Onde Tem Ódio Tem Amor
4 No hospital
Notas iniciais
O hospital municipal de Magnólia, para sorte de Lucy, não ficava muito longe do apartamento em que morava com o rosado, portanto não tiveram dificuldade em ir até a instituição pública a pé. Durante o trajeto a garota acabou por adormecer nos braços do rosado. Ele era quente, o que ajudava a aliviar o frio causado pela febre, e seu peito era um travesseiro muito convidativo.
Ao chegarem Lucy não demorou a ser atendida. Se aproximava da meia-noite e o local estava praticamente vazio, com exceção de algumas poucas pessoas.
Natsu e Levy aguardavam sentados nas cadeiras de espera da recepção enquanto a garota era atendida. A pequena havia pego uma revista depositada sobre o balcão para se distrair, enquanto Natsu permanecia inquieto.
― Eu gosto de hospitais. ― Comentou o rosado repentinamente, chamando a atenção de Levy.
― Como uma pessoa pode gostar de hospitais? ― A garota retrucou.
― Não sei, tenho boas recordações. Sabe, ano passado eu vim aqui por causa de uma possível fratura no dedo e acabei ganhando muito mais do que apenas o habitual atendimento médico. Se é que você me entende. ― Natsu inclinou a cabeça e sorriu maliciosamente. Levy suspirou, voltando a olhar para a revista. Devia imaginar que, vindo de Natsu, não podia ser nada proveitoso. ― Você é muito sem graça, Levy. Só estava tentando aliviar o clima aqui contando uma história interessante que me aconteceu. .
― História interessante? Onde essa sua história é interessante?
― O pessoal acha. A não ser o Gajeel. Mas ele é outro sem graça, ainda mais considerando a pessoa que ele gosta. Francamente, com tantas outras garotas por aí e ele escolhe bem essa? Ela é exatamente o oposto dele!
― Q-Quem é a garota que ele gosta? ― Perguntou Levy demonstrando um estranho interesse repentino. Interesse esse o qual Natsu sabia perfeitamente a que se devia.
― Acha que vou te contar? Não mesmo! Prometi a ele que não contaria para ninguém.
Levy bufou enquanto Natsu se divertia a fazendo ficar curiosa. Promessa era promessa. Não contaria a Levy que ela era a garota pela qual Gajeel estava apaixonado.
O médico que havia atendido Lucy entrou na pequena recepção e imediatamente Natsu e Levy se levantaram, indo até ele.
― Como a Lucy está, doutor? ― Levy perguntou preocupada.
― Sua amiga está bem. Não foi nada muito sério, apenas uma infecção, mas recomendo que ela passe a noite aqui, em observação.
Natsu e Levy suspiraram aliviados. O rosado principalmente. Estava muito receoso quanto à situação de sua colega de apartamento.
― Deveríamos avisar algum familiar da Lucy ou coisa do tipo? ― Natsu perguntou. O médico checou a ficha da loira e respondeu:
― Ela é maior de idade, não há necessidade, mas seria sim muito bom se avisassem alguém da família sobre sua situação.
― Tudo bem. Obrigada, doutor. ― Disse Levy. O médico acenou com a cabeça e voltou pelo corretor pelo qual havia vindo, enquanto os dois jovens voltaram a se sentar em suas cadeiras. ― Você irá ligar para o Sr. Heartfilia?
― Eu não tenho o número do telefone dele. Além do mais, você ouviu o médico. Não é nada de mais. Pra quê preocupar o velho por isso? ― Levy assentiu. ― Ei, Levy, você acha que aquela garota ali está me dando mole?
― Francamente, Natsu! ― a garota exclamou, indignada com o quanto aquele menino conseguia ser tapado. ― A Lucy está em um hospital e você está preocupado se uma garota qualquer está te dando mole?! Você é um idiota mesmo.
― Ei, calma. Só queria sua opinião. Sabe, pra não acabar passando vergonha indo até lá e ela não estar interessada. ― fez uma pausa e sua expressão ficou pensativa. ― Se bem que na maior parte das vezes elas estão interessadas em mim...
― Você se acha demais, Natsu. Um pouco de humildade é bom, sabia?
― Como posso me achar se nunca me perdi? E humildade, o que é isso? É de comer? ― Levy o ignorou e o rosado bufou entediado, afundando-se na cadeira. ― É chato ficar aqui esperando.
― Então vá para casa.
― Não. Eu me sinto meio culpado, afinal fui eu quem fiz os curativos quando a trouxe de voltar para casa, é meio minha culpa não ter feito isso direito, e talvez por isso ela está aqui agora. Vou passar a noite nesse hospital, com ela.
― Onde está o Natsu e o que você fez com ele? ― Levy perguntou deixando o rosado confuso.
― Como assim? Eu estou bem aqui.
― Não, você definitivamente não é o Natsu que eu conheço. Está se preocupando com alguém, deixando de ser egoísta e pensar em si mesmo. O Natsu normalmente nunca faria isso.
― É claro que faria. Eu não sou tão ruim assim, ok?
― Se você diz...
Meia hora se passou. Uma hora. Levy decidiu que estava ficando tarde demais, já deveria voltar para casa. No dia seguinte retornaria para ver como sua amiga estava. Relutava em deixar tudo nas mãos de Natsu, mas estava realmente muito cansada.
Quando ninguém mais estava prestando atenção, Natsu se meteu nos corredores do hospital procurando encontrar o quarto em que a loira estava. Número 203 do 2º andar, pelo que havia visto na ficha médica. Quando encontrou entrou silenciosamente. Lucy dormia tranquilamente ali dentro.
Havia uma poltrona ali, na qual ele se ajeitou para passar a noite. A almofada era dura, mas aquilo era muito mais confortável do que as cadeiras da recepção. Além, do mais, queria ficar por perto, para o caso da loira precisar de algo. Apenas do desconforto não demorou a dormir. Estava tão cansado que dormiria até mesmo numa pedra.
No dia seguinte Lucy foi acordada por uma enfermeira que trazia seu café da manhã. E assim que viu Natsu ali, dormindo na poltrona, estranhou. Afinal, qual era o problema daquele garoto? Por que quis ficar ali com ela?
Juntamente ao café da manhã estavam alguns remédios e um copo de água. Lucy pegou a pequena pílula e a engoliu, com a ajuda do líquido, ainda sem tirar os olhos de Natsu. Não sentia fome, portanto deixou de lado a comida. De sua mente não saia a questão do por quê do garoto ter passado a noite ali, com ela. Ele mal a conhecia, afinal. Não gostava de sua companhia, mas tinha que admitir que era melhor do que ficar sozinha.
Ele acordou pouco depois. Ainda era cedo. O Sol começava a nascer, iluminando o quarto pelas pequenas frestas da janela.
O garoto se espreguiçou e se levantou, caminhando até Lucy.
― Bom dia, loirinha ― disse, ainda sonolento.
― O que você está fazendo aqui? ― A loira perguntou de forma direta e com um leve tom de irritação na voz.
― Sua alegria ao me ver é tanta que até me emociona, sabia? ― Lucy o ignorou, como o rosado já esperava que ela faria. ― Eu só quis ficar aqui, nada de mais. Além do mais, quem iria te levar para casa se eu não estivesse aqui?
― Se é por isso pode ir embora. Eu chamo um táxi.
― Acha mesmo que vou confiar esse seu lindo rostinho nas mãos de um desconhecido no estado em que você se encontra? Não mesmo.
O rosado tentou colocar sua mão no rosto de Lucy, porém ela o afastou com um movimento rápido, como uma gata arisca. O movimento brusco fez com que ela sentisse dor no local onde estava seu ferimento, fato este que não passou despercebido por Natsu.
― É claro, como se você realmente se importasse com isso. ― a loira rebateu. ― E, pelo que eu saiba, você também não é bem um conhecido.
― Melhor um desconhecido conhecido do que um desconhecido desconhecido, certo? ― O garoto disse, estendendo os braços. Lucy apenas o ignorou.
― Desde quando você está aqui? ― A loira perguntou.
― Não sai daqui nem por um segundo desde que chegamos. Por que a pergunta?
― Porque você está fedendo, precisa de um banho.
― Olha, você realmente me ofendeu agora, loirinha. ― O garoto disse em tom sarcástico. ― Me magoou tanto que acho que irei agora mesmo me atirar de uma ponte qualquer.
― Ótimo! ― exclamou a loira. ― Mas não se esqueça de gravar para eu poder ver, ok?
Natsu se afastou de Lucy sorrindo e caminhou até a janela.
― Claro, pode deixar. Gravo até em HD se quiser. Só não me culpe se não conseguir parar de chorar de saudade depois. ― Lucy o ignorou novamente. ― Tudo bem, vamos abrir essa janela. Aqui está muito escuro e você precisa de um pouco de luz.
O garoto, assim que moveu as cortinas para o lado, ficou atônito. Seu rosto embranqueceu e suas pupilas se contraíram. Ele olhava para a rua com um olhar perdido. E realmente estava. Estava perdido em seus pensamentos, em suas memórias.
Lucy se preocupou. Não exatamente com ele, mas com o que havia acontecido para deixá-lo daquela maneira. Há um minuto o garoto a estava irritando e logo depois de olhar pela janela parecia ter viajado para um lugar distante.
― Ei, Natsu, o que tem lá fora? Algum acidente ou coisa do tipo?
― Hum? ― Perguntou, totalmente distraído, movendo seu olhar para Lucy.
― Eu perguntei o que está acontecendo lá fora?
― Nada, nada de mais. ― o garoto respondeu, afastando-se da janela e voltando a se sentar na poltrona. ― Mas alguém deveria chamar os bombeiros logo.
― Você está bem? ― Lucy perguntou, ainda estranhando o recente estado em que Natsu se encontrava.
― Preocupada comigo, é? Não é nada. Não tenho nada de mais.
― O que você tem? ― insistiu.
― Não interessa a você. ― respondeu de forma fria.
― Desculpe se eu estava preocupada. ― A garota retrucou, irritada pelo modo como Natsu a havia tratado.
― Eu já disse que estou bem, não disse? Por que quer saber mais do que isso? Não disse que me odeia? Então faça jus à sua opinião e não ligue para como eu estou!
― Só estava sendo educada, ok? Porque, ao contrário de certas pessoas, eu tenho educação.
Não falaram mais nada após a curta discussão. Um fraco cheiro de fumaça invadia o quarto, deixando Natsu ainda mais apreensivo. Aquilo lhe dava dor de cabeça, porém não o impediu de conseguir dormir. Ainda estava muito cansada.
Ele voltou a dormir, ainda estava muito cansado, na noite passada quando conseguiu dormir já era uma e meia da manha, acordou às sete horas, estava com sono, mas o cochilo não foi muito agradável.
Enquanto dormia, o rosado se revirava e suava enquanto murmurava coisas do tipo:
― Não... mamãe, papai... não me abandonem... eu não quero ficar sozinho... por favor... papai.
Acordou de sobressalto, com a respiração e os batimentos cardíacos acelerados.
― Tem certeza de que está bem, Natsu? ― A loira perguntou.
― Foi só um pesadelo. ― Respondeu, porém sua afirmação saiu mais como uma indagação para si mesmo. Fora apenas um pesadelo? Ou será que havia sido uma viagem ao passado dentro de sua mente?
O médico entrou no quarto, interrompendo qualquer continuação que Lucy sequer houvesse pensado em dar à conversa.
― Como, está se sentindo, senhorita Heartfilia?
― Bem melhor. Apesar de admitir que preferia estar em casa.
― Claro. Quanto a isso, não se preocupe. Já lhe dei alta, pode ir para casa a hora que quiser. Qualquer coisa que precisar não hesite em voltar.
― Tudo bem. Obrigada, doutor.
O velho homem sorriu e se retirou, deixando novamente os dois jovens sozinhos.
― Quer ajuda para se trocar? ― O rosado se ofereceu, sorrindo de forma maliciosa.
― Não, eu faço isso sozinha.
― Não precisava ficar tímida, se for por isso. Já te ajudei a se vestir outro dia mesmo?
― Ajudou?
― Como acha que acordou vestida após ter sido atacada dois dias atrás? Exato! Com a ajuda do bondoso Natsu Dragneel!
O.K., talvez ele tivesse razão...
― I-Isso não faz diferença. Eu não estava em condições de fazer isso sozinha naquele momento. Mas agora estou! Então poderia, por favor, sair do quarto para que eu possa me trocar?!
― Tudo bem, tudo bem. Já que você insiste. ― Natsu ergueu as mãos, em sinal de rendição, e saiu do quarto.
Já no corredor, chamou o táxi e aguardou, observando o movimento no local. Estava bem cheio, na verdade. Parecia que o dia seria movimentado ali. Esperou por quinze minutos, tempo que julgou ser mais que suficiente para alguém vestir uma calça e uma camisa, entrou no quarto e, sem aviso prévio, pegou Lucy no colo.
― Ei! ― A loira exclamou em protesto.
― O que foi? É mais fácil assim. O táxi já está aqui e vai ser mais rápido se eu te carregar até lá.
Lucy bufou, sabendo que nunca conseguiria vencer aquela discussão, e então se rendeu, deixando-o carregá-la.
O táxi os esperava na entrada do hospital e, já dentro dele, Lucy adormeceu, usando o ombro de Natsu como travesseiro. Ao chegarem ao apartamento ele a deitou na cama, tirando seus sapatos e se aproximando do ouvido da garota para sussurrar:
― Sabe, Lucy, se quiser eu durmo aqui com você hoje, para se sentir melhor.
― Não enche, Natsu ― Lucy respondeu, embriagada pelo sono.
― Isso seria um “não enche e deita logo do meu lado”?
― Não, seria um não enche do tipo “me deixa dormir em paz!”.
Natsu se afastou e sorriu, enquanto Lucy adormecia novamente. Pensou em contrariá-la e dormir ali de qualquer maneira, mas logo desistiu da ideia, deixando o quarto. Apagou as luzes e disse:
― Boa noite, Lucy.
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