já que o salão ficava na praia, muito perto da água. Lá havia um pequeno telescópio.
— Coloca o seu olho aqui — a garota pediu, mostrando a lente do telescópio.
Natsu obedeceu. Demorou um pouco até que conseguisse focar a imagem, mas sentiu-se maravilhado quando conseguiu finalmente ver as estrelas e o céu daquela forma, mais de perto do que jamais havia visto. Mal conseguia desgrudar a cara do objeto tamanho era seu fascínio.
— Uau!
— Mamãe me mostrou esse lugar quando chegamos, ela adora me contar coisas sobre o céu, e eu adoro ouvir, mas meu pai não deixou que eu ficasse muito aqui.
O sorriso da pequena desapareceu novamente. Natsu percebeu desde o momento em que pôs os olhos em Lucy que ela não estava muito bem naquela noite. Havia algo de errado.
— Por que você está tão triste?
Lucy suspirou antes de responder.
— É meu aniversário hoje.
— Sério? Hey, parabéns! — Natsu exclamou, animado. Adorava aniversários. — Se eu soubesse que íamos virar amigos tinha te trazido um presente — Lucy sorriu. — Mas, você está triste por ser seu aniversário?
— Não. É que acho que o papai esqueceu. Ele está sempre trabalhando, nunca passa tempo comigo. Eu queria que pelo menos hoje ele tivesse feito isso, mas ele está trabalhando, como sempre. Às vezes acho que ele nem gosta de mim.
Natsu murmurou um “hum” e voltou a olhar as estrelas através do telescópio.
— Meu pai me contou uma vez que algumas estrelas já estão mortas há muito tempo, mas a luz delas demora para chegar até aqui, por isso mesmo depois de mortas, nós conseguimos vê-las. Era algo assim. Não entendi muito bem como isso acontece, mas é incrível, não é? Quase parece algo impossível — Lucy assentiu, concordando. — Olha pra você, se preocupando tanto com coisas que não pode mudar. Você vai passar o resto da sua vida cantando músicas tristes se continuar pensando assim. Seu pai é seu pai, esse é o jeito dele, e ele vai continuar sendo assim, mas você não precisa se sentir mal por causa disso.
Natsu se afastou do telescópio, segurou a mão de Lucy e desceu as escadas da varanda em direção à areia da praia, levando a garota consigo.
— Ei!
Então o garoto começou a tentar pular nas pedras localizadas na água. De pedra em pedra, tomando cuidado para não cair. Quando chegou na última, sentindo as gotas de água respingando em sua perna e molhando sua calça, olhou para Lucy, esticou os braços e sorriu.
— Mas, mesmo assim, você pode sonhar com coisas impossíveis, como a luz das estrelas, certo? Não tem problema nenhum em sonhar. Você não vê a luz das estrelas, Lucy? Você não sonha com coisas impossíveis?
Lucy sorriu, entendendo o que ele queria dizer. Não era porque não poderia mudar algo que não poderia sonhar, que precisava inevitavelmente se preocupar com aquilo e tornar-se infeliz. Podia ser feliz ao seu próprio modo, podia sonhar com coisas impossíveis. A garotinha então correu até ele, juntando-se a Natsu pulando aquelas rochas e brincando na água da praia.
Em certo momento, ele encontrou uma concha muito bonita. Parecia que ela era capaz de refletir a luz das estrelas, de tanto que brilhava.
— Toma, seu presente de aniversário.
Lucy pegou a pequena concha, hesitante. Depois sorriu, o sorriso mais lindo que Natsu vira em toda sua vida.
— Obrigada, Natsu — ela agradeceu, beijando-o na bochecha, colorindo o rosto do garoto da mesma cor que seu cabelo.
— D-De nada.
Logo depois, o garotinho sorriu. Seu objetivo da noite havia sido cumprido. Fazer aquela menina abandonar a tristeza e sorrir. Contudo, quando ouviu uma voz chamando por seu nome, soube que as coisas ficariam um pouco complicadas dali para frente.
— Natsu Dragneel!
Seu pai corria em sua direção, furioso. Ao seu lado, estavam um Jude com a face completamente vermelha, provavelmente de raiva, pois viu pelo canto do olho que Lucy olhava para o pai apavorada, e Layla, estranhamente sorridente.
Sorriu timidamente, colocando sua mão direita em sua nuca, olhando para o pai, esperando que sua expressão amenizasse a bronca que iria levar. Igneel assim que o alcançou agarrou-o e o segurou em seu colo, como que para evitar que o garoto fugisse.
— O que pensa que está fazendo, Lucy?! — Jude gritou. Natsu ficou surpreso pelos convidados da festa não terem conseguido ouvir, tão alto sua voz soou. — O que as pessoas irão pensar de você quando entrar por aquelas portas nesse estado deplorável?!
— D-Desculpe, papai — a pequena murmurou, trazendo para seu rosto novamente aquela expressão triste. Natsu sentiu vontade de gritar com o velho por aquilo, mas sabia que seu pai o mataria caso se metesse naquele assunto.
— Ela é só uma criança, Jude — Layla comentou. — Crianças gostam de se divertir.
— Completamente irrelevante — o homem respondeu, elevando seu tom de voz ainda mais. — Ela não deveria estar perdendo tempo com um garoto qualquer.
— Meu filho não é um garoto qualquer, senhor Heartfilia — ouviu seu pai dizer, defensivo.
— Seu filho arrastou minha garota até aqui. Ele não tem importância alguma, logo é sim um garoto qualquer, alguém com quem Lucy não deveria desperdiçar suas horas.
Sentiu Igneel apertá-lo ainda mais contra si. Seu pai estava realmente furioso, sabia disso.
— Bem, se é isso que acha do meu garoto, eu não deveria permanecer nem mais um segundo nesse lugar.
Igneel se virou, levando Natsu consigo. O garoto ainda podia ouvir claramente, mesmo estando mais distante, os berros que o velho homem disparava contra sua filha. Agora entendia o motivo de Lucy parecer tão triste. Ele também estaria com um pai daqueles.
— Você sempre tem que se meter em confusão, não é, moleque? — Seu pai comentou.
— Eu só queria fazer ela sorrir. Ela parecia tão triste. Não pensei que fosse colocar a Lucy num problema.
Igneel suspirou e sorriu, afinal, colocando Natsu sentado sobre o capô do carro.
— Quer saber? Jude Heartfilia pode dizer o que quiser sobre você, pouco importa a opinião dele, porque eu sei que você não é um garoto qualquer. Você é meu filho, que tem um coração de ouro, e eu me orgulho disso, mesmo que me deixe louco às vezes, Natsu — comentou, bagunçando o cabelo molhado do menino. — Então, Lucy, hein? Parece que você arranjou uma namorada.
O garoto ruborizou, completamente envergonhado.
— Ela não é minha namorada. É só uma amiga.
— Melhor que nem isso seja, garoto. Lucy Heartfilia é a princesinha do império Heartfilia, enquanto você, moleque, é um mero plebeu. Você não serve para ela ou para a família dela — Natsu não sabia o que aquela palavra significava, mas imaginou que não era bom. Não conseguia entender os adultos e sua mania de rotular as pessoas pelo que elas têm, ao invés de pelo que são. Para ele, Lucy era apenas uma garota triste que queria um amigo. Só isso.
***
— Ei, Lucy, acorda.
— Hum? — A garota murmurou, ainda de olhos fechados. Tinha quase certeza de que ainda era muito cedo para acordar.
— Tive um sonho estranho.
— Do tipo que você costuma ter? — Perguntou, sua voz muito sonolenta. Sabia que não tinha escolha senão perguntar. Natsu quando acordava no meio da noite para lhe contar algo não sossegava até que tivesse contado.
— Não, do tipo estranho bom. Eu acho que pode ter sido uma lembrança, pareceu tão real — extremamente real. — No sonho nós éramos crianças, estávamos numa festa da sua família. Você estava triste, aí eu fui falar com você. Acha que a gente pode ter se conhecido quando éramos crianças? Meu pai realmente trabalhou para um cliente da empresa do seu pai por um tempo.
— O que? — A garota disse, franzindo a testa. — Não, eu definitivamente me lembraria de um garoto com cabelo rosa. E você teria se lembrado de mim.
— Mas e se você esqueceu?
— Eu não teria esquecido, Natsu.
— Ok. Mas ainda acho que pode ter sido uma lembrança. Foi real demais para ter sido só um simples sonho — o garoto então sorriu, lembrando-se de uma parte específica. — Sabe uma coisa engraçada?
— Hum?
— No sonho meu pai me disse que você era uma princesa e eu um simples plebeu, e por isso eu não servia para você. Seu pai também concordava com isso, não pareceu muito feliz em me ver com a preciosa filha dele. Na verdade, não ficou nada feliz — chegava a ser estranho comparar o Jude de seu sonho com o que conheceu de fato. Aquele homem havia mudado muito. — Bom, parece que você acabou de aceitar se casar com esse plebeu.
Lucy sorriu. Finalmente abrindo os olhos. Tinha demorado para cair no sono devido à empolgação pós-pedido de casamento. Agora o ânimo havia retornado, quando Natsu mencionou o pedido. Mesmo extremamente cansada, duvidava que conseguiria voltar a dormir.
— Fazer o quê. Já que não tinha nada melhor disponível.
— Engraçadinha — Lucy sorriu ainda mais, levando sua mão até o rosto de Natsu. — O que foi?
— Nada. Só estou imaginando o quanto o mini Natsu devia ser fofo.
Natsu sorriu de canto. Apoiou seus cotovelos sobre o colchão e se se pôs sobre Lucy, apesar de arrepender-se segundos depois, ao sentir todo seu corpo doer.
— Eu era muito fofo. Ainda sou, na verdade — Heartfilia riu. — E muito inteligente.
— Viu? Mais um sinal de que foi só um sonho.
— Ei. Eu realmente era uma criança inteligente, ok?
— Claro, Natsu — sua voz estava carregada de sarcasmo. Empurrou o garoto, fazendo-o cair no colchão outra vez, deixando transparecer uma careta de dor. — Você realmente não entende a definição de repouso, não é, garoto?
— Eu não fiz nada demais — Lucy fingiu acreditar, apesar de sua expressão deixar claro seus pensamentos. — Lucy.
— O que?
— Você era mesmo tão triste quando criança?
A loira franziu a testa. Bom, a resposta era definitivamente sim.
— O que você viu nesse sonho?
Novamente, o garoto se apoiou em seu cotovelo, porém dessa vez permaneceu onde estava.
— Você sozinha numa festa do seu pai. E eu fui tentar te fazer sorrir. Já disse — comentou, depositando um breve beijo nos lábios de Lucy. — Viu? Desde cedo sendo extremamente fofo.
A garota sorriu. Tudo bem, não podia negar depois daquele pedido de casamento.
— Eu deveria estar brava com você por ser tão fofo mesmo.
— Brava? Por que? — O garoto perguntou, confuso.
— Porque você quebrou meus muros, me enganou se aproximando como quem não quer nada e fez eu me apaixonar por você. Eu não estava procurando por isso, sabia? Agora estou presa a você pelo resto da minha vida. Babaca.
Natsu sorriu. O tipo “casal meloso” não combinava com eles, mas os recentes acontecimentos tornavam as constantes declarações de amor, por mais estranhas que fossem, perdoáveis.
— É? Bem feito. Não é como se eu estivesse numa situação melhor. Vou ter que aguentar essa garota estranha permanentemente agora.
— Idiota — a loira respondeu, rindo e abraçando-o com cautela para não lhe causar dor. — Mesmo assim, mal posso esperar por essa vida chata ao seu lado, sabe?
— Eu também, futura senhora Dragneel. Eu também.
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