Onde Tem Ódio Tem Amor

51 Momentos do passado


Notas iniciais
Hey o/ Capítulo com música, cliquem no link ; ) Boa leitura!

Quando desceram as escadas do prédio, Natsu preparou-se para atravessar a portaria e ir direto para a rua, como de costume, porém fora impedido por Lucy e guiado um andar abaixo, até a garagem, onde o carro pertencente à loira, um Mercedes na cor preta, os esperava. Não imaginara antes que ela havia trazido mais do que apenas malas com roupas e utensílios necessários, mas deveria ter esperado, considerando que não se tratava apenas de uma mulher rica, e sim da herdeira de uma das maiores empresas do Japão com altíssimo poder aquisitivo. Raramente lembrava-se disso, pois, para ele, Lucy era apenas... Lucy. Talvez não quisesse realmente lembrar. O deixava desconfortável de certa forma pensar nela daquela outra maneira. Gostava de vê-la apenas como a garota desastrada que sempre conhecera, a qual roubara seu coração.

Lucy entregou-lhe as chaves do veículo e pediu para que conduzisse. Nunca fora boa na direção, por mais que se esforçasse para aprender. Em Nagoya, podia contar com motoristas particulares, mas pelo visto teria que se virar por conta própria em Magnólia quando não tivesse Natsu por perto. Quando o tivesse, não haveria problemas. Sabia que o rosado possuía alguns revés com meios de transporte, mas com certeza não seria nada que poderia matá-los, ao contrário dela.

Chegaram ao shopping de Magnólia cedo demais. Os relógios estavam próximos de marcar 10h e nenhum restaurante ou lanchonete sequer havia aberto as portas. As demais lojas abriam antes, porém grande parte da praça de alimentação só começava a funcionar próximo do horário de almoço. Decidiram então, para poder matar o tempo, “assistir” a algum filme no cinema. E fora sem dúvida uma das melhores sessões que já viram.

Para Lucy, quase o maior tempo do filme passou-se nos lábios ternos de Natsu colados nos seus próprios ou em seu pescoço; nos fios macios de seu cabelo rosado emaranhados em seus dedos; no quente toque de suas mãos, hora em seu braço, outra em suas coxas, ou com mais frequência em seu rosto; e também nos sorrisos que o sentia dar a milímetros de sua pele quando sussurrava em seu ouvido, em tom baixo, tentando não incomodar os outros telespectadores com sua voz. Não haviam planejado aquela mudança de objetivo, de assistir ao filme para aproveitar o contato um do outro, mas diríamos que a sala do cinema quase vazia e a falta de luminosidade tornaram-na muito propícia, irrevogavelmente irresistível.

A sessão, com duração de mais de duas horas, tomou tempo suficiente para que quando saíssem pudessem escolher um dos locais para almoçar, com todos já abertos. Optaram por uma lanchonete simples, por escolha de Lucy. Mesmo que uma ocasião como aquela pedisse talvez por um lugar mais sofisticado, Natsu aprovou a escolha. Não via a necessidade de tomar seu aniversário como algo diferente, gostava muito mais do simples e estava bem daquela forma, feliz por Lucy não ter insistido no contrário.

Haviam escolhido uma mesa próxima à janela, propiciando uma bela vista da cidade. Um lugar perfeito dentro da praça de alimentação. Lucy pedira um sanduíche de frango grelhado e suco natural, já Natsu, fã dos alimentos mais calóricos possíveis, requisitou o x-burguer mais completo que o lugar poderia oferecer.

― Certo, tenho uma pergunta ― a loira arqueou a sobrancelha, fitando-o com suspeita ao notar o olhar baixo e o sorriso travesso no rosto do garoto. ―, qual era o nome do filme?

― Não se lembra? Foi você quem comprou os ingressos. ― respondeu após tomar um tempo para rir da pergunta do rosado.

― É, mas eu só pedi por ingressos para o filme da sessão mais próxima. Acha mesmo que eu prestei atenção no nome? ― a olhou por alguns segundos, imaginando que na mente de Lucy ela respondia silenciosamente aquele questionamento com “É, tem razão. É você, afinal”. Estava certo. ― Mas então, qual era o filme? ― Lucy permaneceu em silêncio, constrangida e sorrindo. Não queria dar-se por vencida, pois sabia que Natsu caçoaria dela, mas o que podia fazer? Nunca saberia responder a pergunta. Ele sorriu abertamente, vendo a resposta que queria escrita na face de Lucy. ― Você também não lembra, não é?

― Não é como se tivéssemos mesmo assistido o filme. ― defendeu-se. ― Além do mais, se eu visse um cartaz dele com certeza lembraria. Duvido que você conseguiria lembrar mesmo assim.

― Está duvidando de mim, senhorita Heartfilia? ― o rosado questionou-a, debruçando-se alguns graus sobre a mesa a fim de se aproximar dela. Lucy imitou o ato, deixando-os a poucos centímetros de distância.

― Estou sim, senhor Dragneel. O que fará a respeito? ― estava perigosamente desafiando-o. Natsu relaxou outra vez na cadeira. Pegou um dos palitos do paliteiro da mesa e começou a rodá-lo entre os dedos, fitando-a com uma expressão que lembrava muito mafiosos de filmes italianos.

― Por hora, nada. Vou pensar nisso mais tarde. Esteja preparada.

― Assim chega a me deixar com medo. ― respondeu com ironia, também relaxando.

― Ah, não se preocupe. O máximo que pode acontecer é receber outra advertência como aquela de hoje de manhã. ― sorriu de canto, parando de mover o palito.

― Não comece. ― a loira rebateu com as bochechas coradas e a expressão séria. Gostaria de esquecer a vergonha que passara pela manhã, mas pelo visto Natsu não, e não colaborava nem um pouco com a tarefa de Lucy.

― É brincadeira. Você sabe que eu adoro te irritar. ― comentou, recostando-se no apoio da cadeira. Virou a cabeça para a esquerda, ainda distraindo-se com o palito, e contemplou a vista dali. O shopping ficava em um dos pontos mais altos da cidade, e estando no segundo andar tornava-se ainda mais admirável o quanto se podia ver dali. ― Provavelmente você está certa.

― Então admite que não se lembraria?

― Sim, admito ― Lucy confirmou suas suspeitas com um sorriso vitorioso no rosto. ― Mas não dá para me julgar por isso. Minha memória é péssima. Não consigo me lembrar nem do que comi ontem ― o rosado fez uma pausa. Olhou para a loira outra vez e seu olhar brilhou travesso; os cantos de sua boca curvando-se lentamente para cima. Chegara a uma conclusão interessante sobre aquela afirmação que, ao refletir por alguns segundos, provava-se falsa. Bem, não falsa analisando-se o sentido literal da palavra. Mas em um segundo sentido, sim... ― Não, esquece, disso eu me lembro muito bem. E como lembro.

Sorte de Natsu não haver nada ali que Lucy pudesse atirar nele sem que chamasse muita atenção, pois sua vontade no momento era aquela. Não que estivesse realmente irritada. Se fosse qualquer outra pessoa provavelmente estaria, mas as brincadeiras de Natsu nunca a irritavam de fato. Sinceramente, chegava até a se divertir e gostar de suas provocações. Mas jamais deixaria que soubesse disso. Ele se tornaria insuportável se soubesse. Mais do que já era normalmente. Bebeu o último gole de seu suco e pegou sua bolsa, preparando-se para se levantar, já que Natsu havia terminado de comer há um bom tempo.

― Vamos, senhor “comediante de cabelo rosa”?

― Esse apelido é novo. ― riu. ― Vamos, me deixe só pagar a conta.

― Deixe que eu pago. É o seu aniversário, afinal.

― Não mesmo, Lucy.

― Deixe de ser orgulhoso, Natsu. ― a loira insistiu.

Sem dúvida aquela era uma das características do garoto que mais a irritavam, seu orgulho. Sua situação financeira não era boa, ela sabia disso, e ainda assim não aceitava nenhuma ajuda que fosse, independente da relação que tinham. Podia estar morrendo de fome e da mesma forma recusaria o dinheiro de outros.

― Não é orgulho. Eu pago, ok? Não insista. ― Lucy bufou, mas não discutiria. Sabia que discutir com ele daquela forma nunca levava a nada. Natsu tateou os bolsos, a procura da carteira. Sentiu o sangue gelar quando em nenhum deles a encontrou. Havia seus documentos, cartões e o dinheiro que tinha dentro dela, não poderia ter perdido. ― Droga. Acho que deixei cair minha carteira quando estávamos no cinema. Vou procurá-la, já volto.

― Quer que eu vá com você? ― a loira sugeriu com um olhar preocupado.

― Não, tudo bem. Fique aqui, espero não demorar a encontrar. ― deu um breve beijo em Lucy e se afastou. ― Peça mais alguma coisa, para matar o tempo.

― Não vai fazer como naqueles filmes em que a pessoa vai embora dando uma desculpa para não pagar a conta, não é? ― brincou em uma tentativa de quebrar um pouco a preocupação de Natsu, estampada em seu rosto. Não era para menos.

― Não tinha pensado nisso, mas agora que deu a ideia... Não, não vou. Prometo que volto logo.

Sumiu por entre as pessoas com um sorriso tímido. Lucy o observou até que desaparecesse de sua vista, pensando em como ele havia mudado ao mesmo tempo em que permanecia o mesmo. Insistia sempre em vê-lo apenas como um garoto, sem perceber que Natsu havia se transformado naquele período curto de tempo em um homem. Havia amadurecido, não era possível questionar isso de forma alguma, mas nunca abandonara o jeito de criança que tinha em sua personalidade. Sorriu ao vento ao pensar naquilo. Sempre admirara pessoas que conseguiam conservar o espírito infantil, em um bom sentido, sem deixar de compreender o mundo; que sabiam levar o mundo a sério, sem serem sérios. O fato de o homem que dormia ao seu lado todas as noites ser uma daquelas pessoas a deixava contente.

Natsu correu o máximo que pôde até o cinema. Quase discutira com o guarda para que o deixasse entrar na sala em que estavam antes e verificar se sua carteira estava lá. O fato era que o homem parecia não entender a gravidade da situação. Não podia, em hipótese alguma, perder aquele objeto. Por fim, conseguira convencê-lo, mas não encontrara o que tanto queria dentro da sala. Já se dirigia a sala de direção do shopping para pedir se alguém havia encontrado sua carteira quando um homem o parou no corredor.

― Com licença, acho que isto pertence a você. ― o homem disse, oferecendo a Natsu o pequeno objeto de cor preta. Mal acreditara que alguém havia realmente encontrado. Já estava desesperado.

― É, é sim. Muito obrigado!

O rapaz à sua frente deveria ser um pouco mais velho que ele. Possuía cabelos tão negros quanto ébano, penteados de forma bagunçada, cada fio virado para uma direção diferente; seus olhos, de um azul profundo, pareciam duas safiras enquanto o fitavam com atenção, parecendo estudar cada detalhe de sua alma. Era poucos centímetros mais alto e com certeza mais musculoso. Porém, o que mais incomodava Natsu a respeito dele era o contraste entre suas expressões. Em seus lábios carregava um sorriso, mas seu olhar era completamente sério e intenso. Era de tal forma curioso.

― Pelas fotos dos documentos foi impossível não reconhecer. ― sorriu ainda mais. Natsu tentou retribuir, mas fora uma difícil tarefa. Algo o incomodava naquela expressão.

― Bem, acho que essa é uma das qualidades de se possuir uma característica tão incomum. ― brincou, referindo-se à cor de seu cabelo, fato do qual provavelmente o rapaz estava falando.

― Claro.

― Obrigado novamente...

― Ryan. ― o rapaz estendeu a mão em cumprimento, olhando diretamente nos olhos de Natsu, que retribuiu ainda mais hesitante.

― Natsu. Obrigado mesmo, Ryan. Estava desesperado atrás disso.

― Não precisa agradecer. ― sorriu.

― Bem, preciso ir. Minha namorada está me esperando.

Ryan se despediu com um curto aceno, e o rosado quase sentiu como se ele ainda o perseguisse com o olhar. Deveria estar grato por alguém ter encontrado sua carteira, a qual estava ainda com todo o dinheiro que havia antes, mas ainda assim sentia-se incomodado.

Lucy, como havia dito que estaria, estava exatamente no lugar de antes. Começava a se preocupar com a demora de Natsu quando o viu se aproximando.

― Encontrou? ― perguntou, levantando-se da cadeira.

― É, um cara a encontrou e me devolveu.

― Isso é ótimo! Então, podemos ir agora? ― a loira insistiu.

― Só preciso pagar a conta antes.

― Eu já paguei, não se preocupe. ― como já esperava que faria, Natsu a fuzilou com o olhar. ― Você estava demorando muito, e foi um modo de agilizar as coisas.

― Tá, tudo bem. Dessa vez. ― sinceramente, a loira pensara que convencê-lo seria uma tarefa muito mais difícil. ― Vamos para casa ou há algum lugar em que gostaria de passar antes?

― Há um lugar. ― ele prestou atenção daquele ponto em diante. Esperava que não fosse uma loja de roupas ou coisa do tipo, pois detestava ter que ficar esperando enquanto Lucy provava as peças. Mesmo quando eram apenas amigos, ela o fazia acompanhá-la naqueles “passeios tediosos”. Mas, Lucy o surpreendeu. ― Quero comprar um presente para você.

― Não é preciso, Lucy. ― segurou suas mãos e tentou convencê-la. Receber presentes o deixava desconfortável. ― Você estar aqui já é suficiente.

― Eu insisto. Vai me deixar magoada se recusar.

Natsu bufou, mas concordou. Em troca, Lucy sorriu e o abraçou. Se aquilo a deixava feliz, então que mal havia? Ela o guiou até uma das lojas do primeiro andar, a qual ele conhecia muito bem. Uma loja de instrumentos musicais. Uma vez havia tocado uma música para a loira ali exclusivamente para impressioná-la. Após isso, passara a receber convites da gerente, Sarah, para que tocasse em troca de alguns trocados, a fim de atrair a clientela. Era bom quando o dinheiro andava apertado. Muitas vezes salvara o aluguel do mês daquela forma. Lucy o guiou para dentro da loja e Sarah o reconheceu e os cumprimentou de imediato. A jovem de cabelos pretos e baixa estatura.

― Lembro de você ter me dito que vinha tocar algumas vezes aqui, mas que com o tanto que recebia no trabalho nunca conseguia guardar dinheiro suficiente para comprar um violão próprio. ― explicou a loira. Deu um sorriso tímido e continuou. ― Bem, considere esse meu presente.

Natsu sorriu. Sem saber exatamente que resposta dar àquele presente, abraçou-a afetuosamente.

― Obrigado. ― sussurrou. Àquela distância do ouvido de Lucy, era o suficiente para que ela o escutasse.

― Você merece ― se afastou alguns centímetros, a fim de poder olhá-lo com mais atenção. ― Mas há uma condição: Vai ter que tocar algo para mim, como naquele dia, quase dois anos atrás.

Natsu se afastou, tímido.

― Não tenho certeza se é uma boa ideia.

― Não me diga que está com vergonha, Natsu?

Não iria admitir, mas era exatamente aquele o motivo. Entretanto, após muita insistência de Lucy, e também de Sarah, não teve outra opção senão aceitar. Ao menos, sabia muito bem que música gostaria de tocar para a loira. Escolheu um dos violões, o qual logo lhe pertenceria; sentou-se em um pequeno banco; tocou as cordas de nylon com a ponta dos dedos, e aos poucos sua voz se misturou à melodia.

― Heart beats fast; Colors and promises; How to be brave?; How can I love when I'm afraid to fall; But watching you stand alone?; All of my doubt suddenly goes away somehow…

Exatamente como costumava acontecer em todas as vezes, não demorou até que uma pequena multidão se formasse em volta das três pessoas ali presentes. Todavia, em um momento sequer seu olhar se desviou do de Lucy, que permanecia em pé à sua frente, com os braços cruzados e um sorriso crescente no rosto.

Quando a música acabou, ela se aproximou de Natsu e o abraçou, em meio aos aplausos da plateia. Deixou sua mão apoiada no ombro do rosado quando se afastou alguns centímetros, com sua testa colada na dele, esquecendo-se, e não se importando, com as pessoas à sua volta.

A música lembrava-lhe do primeiro beijo dos dois, em meio a um clima tenso de uma tentativa de sequestro. Ele chegara como um tipo de herói e a salvara, não apenas no sentido literal da palavra. Não apenas naquele momento. Aparecera em sua vida e a mudara completamente. Era em Natsu que se apoiou e se apoiava quando achava que tudo ao seu redor iria desmoronar, como se fosse ele o pilar que a sustentava. Era ele a pessoa em quem mais confiava no mundo. E era ele quem afastara dela o medo de se apaixonar outra vez.

― Você se lembra que naquele dia ― disse-lhe, olhando-o nos olhos. ―, quando tocou para mim pela primeira vez, nós quase nos beijamos? ― Natsu sorriu, acalentado pela memória. ― Teríamos nos beijado se não fosse pelo táxi.

― É, maldito táxi aquele. ― riu. Mas por sorte não havia nenhum táxi por perto daquela vez.

Deixou o violão encostado ao banco de madeira e, sem se importar nem um pouco que fosse com a multidão que ainda os cercava, tomou Lucy nos braços e a beijou exatamente como no dia em que se beijaram pela primeira vez: Um beijo calmo e exasperado ao mesmo tempo, tomado por um sentimento de carinho, afeto e proteção.

Naquele momento, fez uma promessa silenciosa a si mesmo:

“I will be brave (terei coragem)
I will not let anything take away (não deixarei nada levar embora)
What's standing in front of me (o que está à minha frente)”

Notas finais
Comentários são bem-vindos :D